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O letramento digital e as provas oficiais

5 OS DOCUMENTOS OFICIAIS: suas concepções de linguagem e suas

5.5 O letramento digital e as provas oficiais

O Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM – é uma das principais provas oficiais brasileiras para o ensino médio, e tem um papel muito importante para a aplicação das concepções de letramentos previstas pelos demais documentos e é também o maior expoente da aplicação destas concepções. Representa, entre outras coisas, o posicionamento (ranking) da educação média brasileira e significa a entrada de milhões de jovens e adultos no nível superior. Com esse exame, há também as implicações do interesse da mídia e da sociedade em discutir, apresentar resultados e dados acerca do exame. Isso nos faz atentar para a redação da competência que discute a temática das tecnologias da informação e comunicação.

Competência de área 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhe dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar (BRASIL, 2009).

Criado em 1998, o ENEM é um exame anual que visa principalmente a avaliar o desenvolvimento de competências fundamentais a um estudante ao final do Ensino Médio. Sua matriz para a área 1 contempla nove competências, totalizando trinta habilidades. No que diz respeito à competência 9, há três habilidades:

H28 - Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.

H29 - Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.

H30 - Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem (BRASIL, 2009).

Conforme pudemos observar, as habilidades relacionadas à competência 9 parecem sugerir uma aplicação do que nos dizem os PCNs (BRASIL, 1999, p. 186) quando orientam que os currículos escolares devem desenvolver competências de obtenção e utilização de informações por meio do computador, e sensibilizar os alunos para a presença de novas tecnologias no cotidiano, apresentando a Informática como detentora de uma nova linguagem a que estamos sujeitos e à que precisamos ter acesso.

As matrizes curriculares presentes nas Metodologias de Apoio da área de linguagens e códigos e suas tecnologias do Estado do Ceará são a reafirmação das propostas apresentadas na LDB, nos PCNs e nas competências previstas nos descritores de provas oficiais. Embora não se detenham em explicar a inserção das tecnologias, deixam o tema subtendido quando propõem que se mude o foco das aulas e sugerem que os professores saiam de uma postura de metalinguagem para estratégias de processamento de informações nas quais o aluno necessite operacionalizar a organização de textos produtivos e do tipo proficiente. Para esse documento, a sala de aula deve funcionar como espaço de “oficina de textos de circulação social”.

A leitura do material concernente às matrizes curriculares ditadas pelas Metodologias de Apoio para o ensino médio nos induz a afirmar que, embora não sejam contempladas especificamente as habilidades da competência 9 do ENEM, a SEDUC-CE orienta seus professores a integrá-la como parte de outras instruções, relacionando-a ao eixo da leitura e da produção de textos, não estabelecendo, portanto, diretrizes específicas para o trabalho com as TICs, mas assegurando-lhes o espaço na diversidade de gêneros na sala, cabendo ao professor fazer a inclusão de gêneros digitais:

Tópico III. Relação entre textos

D20 - Reconhecer diferentes formas de tratar uma informação na comparação de textos que tratam do mesmo tema, em função das condições em que ele em que será recebido.

Na avaliação realizada em âmbito estadual, isto é, no SPAECE, não há menção explícita ao tratamento do letramento digital, mas podemos observar que as práticas sugeridas para o tratamento da “informação do texto verbal e/ou não verbal”; dos “gêneros associados às sequencias discursivas básicas”; das “relações entre os textos”; dos “recursos expressivos

utilizados no texto” e dos “aspectos sociais da linguagem” são feitas a partir de noções gerais que podem ou não ser expandidas para os gêneros digitais ou para textos que circulam também no ambiente digital.

Segundo a matriz de referência do ENEM, podemos atestar que não é possível dizer que alguém é letrado digitalmente a partir da análise do alcançamento de êxitos nesta competência, provavelmente o aluno que a atingir é um leitor que soube avaliar os impactos da tecnologia em sua vida e no mundo que o rodeia, ou seja, para o exame, temos um leitor crítico, capaz de fazer interpretações e relações com outros textos e outras situações.

