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CAPÍTULO V A REVISTA EDUCAÇÃO E OS DISCURSOS SOBRE A EDUCAÇÃO E

5.5. AS CATEGORIAS DISCURSIVAS

5.5.2 Professor despreparado

Junto com a ideia historicamente repetida de que “a educação está em crise” há, também, talvez por uma espécie de propriedade transitiva, a ideia de que os professores estão despreparados para a tarefa que lhes foi designada. Este discurso se fez presente também nos artigos escolhidos para o corpus da pesquisa, sendo que, apesar de não fazê-lo necessariamente em forma de demanda ou recriminação por falta de responsabilidade69, constituiu uma série de narrativas e construções sobre os docentes que contribuíram na produção de um imaginário popular que os colocaria numa posição de falta de aptidão para realizar sua prática.

O enunciado do professor despreparado se constrói desde diferentes focos, tanto seja desde a crítica ao currículo da sua formação “A grande maioria dos professores, a julgar pelos currículos dos cursos em que se graduaram, não sabem o que significa educação integral! ” (TOALDO, 1975, p. 18), passando pela exposição de opiniões dos alunos “Falta de interesse e responsabilidade por parte dos professores [...]” (FREDERICK e DA SILVEIRA, 1986, p. 128), assim como também desde as sentenças dos próprios autores dos artigos. Isso demonstra que essa construção quase imagética de um professor que não possui as ferramentas necessárias para desenvolver sua prática parece ter se arraigado desde diferentes ângulos nos

69 Minha aclaração sobre a não intenção desses discursos em culpabilizar o professor pelo suposto mal funcionamento

do sistema educativo responde principalmente a dois fatores: 1) como disse antes, com a pesquisa tenho tentado realizar a tarefa de não interpretar as formações discursivas, mas sim visualizar e analisar o que foi dito, portanto, apesar de que em alguns artigos o discurso seja de crítica à situação na qual os professores desempenham seu labor ou de problematização das políticas públicas, isso não quer dizer que não possa ter no mesmo texto alusões ou menções à falta de preparo dos docentes; 2) a ideia de “crise na educação” e de professores tendo que se deparar com situações para as quais não possuem todas as ferramentas necessárias para encontrar soluções, é, no meu entendimento, inerente à própria educação, pois esta última está fadada a lidar com uma sociedade em constante transformação que traz suas problemáticas e suas mudanças para dentro da escola; a lidar com um público alvo que faz parte dessa sociedade e que se renova constantemente; e, por último, porque os professores, enquanto atores muito importantes no processo educativo, devem lidar com essas situações ao mesmo tempo que são sujeitos dessa sociedade e contribuem para produzir ela cada dia.

sujeitos involucrados com a educação, estabelecendo-se quase como uma característica imanente à figura docente da qual só alguns “bons professores” conseguem se separar.

Nesse sentido os textos de Frederick e Da Silveira (1986), Leão (1987), Nicolodi e Nunes (2000), Farnesi e Melo (2002), Souza (2003), e Henning (2010), tratam sobre o profissionalismo e a preparação dos professores enquanto tais. Esta temática, como disse anteriormente, é quase tão recursiva nas discussões sobre educação quanto o aparente estado de crise desta última. Inclusive, poderíamos conjeturar sobre a relação entre estes temas e encontrar várias supostas causas e efeitos. No entanto, interessa-me levar o escopo da análise para a discussão de afirmações do tipo “os professores estão desatualizados”, no intuito de pensar como esse tipo de enunciado funcionou e funciona como condição de possibilidade para uma gradativa convocação ao auto investimento por parte dos docentes, contribuindo tanto para a convocação destes profissionais a empreender no seu aperfeiçoamento, quanto para a precarização de suas condições de trabalho dentro das instituições educativas. A disseminação e a repetição de discursos que colocavam e colocam à escola como um lugar que perdeu o sentido da sua função principal, e que produzem uma imagem dos professores como profissionais aquém da sua responsabilidade social; estabeleceram as bases de uma depauperação das condições de trabalho, e trasladaram a responsabilidade pela superação de tal empobrecimento para os próprios professores como sujeitos do sistema neoliberal contemporâneo.

A pesquisa de Aquino (2013), sobre discursos na seção Fala Mestre! da revista Nova

Escola, mostra uma construção midiática considerável que coloca ao professor como

[...] um profissional sempre defasado e em dívida quanto à pletora de requisitos da profissão, esta tornada objeto de vívida glorificação – jamais, portanto, passível de dúvida ou de crítica. Assim, a hipervalorização do ofício parece dar-se de modo proporcional ao descrédito atribuído aos profissionais, convertidos em segmento alvo de uma intensa regulação não apenas exógena, mas também (e idealmente) a cargo deles próprios (p. 208).

