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2 LETRAMENTO(S), MULTILETRAMENTOS, PRÁTICAS E EVENTOS:

2.1 Letramento(s)

2.1.1 Os modelos de letramento

2.1.1.2 Modelo ideológico

O modelo ideológico opõe-se ao autônomo, pois admite a pluralidade das práticas letradas, valorizando o seu significado cultural e o contexto de produção. Dessa forma, rompe definitivamente com a divisão entre o “momento de aprender” e o “momento de fazer uso da aprendizagem”. Esse fato o aproxima dos estudos linguísticos que propõem a articulação dinâmica e reversível de “descobrir a escrita” (conhecimento de suas funções e formas de manifestação), “aprender a escrita” (compreensão das regras e modos de funcionamento) e “usar a escrita” (cultivo de suas práticas, a partir de um referencial culturalmente significativo para o sujeito).

Para o modelo ideológico, há a posição centrada nas práticas sociais específicas em que a leitura e a escrita fazem-se presentes e estão associadas a eventos significativos para determinadas sociedades. Os letramentos têm consequência para quem os produz e para quem os consome. A criticidade é um fator preponderante para o trabalho com os letramentos sob esse modelo

As bases para o modelo ideológico foram lançadas a partir dos estudos de Graff (1979 apud STREET 1984, p. 109). Nesses estudos, há o questionamento do mito de que a aquisição do letramento promove a mobilidade social e a autorrealização, superando a pobreza. Para o autor, o acesso ao letramento não garante a democracia e a igualdade de oportunidades às pessoas de camadas sociais mais baixas (desfavorecidas) e o letramento escolar é um instrumento de manutenção da estratificação social, orientado pelos interesses

das camadas sociais dominantes. Dessa forma, o letramento depende do contexto, abordando suas consequências sociais e enfatizando sua relatividade cultural.

Outra autora que influenciou os estudos de Street foi Heath (1982) em um artigo intitulado “What no bedtime story means: narrative skills at home and at school” ("O que nenhuma história para dormir significa: habilidades narrativas em casa e na escola"). Nesse artigo, a autora rejeita a concepção de leitura como uma habilidade técnica e a descreve como uma forma de extrair significado do ambiente, ou seja, os eventos de letramento devem ser interpretados em função de padrões socioculturais mais amplos; a etnografia deve descrever os eventos de letramento situados em seus contextos socioculturais para que possamos compreender a relação entre os padrões de tempo, espaço, papéis, idade, sexo, os tipos e as características dos eventos de letramento desenvolvidos na comunidade.

Antes de podermos olhar para as „escolhas‟ entre diferentes tecnologias, diferentes usos e consequências, temos primeiro que reconhecer o que constitui uma tecnologia particular e como veio a estar disponível para a escolha já é por si problemático. A tecnologia da comunicação pode envolver muitas coisas, sendo elas próprias o resultado de processos anteriores e escolhas e para estudá-las temos que examinar características estruturais, políticas e ideológicas da sociedade em questão (STREET, 1984, p. 96. Tradução nossa)4.

Ao valorizar os letramentos das culturas locais, os professores incluiriam seus alunos nas esferas de participação das atividades sociais e provocariam a mudança efetiva de paradigmas, porque promoveriam o deslocamento do modelo autônomo de letramento para um modelo de letramento de teor mais ideológico (STREET, 1984), compreendendo não somente o evento de letramento, mas também a relação existente entre as práticas, a cultura e as relações de poder presentes em uma sociedade.

As possibilidades de se deixar cair nas falácias do letramento autônomo são muitas. Pode ter havido, por exemplo, problemas na associação entre a escrita e o desenvolvimento cognitivo. Para Bazerman (2007), não precisamos separar a porção individual dos letramentos daquela que provém da inserção social, para que obtenhamos uma efetivação das metas. O fenômeno psicológico presente no ensino da escrita deve ser visto como parte de um processo multidisciplinar. O alargamento dessa visão é útil para compreender como novas formas de letramento são desenvolvidas pelas pessoas. O autor

4 Before we can look at the „choices‟ made between different technologies and their different uses and

consequences, we have first to recognize that what constitutes a particular technology and how it came to be available for choice is itself problematic. The technology of communication can involve many things, themselves the outcome of previous social processes and „choices‟, and in order to study these we have to examine the structural, political, ideological features of the society in question.

afirma ainda que é possível fazer interseção entre estudos de cognição da escrita e estudos de escrita como algo cultural, histórico, tecnológico e textual.