Os documentos oficiais analisados nesta pesquisa (LDB; PCN; PCN+; DCNEM; matrizes de Competências do ENEM e matrizes de referências e Metodologias de Apoio da SEDUC-CE), inter-relacionam-se e orientam o trabalho docente de modo geral. Embora não sejam todos de acesso direto ao trabalho do professor, todos impactam de alguma maneira na seleção de recursos tecnológicos na execução das práticas docentes.

As matrizes do ENEM, por conta da divulgação e das consequências, tornam-se agora uma espécie de guia para o ensino médio, na prática, ocupando o espaço das diretrizes e/ou das orientações curriculares. Podemos atestar que as provas oficiais são produto dos documentos oficiais e resumem como deve ser a relação dos professores com as tecnologias digitais. Percebemos que, ao serem indagados sobre o que conhecem acerca dos documentos, os professores não se referem à Constituição, aos decretos ou mesmo às matrizes, mas os PCNs e o ENEM são frequentemente citados e orientam a maior parte do processamento da atividade docente.

Talvez por essa razão, as matrizes do ENEM carecem de uma profunda revisão de conteúdo, principalmente no tocante aos aspectos relacionados aos recursos tecnológicos e aos estudos feitos acerca de sua natureza. Os temas relacionados à hipertextualidade, à multimodalidade, aos gêneros digitais, ao letramento digital, etc. deveriam ser também pauta para discussão no cotidiano escolar, ao lado dos gêneros textuais, sob o risco da exclusão ainda maior daqueles que muitos sofrem por conta de problemas oriundos da desigualdade social e da dimensão continental do Brasil. Muitas vezes, o conhecimento presente nesses documentos chega a ser uma dos poucos aos quais as secretarias municipais e escolas têm acesso em suas formações continuadas.

A presença massiva dos PCNs não implica a inserção automática de sua proposta na prática do professor, mas modifica-lhe o discurso acerca dela. É o que se percebe com os professores colaboradores desta pesquisa, que creem que fazem seu trabalho atendendo ao que os PCNs prescrevem. Além disso, embora não tenham modificado suas concepções acerca do

ensino, a presença das tecnologias faz que afirmem que estão trabalhando com os gêneros e apoiam suas práticas para fins de exames oficiais. Ou seja, o ENEM dita, em grande medida, a atuação do professor.

As diretrizes curriculares do ensino médio devem estar na ordem do dia, porque assim é possível apontar alternativas para além do livro didático que "aprisiona" os textos e impede que haja o uso autêntico da língua. A sala de aula deve ser o espaço em que as tecnologias usadas estabeleçam práticas de letramentos sistematicamente, como forma de estímulo também para a reflexão do uso da língua. Para isso, entretanto, a orientação deve ocorrer em momentos de formação inicial e de formação continuada do professor para que ele possa fazer a transposição didática de forma reflexiva do conhecimento.

É necessária a construção de matrizes de referência das formas de aferição de aprendizagem específicas para cada questão que se deseja avaliar. Por isso, a mudança se faz tão urgente e necessária. A competência correspondente à análise da relação dos jovens com as tecnologias digitais (competência 9) pelo ENEM não é capaz de medir o letramento digital. No Brasil, diferentemente do que ocorre em países como os EUA, por exemplo, não temos como saber se nossos alunos se encontram letrados digitalmente e isto tem implicações pedagógicas e de outras ordens, incluindo a econômica. Os instrumentos para aferir o letramento digital de nossos alunos, não devem ser novas formas para excluí-los e, por isso, é preciso cautela nesta ação.

As tecnologias digitais para o ensino precisam adequar-se à educação, devendo ser sistematicamente pensadas e trabalhadas como formas simbólicas de comunicação e apreensão de conhecimento, mas, sem mudanças estruturais na educação, a qualidade tecnológica não é suficiente. E, sem as melhorias vindas da tecnologia e do aperfeiçoamento estrutural, mesmo reconhecendo os resultados dos avanços tímidos propostos, todo o esforço e a abnegação de professores é em vão.

6 RELAÇÃO ENTRE AS PRÁTICAS DOCENTES, AS TECNOLOGIAS DIGITAIS E