CAPÍTULO III – OS PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO, A GOVERNAMENTALIDADE
3.2 LIBERALISMO, NEOLIBERALISMO E GOVERNAMENTALIDADE NEOLIBERAL
Segundo Foucault (2008b, 2008c), é a partir do século XVIII que as artes de governar começam a estabelecer uma série de novos focos e indicadores que, pouco a pouco, vão estabelecendo os limites desta nova forma de governo. O foco, que no reinado do soberano estava orientado ao território, muda para a população. Surge um novo conceito produzido pela reorganização da sociedade cada vez mais aglomerada em cidades, onde estabeleciam-se renovadas formas de produção de bens, de serviços e de estruturas que favoreceram as condições de possiblidade para dita mudança. O conceito de povo prevalecia sobre o conceito de multidão (VIRNO, 2003) e com isso faziam-se necessárias novas formas organizativas que permitissem estabilizar à estrutura dos Estados modernos.
Todavia, outros indicadores se fizeram necessários para que a reorganização dessas artes de governar fosse possível. Até onde poder-se-ia governar? Até onde seria necessário governar? Até onde seria suficiente governar? Como gerar estratégias de governo que permitissem dar conta das massas?
A economia passaria a ser a principal forma de saber que iria sustentar à governamentalidade. Ou seja, funcionaria como a grade de inteligibilidade que estabeleceria os procedimentos de governo da população (FOUCAULT, 2008c). Para isto se fez necessário instituir um regime de verdade que validasse as ações que pretendiam conduzir as condutas, situando essa verdade num lugar específico: o mercado (FOUCAULT, 2008b). Este mercado, desde a conjuntura política e econômica era visto como lugar lícito, onde os preços seriam regulados pela distribuição justa das mercadorias, pela segurança e pela proteção do comprador, oferecia um referencial que garantia sua validade como possível regulador da economia. Eis, então, que embora a economia se apresentasse como o principal saber da governamentalidade, o mercado paulatinamente visualizava-se como constituinte de uma verdade no referente às práticas de governo e a efetividade delas. A partir disso, e diretamente relacionado com esse saber econômico, começavam a estabelecer-se os limites do governo enquanto poder público, e assim, a pergunta antes formulada – quanto governo? –, começaria a ser problematizada.
Segundo Foucault (2008b), a corrente de pensamento que neste sentido acabaria apresentando-se com mais força seria a do utilitarismo, que media a necessidade de governo em termos de utilidade ou falta dela. Esta corrente pensaria “[...] os limites do poder público e de formação de um direito público e de um direito administrativo” (FOUCAULT, 2008b, p. 60). Assim o liberalismo configurava-se como o sistema que permitiria a produção dessa nova configuração social, e que a partir do século XVIII construiu-se baseada na livre concorrência. Um sistema que regularia o governo a partir da utilidade e que atuaria positivamente favorecendo a interação econômica, e, portanto, a produção. Um sistema que seria movimentado – ainda segundo Foucault (2008b) – pelo interesse de maneira geral, que seria “[...] aquilo por intermédio do que o governo pode agir sobre todas essas coisas que são para ele, os indivíduos, os atos, as palavras, as riquezas, os recursos, a propriedade, os direitos, etc.” (FOUCAULT, 2008b, p. 61).
Desta forma, o interesse – fundamentalmente econômico-produtivo – passava a formar parte central nas decisões governamentais e, portanto, a educação não teria como ficar por fora desta lógica. Nesse sentido, os governos começavam a fazer-se perguntas como, por exemplo: é do interesse do Estado educar a toda a população? Qual o rumo que interessa para a educação nesses termos? Sendo que a resposta era dada de diferentes formas segundo a relevância que o mercado e o Estado adquirissem na constante relação entre eles. O Professor Alfredo Veiga-Neto mostrava
em seu curso: Em defesa da sociedade 40 anos depois (VEIGA-NETO, 2016), uma infografia que permite visualizar como esta relação tem variado nas diferentes épocas, e mediante a qual podemos inferir em parte como a educação tem se produzido.
Figura 01: Relações entre Estado e Mercado em diferentes épocas.
Fonte: (VEIGA-NETO, 2016).
