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MÁGICA DE VERDADE

No documento DE SÃO PAULO (páginas 68-72)

REAL MAGIC

Tim Etchells

INGLATERRA, 2016 | 1h40min | CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA 16 ANOS

Mágica de Verdade faz referência a um game-show: uma pessoa vendada depara-se com uma questão impossível de depara-ser respondida, reproduzida ao longo de toda a encenação. Ao som de reincidentes aplausos e risadas pré-gravadas, três intérpretes – Richard Lowdon, Claire Marshall e Jerry Killick – estão no palco nesse jogo de desconexões, recorrências e falta de saída, que questiona o absurdo da condição humana no mundo atual. O espetáculo parte de um contexto de complexas questões políticas, de uma sociedade da pós-verdade, de situações de corrupção e de manipulações da mídia, entre outros fatores, para evidenciar um sistema que gera inércia e repetição.

Mágica de Verdade ilustra a nossa inabilidade de transformar os sistemas de poder. Ao invés de mudanças progressivas, estamos sujeitos à reinvenções da mesma dinâmica de poder. Embora os artistas troquem de papéis, eles são incapazes de se libertar da hierarquia que rege o seu relacionamento, e que é construída a partir das perguntas e das respostas;

dos vencedores e dos perdedores.

Em momento algum os competidores desobedecem às instruções dadas pelo é incapaz de progredir para além do interminável ciclo de respostas erradas.

Nesse sistema, todos são perdedores.

Mágica de Verdade. Enquanto as coisas permanecerem como estão, não haverá vencedores. Apenas fracassos e respostas erradas. O ciclo continua.

LEE ANDERSON, Exeunt Magazine

[...] os atores encontram-se aprisionados em um ir e vir cósmico, aparentemente incapazes de parar de repetir as suas ações, até caírem em exaustão - ou nos deixarem exauridos. [...] Mágica de Verdade é uma renderização irritante, estimulante, terrível, chata e imaginativa de um jogo manipulativo. E ninguém nunca ganha.

ELIZABETH VINCENTELLI, The New York Times

DIREÇÃO Tim Etchells

CRIAÇÃO E ELENCO Jerry Killick, Richard Lowdon e Claire Marshall

COLABORAÇÃO À CRIAÇÃO Robin Arthur e Cathy Naden

ILUMINAÇÃO Jim Harrison DESIGN Richard Lowdon

GERÊNCIA DE PRODUÇÃO Jim Harrison ASSISTÊNCIA AO PROJETO Anna Krauss

TÉCNICOS DE SOM Greg Akenhurst e Doug Currie MÚSICA ELETRÔNICA E EDIÇÃO DE SOM John Avery LOOPS Tim Etchells

‘GRAVE’, A PARTIR DE TELEMANN FANTASIA NUMBER 1 EM BE-FLAT MAJOR Aisha Orazbayeva PRODUÇÃO Forced Entertainment

ESTE ESPETÁCULO É APOIADO PELO BRITISH COUNCIL HISTÓRICO

Liderada pelo artista e escritor Tim Etchells, a Forced Entertainment (FE), sediada em Sheffield, na Inglaterra, é uma das companhias de teatro mais influentes do mundo, há mais de 30 anos circulando em diversos países. Reconhecida pelo caráter coletivo e colaborativo de trabalho, é formada pelos performers Robin Arthur, Claire Marshall, Cathy Naden, Terry O’Connor e Richard Lowdon, núcleo central que, ao longo dos anos, tem sido ampliado pela contribuição de diversos artistas. Com uma abordagem interdisciplinar, as criações reúnem performance, mídias digitais, vídeos e instalações. Em sua trajetória, estão obras como The Coming Storm, The Last Adventures, The Notebook, Out of Order, entre outras.

Forced Entertainment foi o vencedor do The International Ibsen Award 2016, considerado o

“Prêmio Nobel” do teatro.

FOTOS HUGO GLENDINNING

ENTREVISTA

POR SÍLVIA FERNANDES

Você poderia comentar o processo colaborativo de seu grupo, o Forced Entertainment, e analisar o modo como artistas com diferentes formações, visões e propostas se associam em uma criação?

O começo do trabalho é sempre uma conversa sobre ideias, imagens e textos, além de uma reflexão sobre o que nos interessa no momento.

Na sequência, improvisamos. O objetivo é dar vida às ideias na sala de ensaio, buscar algo que nos surpreenda. Às vezes, apenas uma indicação sutil ou uma simples sugestão dá origem ao espetáculo ou a um de seus momentos-chave.

Assim que temos algum material levantado, refletimos sobre a estrutura, sobre como poderíamos encaixar os fragmentos que criamos.

Na companhia, algumas funções são específicas, como a do cenógrafo e a do figurinista, por exemplo. E eu dirijo e geralmente me ocupo do texto. Mas nem sempre escrevo. Às vezes, apenas dou feedbacks enquanto conduzo as improvisações. Todos na sala de ensaio podem colaborar. Ouço a diversidade das vozes e tento perceber em que ponto estamos. O trabalho se aprimora quando há diferentes vozes, ideias e a possibilidade de inspirar, contradizer e questionar uns aos outros.

A companhia consegue unir performance, mídias digitais, vídeos e instalações na criação de um teatro expandido. A experimentação na fronteira das disciplinas é necessária para a imersão na vida urbana contemporânea?

O Forced Entertainment realiza um experimento de longo prazo, ou uma investigação coletiva sobre as possibilidades do teatro e da performance. Que caminhos somos capazes de percorrer? Que diálogos e experiências conseguimos oferecer ao público através desses formatos? Acima de tudo, somos instigados pelas diversas maneiras de nos conectar com os espectadores. Experimentar e reinventar o formato teatral vem do desejo de criar uma conexão capaz de romper as defesas e os padrões de percepção de quem assiste aos nossos espetáculos.

As desconexões, as repetições e a falta de saída em Mágica de Verdade se aproximam de um absurdo contemporâneo. Beckett é uma influência direta para o Forced Entertainment?

Beckett está presente, é claro, mas não o considero uma influência direta. A inspiração é mais no sentido de aprofundar nosso próprio caminho. Mágica de Verdade faz referência a um game show, talvez a um número de cabaré. Nessa peça, uma pessoa vendada depara-se com uma questão impossível. Há uma percepção de que será preciso algum tipo de leitura de pensamento!

Mas essa situação é também uma armadilha: os atores voltam sempre ao mesmo ponto, parecem não conseguir escapar. Não encontram (ou quem sabe não queiram) uma libertação. Durante a criação da peça, havia a campanha do Brexit e a nomeação de Trump pelo Partido Republicano.

Nós não planejamos falar sobre esses temas.

No documento DE SÃO PAULO (páginas 68-72)