3. FORA: A NECESSIDADE DO REAL
3.2. Loucura social
No subcapítulo anterior, comentamos que a loucura delirante e a internação no hospício fazem parte do conjunto de fatos autobiográficos que Renato Pompeu internalizou no romance Quatro-Olhos. A partir de agora, iremos aprofundar a análise da ficcionalização dessas duas ocorrências a fim de mostrar que, por meio da dinâmica interna dos loucos no hospício, a narrativa consegue promover a redução estrutural do Brasil submetido à ditadura. Nesse contexto, veremos os internos do hospital psiquiátrico serem comparados à população brasileira, sendo que essa relação orientará a nossa análise. Diante dela, pretendemos reafirmar a tese que buscamos comprovar anteriormente: mesmo partindo de uma necessidade autobiográfica de retratar a realidade, a obra escrita por Pompeu não se limita a buscar um “retrato fiel” do vivido, pelo contrário, ficcionaliza conscientemente os fatos experienciados de forma a construir uma obra dotada de um sentido universalizante.
Assim, o narrador do romance apresenta uma vontade insaciável de escrita que, coincidentemente, é semelhante ao desejo do autor da obra em confessar coisas de sua vida. Porém, por meio das referências alegóricas do hospício vê-se que sua experiência pessoal foi reformulada ficcionalmente para dar ênfase a um estado de degradação e
violência que atingia toda a sociedade vítima da ditadura. Para isso, a narrativa da segunda parte do romance insere, em alguns momentos, um narrador que assume ser um dos internos do hospício. Essa mudança no foco narrativo, apesar de sutil, é crucial para a compreensão do romance. Ela nos conduz a compreender a matéria narrada não apenas como uma história sobre loucos, mas também como uma história contada integralmente a partir da perspectiva da loucura: “Os pés avançavam (...) em meio a amontoados orgânicos ali lançados por alguns de nós mais descrentes das vantagens” (POMPEU, 1976, p. 139, grifo nosso).
Refletindo sobre essa figura do louco no romance, convêm destacar que, conforme lembra Luzia de Maria (2005), a loucura acompanha a história da humanidade desde muito tempo, mas dependendo da época a sua representação ocorre de maneira distinta. Assim, os primeiros registros, ainda na antiguidade com as tragédias gregas, apontam que o louco era visto como alguém possuído pelos deuses, sendo ao mesmo tempo maldito e sagrado. Já durante o romantismo, a loucura passa a ser associada à genialidade que é fruto do contato violento com a morte. Diante dessas diferentes perspectivas, podemos então questionar: qual a maneira como o romance de Renato Pompeu representa a loucura? A resposta para essa questão requer que revisitemos alguns textos literários inauguradores da percepção moderna acerca das relações humanas.
A partir de Shakespeare e de Cervantes, que inclusive viveram na mesma época, a loucura passa a ser objeto de novas e interessantes interpretações. Louco é o homem que, ao se sentir um estranho diante da realidade presente, afasta-se do mundo e com isso consegue identificar com mais acuidade as suas contradições. Ao tratar da intertextualidade no capítulo anterior, ressaltamos que a aproximação de Quatro-Olhos com Hamlet e Dom Quixote ocorre por meio do uso que esses textos fazem da metaficção. Porém, como vimos, é possível perceber também a loucura como uma característica comum a essas obras, apesar de terem sentidos um pouco diferentes. Em Dom Quixote, inicialmente, a loucura do protagonista era tomada pela via cômica, sendo que não assumia qualquer caráter de um “saber” especial. Apenas no século XIX, a loucura de Quixote passa a ser vista como uma capacidade de enxergar o mundo de modo mais sutil. Já em Hamlet, a interpretação da loucura do protagonista é mais frequentemente associada a sua capacidade de desvelar a insensatez de certos comportamentos sociais costumeiramente aceitos como algo normal.
