2.1 – Aspectos iniciais
Assim como apresentado no capítulo anterior, dentro do contexto agroecológico há uma prevalência de abordagens relativas à produção agrícola frente ao consumo nos entendimentos hegemônicos inseridos no debate sobre a transição agroecológica. Ou seja, as discussões partem da produção, no sentido de incorporar aspectos sustentáveis à agricultura de molde convencional. As abordagens em torno do consumo, quando ocorrem, são realizadas enquanto consequência de ações já iniciadas na produção agrícola, como por exemplo, por meio da necessidade de escoamento de alimentos produzidos no campo. Nesse sentido, a relação produção e consumo torna-se hierarquizada.
Entretanto, dentro de um grupo de CSA, tanto a cadeia de abastecimento alimentar quanto as relações de produção e de consumo são compreendidas de outra forma, já que a proposta do grupo é conceber uma comunidade que não somente financie a produção agrícola, como também compartilhe dificuldades e benefícios do campo. Sendo assim, consumidores e gestores tornam-se também agricultores e responsabilizam-se pela produção agrícola, consumidores e agricultores transformam-se em gestores e comprometem-se também com o processo de distribuição de alimentos. Desta forma, o modelo de grupo de CSA, a priori, apresenta indícios de que a relação produção e consumo seria entrelaçada e não hierarquizada, sendo essa, não prevista na abordagem consolidada da transição agroecológica.
Conforme comentado anteriormente, diversas pesquisas aprofundam o debate da transição agroecológica, a partir de seu entendimento hegemônico, dentro da perspectiva da produção agrícola. Contudo, como seria observar um grupo de CSA, onde as relações produção e consumo se embaralham, sem prender-me a esta perspectiva hegemônica e consolidada da transição? Para responder essa questão, aproximo-me de alguns entendimentos do consumo advindos de diversos campos disciplinares, os quais, contribuem para outros olhares sobre o consumo e em consequência para esse debate, no contexto da transição agroecológica. Assim,
quais seriam os mecanismos básicos da lógica do consumo e quais as contribuições da sociologia e antropologia do consumo para essa discussão?
Neste capítulo intenciono inserir-me no debate referente a algumas abordagens do consumo advindas de outros campos teóricos, afim de refletir sobre o “consumo” por meio de outras perspectivas e contribuir com essa discussão dentro do campo da agroecologia. Início apresentando o entendimento de mercados dentro do campo da economia. Realizo também uma discussão sobre o mercado dentro da perspectiva sociológica, a partir de elementos da sociologia econômica e da nova sociologia econômica, e da percepção desse enquanto uma construção social. Também, abordagens sobre algumas possíveis compreensões sobre a mercadoria. Então, apresento alguns entendimentos em torno da perspectiva do consumo, na intenção de incorporar a complexidade desse debate. Termino esse capítulo com os conceitos e modalidades sobre as redes alimentares alternativas, grupos de consumo responsável e grupos de CSA.
A caminhada por este capítulo foi pensada a fim de trazer-me elementos que possam contribuir com meus olhares sobre o campo, possibilitando outras discussões, pouco incorporadas no âmbito da agroecologia e onde o consumo seja compreendido por meio de outros moldes mais complexos.
2.2 –Múltiplos aspectos dos mercados
2.2.1 – Mercado sob a ótica da economia
O campo disciplinar da economia consolidou-se enquanto responsável pela compreensão sobre mercados, principalmente após a estabilização da visão neoclássica17. Abramovay (2004) descreve as mudanças passadas pela economia e pelo entendimento do termo mercado, realizando contextualização histórica e comentando que a economia, em sua abordagem neoclássica, seria compreendida enquanto um campo autônomo, formado por regras e normas que estaria a parte da
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Apesar da existência de outros modelos teóricos econômicos dentro da perspectiva neoclássica, tais como a abordagem institucional, keynesiana, regulacionista, entre outras, o foco aqui será dado para fundamentos gerais da proposta neoclássica, já que esse fundamenta o entendimento básico sobre “mercado” dentro do contexto econômico.
vida social. Consequentemente, o mercado, nesse contexto, seria entendido como uma entidade auto suficiente, que se estrutura a partir de transações e por compras e vendas. Tais ações seriam fluidas e estáveis devido à concorrência, consolidando a ideia de um suposto equilíbrio geral.
