FINIR EN BEAUTÉ
Mohamed El Khatib
FRANÇA, 2014 | 50min | CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA 10 ANOS
Em cena, uma situação universal, mas totalmente privada: a morte da mãe do diretor e autor Mohamed El Khatib. A partir de entrevistas, e-mails, textos, documentos administrativos, memórias, lugares e outras fontes “reais”, Mohamed El Khatib (re)constrói, sozinho no palco, a história do luto, da descoberta inesperada do câncer ao falecimento de sua mãe, em 2012. Durante a apresentação, ele compartilha os momentos de dor, fala sobre a família e os irmãos, e sobre o amor eternizado pela figura materna. Esse material íntimo extravasa a singularidade do indivíduo e passa a ser comum, de todos os que, em algum momento, partilham o sentimento de luto. O espetáculo foi criado em outubro de 2014, no Festival Actoral, em Marseille, na França.
questões neste espetáculo sobre o "viver o luto", nem sobre a "resiliência", esses terríveis estados, que geram a ilusão de que a morte de um ente querido pode vir a ser administrada como uma questão a ser resolvida, e que é possível facilmente remediar os que seguem vivos. Mohamed El Khatib vai direto ao ponto: sua mãe está morta e ele sente a sua falta.
BRIGITTE SALINO, Le Monde
suas palavras se transformem em pequenas pérolas lançadas sobre uma sepultura. Não para viver o luto, mas para saudar quem se foi, para não deixar de reverenciar. O teatro como um refúgio onde as sombras, de qualquer natureza, têm voz ativa. Partir com Beleza é, desse ponto de vista, a história de um começo.
ALEXANDRE DEMIDOFF, Le Temps A morte de sua mãe, em decorrência de uma doença hepática, não é extraordinária, mas a observação e o dom da narrativa de El Khatib lhe permitem pinçar as sutis particularidades de sua experiência - o humor absurdo e o dolorosamente trágico -, gerando um resultado profundamente comovente.
KATIE PELLETIER, Portland Mercury
TEXTO, CONCEPÇÃO E INTERPRETAÇÃO Mohamed El Khatib
AMBIENTAÇÃO VISUAL Fred Hocké AMBIENTAÇÃO SONORA Nicolas Jorio PRODUÇÃO/DISTRIBUIÇÃO Martine Bellanza PRODUÇÃO Zirlib
COPRODUÇÃO Tandem Douai-Arras/Théâtre d’Arras, Montévidéo – créations contemporaines (Marseille), Théâtre de Vanves, Centre Dramatique National Orléans/Loiret/Centre e Scène Nationale de Sète et du Bassin de Thau
- Apoiado por Association Beaumarchais – SACD;
Festival Actoral e Fonds de dotation Porosus
- O texto foi escrito com o apoio do CnT e da Association Beaumarchais – SACD. Foi publicado na França pela Les Solitaires Intempestifs e pela L’L édition, na Bélgica.
- Zirlib é apoiado pelo Ministère de la Culture (France) – DRAC Centre Val de Loire, Région Centre-Val de Loiree e ville d’Orléans, France.
ESTE ESPETÁCULO É APOIADO PELO INSTITUT FRANÇAIS PARIS, PELO INSTITUT FRANÇAIS DU BRÉSIL E PELO CONSULADO GERAL DA FRANÇA EM SÃO PAULO
HISTÓRICO
Mohamed El Khatib é um autor, diretor e performer marroquino radicado na França.
Em 2008, foi um dos cofundadores do coletivo de arte Zirlib, subsidiado pelo Ministère de la Culture – Drac Centre-Val de Loire e apoiado pela Région Centre-Val de Loire, e que conta, ainda, com o suporte da cidade de Orleans. Com Partir com Beleza, ganhou o Grande Prêmio de Literatura Dramática da Academia Francesa. No seu repertório há trabalhos como Moi, Corinne Dadat, que leva ao palco a faxineira de uma escola em Bruges, e C’est la Vie, com o qual levou ao palco dois atores que tinham perdido os seus filhos. Mohamed El Khatib é artista associado ao Théâtre de la Ville, em Paris, ao Théâtre National de Bretagne e à Scène Nationale, de Beauvais.
FOTOS MOHAMED EL KHATIB E ANTHONY ANCIAUX - FONDS POROSUS
Além de dramaturgo, diretor, ator, cineasta, jornalista e sociólogo, você faz parte do coletivo ZIRLIB, criado em 2008. Você poderia descrever as propostas do grupo e como elas aparecem em seu trabalho?
No campo das artes performáticas, o ZIRLIB considera o teatro um espaço de cruzamento entre diversas linguagens artísticas - artes plásticas, cinematográficas, coreográficas, eletrônicas, sonoras… Sistematicamente, cada questão não só é analisada a partir de uma abordagem transversal como também parte sempre de um encontro — com uma faxineira, um agricultor, um eleitor do [partido] Frente Nacional, um marinheiro… Após os encontros, nós colocamos em prática os protocolos de pesquisa, e estes dão origem a formatos imediatamente assimiláveis. Às vezes espetáculos, outras vezes filmes, livros ou instalações. A forma é inevitavelmente uma consequência do tema.
No meu trabalho, a marca do coletivo está no caráter multidisciplinar, na liberdade dos formatos (no espaço e no tempo) e na possibilidade de trabalhar muito tempo com um grande número de pessoas, a fim de criar projetos intimistas, ou grandiosos afrescos populares, como o meu projeto Stadium, com 60 torcedores de futebol, por exemplo.
Você costuma trabalhar com não profissionais
em cena, como em , em que a
protagonista é a funcionária de limpeza de uma
escola, ou Stadium, em que 60 torcedores de futebol participam do espetáculo. Por que esses encontros são importantes para sua criação?
Que histórias de vida emergem desse contato? E como o teatro transforma essas vidas?
O fundamento do meu trabalho são os encontros.
Se não há encontro, não há espetáculo. A arte dramática é uma prática estrangeira para nós.
O que fazemos tem relação com encontrar pessoas e depois procurar recriar condições para que esses encontros sejam vivos e possam ser compartilhados com o público. As pessoas não são intercambiáveis como os atores. Nós trabalhamos o mínimo possível com elas e, de acordo com o modelo “ready-made”, tentamos não interferir no “estado original” e deslocá-lo para a cena de teatro para, em seguida, observar os atritos que surgem daí. Fora isso, horas e horas de entrevistas constituem a base documental de nossa pesquisa, e nutrem nossas convicções.
Em pequena escala, meu desejo é que nossos projetos transformem aqueles que passam por eles. Eu quero que o teatro seja um espaço de reparação, de reconciliação das pessoas com a arte e, sobretudo, da arte com a vida. Além disso, nossa prática teatral torna obsoletos os códigos do teatro, porque eles não correspondem mais a nenhuma realidade social. São fruto de uma conexão confortável que cultiva um drama burguês. A arte vive melhor em bordéis do que em museus e cabe a nós tornar nosso teatro mais feliz, mais acolhedor e mais próximo das questões que atravessam a sociedade.