Nesse ponto, à semelhança dos textos clássicos,18 alguns comportamentos do protagonista de Quatro-Olhos chegam a ser risíveis. Entretanto, o que chama mais atenção na sua loucura é o seu caráter iminentemente desalienador. No romance, a temática da loucura serve principalmente para que se descortine aos olhos do leitor um contexto de repressão ignorado pelo senso comum. Revela-se por meio da loucura a hipocrisia de uma sociedade que, negando-se a reconhecer sua própria violência, enclausura os direitos de quem contesta a realidade. O hospício torna-se, assim, a maneira autoritária de se impor uma suposta normalidade ao mundo, pois vemos que, pelo menos na ficção, o louco costumeiramente nasce “de uma inadequação ao real, nasce da sensibilidade que aguça, aos seus olhos, as tremendas contradições que se disfarçam num mal-cosido retrato dessa sociedade a qual ele pertence” (MARIA, 2005, p. 281).
Nesse contexto de análise, após comentar diversas obras da literatura nacional, inclusive o romance Quatro-Olhos, Luzia de Maria aponta que a violência resultante da ação cerceadora da liberdade pessoal é uma característica constante na ficção que tematiza a figura do louco. Nas suas palavras:
Os textos literários que utilizam a loucura como tema fazem exatamente a leitura desta violência e procuram resgatar, em meio à avalanche que soterra o lado humano de cada um (...) o sentido verdadeiro da solidariedade que deveria permear as relações dos homens. E porque a figura do louco traz decalcada na fronte o horror da agressão (...), torna-se assim o personagem ideal para se fazer a denúncia do desrespeito e do ultraje ao ser humano que são postos em prática em tempos de autoritarismo. (MARIA, 2005, p. 306)
Portanto, são as violências físicas e simbólicas do mundo que movem a loucura nos personagens de ficção. Como vemos em romances como Quatro-Olhos, a existência desses personagens, com suas atitudes questionadoras da realidade, funcionam como veículo de denúncia dos absurdos que foram praticados contra eles e que são aceitos passivamente pela maioria da sociedade. Na obra de Renato Pompeu, a denúncia à absurda ditadura instaurada no Brasil se faz por meio da condensação de sua realidade
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Vale ressaltar que a loucura presente no romance de Renato Pompeu não só dialoga com esses clássicos da literatura mundial. Ela está em sintonia também com alguns autores importantes da literatura brasileira, especialmente as figuras de Machado de Assis, responsável pela criação dos emblemáticos enredos de Quincas Borba (1891) e O alienista (1882), e Lima Barreto, autor do utópico protagonista de Triste fim de Policarpo Quaresma (1915).
no pequeno espaço do hospício que compõe a segunda parte do romance. Trata-se, nesse caso, de um processo de alegorização, uma vez que:
A alegoria constitui (...) um discurso que, como revela a etimologia do vocábulo, faz entender outro ou alude a outro, que fala de uma coisa referindo-se a outra, – uma linguagem que oculta outra, uma história que sugere outra. Empregando imagens, figuras, pessoas, animais, qualidades ou entidades que compõe o outro. (MOISÉS, 2004, p. 14)
Partindo dessa definição, podemos perceber que a história dentro do hospício construída pelo romancista funciona como uma miniatura alegórica do Brasil autoritário. Assim, a alegoria torna-se a figura de linguagem adequada a permitir, por meio de um processo de redução estrutural, que toda a sociedade seja representada a partir da dinâmica inter-relacional no interior da instituição psiquiátrica. Em outras palavras, o discurso do narrador na segunda parte do romance sobre as relações hierárquicas dentro do hospício ajudam o leitor a compreender a organização social que foi imposta fora dele. Assim, o hospício passa a ter um duplo sentido: referindo-se não apenas de maneira literal ao ambiente onde os loucos são internados; mas também, de maneira figurada, a todo um país que se apresenta mentalmente desestabilizado.
Diante dessa perspectiva, segundo a qual a estrutura do hospício mimetiza a própria sociedade regida pelo autoritarismo, devemos agora elencar as duas principais características responsáveis por sugerir essa relação: a primeira se apresenta por meio dos internos do hospital psiquiátrico. Eles se mostram resultado de uma sociedade doente, haja vista que – observando suas descrições – visualiza-se uma gama diversa de indivíduos mutilados tanto fisicamente como psicologicamente; já a segunda característica, provavelmente a mais importante, se observa a partir das lutas políticas que são travadas dentro do hospício. Elas, inegavelmente, refletem os grupos sociais que disputavam o poder na época.