Granovetter (2007) afirma que a racionalidade é a grande base para esta corrente teórica. Nesse sentido, a economia seria considerada um campo específico, separado da sociedade onde as transações econômicas passariam a ser regidas por cálculos racionais baseados nos interesses individuais, e não mais por obrigações sociais ou parentais. Assim, produção, distribuição e consumo não seriam influenciados por impactos advindos da estrutura social.
A proposta neoclássica, organizada de 1870 até 1900, não abandonaria a abordagem do mercado auto-regulador, apresentada pelos autores clássicos. Entretanto, configurar-se-ia a partir da reafirmação tanto da perspectiva auto- reguladora quanto auto-equilibrada. Assim, apresentaria a proposta de uma teoria de equilíbrio econômico geral e da utilidade marginal (PRADO, 2001). Nessa proposta, pressupor-se-ia também, a existência de um sistema de preços de mercados, composto por: preços dos bens de consumo, de bens intermediários, de serviços produtivos, de capital e de capital-dinheiro (taxa de juros), onde esses seriam dispostos a fim de obter a maximização da satisfação e/ou da utilidade. Sendo que como fundamento dessa abordagem estaria um indivíduo alheio à relações sociais e que buscaria satisfazer seus interesses (GANEM, 2012).
Nesse sentido, romper-se-ia, parcialmente, à proposta clássica, por meio do tratamento simétrico dado às parcelas de renda. Salários, lucros e rendas seriam determinados, em parte, pela convergência entre demanda e produto, no contexto de equilíbrio geral, igualadas aos “valores dos produtos marginais dos chamados serviços” (PRADO, 2001, p.11). Em fatores de produção estariam enquadrados a força de trabalho, recursos naturais e meios de produção reprodutível (capital físico). As condições marginais representariam a remuneração das classes sociais, as quais são compreendidas enquanto provedoras de serviços (PRADO, 2001). Entre alguns precursores da proposta neoclássica, estão: Carl Menger (MENGER, 1986), na Áustria; Léon Walras (WALRAS, 1986), na Suíça; Stanley Jevons (JEVONS, 1987), na Inglaterra.
Na proposta neoclássica a concepção do valor estaria vinculada à utilidade e riqueza delimitada por meio da escassez, contrariando a proposta clássica sugerida por Marx, por exemplo, que vinculava o trabalho à origem do valor (GANEM, 2012). Nesse contexto, o indivíduo tornar-se-ia um agente que realizaria escolhas a partir da maximização da utilidade, ou seja, ele “busca obter o máximo benefício por unidade de dispêndio de seus recursos escassos” (PAIVA e CUNHA, 2008, p. 15). Assim, todas as suas decisões seriam racionais e tomadas a partir de seu próprio interesse. Entretanto, os autores ressaltam que em nosso cotidiano, não tomamos decisões sobre todos nossos atos de forma racional. Sendo assim, o “Homo economicus” ou “homem econômico racional” deveria ser compreendido enquanto uma idealização, e não como uma representação real. Sendo que:
“homo economicus [...], é um ator econômico virtual que só age em categorias econômicas com objetivos fixos, por exemplo, a maximização dos ganhos como consumidor, maximização do benefício como produtor.” (RESICO, 2012, p. 75).
Dentro da perspectiva neoclássica, o indivíduo seria, além de concebido enquanto um ser que age somente devido à sua racionalidade, também entendido enquanto um sujeito maximizador. Ou seja, iria adquirir bens que lhe proporcionassem a melhor satisfação possível. Assim, por exemplo, um consumidor que se satisfaz consumindo chocolates, teria grande satisfação ao adquirir uma barra de chocolate por semana. Maior ainda seria, se adquirisse duas barras de chocolate no mesmo período, e assim por diante (PAIVA e CUNHA, 2008). Contudo, Daly e Farley (2004) afirmam que esse cenário é regido pela “Lei da utilidade marginal decrescente” , explicando que conforme a satisfação em adquirir um produto é maximizada, ela também decresce. Ou seja, voltando ao chocolate, provavelmente teria um momento em que o consumidor não desejaria comer chocolate, seja por questões de saúde ou por falta de vontade, por exemplo.
Quando a utilidade marginal de um bem é comparada com a de outro, com relação aos valores financeiros, estabelece-se o “princípio da maximização equimarginal”. Assim, sendo, hipoteticamente, se o valor financeiro de uma pizza fosse semelhante ao de um par de sapatos, o consumidor escolheria aquele que lhe proporcionasse maior prazer (DALY e FARLEY, 2004). Nesse sentido, o consumidor
decidiria pelo bem que lhe ofereceria o maior benefício de compra pelo custo que iria investir.
