CAPÍTULO VI 405 ABANDONO DO “EFEITO SIGNIFICATIVO” NA DEFINIÇÃO DO “DANO À
DIRECTIVA 2004/35/CE: FUNDAMENTOS, ESTRUTURA E CONCEITO DE DANO ADOPTADO
3.1.3 Livro Branco sobre a Responsabilidade por Dano Ambiental (2000)
Tendo em conta a necessidade de dar resposta à Resolução do Parlamento Europeu, e à opinião pública na sequência do naufrágio do Navio-tanque Erika, em 1999, a Comissão decidiu proceder à elaboração, em 2000, do Livro Branco sobre a Responsabilidade por Dano Ambiental326.
Documenta, assim, do nosso ponto de vista, o início de uma mudança de paradigma, ao abandonar o termo “civil” e ao apresentar um esboço, ainda confuso, do que viria a ser o regime de responsabilidade adoptado pela Directiva327.
O Livro Branco analisa diversas formas de configurar um “regime
comunitário de responsabilidade ambiental” tendo em vista: “impor responsabilidades às partes cujas actividades encerram riscos de provocar esse tipo de danos”328; melhorar a aplicação dos princípios ambientais e da
legislação ambiental europeia; assegurar a descontaminação e a restauração do ambiente; proceder à introdução do ambiente nas demais áreas políticas; e incrementar o melhor funcionamento do mercado interno.
Quanto aos tipos de danos a cobrir, entende que o regime deveria abranger: os danos causados à biodiversidade, nomeadamente, áreas e
326 Cfr. Resolução de 20 de Abril de 1994 (JO C 128, p.165).
327 A referência restringe-se ao título que, para nós, já é significativo de uma alteração de perspectiva. Contudo, no texto do Livro Branco encontra-se por variadas vezes a referência à responsabilidade civil para delinear o regime de reparação dos danos em causa.
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espécies protegidas pela Rede Natura 2000; os danos sob a forma de contaminação de locais; e os danos tradicionais, danos a pessoas e bens, caso tenham sido causados por uma actividade perigosa abrangida pelo âmbito de aplicação do regime, uma vez que, em muitos casos, os danos tradicionais e os danos ao ambiente natural resultam de um mesmo facto329.
Ou seja, o regime proposto pelo Livro Branco adopta o conceito de “dano ambiental”, mas fá-lo porque, como vimos, tem em vista uma postura abrangente do conceito de dano, onde se inclui o dano tradicional e o dano ao ambiente natural. Ficando, contudo, este último limitado aos recursos naturais protegidos sob a égide de outras legislações europeias330.
Este conceito uniformizador do dano ambiental não é, sob o nosso entender, acolhido na versão final da Directiva. Contudo, não obstante, não adoptar esta postura uniformizadora, a Directiva mantém o conceito, o que cria maior confusão aquando da sua aplicação.
O Livro Branco utiliza, por mais do que uma vez, o termo “danos
causados à biodiversidade” para se referir aos danos resultantes da violação
das Directivas Aves e Habitats. No entanto, isto é, susceptível de criar dúvidas, afinal, o termo biodiversidade da forma como é empregue no Livro Branco não vai totalmente ao encontro do previsto na Convenção sobre Diversidade Biológica de 1992. Biodiversidade, como vimos, é mais do que
329 Cfr. Livro Branco sobre Responsabilidade Ambiental, p.18.
330 Edward Brans, “The EC White Paper on Environmental Liability and the Recovery of Damages for Injury to Public Natural Resources”, in Environmental Damage in International and Comparative Law. Problems of Definition and Valuation, University Press, Oxford, 2002, Chapter 5, p. 323.
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um conjunto de espécies numa determinada área331. Daí que, no texto
aprovado este conceito seja abandonado e substituído por dano às espécies e habitats protegidos.