Diante da necessária e problemática discussão sobre o domínio da escrita e o desenvolvimento de capacidades cognitivas, podemos citar ainda o trabalho de Scribner; Cole, no livro “The psychology of literacy” (A psicologia do letramento), de 1981. Os autores fazem uma incursão nas práticas de letramentos do povo Vai, na Libéria, em que se investigava, por meio de testes específicos, a impossibilidade de a escrita não se desvincular de outras áreas da estrutura social e econômica. Não havia desenvolvimento isolado ou mesmo progresso de um povo. Na pesquisa, houve uma comparação entre os letramentos Vai, Árabe e Inglês, porque esses foram os encontrados na comunidade em questão para reafirmar a necessária conectividade entre contextos e escrita.

Esse estudo contrapôs-se àqueles que se baseavam no modelo autônomo para justificar programas educacionais em geral, uma vez que, nos estudos de Scribner; Cole (1981), havia o interesse em pesquisar os processos de escolarização e a aquisição dos letramentos por diferentes grupos ocupacionais e étnicos. A conclusão a que chegaram baseava-se mais no propósito dos letramentos para seu sucesso que nas habilidades demonstradas por seus usuários, porque essas podiam ser diferentes, mas não superiores ou inferiores, porque:

A noção de diferentes letramentos tem vários sentidos, por exemplo: práticas que envolvem diferentes mídias ou sistemas simbólicos, tais como um filme ou um computador, podem ser consideradas como diferentes letramentos, como em letramento fílmico ou cinematográfico e um letramento informático ou digital.

Outro sentido é que práticas em diferentes culturas e linguagens podem ser consideradas como letramentos diferentes enquanto nós aceitamos esses sentidos do termo. A principal maneira pela qual usamos a noção aqui é dizer que os letramentos são coerentes configurações de práticas de letramentos, muitas vezes estes conjuntos de práticas são identificáveis e nomeados, como no letramento acadêmico ou letramento do lugar de trabalho e eles estão associados com aspectos particulares da vida cultural (BARTON; HAMILTON, 1998, p. 9. Grifos dos autores. Tradução nossa)5

O modelo ideológico oferece uma visão mais sensível de práticas de letramentos, porque parte de situações concretas e posiciona-se a partir de princípios epistemológicos construídos socialmente. As pessoas direcionam suas leituras e suas escritas para caminhos em que haja uma identificação com suas existências. São visões particulares de mundo que

5 The notion of different literacies has several senses: for example, practices which involve different media or

symbolic systems, such as film or computer, can be regarded as different literacies. While we accept these senses of the term, the main way in which we use the notion here is to say that literacies are coherent configurations of literacy practices; often these sets of practices are identifiable and named, as in academic literacy or work-place literacy; and they are associated with particular aspects of cultural life.

podem ou não ser partilhadas, ou seja, o argumento sobre letramentos sociais (STREET, 1995) sugere que o engajamento com os letramentos é sempre um ato social, desde o princípio.

Todas as conclusões apontam para a certeza de que as escolhas não são neutras e aqueles que defendem o modelo autônomo estão construindo um propósito político específico. Eis o motivo de instituições e programas oficiais defenderem o modelo autônomo, porque ele está a serviço de uma conjuntura imbricada de fatos de manutenção de poder e reprodução de estruturas sociais dominantes. Assim, como ao se optar por trabalhar com o modelo ideológico de letramento, também se está fazendo uma escolha difícil e posicionada politicamente, longe de ser aquela escolhida pelos governos e/ou pelas classes dominantes.