Entretanto o consumidor ao buscar o menor custo pelo maior rendimento, poderia gerar um desequilíbrio na circulação de bens, causando assimetrias entre oferta e procura. Dessa maneira, surge a proposta da teoria do equilíbrio geral, onde em um ambiente descentralizado, formado por atores individuais e racionais, o mercado se auto - regularia (WALRAS, 1986). Léon Walras seria o propositor da Teoria do Equilíbrio Geral. Esse autor sugeriria uma economia pura e matematizada. Assim, pretenderia demonstrar o mercado enquanto estável, sendo possível o estabelecimento de um equilíbrio ótimo para todas as partes (GAMEN, 2012).
Nesse sentido, haveria um preço de equilíbrio que igualaria a demanda efetiva total à oferta efetiva total e os agentes que realizariam a troca teriam suas necessidades satisfeitas da melhor maneira possível (MAZZUCCHELLI, 2003). Conforme Barreiros (2007), no caso de uma mercadoria ser mais demandada, seu preço se elevaria, assim impulsionaria o aumento da produção da mesma. As que fossem menos demandadas, também teriam alterações em sua produção, a qual diminuiria. Tal situação ocorreria até que fosse equilibrada a demanda e a oferta de uma determinada mercadoria.
O entendimento neoclássico garante que o mercado, enquanto um ambiente autônomo, se equilibre a partir de regras e situações geradas dentro de seu próprio contexto. Assim, ele atingiria sua eficiência máxima por meio da utilização eficiente de matéria prima, onde a produção seria máxima e os custos mínimos. Nesse contexto os preços seriam gerados por meio do interesse dos próprios consumidores e seriam equilibrados por meio da concorrência (MEIRELLES, 2010).
Desse modo, o funcionamento do mercado poderia ser compreendido conforme as leis de oferta e demanda. Os consumidores de bens ou serviços seriam reunidos dentro do entendimento de demanda e os vendedores sob a abordagem da oferta. A variação dos preços seria elemento fundamental para compreensão de como demanda e oferta seriam equilibradas nessa perspectiva racionalista (RESICO, 2012). Por exemplo:
“Segundo a lei da demanda, a quantidade demandada de um bem tende a diminuir quando sobe seu preço [...] Ao mesmo tempo, a lei
da oferta estabelece que, em condições semelhantes, a quantidade oferecida de um bem aumenta quando sobe seu preço [...] Por conseguinte, os preços relativamente altos incentivam as empresas a incrementar sua oferta de bens e, paralelamente, desestimulam o consumo” (RESICO, 2012, p. 69-70).
A proposta do equilíbrio parcial, que seria apresentada por Marshall (1982) sugeriria um equilíbrio temporário para mercadorias, já que esse poderia ser alterado por fatores como preço, oferta e demanda. Para o autor, ao haver um ambiente de concorrência perfeita; o preço de produção, a demanda dos consumidores, os aportes tecnológicos, constantes, possibilitariam um equilíbrio parcial que seria configurado a partir da interseção da curva de oferta pela curva de demanda.
Assim como Walras e Marshall, Pareto (1987) também descreve sobre o equilíbrio de mercados. Entretanto, a partir de uma perspectiva diferente dos anteriores. Para o autor, apesar dos mercados tenderem ao equilíbrio, não seria de forma harmoniosa. Contrariando a abordagem de Walras, que sugeriria um equilíbrio ótimo, Pareto sugeriria que esse seria realizado a partir de forças de lutas o qual não necessariamente geraria uma ocasião ótima para todos os agentes envolvidos (BARREIROS, 2007).
A proposta neoclássica ainda influencia e fundamenta o entendimento sobre mercados no contexto atual, contudo, há diversas críticas quanto à perspectiva racionalista incorporada nessa abordagem. Com relação a isso, Resico (2012) coloca que o entendimento sobre o racionalismo de mercado seria uma concepção mecanicista, onde os processos são “pré-estabelecidos por uma relação fixa e invariável de causa e efeito.” (p. 75). Ou seja, ao considerarmos essa abordagem sobre mercados, estaríamos compreendo– os enquanto uma entidade abstrata e inacessível onde as relações seriam sempre determinadas previamente, independentemente de causas e efeitos.
Sendo assim, tal entendimento, referir-se-ia à um modelo hipotético e dedutivo, onde os seres humanos agiriam sempre racionalmente, desconsiderando ações apaixonadas, impulsivas, ambivalentes, contraditórias.
