Após observar a organização temática dos sete CBLAs, julgamos necessário particularizar nosso olhar para a Lingüística Aplicada definida não mais como campo de estudos, mas como vertente investigativa. Desde o começo, a preocupação dos lingüistas aplicados em relação à definição de seu campo de estudos e de suas identidades transformou esse fato em uma necessidade.
Assim, vamos encontrar ao longo dos diferentes congressos, em maior ou menor proporção, conforme a ebulição em torno da temática, trabalhos dedicados à tarefa de discutir a Lingüística Aplicada, sua prática, seu estatuto, sua identidade, seus aspectos metodológicos e suas fronteiras teóricas.
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Vejamos como isso se apresenta ao longo dos CBLAs focalizados.
I CBLA 16.6%
II CBLA Não especificado
III CBLA 1.1%
IV CBLA 1.8%
V CBLA 0.2%
VI CBLA 0.6%
VII CBLA Não especificado
Quadro 2 – A Lingüística Aplicada como objeto de estudo: percentuais10
No primeiro CBLA, verificamos o maior percentual de trabalhos pois, iniciando a tradição de discutir o campo disciplinar em um espaço próprio, o congresso, com seu tema principal “Pesquisas e perspectivas”, põe em cena todos os debates sobre a definição de uma identidade própria para o lingüista aplicado e para a disciplina. É importante lembrar que esses debates caracterizaram os primeiros anos da pesquisa em Lingüística Aplicada, no Brasil, como campo autônomo.
No segundo CBLA, não encontramos uma clara divisão dos trabalhos apresentados nas tradicionais subáreas temáticas. Nos anais do evento (TLA nº16, 1990), os trabalhos foram organizados segundo o título dos seminários nos quais foram apresentados. É bem verdade que os seminários espelham as principais vertentes investigativas do campo, porém não há menção a um espaço próprio para discutir questões específicas da Lingüística Aplicada. O único trabalho sobre a questão foi apresentado no quadro do seminário intitulado “Discursividade e aprendizagem de línguas”.
No prefácio da revista Trabalhos em Lingüística Aplicada número 22 (1993), que publica trabalhos apresentados no âmbito do III CBLA, chama-se a atenção para o fato de que a relação entre a Lingüística Aplicada e a Lingüística tem sido um tema pensado desde 1987. É interessante notar que a referência a este ano aponta para o ano seguinte ao da realização do primeiro CBLA (1986), no qual foram
10 Os percentuais e as referências a trabalhos apresentados nessa tabela referem-se aos dados e números relativos aos congressos tais como foram publicados e divulgados nos respectivos anais ou em publicações que a eles fazem referência.
discutidas a pesquisa e as perspectivas da Lingüística Aplicada, sobretudo, no Brasil.
Ainda nesse prefácio, há o comentário de que “Aos poucos, os textos foram ganhando forma e a discussão se consolidou, pela primeira vez, por ocasião do 3º Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada, em 1992” (BASTOS; BASTOS DE MATTOS, 1993, p. 5). Encontramos, nessa edição da revista, o registro de 3 trabalhos tratando especificamente da questão da disciplina Lingüística Aplicada, no que se refere à sua relação com a Lingüística, à sua prática e à busca por autonomia.
Assim, mesmo com um pequeno percentual de trabalhos, há evidências de que as questões levantadas e fomentadas anos antes, por ocasião do I CBLA, permaneceram de tal forma relevantes e necessárias que somente anos depois puderam ser consideradas “consolidadas”.
O IV CBLA marca uma espécie de nova reviravolta no campo de estudos da Lingüística Aplicada, uma vez que a transdisciplinaridade aparece como elemento central na discussão sobre a natureza da disciplina, de sua prática e de suas fronteiras. Há um ligeiro crescimento no percentual de trabalhos tratando especificamente das questões da Lingüística Aplicada; porém, embora o número em si pareça pouco significativo (1,8%), a repercussão desses trabalhos alcançou grandes proporções, e muito do que foi discutido e apresentado no âmbito desse congresso, sob a forma de conferências e mesas-redondas, transformou-se em artigos que são, até os dias de hoje, referência para o entendimento do percurso evolutivo da Lingüística Aplicada como ciência.
No quinto e no sexto CBLAs, percebeu-se uma nítida diminuição no percentual de trabalhos tratando especificamente da Lingüística Aplicada. Como as temáticas começavam a indicar uma visão do campo de estudos cada vez mais próxima dos aspectos sociais da linguagem e das questões discursivas, dissociando-se, cada vez mais, de uma definição de campo de estudo que se dedica a estudar primordialmente questões lingüísticas para definições como o estudo da linguagem como prática social, as pesquisas vão ganhando novas temáticas e novos enfoques. E, em meio às discussões sobre questões de gênero, de interação, de processos identitários sob enfoques trans- e interdisciplinares, discute-se, igualmente, o papel da Lingüística Aplicada.
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Assim, encontramos pesquisadores que apresentam discussões interessantes sobre a situação da Lingüística Aplicada no contexto brasileiro da época, lançando olhares sobre a prática do campo e sobre suas relações com a sociedade.
No sétimo CBLA, explodem as vertentes investigativas e, em meio a elas, dilui-se a especificidade da Lingüística Aplicada. Percebemos, segundo o conteúdo das publicações que fazem referência ao congresso (Anais do VII CBLA, 2004 – CD ROM; FREIRE; ABRAHÃO; BARCELOS; 2005), que o tema norteador do evento “Lingüística Aplicada e contemporaneidade” procura sinalizar para a diversidade de questões e enfoques que, na contemporaneidade, compõe a face do campo de estudos da Lingüística Aplicada.
Os diferentes trabalhos versaram sobre a natureza da pesquisa na Lingüística Aplicada no âmbito da especificidade de sua investigação, como, por exemplo, os trabalhos inseridos nas subáreas de formadores e formação de professores, práticas identitárias e ideologias, práticas discursivas, dentre outras. A Lingüística Aplicada tratada como objeto de estudo foi discutida na subárea intitulada “Enfoques contemporâneos”. Os trabalhos e conferências que se dedicaram a esse assunto abordaram, em geral, as relações da pesquisa em Lingüística Aplicada na pós- modernidade.