Inicialmente, vamos analisar os internos que vivem no hospício e, para isso, nos baseamos no estudo sobre personagens realizado por Antonio Candido (2002). Nesse sentido, a maioria dos loucos hospitalizados é apresentada planificadamente, uma vez que se mostram seres íntegros e com características facilmente delimitáveis. Dessa forma, eles podem ser inseridos dentro de um campo maior que, como dissemos, é formado por um coletivo de indivíduos fisicamente ou mentalmente fragilizados. Alguns deles são citados apenas vagamente, já outros recebem um maior detalhamento.
Entretanto, nos dois casos não há aprofundamento psicológico, fazendo com que o leitor apreenda suas psicologias facilmente.
A respeito desses personagens, percebe-se que a maioria deles traz consigo traumas internos causados pelo mundo exterior de onde vieram. Alguns sofrem com deficiências motoras e outros com limitações cerebrais. O real nome deles não é conhecido, pois dentro do hospício receberam apelidos dos outros internos de acordo com suas características físicas ou suas atitudes comportamentais. Na ala masculina do hospital, entre esses personagens facilmente caracterizáveis, destacam-se as figuras de Bastiana, de Estanislau Descadeirado e do Aleijado. Todos eles, apesar de alguns estereótipos, são caracterizados de maneira tragicômica.
Bastiana é o louco que inaugura a segunda parte do romance. Ele recebeu tal apelido porque costuma passar as noites gritando esse nome feminino. Aparentemente, essa é a única palavra que ele consegue pronunciar e, apesar de toda a ênfase, nada é explicado sobre a existência dessa mulher ou sobre os motivos de seu distanciamento em relação ao personagem; já Estanislau Descadeirado, por sua vez, é esperto e respeitado pelos outros internos. Ele recebeu esse nome por causa de sua deficiência física que o leva a se arrastar pelo chão. Tal característica é corroborada pela sua personalidade: sempre preso à realidade material, seja fora do hospício quando pedia esmolas em feiras ou dentro dele participando ativamente da disputa por cigarros. Por fim, temos a curiosa figura do Aleijado. Ele é um dos responsáveis pela distribuição ilegal de cigarros, mas ao mesmo tempo também trabalha como informante dos médicos que dirigem a instituição.
Além desses, alguns outros personagens masculinos também são citados, mas com bem menos recorrência. São eles: Alcaide, Sorriso, Sem-Nome, Gordinho Sistemático, Assassino, Regismundo, Onestaldo, Esperidião, Charolos, Antenor, Caolho, Repentista e Messias. Entre esses indivíduos, alguns cometeram crimes no passado, outros convivem com alucinações diárias, mas há também aqueles mentalmente mais estáveis que tentam fazer amizades e ajudar nas atividades do hospital. Apesar de serem superficialmente apresentados, eles servem para compor uma diversidade de pessoas que busca alusivamente dar conta dos diferentes tipos comportamentais que compõe o Brasil. Dessa forma, mesmo aparecendo poucas vezes, eles têm uma importância crucial dentro do hospício, pois geralmente tem a função de auxiliar ou até mesmo contrapor as ações de outros personagens mais importantes.
Ainda sobre os personagens, é preciso destacar as figuras de Domitila e Xírlei, as duas únicas da ala feminina do hospício que são nomeadas no romance. Domitila trabalhou como secretária, mas, certo dia, sem muita explicação, abandonou a função para viajar pelo mundo sem rumo. No hospício, ela parece ter encontrado paz. Costuma se vestir de maneira exibida, como quem vai para uma festa, além do que gosta de participar das diversas atividades desenvolvidas dentro da instituição. Já Xírlei, por sua vez, apresenta uma variedade maior de características. Ela foi operária de uma fábrica na qual o excesso de trabalho era constante. Provavelmente, também foi alvo de abuso por parte dos superiores, uma vez que segundo o narrador ela “apenas não suportava os dedos do gerente” (POMPEU, 1976, p. 149). Todos esses problemas envolvendo o trabalho somam-se a crises familiares e terminam provocando nela um estado depressivo que culminou com a internação.