“Estas construções dedutivo-ficcionais, estes “modelos”, não devem ser, porém, o produto último da Ciência Econômica. Eles apenas nos informam como o mundo seria se os homens se comportassem de
forma inteiramente racional. Mas, já sabemos, os homens reais não são integralmente racionais.” (PAIVA e CUNHA, 2008, p. 17)
Granovetter (2007) argumenta que no contexto da economia neoclássica, a sociologia mantinha-se distante dos estudos econômicos e de mercado, já que nessa abordagem as relações sociais não desempenhavam um papel relevante na troca de bens e serviços. Assim, retornando à proposta dessa dissertação, um consumidor ao participar de um grupo de CSA está disposto a financiar uma produção agrícola e compartilhar dificuldades e benefícios do campo, e não simplesmente em satisfazer suas necessidades individuais. Ainda, o mercado, dentro desse contexto, não estaria pautado pela concorrência, mas por uma perspectiva solidária. Sendo assim, seriam necessárias outras compreensões relativas ao mercado e as relações entre consumo (demanda) e produção (oferta) para observar uma CSA. Dessa forma, como seria compreender mercados por meio de uma abordagem onde o racionalismo não é a fundamentação teórica? Quais seriam as contribuições da sociologia e da antropologia ao discorrerem sobre mercados?
2.2.2– Mercado sob a ótica da sociologia e antropologia 2.2.2.1 - Sociologia Econômica
O campo da economia neoclássica sugeriria que as ações de consumo seriam regidas por comportamentos egoístas e utilitaristas, onde o indivíduo buscaria satisfazer e maximizar somente o seu próprio interesse. Entretanto, após seu fortalecimento, estabelecer-se-iam questionamentos referentes a essa configuração estável e racional. Raud-Mattedi (2005) afirma que a sociologia econômica surge no final do século XIX, quanto tornar-se-iam evidentes os limites da teoria econômica, e a partir das contribuições de modelos analíticos da sociologia nos estudos de fenômenos econômicos.
Assim, entre os autores, destaca-se Pareto, Durkheim e Weber. Pareto sugeriria a complexificação das abordagens econômicas; Durkein proporia uma sociologia econômica que poderia tornar-se uma alternativa frente à economia política; Weber daria condições para as contribuições da história (STEINER, 2006). A perspectiva desses autores estaria vinculada à função das instituições na
organização do comportamento de indivíduos, e portanto, na regulação de mercados. Apesar de boa parte das bibliografias reconhecerem a relevância das contribuições de Weber e Durkheim, Steiner (2006) destaca também a significância da proposta de Pareto para esse debate.
“Pareto tem um papel de primeiro plano nessa problemática na medida em que sua contribuição pessoal se situa, simultaneamente, no registro da teoria econômica e no da sociologia econômica. ” (STEINER, 2006, p. 20)
Pareto reconheceria a relevância de combinar os estudos relativos ao comportamento humano aos econômicos. Em “Manual de Economia Política”, o autor deixaria claro sua intensão de incorporar as contribuições das Ciências Sociais ao desenvolvimento da economia. Nesse sentido, a proposta de Pareto (1987) seria de complexificar a proposta da economia pura, sugerida pelos neoclássicos, iniciando seu argumento com a compreensão de que o homo economicus não seria tão racional como se sugeria, ele tomaria suas decisões a partir de desejos.
“Por exemplo, um homem pode se fartar comendo 2 quilos de polenta ou 1 quilo de pão; uma mulher pode se enfeitar com um colar de pérolas falsas ou com um de pérolas finas. Com relação aos gostos não existe nenhuma equivalência entre essas coisas; o homem prefere pão, a mulher as pérolas finas, e é apenas sob pressão da necessidade que eles os substituem pela polenta e pelas pérolas falsas. (PARETO, 1987, p. 140)
Pareto (1987) não negaria a racionalidade do indivíduo, porém, acrescentaria a “não racionalidade” nesse contexto. Para ele, para que uma ação seja lógica são necessárias três situações: o indivíduo deveria verificar um objeto subjetivo à sua ação; um observador externo (cientista) definiria a intenção objetiva dessa ação; e os dois objetivos deveriam igualar-se. Quando uma destas três situações não se concretizasse, o autor diz que a ação deixaria de ser lógica e tornar-se-ia não lógica. Steiner (2006) comenta que para Pareto, a perspectiva social da abordagem econômica estaria no reconhecimento desses dois tipos de ação, sendo que a não racionalidade se daria pelas preferências dos indivíduos. Sendo assim, Pareto incorporaria aspectos relevantes no debate da construção social dos mercados, apesar de não o definir, acrescentando outro elemento além do
entendimento racional, por meio do reconhecimento da subjetividade presente nas escolhas individuais.