Na infografia podemos visualizar que existiria no mercantilismo uma preponderância do Estado sobre o mercado, onde o primeiro exerceria funções regulatórias sobre o segundo. A partir da fisiocracia começaria uma paulatina tendência à separação entre ambos, a qual se veria consumada no liberalismo, onde, como mencionei anteriormente, fomenta-se uma liberação da concorrência e se estimula ao Estado a intervir o menos possível. Mas com o neoliberalismo – que abordarei mais adiante no texto – acontece uma nova virada na relação entre Estado e mercado,
onde o segundo estabelece um predomínio sobre as ações, que produz, por sua vez, uma série de mudanças no tratamento que o Estado fará dos assuntos relativos à população.
A educação, pela sua parte, como uma das principais instituições encarregadas da produção de sujeitos aptos para a convivência em sociedade, produz formas de funcionamento adequadas às mudanças de cada época. Não digo que isto operaria como algum tipo de regime unidirecional ou totalitário, mas sim que se estabelecem determinados padrões que através das políticas educativas constituem-se como estratégias de governo que pretendem responder a estas exigências do sistema, de forma efetiva pensada em termos econômicos. Um exemplo disto poderiam ser as atuais estratégias governamentais para evitar a repetição e o abandono escolar, as quais não só objetivam criar condições para manter a população dentro do sistema escolar, senão que também pretendem melhorar as estatísticas educativas de maneira a obter ou manter financiamento dos organismos internacionais para impulsar novas políticas educacionais.
Desta forma, a educação e a escola funcionam como parte da rede que “[...] produz os efeitos de poder que lhe são próprios, implementa táticas e estratégias específicas e investe aos «governados» conforme a processos de sujeição e subjugação diferentes” (LAZZARATO, 2013, p. 122, tradução minha)31. Ou seja, as políticas públicas educativas implementadas pelos governos foram adaptando-se às necessidades das diferentes etapas do liberalismo, assim como também aos diferentes contextos dos diferentes países, mas sempre respondendo às necessidades de produção das nações e, portanto, estabelecendo uma rede de relações de poder que favorecessem à produtividade dos sujeitos que passavam pelo sistema educativo.
Neste apanhado que busca contextualizar a discussão que estou estabelecendo, e antes de começar a desenvolver o conceito de neoliberalismo – como uma atualização do liberalismo – será necessário nos aproximarmos de um conceito mencionado na subseção anterior, que foi criado por Michel Foucault no curso Segurança, território e população, ditado nos anos de 1977 e 1978. Estou me referindo à governamentalidade. Segundo Castro (2009, p. 190), Foucault cria-a como uma “[...] consequência da insuficiência dos instrumentos teóricos para analisar o poder”. Perante a necessidade da análise das estruturas de poder, com o objetivo de investigar sobre a constituição
31 No texto original: “[...] produce los efectos de poder que le son propios, implementa tácticas y estrategias específicas
e inviste a los «gobernados» conforme a procesos de sujeción y sojuzgamiento diferentes” (LAZZARATO, 2013, p. 122).
do sujeito ocidental, o filósofo precisava de instrumentos que o ajudassem a problematizar as formas de condução das condutas, tanto dos outros quanto de si mesmo. Na aula de 1º de fevereiro de 1978, no curso mencionado anteriormente, Foucault definia à governamentalidade da seguinte forma:
Por esta palavra "governamentalidade”, entendo o conjunto constituído pelas instituições, os procedimentos, análises e reflexões, os cálculos e as táticas que permitem exercer essa forma bem específica, embora muito complexa, de poder que tem por alvo principal a população, por principal forma de saber a economia política e por instrumento técnico essencial os dispositivos de segurança. Em segundo lugar por “governamentalidade” entendo a tendência, a linha de força que, em todo o Ocidente não parou de conduzir, e desde há muito, a preeminência desse tipo de poder que podemos chamar de “governo” sobre os outros – soberania, disciplina – e que trouxe, por um lado, o desenvolvimento de toda uma série de aparelhos específicos de governo, [e por outro lado], o desenvolvimento de toda uma série de saberes. Enfim, por “governamentalidade”, creio que se deveria entender o processo, ou antes, o resultado do processo pelo qual o Estado de justiça da Idade Média, que nos séculos XV e XVI se tornou o Estado administrativo, viu-se pouco a pouco “governamentalizado” (FOUCAULT, 2008c, p. 143-144).