Xírlei representa no romance o resultado de uma sociedade ideologicamente mecanizada, sem espaço para a reflexão individual. Dessa forma, mesmo no hospício, é ela quem comanda os trabalhos manuais e a redação do jornal: “Xírlei precisava sempre ter o que fazer, do contrário começava a pensar em si própria e então mergulhava dentro de si, perdida a pensar na morte” (POMPEU, 1976, p. 170). Ademais, no espaço restrito do hospital, muitos dos internos buscavam o seu apreço: “Mas ela não via ninguém, via apenas o trabalho a ser feito; seus olhos desfilavam mansos a medir qualidades e assim só discerniam abstrações, mãos que desenhavam, dedos que datilografavam, braços que moviam o mimeógrafo” (POMPEU, 1976, p. 152). O uso da metonímia nesse trecho serve bem para retratar a personalidade utilitarista de Xírlei. Moldada por uma sociedade que produz em série e busca o resultado a todo custo, o trabalho é para a personagem uma obsessão e as pessoas próximas são analisadas como objetos que podem ou não servir. Dessa forma, com um pouco mais de nitidez que os personagens citados anteriormente, por meio da caracterização de Xírlei, associam-se de maneira direta o modelo de desenvolvimento da sociedade moderna ao constante desequilíbrio mental que nos aflige.
Por fim, abordados esses personagens que, mesmo na sua superficialidade, tem importância vital para o andamento da obra, deteremos nossa atenção no par antagônico de Quatro-Olhos. Trata-se de Opontolegário, um sujeito metido a filósofo que recebeu esse apelido em função da maneira como seu nome foi escrito na ficha médica. Ele é um personagem cheio de nuances que pode efetivamente ser considerado como complexo. Por isso, antes de o analisarmos mais detidamente, é preciso registrar que o conceito de
personagem complexo que utilizamos aqui, proposto por Antonio Candido, se baseia na ideia de que:
A força das grandes personagens vem do fato de que o sentimento que temos da sua complexidade é máximo; mas isso, devido à unidade, à simplificação estrutural que o romancista lhe deu. Graças aos recursos de caracterização (...) o romancista é capaz de dar a impressão de um ser ilimitado, contraditório, infinito na sua riqueza; mas nós apreendemos, sobrevoamos essa riqueza, temos a personagem como um todo coeso ante a nossa imaginação. (CANDIDO, 2002, p. 59) Assim, a profundidade de Opontolegário se apresenta no romance por meio da maneira contraditória com a qual ele se relaciona com a realidade e com as pessoas. No decorrer da segunda parte do romance, vemos que ele alterna entre momentos de intragável pedantismo e outros de crítica consciente. Fazendo, dessa forma, com que o leitor tenha sentimentos ambíguos sobre ele. Comparativamente, semelhante a Quatro- Olhos, Opontolegário busca algo transcendente que dê sentido a sua vida, porém cada um deles assume uma posição distinta no que se refere à micropolítica19 interna do hospício. Enquanto Quatro-Olhos busca silenciar-se e interferir o menos possível na realidade que o cerca, Opontolegário quer participar e se sobressair em tudo que faz mesmo porque nutria “verde desprezo pelo resto da raça humana que não fosse ele mesmo” (POMPEU, 1976, p. 144). A personalidade deles reflete, portanto, a maneira distinta como a ditadura foi encarada pela sociedade: para alguns, momento em que cresce o medo; para outros, época de novas oportunidades.
Nesse contexto, Opontolegário se apresenta como um sabichão que acredita ser um homem superior em meio a um mundo de broncos. Ele ainda se diz capaz de dialogar com o divino e defende teorias relacionadas a Jung e Heidegger. Porém, toda essa postura é na verdade uma falsa erudição que atinge níveis tão absurdos ao ponto de torna-se jocosa. Assim, alguns momentos risíveis ocorrem não apenas quando ele enxerga na automutilação de um interno a origem de uma nova civilização, mas também quando “Opontolegário notou que sua teoria entrava em contradição com os fatos e resolveu ignorar os fatos” (POMPEU, 1976, p. 165).