Durkheim, juntamente com Marcel Mauss desenvolveriam uma proposta para a economia, já que estariam insatisfeitos com relação ao método empregado por essa, no contexto neoclássico. Assim, sugeririam a sociologia econômica. Durkheim, ao desenvolver “As regras do Método Sociológico”, descreveria os fatos sociais18, o que possibilitaria outra abordagem para o entendimento do funcionamento dos mercados, já que a partir dessa proposta, regras, acordos, leis, seriam fatos sociais (DURKHEIM, 1999). Sendo assim, o funcionamento dos mercados deveria ser explicado a partir de instituições e representações sociais (STEINER, 2006).
Conforme argumentado por Raud-Mattedi (2005), Durkheim não conceituaria o termo “mercado”, contudo, vincularia tal fenômeno econômico com a ideia de instituição, sendo assim, para o autor, um fato social. Ainda, ele reconheceria que o contexto da sociedade moderna seria contratual e mercadológico, ou seja, gerido por contratos. Ao mencionar a análise de tais contratos, Durkheim referir-se-ia ao cenário de mercados. Tal proposta teria como fundamento o argumento de que quando um indivíduo sujeitar-se-ia a normas sociais formais ou informais (como as trazidas pelas tradições ou condutas morais), elaboradas de maneira coletiva, dentro de uma perspectiva temporal, ele inserir-se-ia em um contexto de relação social. Assim,
“a relação mercantil gera um laço social mesmo sem passar por relações pessoais íntimas, na medida em que esse laço não se esgota no único ato da troca, mas se enraíza e participa do processo de reprodução das instituições sociais.” (RAUD-MATTEDI, 2005, p. 129)
Steiner (2006) afirma que a perspectiva durkheimiana sobre mercado se fundamentaria na função das instituições19 e representações sociais. Assim, a
18 “Fato social é toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas manifestações individuais” (DURKHEIM, 1999, p.13).
19 Conforme Steiner (2006), “Instituição é um outro nome dado ao fato social durkheimiano para designar tanto os arranjos sociais fundamentais (uma constituição política) quanto fenômenos como a moda ou os preconceitos.” (p. 11)
análise das ocorrências sociais observadas no contexto dos mercados vincular-se-ia não somente a um comportamento egoísta dos indivíduos, mas também, a condutas baseadas em normas sociais (como por exemplo o salário fixo) ou estruturas cognitivas (como a representação de um comerciante).
Marcel Mauss seria, não somente, um seguidor da proposta durkheimeana, como também dialogaria e contribuiria com a formulação dessa. O autor também sugeriria a sociologia enquanto uma ciência das instituições. Mauss (1999) sugeriria haver um valor simbólico a cada objeto ou serviço a ser trocado, o que estabeleceria vínculos. Para o autor, esses sistemas de troca, mercantilizado ou não, representaria um fato social. Nesse sentido, Mauss complexificaria as motivações envolvidas nas trocas de mercadorias. Com isso romperia com a proposta do homo economicus (MARTINS, 2005). Em sua proposta relativa à teoria da Dádiva (1988), descreveria diversos sistemas de trocas de diferentes culturas, onde as ações de dar, receber e retribuir desempenhariam outras formas relacionais.
Weber, dentro de sua abordagem de análise de categorias sociológicas fundamentais, definiria o mercado enquanto um ambiente resultante de duas configurações de interação social. Assim, o mercado seria regido por situações de conflito de interesses, em um cenário equilibrado com a concretização da troca efetiva (RAUD-MATTEDI, 2005).
Contudo, as colocações de Weber com referência ao mercado não seriam contrarias às propostas econômicas anteriores e sim, complementares. Já que:
“Weber considera o fato econômico como um fato social na medida em que a procura de bens escassos obriga o agente a levar em conta os comportamentos dos outros agentes econômicos e o sentido que eles dão à sua ação.” (STEINER, 2006, p. 13)
Weber (1991) ao descrever sua proposta de “tipos sociais” argumentaria que o interesse do sociólogo seria não em análises individuais, mas em abordagens que se aproximariam das instituições propostas por Durkheim. Assim, o autor descreve