CAPÍTULO VI 405 ABANDONO DO “EFEITO SIGNIFICATIVO” NA DEFINIÇÃO DO “DANO À
FONTES DA DIRECTIVA 2004/35/CE: PERSPECTIVA HISTÓRICO COMPARATIVA
2.1.2 Estrutura do modelo CERCLA
2.1.2.1 Tipo de responsabilidade: Objectiva
Preenchidos os requisitos supra referidos serão, então, os sujeitos objectivamente responsáveis pela reparação dos danos resultantes da sua actividade. A CERCLA, ao contrário da maioria das leis federais em matéria ambiental, como sejam o “Resource Conservation and Recovery Act,
Clean Water Act” ou o “Clean Air Act”, não é um tradicional diploma
regulamentador, mas sim uma lei de reparação, desenhada para impor responsabilidade por danos. Esta é, de facto, uma das grandes semelhanças entre os dois regimes – a CERCLA e a Directiva – afinal, ambos se afirmam como diplomas de compensação e reparação, não apenas regulamentadores.
Contudo, não obstante esta semelhança, no que respeita ao tipo de responsabilidade adoptado encontramos algumas divergências importantes de salientar. Assim, nos termos da CERCLA, se as partes responsáveis forem identificáveis e localizadas, elas serão objectivamente responsabilizadas pela limpeza dos sítios, pelos gastos de prevenção de derrames e lançamento de resíduos tóxicos no ambiente. Já na Directiva temos a opção por uma responsabilidade objectiva para um conjunto definido de actividades, previamente estabelecidas no Anexo III, e por uma responsabilidade subjectiva para todas os danos causados às espécies e habitats naturais protegidos resultantes de actividades não listadas no Anexo III.
Ora, compreendendo melhor a CERCLA, importa chamar a atenção que apesar do texto ser ambíguo no que respeita à natureza jurídica da responsabilidade que impõe – afinal, o diploma não refere que tipo de responsabilidade adopta – nos projectos iniciais está patente a opção pela
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responsabilidade “jointly, severally, and strict”129. A Secção 101(32) define o
conceito de “liable” como “…the standard of liability which obtains under
section 1321 of title 33”, ou seja, remete para o Clean Water Act.130 E, este,
como é pacificamente aceite, impõe uma responsabilidade objectiva, pelo que, por maioria de razão, uma remissão para esse normativo é uma assunção da adopção do mesmo tipo de responsabilidade131.
Nesse sentido, decisões dos tribunais americanos têm confirmado tratar-se de uma responsabilidade de tipo objectiva132,
solidária, e com efeito retroactivo133. Assim, uma pessoa ou entidade
responsável por uma pequena percentagem do local de depósito de resíduos pode ser responsabilizada na íntegra, pelo valor total dos danos, e pode,
129 Elizabeth Glass Geltman, “Superfund: a Call for Restraint”, in Rethinking Superfund, The National Legal Center for the Public Interest, Washington, D.C, EUA, 1991, pp.1-27, p.5. 130 Joel S. Moskowits, Environmental Liability and Real Property Transactions: Law and Practice, Second Edition, Environmental Law Library, United States of America, John Wiley & Sons, Inc, 1995, p. 49.
131 Existem, contudo, decisões dos tribunais americanos a optarem por uma postura mais conservadora e a relegarem a opção pelo tipo de responsabilidade, caso a caso, para o Juiz da causa. No caso United States v. Chem-Dyne, após uma atenta análise da razão pela qual a Lei Federal não toma uma opção, ao contrário do seu draft, refere-se que “a reading of the
entire legislative history in contexto reveals that the scope of liability and term joint and several liability were deleted to avoid a mandatory legislative standard applicable in all situations which might procude inequitable results in some cases”. Pelo que, conclui-se que “the term was omitted in order to have the scope of liability determined under common law principles, where a court performing a case-by-case evaluation of the complex factual scenarios associated with multiple-generator waste sites will assess the propriety of applying joint and several liability on an individual basis”, Elizabeth Glass Geltman, “Superfund: a Call
for Restraint”, in Rethinking Superfund, The National Legal Center for the Public Interest, Washington, D.C, EUA, 1991, pp.1-27, p.14.
132 John S. Applegate e Jan G. Laitos, Environmental Law, RCRA, CERCLA and the Management of Hazardous Waste, Foundation Press, Thomson West, 2006, pp.129ss. 133 Steven Baird Russo, “Contribution under CERCLA: judicial treatment after SARA”, in Columbia Journal of Environmental Law, Vol. 14, pp. 267-287, pp. 270 e seguintes.
