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3.2.2.2 M AMÍFEROS DE MÉDIO E GRANDE PORTE

C ÓDIGO E SPÉCIE F AMÍLIA C AMPANHA D ATA L INHA D ESTINO

V. 3.2.2.2 M AMÍFEROS DE MÉDIO E GRANDE PORTE

Avaliando-se apenas os registros efetuados por evidências diretas (observações in situ) e indiretas (rastros), registraram-se 22 espécies de mamíferos de médio e grande porte, valor muito próximo àqueles calculados pelos estimadores Jacknife1 (n = 25) e Bootstrap (n = 24) (FIGURA V.3.5). Este resultado sugere também que a suficiência amostral foi atingida nos esforços qualitativos e, desta forma, o inventário representa com razoável correspondência a comunidade desse grupo de mamíferos na área de estudo.

FIGURA V.3.5. Riqueza cumulativa observada de mamíferos registrados por meio de evidências diretas e indiretas

(curva do coletor) em função do número cumulativo de amostras (campanhas) ao longo do “Programa de monitoramento da fauna de vertebrados terrestres – UHE Mauá”.

É interessante mencionar que a maioria das espécies de médio e grande porte foi registrada de maneira ocasional, sem a aplicação de um método específico. Como mencionado nos métodos, os apontamentos ocorreram durante a instalação e revisão das armadilhas, bem como durante o processo de deslocamento entre as unidades e sítios amostrais. Nestes percursos tentou-se procurar locais propícios para busca de pegadas por sua característica de solo (banhados, locais de solo úmido e proximidades com corpos d’água) e cada área visitada foi rigorosamente inspecionada identificando-se, quando possível, as pegadas encontradas (Becker & Dalponte, 1991; Lima-Borges & Tomás, 2004). Esta fonte de registro foi substancial para o inventário de representantes das ordens Cingulata, Pilosa, Carnivora e Artiodactyla. Adicionalmente, tem-se observado que os resultados do protocolo proposto para as armadilhas fotográficas são promissores. O método, sozinho, possibilitou o registro de 23 espécies para as áreas de influência da UHE Mauá (TABELA V.3.7), bem como uma espécie doméstica (cão doméstico) e duas espécies de roedores das famílias Cricetidae e Sciuridae. Salienta-se que, em decorrência da dificuldade no processamento dos filmes fotográficos, associada à atenção com que se devem identificar os espécimes flagrados pelas armadilhas, nem todas as campanhas que contaram com esses petrechos tiverem seus dados plenamente avaliados. Para as análises relacionadas ao índice de frequência obtidos em cada unidade foram considerados os registros de seis (2ª, 4ª, 5ª, 7ª, 8ª, 9ª e 10ª) campanhas, ressalvando critérios excludentes determinados. Para o número total de espécies registradas pelas armadilhas fotográficas foram tomadas todas as fases de campo ao quais os equipamentos estavam em funcionamento pleno.

TABELA V.3.7. Registros de mamíferos obtidos por armadilhas fotográficas durante o “Monitoramento da fauna de vertebrados terrestres – UHE Mauá”.

Táxon ULI UCO UFA

Sítio A Sítio B Sítio C Sítio A Sítio B Sítio C Sítio A Sítio B Sítio C DIDELPHIMORPHIA Didelphis albiventris x x x Didelphis aurita x x x x x CINGULATA Cabassous tatouay x x x Dasypus novemcinctus x x x x x x x PILOSA Tamandua tetradactyla x x x x x x x x CARNIVORA Leopardus pardalis x x x x Leopardus tigrinus x x Leopardus wiedii x x x x Puma concolor x x x

Táxon ULI UCO UFA

Sítio A Sítio B Sítio C Sítio A Sítio B Sítio C Sítio A Sítio B Sítio C

Leopardus sp. x x x Cerdocyon thous x x x x Eira barbara x x x x x x x x x Nasua nasua x x x x x x Procyon cancrivorus x x ARTIODACTYLA Pecari tajacu x x x Tayassu pecari x Mazama nana x Mazama americana x x x x x x x Mazama gouazoubira x x x x x x Mazama sp. x x x x x x x RODENTIA Guerlinguetus aestuans X X Eurioryzomys russatus X X X Cuniculus paca X X X X X Dasyprocta azarae X X Espécie exótica