Pareceria que a construção da imagem social do docente pudesse devir de uma superestimação da tarefa socialmente assignada aos professores, ao mesmo tempo em que haveria uma subestimação da capacidade destes últimos para assumi-la. Assim sendo, aos docentes também poderia ser atribuída parte da responsabilidade na aparente crise existente na educação, o que os colocaria numa situação de dívida não só com o sistema educativo, mas, também, com a sociedade

em geral. Basta lembrar a sugestão citada por Marques (1982), que apontava a possibilidade de enviar os alunos mais fracos para as licenciaturas, corroborando com a ideia de incompetência daqueles que escolhem a carreira docente. Ou ainda falas como as descritas por Frederick e Da Silveira (1986) ou Leão (1987), citados anteriormente, que somadas à noção expressada por Marques, abrem a possiblidade de julgamentos de valor que colocam a esses professores na posição de fracos e despreparados, e ainda como responsáveis por produzir aulas de baixa qualidade e fora do escopo de interesses dos alunos e das necessidades da sociedade. Discursos como estes demonstram que a academia não ficou por fora destas construções, contribuindo a estabelecer condições de possibilidade inclusive para que no imaginário popular dos futuros professores – pensando nos alunos de licenciaturas, por exemplo – a escola fosse imaginada como uma instituição desatualizada e que os antecessores daqueles futuros professores que ingressavam na carreira docente fossem vistos como sujeitos desestimulados e com conhecimentos ultrapassados.

No artigo de Frederick e Da Silveira frases como “Os alunos estão perdendo interesse [...]” (FREDERICK e DA SILVEIRA, 1986, p. 112) entrelaçam-se com testemunhos como “Professores com pouca vontade de ensinar e muita de receber [...]” (Ibid., p. 124) e “Pouca compreensão dos professores frente às dificuldades dos alunos [...]” (Ibid., p. 128), produzindo a construção da imagem de um docente desinteressado e indiferente, e responsável pela falta de motivação dos estudantes. Apesar do artigo tomar a temática do desajuste do currículo escolar como um problema a solucionar no intuito de construir uma educação melhor, contribui para uma reprodução negativa do discurso sobre os professores, ou seja, repete a mesma ambiguidade encontrada no artigo de Marques (1982).

Na mesma linha, afirmações no artigo de Leão como “Os educadores demonstraram desconhecimento de teorias da educação, o que caracteriza uma atitude de alienação e descomprometimento com a profissão [...]” (LEÃO, 1987, p. 6) ou “[...] a prática dos educadores se caracteriza como uma prática repetitiva, não evidenciando perspectivas para uma análise reflexiva da mesma [...]” (Ibid., p. 37), contribuíram na produção de regimes de verdade que colocavam aos docentes da época como responsáveis pela baixa qualidade educativa. Estas produções sentavam as bases para futuras construções que, como mostra Aquino (2013), parecem ter sido captadas pelo mercado com o intuito de transformar os anseios provocados por esta dívida em mercadoria de consumo representada pela possibilidade que oferece a formação

permanente. Além disso, estes enunciados se repetiram no discurso acadêmico em anos posteriores à publicação destes artigos; Henning (2010), por exemplo, traz no seu texto publicado na Revista

Educação a problemática de que “O professorado, pouco a pouco, deixa de se perguntar

pelo que pode fazer, pelo que sabe fazer, pelo que consegue fazer e, em lugar disso, pergunta pelo que é que deve fazer [...]” (PEREIRA e RATTO, 2006, p. 8 apud HENNING, 2010, p. 282), fazendo referência a como os docentes pareceriam estar deixando que a tomada de decisões a respeito da sua área fosse adotada por outros profissionais que lhes dizem como exercer sua profissão.

A partir da leitura dos artigos percebi que apesar de possuírem um teor que parece procurar contribuir para arquitetar melhoras em diferentes áreas da educação, também acabam tornando-se tributários de discursos que colocam nos professores uma grande responsabilidade nas falhas do sistema educativo – no referente ao desinteresse dos alunos, aos índices de repetência, à desatualização, à falta de relação com as realidades dos estudantes, etc. Frases como “Faz-se necessário, pois, que os educadores superem a visão acrítica e sem princípios consistentes do ato educativo [...]” (LEÃO, 1987, p. 38), que colocavam o docente em défice a respeito das suas obrigações, contribuíam na geração de condições de possibilidade para que a categoria entrasse paulatinamente em uma voragem de aperfeiçoamento pessoal, impulsada pela culpa, que colocaria os professores em posições cada vez menos coletivas e, por sua vez, também mais precárias.