Para manter seu status de superioridade, o personagem busca a todo instante atender as vontades dos dirigentes do hospício, pois almeja com isso subir na hierarquia interna da instituição. Tamanho é seu interesse pelo poder que nunca se “conseguia
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O termo micropolítica, nesse contexto, se refere às relações de poder estabelecidas no interior de uma comunidade e as posições assumidas pelos atores sociais que fazem parte desse ambiente restrito.
compreender a ânsia de Opontolegário em subir na hierarquia dos pacientes, sua teima em tratar os médicos como iguais e na verdade inferiores, seu desejo de manter boas relações com a administração do hospital” (POMPEU, 1976, p. 158). Analisando essa caracterização, podemos até imaginar que estamos diante de um personagem bem delimitado. Porém, em outros momentos, que se enquadram na contradição típica dos personagens complexos, vemos que Opontolegário é capaz de fazer análises agudas da realidade e propor reflexões interessantes. Exemplo disso é o seguinte trecho, no qual ele avalia que o ser humano age apenas em defesa dos seus próprios interesses: “desandou a defender a tese de que só poderia viver em autêntica santidade um ateu, que nada esperasse em troca de fazer o bem, mas mesmo esse ganharia a paz de espírito e assim no fundo suas motivações também seriam egoístas” (POMPEU, 1976, p. 171).
Nesse mesmo campo das contradições, o que se vislumbra por trás de toda sua áurea de superioridade é um indivíduo fragilizado que usa todas as suas forças para criar uma imagem fantasiosa de si mesmo. Prova disso é que, em uma visita familiar, após a esposa aventar a possibilidade de ele ser liberado do hospital, o narrador explica a recusa de Opontolegário em sair: “ele lá fora não era nada, o mundo se recusava a admitir sua grandeza” (POMPEU, 1976, p. 159). Assim, em momentos pontuais da narrativa é possível enxergar na profundidade interior do personagem um homem amedrontado que se nega a voltar ao mundo exterior e abrir mão de suas ilusões.
Em conclusão a essa comparação esquemática, do ponto de vista psicanalítico, podemos dizer que: enquanto Quatro-Olhos apresenta um quadro de melancolia, não conseguindo superar seus traumas e não querendo intervir na realidade; Opontolegário apresenta um quadro de mania, marcado pela euforia elevada de sua fala constante e pelos delírios megalomaníacos envolvendo suas teorias. Os dois personagens formam um par antagônico de difícil apreensão. Não apenas pelo que já foi exposto, mas também porque, conforme ainda iremos detalhar no decorrer de nossa análise: por um lado, Quatro-Olhos irá ser obrigado a interferir na sociopolítica internada do hospício; e, por outro, Opontolegário começará a questionar seu apoio cego aos médicos do hospício.
Mas agora, feita essa análise dos tipos e das características dos personagens que compõe a segunda parte do romance, nos deteremos no conflito entre grupos de interesses que ocorre dentro do hospício e que serve de alegoria para a sociedade brasileira dos anos de chumbo. Para isso, devemos começar salientando que, na segunda parte do romance, predomina o capítulo inicial onde o hospício é apresentado na
estrutura circular de um dia. Tudo começa com os gritos de Bastiana no início da manhã e termina com o reinício desses gritos já no fim da noite e começo da madrugada. Curiosamente, vale observar que essa circularidade trazida pelo capítulo é semelhante à circularidade presente no enredo do próprio romance, uma vez que do início ao fim ele sugere uma atividade infindável de reescrita.
No caso do capítulo inicial que estamos analisando, durante todo um dia, ele apresenta detalhadamente o cotidiano dos internos dentro do hospício. Inicialmente, destaca as discussões no refeitório da manhã e as tentativas de alguns loucos em visitar a outra ala do hospício, composta por mulheres; em seguida, é descrito o horário do almoço, momento no qual os internos recebem a sua medicação e, à tarde, alguns ficam em seus quartos enquanto outros tomam sol no pátio; finalmente, vem o horário do