Canis lupus familiaris X X X

A frequência de registros considerou todas as imagens de cada espécie, excluindo-se aqueles registros consecutivos de um mesmo táxon, ou seja, quando o intervalo entre as fotos foi menor que 10 minutos, considerado suficiente para os presentes dados. Para estimar a abundância relativa das espécies, um índice fotográfico foi estabelecido dividindo-se o número de fotografia das espécies registradas pelo esforço amostral (dias de câmeras expostas). Uma vez padronizado o protocolo de amostragem para captura com armadilhas fotográficas (técnica e esforço de campo), a avaliação da frequência de registros é bastante útil para avaliar a densidade e abundância relativa de populações de mamíferos (Tomas & Miranda, 2004; Srbek-Araujo & Chiarello, 2007; Goulart, 2008). Por outro lado não se computaram índices de diversidade com estes dados, pois para se realizar o cálculo desses valores é necessária a individualização dos espécimes fotografados. Essa marcação pode ser feita por meio do reconhecimento de cicatrizes e padrões de manchas corporais naturais de cada indivíduo, principalmente no caso das pacas e felinos mas, de modo geral, os mamíferos são de difícil identificação individual pela grande similaridades nos padrões de pelagem. Outra dificuldade é o baixo índice de recaptura natural deste grupo devido às suas particularidades biológicas, ou seja, ampla área de vida e elevada vagilidade. Obteve-se um total de 327 registros de mamíferos em armadilhas fotográficas, compreendendo 1,38 registro por dia em toda área de

estudo. A unidade UFA foi a que somou maior número de registros de mamíferos e, consequentemente, a maior frequência de registros (TABELA V.3.8).

TABELA V.3.8. Síntese dos resultados pelo método de registros em armadilha fotográfica. A frequência de catura é

ilustrada em registros/dia. LEGENDA: UFA, Unidade Frente/APP; ULI, Unidade Linhão; UCO, Unidade Controle; Cons., consolidado para toda área de estudo; *excluída espécie exótica.

Frequência de captura Riqueza

ULI UCO UFA Cons. ULI UCO UFA Cons.

0,26 0,43 0,69 1,38 14 16 19 22*

Existe grande carência de informações sobre estes grupos de mamíferos, principalmente pela dificuldade na obtenção de dados quantitativos sobre diversos aspectos da história natural. Embora o método utilizado seja um dos mais comumente aplicados em levantamentos de diversidade de mamíferos de médio e grande porte (Bodmer et al., 1997; Cullen-Jr. et al., 2000; Srbek-Araujo & Chiarello, 2007), poucos ainda utilizam estas informações para aferições acerca de outros processos biológicos envolvidos em estudos zoológicos, dada sua difilcudade na obtenção dos padrões biológicos e informações geralmente não muito claras. A seguir apresentam-se com especial destaque algumas informações que concernem ao uso diferencial dos hábitats amostrados.

Ordem Didelphimorfia: das espécies de marsupiais de médio porte já contempladas na áreas de influências do emprendimento duas espécies são comuns os gambás Didelphis albiventris e

D. aurita. A primeira foi registrada por armadilhas fotográficas nas unidades UFA e ULI e, a

segunda, apenas na unidade UFA. Embora ambas sejam consideradas generalistas, D. aurita está mais associada a cursos d’água, abrigando-se em ocos de árvores ou entre raízes.

Ordem Cingulata: três representantes já foram confirmados para área de estudo: tatu-galinha

Dasypus novemcinctus (observado nas três unidade amostrais e grande número de

visualizações em campo), tatu-peba Euphractus sexcinctus (observado apenas visualmente em campo próximo a ULI) e tatu-de-rabo-mole Cabassous tatouay (apenas confirmado nas unidades ULI e UCO e contando com dois indivíduos encontrados atropelados em estradas da região). No Paraná, esse último é um táxon de interesse conservacionista, visto a escassez de registros e, por esse motivo, é tido como insuficientemente conhecido (Margarido & Braga, 2004).

Ordem Pilosa: representado por apenas uma única espécie observada em campo, o tamandua- mirim Tamandua tetradactyla, que se trata de uma das mais observadas diretamente em toda área de estudo. Esta espécie foi também fotografada em todas as unidades amostrais e seus vestígios localizados desde a primeira campanha do monitoramento.

Ordem Primates: o macaco-prego (Cebus nigritus) é uma das espécies que possui maior distribuição geográfica entre os primatas brasileiros. Na área de estudo sua presença foi constatada por meio de contatos visuais e auditivos nas unidades UFA e UCO.

Ordem Lagomorpha: representada por uma única espécie silvestre no Brasil, o tapeti Sylvilagus

brasiliensis foi confirmado nas unidades ULI e UFA, mediante registros colhidos nos acessos ou

próximos deles onde a visualização é facilitada. Trata-se de uma espécie solitária que possui hábitos crepusculares e noturnos, confirmando a maioria dos registros visuais aqui obtidos. Esta espécie está indicada como ameçada regionalmente, em função de sua densidade populacional demasiadamente baixa e pela destruição de seus hábitats (Margarido & Braga, 2004).