Desta maneira, ele estabeleceu um conceito que englobava as principais temáticas que participavam nas questões do governo e do governamento, a saber: o objeto que é a população; o saber que dá sustentação, que é a economia; e os instrumentos que trabalham no desenvolvimento, que são os dispositivos. Conceito que, segundo ele “[…] não é mais do que uma proposta de uma grade de análise para essas relações de poder” (FOUCAULT, 2008b, p. 258).
Por outra parte, Foucault marca um período inicial a partir do qual estabelecem-se as condições de possibilidade para a utilização desta grade. No final da definição anteriormente citada, ele coloca os séculos XV e XVI como o período em que se apresentam os primeiros sinais que permitem vislumbrar estas condições, e será a partir do século XVIII que essa governamentalização aparecerá mais nitidamente (FOUCAULT, 2008c). Com esta contextualização no tempo, o filósofo nos oferece a possibilidade de utilizar e adaptar sua grade conceitual para analisar fenômenos relacionados à população e ao seu governo, a partir de uma determinada época, fato que nos permite tirar proveito na problematização dos mesmos até a contemporaneidade.
Feita esta breve apresentação conceitual, será necessário acompanhar Foucault (2008b) até a saída da segunda guerra mundial, com o fim de observar um cenário pós-guerra, onde a Europa encontrava-se praticamente destruída. No momento, havia uma necessidade imperiosa de reconstrução, tanto da infraestrutura quanto das bases socioeconômicas. Este acontecimento gerado pelo fim da guerra, permitir-lhe-á contextualizar e refletir sobre as mudanças a respeito do liberalismo clássico que fizeram necessária uma nova denominação por parte de quem dedicou-se a pensar sobre esta época.
Perante a situação socioeconômica da Europa pós-guerra, a teoria de Keynes32 propôs a intervenção estatal como motor principal da recuperação mediante a geração de emprego, entre outras medidas que favoreceriam o consumo. Esta teoria recebeu grande aceitação em quase toda Europa33, inclusive na Alemanha (a que depois seria conhecida como Alemanha Ocidental), mas nesta última com uma condição diferenciada. Este país criou um Conselho Científico, que recomendou medidas diferentes cuja característica principal visava à regulação do processo econômico através da oferta e demanda e, portanto, da libertação dos preços do controle do Estado34 (FOUCAULT, 2008b.). A partir desta situação, e baseados em uma crítica frontal ao Estado através da condenação do estado nacional-socialista nazista, os defensores alemães desse renovado liberalismo argumentaram que o primeiro era viciado, pois era capaz de destruir a sociedade, a infraestrutura, a economia, etc., como tinha demonstrado o estado nazista. Destarte, uma vez que o mercado – modelo regulador do liberalismo clássico – não apresentava provas de ter esses vícios, talvez – sugeriam os críticos – era necessário pensar um “[...] Estado sob a vigilância do mercado em vez de um mercado sob a vigilância do Estado” (FOUCAULT, 2008b, p. 159).
32 Economista britânico que revolucionou o campo da economia com sua teoria, a qual, através da intervenção do
Estado na economia, pretendia melhorar os indicadores macroeconômicos mediante a geração de emprego, aumento do consumo, etc.
33 O orçamento para a reconstrução europeia se fez através de uma iniciativa conhecida como o Plano Marshall ou
European Recovery Program, na qual os Estados Unidos emprestaram dinheiro a 18 países da Europa levando em consideração sua participação na base aliada que tinha lutado contra os nazistas, a população de cada país, e, a aceitação das medidas que o plano propunha enquanto proposta de recuperação.
34 Na aula de 31 de janeiro do curso Nascimento da biopolítica, o qual está sendo usado como referência principal
deste desenvolvimento teórico, Foucault realiza um aprofundamento sobre como a decisão deste Conselho Científico alemão de exigir a liberdade de conduzir o processo de reconstrução de maneira diferenciada senta as bases para uma clara sustentabilidade da reconstrução da soberania alemã através da economia. O professor disserta sobre como uma Alemanha carente de soberania, por conta da ocupação aliada, consegue negociar a liberdade de escolha das estratégias a serem desenvolvidas com o objetivo de reconstruir o país, e a partir disso, legitima a reconstrução da soberania. Com isto, Foucault oferece um claro exemplo da economia como principal forma de saber da governamentalidade.