Posto isto, o Livro Branco procurou avaliar diferentes opções de acção no domínio da responsabilidade por dano causado ao ambiente. Como sejam: a adesão à Convenção de Lugano, de 1993332; a elaboração de um
regime exclusivo para os danos transfronteiriços333; a orientação da acção
331 Edward Brans, “The EC White Paper on Environmental Liability and the Recovery of Damages for Injury to Public Natural Resources”, in Environmental Damage in International and Comparative Law. Problems of Definition and Valuation, University Press, Oxford, 2002, Chapter 5, p. 325.
332 Esta Convenção entraria em vigor depois da sua terceira ratificação, contudo, até à presente data apenas nove Estados a assinaram (Chipre, Finlândia, Grécia, Islândia, Itália, Liechtenstein, Luxemburgo, Portugal e os Países Baixos), mas nenhuma ratificação foi levada a cabo. Como tal, este instrumento tem uma importância sobretudo teórica e doutrinária, afinal, foi o primeiro passo dado, a nível europeu, para a responsabilização por danos causados ao ambiente.
A adesão da União a esta Convenção teria a vantagem de estar de acordo com o princípio da subsidiariedade a nível internacional. Além disso, a Convenção possui uma cobertura abrangente (todos os tipos de danos resultantes de actividades perigosas) e um âmbito amplo e aberto, que tem o mérito de apresentar um sistema coerente e de tratar os operadores de todas as actividades perigosas da mesma maneira. Cfr. Livro Branco sobre Responsabilidade Ambiental, p.27.
333 O principal argumento utilizado a favor de um regime “exclusivamente transfronteiriço” é de que, em termos de subsidiariedade, não há argumentos suficientes para aplicar um regime de responsabilidade a problemas inteiramente circunscritos a um Estado-Membro, mas os problemas transfronteiriços são, na verdade, resolvidos de um modo mais eficaz a nível comunitário. As desvantagens advêm do facto de um sistema exclusivamente aplicável a problemas transfronteiriços deixar um grave vazio no que respeita à responsabilidade pelos danos causados à biodiversidade, uma vez que estes ainda não estão cobertos pela maioria dos Estados-Membros. Cfr. Livro Branco sobre Responsabilidade Ambiental, p. 28.
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dos Estados-Membros por um Regulamento334; ou a adopção de um regime
de responsabilidade sectorial, nomeadamente na área da biotecnologia335.
Por fim, considerou que a opção mais apropriada seria a adopção de uma Directiva-quadro336. Devendo-se, igualmente, optar pela
responsabilidade objectiva – com causas de justificação – no que diz respeito aos danos tradicionais (nomeadamente os danos a pessoas e bens) e aos danos causados ao ambiente natural (contaminação de locais e danos à biodiversidade nas áreas incluídas na Rede Natura 2000) causados por actividades perigosas regulamentadas a nível europeu. E, pela responsabilidade subjectiva em relação aos danos causados à biodiversidade por actividades não perigosas.
334 Uma recomendação, sendo um instrumento não vinculativo e sem mecanismos de execução, acarretaria menos custos para os operadores do que um instrumento vinculativo, mas também teria menos benefícios para o ambiente, designadamente em casos de danos transfronteiriços no interior da Comunidade. Cfr. Livro Branco sobre Responsabilidade Ambiental, p. 28.
335 Uma abordagem sectorial não asseguraria um sistema coerente ou uma aplicação igual dos princípios do poluidor-pagador, da prevenção e da precaução a actividades que são comparáveis na medida em que apresentam um risco para o Homem e para o Ambiente. Cfr. Livro Branco sobre Responsabilidade Ambiental, p. 29.
336 Na elaboração de uma Directiva Comunitária, o âmbito da acção comunitária pode ser mais bem delimitado e o regime para os danos causados à biodiversidade mais bem desenvolvido, em harmonia com a legislação comunitária pertinente. Uma abordagem horizontal tem a vantagem de fornecer o quadro geral num único acto. Desde que as actividades abrangidas apresentem riscos ambientais semelhantes e suscitem questões económicas comparáveis, esta abordagem será não só mais consistente, mas também mais eficiente. Cfr. Livro Branco sobre Responsabilidade Ambiental, pp. 28 e 29.
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