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ainda, ser responsabilizada por danos que se verificam no presente, quer como pelos danos passados, independentemente de culpa134.
Com efeito, sendo a responsabilidade objectiva, ou estrita, o queixoso, público ou privado, não precisa de provar que o despejo dos resíduos perigosos resultou de conduta negligente ou intencional do sujeito. Apenas carece de fazer prova de quatro elementos:
▪ Que é um local de despejo de resíduos contaminados;
▪ Que o sujeito se enquadra numa das classificações de “pessoa
potencialmente responsável”;
▪ Que ocorreu uma contaminação, ou ameaça de contaminação; e
▪ Que essa contaminação levou o queixoso a incorrer em custos de reparação e recuperação.
Por outro lado, apesar da responsabilidade ser objectiva, existem algumas causas expressas de defesa e de exclusão da mesma: actos de força maior; actos de guerra; actos ou omissões de uma terceira parte que não esteja em relação contratual com a pessoa que alega a defesa; proprietários (inocentes) que possam demonstrar que a causa do dano se deve a uma terceira parte e que façam prova de “due diligence” aquando da compra e
134 Abrahan S. Kenneth, “Environmental Liability and the Limits of Insurance”, in Columbia Law Review, Vol.88, pp. 942-988, 1998, p. 957.
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proprietários que não participaram na gestão do sítio em causa. No que respeita às causas de exclusão da responsabilidade a Directiva assemelha-se à CERCLA, não obstante não ser tão ampla e prever outras causas não compreendidas no regime americano, como o “risco de desenvolvimento”135.
Assim, quando ocorre um despejo, ou a ameaça de um despejo, de resíduos perigosos provenientes de uma instalação, num local ou área determinada, e uma parte preencher os requisitos para se tornar uma parte potencialmente responsável, no âmbito da CERCLA, esta parte é responsável por todos os custos de acções de limpeza e reparação levados a cabo pelo Governo dos EUA, por um Estado, ou por uma tribo indígena, desde que, de acordo com o Plano Nacional de Contingência136. Para determinar quais os
sítios que são passíveis de serem limpos pelo “Superfund”, a CERCLA autoriza a EPA a criar uma lista de prioridades de âmbito nacional, denominada “National Priorities List” (NPL)137.
135 Carole Stern Switzer e Peter Gray, CERCLA, Comprehensive Environmental Response, Compensation, and Liability Act (Superfund), Section of Environment, Energy and Resources, Second edition, American Bar Association, EUA, 2008, pp.37ss.
136 National Contingency Plan (NCP).
137 Para determinar quais sítios entrarão nesta lista, criou-se um ranking que atribui uma pontuação a cada sítio, baseado em alguns critérios de avaliação de risco (potencialidade de contaminação de água potável, de produzir um dano à saúde pública, etc). Uma vez estabelecida a NPL, o Plano Nacional de Contingência estabelece os procedimentos e standards a seguir para responder ao abandono de substâncias perigosas no local em causa que se podem traduzir em medidas de curto prazo, para aliviar danos imediatos, e medidas de longo prazo, medidas que pretendem ter um carácter mais permanente. Bradford F. Whitman, Superfund Law and Practice, A Handbook on Comprehensive Environmental Response Compensation and Liability Act and Cleanup Laws of New Jersey, Alibaba, EUA, 1991, pp. 50ss.
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Os perigos futuros para o ambiente podem, também, ser abrangidos por este regime enquanto “threat of release”. Na decisão proferida no caso New York v. Shore Realty Corp138 entendeu-se que a
ameaça de despejo incluía o armazenamento de substâncias tóxicas em tanques corroídos e deteriorados, a falta de experiência do proprietário no manuseamento de resíduos perigosos e a falta de licenciamento da actividade139. Esta “ameaça” encontra-se consagrada na Directiva na figura
do dano iminente.
138 Shore argued that §107(a)(1) should be read to cover only owners and operators at the
time of disposal. However, the Appellate Court rejected this argument and found that §107(a)(1) unequivocally imposes strict liability on the current owner of the facility, without regard to causation [759 F.2d 1032 (2d Cir. 1985)].
139 John S. Applegate e Jan G. Laitos, Environmental Law, RCRA, CERCLA and the Management of Hazardous Waste, Foundation Press, Thomson West, 2006, p. 214.
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