Foucault (2008b) expressa que o Estado moderno construiu um novo tipo de conhecimento relacionado à população e ao governo desta: a economia política. Este novo conhecimento assumia os sujeitos da população como capazes de (e levados a) escolher livremente entre um determinado leque de opções ditadas pelo mercado (oferta). Este leque, por sua vez, estaria também direcionado pelo interesse e pelas necessidades da própria população (demanda) (PETERS, 2015). Desta maneira, o investimento por parte das empresas, na criação de interesses na população, os quais logo converter-se-iam em demandas, levou essas empresas a direcionar sua energia na fabricação de desejos, sendo fundamental aqui a entrada das estratégias de marketing. Desta forma, qualquer objeto e/ou acontecimento poderia virar desejo, logo interesse, necessidade, demanda. Esta nova maneira de relação entre Estado e população estipulava renovadas formas de enxergar os cidadãos, as quais promoviam as qualidades individuais dos mesmos, sua capacidade de desenvolvimento pessoal, de aquisição de habilidades e competências, etc.
Conforme Bauman e Bordoni (2016), o período pós-guerra caracterizar-se-ia pelo que os autores denominam como “os gloriosos trinta anos”. Esta etapa foi marcada “[...] pela expectativa crescente de que todos os angustiantes problemas sociais fossem resolvidos e deixados para trás” (BAUMAN e BORDONI, 2016, p. 17). Tudo isto gerado pelo efeito desse pensamento positivo de quem tinha chegado ao fundo do abismo e então só lhe restava sair dele. Este sentimento, independente da metodologia – socioeconômica – que os países adotaram, era geral entre as populações das diferentes nações.
Segundo Foucault (2008b), outra característica que é fundamental para entender a lógica de funcionamento do neoliberalismo é a produção de uma sociedade fundamentada na concorrência. Apesar do mercado continuar funcionando como a entidade reguladora que indicaria os lineamentos a seguir, a troca deixaria de ser a prática que deveria ditar os caminhos, deixando seu lugar à concorrência, que a partir desse momento funcionaria como outro dos motores que dinamizariam as interações entre os membros da sociedade. Para isto seria necessário adotar um modelo de sujeito que deveria ser produzido, e este modelo seria o da empresa, nas palavras de Foucault (Ibid., 201), houve um retorno ao homo oeconomicus, mas “[...] o homo oeconomicus que se quer reconstruir não é o homem da troca, não é o homem consumidor, é o homem da empresa e da produção”. Portanto, o sujeito que o neoliberalismo irá constituir é um sujeito empresário, um sujeito que se produz enquanto entidade competitiva e que encontra na concorrência com o resto
sua razão de ser, e que por encontrar-se num automatismo discursivo – no caso, o neoliberalismo – atua repetindo as condutas que o sistema impõe, inclusive sem parar para pensar por quê está se comportando assim. O próprio Foucault (2008b) e vários autores contemporâneos a partir dele, resumem este novo cidadão como um sujeito empresário de si mesmo ou empreendedor de si mesmo (BAUMAN e BORDONI, 2016; GADELHA, 2009; LAZZARATO, 2013; VEIGA-NETO, 2000).
O homo oeconomicus é um empresário, é um empresário de si mesmo. Essa coisa e tão verdadeira que, praticamente, o objeto de todas as análises que fazem os neoliberais será substituir, a cada instante, o homo oeconomicus parceiro da troca por um homo
oeconomicus empresário de si mesmo, sendo ele próprio seu capital, sendo para si mesmo
seu produtor, sendo para si mesmo a fonte de [sua] renda (FOUCAULT, 2008b., p. 310- 311).
Este homo oeconomicus buscará em si mesmo a potencialidade para seu sucesso, e para isso deverá produzir-se como um sujeito em constante aprimoramento, na busca permanente de aperfeiçoar suas capacidades, suas habilidades e competências, e, portanto, de obter uma posição superior à de seus possíveis concorrentes no mercado de trabalho.
Logo, chega-se à ideia de que o salário não e nada mais que a remuneração, que a renda atribuída a certo capital, capital esse que vai ser chamado de capital humano na medida em que, justamente, a competência-máquina de que ele é a renda não pode ser dissociada do indivíduo humano que é seu portador (Ibid., p. 311-312).