Ordem Carnivora: sugere-se para área de abrangência regional 14 espécies de carnívoros, das quais dez já foram registradas em campo, cinco delas constando na lista de mamíferos ameaçados de extinção da fauna brasileira (MMA, 2003). A família Canidae é representada por duas espécies: cachorro-do-mato Cerdocyon thous e lobo-guará Chrysocyon brachyurus. A primeira delas foi registrada em todas as unidades e, a segunda, já observada, porém, carecendo de documentação em armadilhas fotográficas. Por sua vez, pelo menos quatro espécies da família Felidae estão presentes nas áreas amostradas, sendo que a mais visualizada foi a onça-parda Puma concolor, com registros nas três unidades amostrais. A jaguatirica Leopardus pardalis e o gato-maracajá Leopardus wiedii são os felinos mais comumente flagrados por armadilhas fotográficas, estando presentes também em todas as unidades; já o gato-do-mato Leopardus tigrinus foi registrado apenas em UFA e UCO. As duas espécies da família Procyonidae que ocorrem na região pesquisada, o quati Nasua nasua e o mão-pelada Procyon cancrivorus, foram registrados também em toda área de estudo, sendo o segundo com registro fotográfico apenas na ULI. Da família Mustelidae, por fim, duas espécies foram registradas, sendo a irara Eira barbara a mais comum e o furão, Galictis cuja, observado nas unidades UFA e UCO.

Ordem Artiodactyla: o veado-catingueiro Mazama gouazoubira é uma das espécies de mamíferos mais visualizada nas áreas de influência direta e indireta do empreendimento. As outras duas espécies visualizadas diretamente em campo foram veado-mateiro Mazama

americana, observado nas três unidades, e veado-bororó Mazama nana constatado por meio

de um indivíduo adulto atropelado na Rodovia PR-160 e também em UCO. Dentre os porcos- do-mato, o queixada Tayassu pecari é o mais comum, sendo observado diretamente em campo, incluindo nas adjacências da Vila da Lagoa (Klabin) próximo de habitações, e também registrado nas unidades UFA e ULI. Pelo contrário, o cateto Pecari tajacu foi registrado apenas na unidade Frente/APP.

Ordem Rodentia: a espécie de roedor de médio porte mais observada é a paca Cuniculus paca, visualizada nas unidades UFA e UCO apenas, graças a flagrantes das armadilhas fotográficas. A cutia Dasyprocta azarae, apenas na nona campanha foi visualizada diretamente em campo, cruzando um acesso próximo a UCO.

Estas informações, uma vez consolidadas, sugerem que há, mesmo nos grandes mamíferos, preferências particulares no uso do hábitat florestal de toda área de estudo. Duas espécies foram exclusivamente aferidas na Unidade Frente/APP: Didelphis aurita, que embora generalista tem ocorrência associada a cursos d’água; e o cateto Pecari tajacu. A paca

Cuniculus paca foi também verificada apenas em duas unidades, e pode ser indicativo de que

se trata, de fato, de táxon raro na região, que podem ser diretamente afetadas pelo empreendimento.

V.3.2.3. Descrição qualitativa das Unidades Amostrais

Neste tópico abordam-se os táxons de relevância e interesse ecológico, enfocando aqueles considerados indicadores por terem densidade naturalmente baixa ou associação com algum tipo particular de hábitat e, ainda, aqueles de interesse conservacionista. Propõe-se, desta forma, para subsidiar comparações com monitoramentos futuros e auxiliar no direcionamento de esforços durante os trabalhos de resgate durante a supressão vegetacional.

Entre as espécies registradas no monitoramento, foram encontrados representantes de quase todas as ordens de mamíferos terrestres, com exceção dos perissodáctilos. Representado apenas por uma espécie, a anta Tapirus terrestris, dificilmente é encontrada em áreas

profundamente alteradas, tendo apenas registros históricos de distribuição e ocorrência para a região. Tal como muitas espécies de cervídeos e felinos, apresentam baixas densidades demográficas e necessitam de grandes áreas para forrageio (Redford, 1992).

Observou-se, como esperado, predomínio de espécies com dietas generalistas sendo que animais frugívoros/onívoros tiveram a notável representação de sete espécies: Didelphis

albiventris, D. aurita, Cerdocyon thous, Chrysocyon brachyurus, Eira barbara, Nasua nasua e Procyon cancrivorus das quais C. thous e E. barbara obtiveram maior número de registros. O

lobo-guará C. brachyurus merece especial menção neste contexto pelo seu alto grau de ameaça. Este canídeo foi observado fortuitamente em poucas ocasiões e sempre associado a porções florestadas de grande porte ou, ainda, a antigos talhões de eucalipto. Um dos grandes fatores de ameaça desta espécie é a perda de seu hábitat preferencial, tradicionalmente atribuído aos campos naturais (Silva, 1994).

Os felinos Leopardus pardalis, L. wiedii, L. tigrinus e Puma concolor compõem um grupo cujos hábitos de vida são mais exigentes e possuem papel preponderante no controle populacional de diversos táxons, uma vez que se alimentam de pequenos répteis, aves e roedores (Martins

et al., 2008); devido a essas exigências biológicas, são também consideradas ameaçadas

(MMA, 2003).