Assim, o empresário de si mesmo se produz mediante duas ementas básicas: a primeira é a concorrência com seus pares na procura de uma melhor posição socioeconômica no seu entorno; e a segunda é o investimento em si mesmo com o intuito de capitalizá-lo em ganhos tanto econômicos como de ascensão no mercado laboral. No entanto, esta renovada concepção de sujeito empreendedor de si mesmo não se restringirá somente ao âmbito laboral e da economia, senão que irá espraiar-se para outros domínios da vida pessoal como as relações interpessoais, os espaços de lazer, etc., onde as condutas também irão adquirir diferentes vieses vinculados à concorrência. Concorrer profissionalmente com o cônjuge, ensinar os filhos a concorrer na escola e nas brincadeiras, concorrer com os vizinhos buscando ter a casa mais bonita, concorrer com os amigos
mostrando ter um padrão de vida melhor, e assim sucessivamente. Sendo que isto se tornará o padrão de comportamento normal em quase qualquer campo da vida.
Paralelamente, a economia adquire um protagonismo cada vez maior nos discursos políticos, midiáticos, sociais, e talvez, até poderíamos dizer educativos, onde tudo parece começar a ser pensado na base da rentabilidade de qualquer proposta como condição fundamental para sua viabilidade. Este discurso penetra sutilmente a cotidianidade dos âmbitos antes mencionados, produzindo uma espécie de entendimento da realidade pautado pelo rendimento. Uma lógica que almeja capitalizar qualquer atividade humana na forma de ganho – não necessariamente ganho em dinheiro – adquire força e estende seus horizontes através do discurso econômico. Praticamente a totalidade de nossa vida diária ajusta-se sobre essa base, fazendo com que as relações humanas se estipulem sob a lógica da negociação, onde cada um age pensando em qual o lucro que essa ação irá lhe render.
Contudo, a partir dos anos de 1970 começa uma desaceleração da melhora experimentada nos “gloriosos trinta” e os Estados começam a admitir a “[...] incapacidade de cumprir suas promessas aos poucos” (BAUMAN e BORDONI, 2016, p.18). A partir disto, reforçava-se a ideia do Estado como não o suficientemente capacitado para se encarregar do bem-estar da sociedade e, portanto, criavam-se novas condições de possibilidade para a busca de outras soluções que permitissem melhorar a qualidade de vida das populações. Desta forma, países que tinham adotado medidas identificadas com o keynesianismo começaram a criar estratégias que deixassem maior liberdade ao mercado, na tentativa de estimular o consumo e, portanto, a produção. Neste sentido o neoliberalismo provocava uma necessária mudança na biopolítica35, pois o Estado precisava gerar estratégias vinculadas a consumir que interviessem nas condutas da população (LAZZARATO, 2013). O favorecimento do crédito e a estimulação para o endividamento dão começo aos “opulentos trinta” (BAUMAN e BORDONI, 2016, p. 19), que foram anos em que os níveis de
35 Revel (2005) faz uma conceitualização básica sobre a noção de biopolítica. Segundo a autora, o conceito está
diretamente relacionado à noção de população, e também às relações que o poder estabelece com esta última. Podemos concluir que tal conceito se relaciona, sobretudo no que se refere às preocupações por estabelecer formas de governo nas áreas da saúde, higiene, alimentação e educação. Enfim, tudo aquilo que hoje conhecemos como vinculado às políticas públicas e que tem a ver com tentativas de fazer que a população seja produtiva. Foucault (2005) explica que a biopolítica surge como uma resposta ao problema das endemias populacionais, se manifestando principalmente através da medicina, para logo se expandir a áreas como controle da natalidade e morbidade, controle da marginalização, cuidado do envelhecimento da população, e outras mais, todas as quais poderíamos reunir em torno a um fator comum: o cuidado com a produtividade da população.
consumo começaram uma ascensão que só mostraria sinais problemáticos no final do século XX, dada a enorme dívida geral provocada pelo crédito assumido pelas pessoas e pelos governos em geral. Não obstante, a culpa de tal problemática não podia ser mais colocada nesse novo guia, o mercado, pois a opção de assumir ou não um crédito e, portanto, uma dívida, não tinha sido tomada pelo mercado, senão por quem tinha assumido o crédito. Destarte, a responsabilidade era colocada nas pessoas, fossem particulares ou governantes, que decidiram endividar-se com o objetivo de aceder a bens de consumo que o mercado oferecia.
Muda-se a lógica produtiva do sistema sendo que já nem o Estado nem o sujeito