CAPÍTULO VII MÁQUINAS ABSTRATAS E MICROPOLÍTICA 313 7.1 A S MÁQUINAS ABSTRATAS
FILOSOFIA E GEOGRAFIA: MAPAS, LINHAS, DEVIR
1.7. Mapas e Linhas de Fuga
Tento explicar que as coisas, as pessoas, são compostas de linhas muito diversas, e que não sabem necessariamente em que linha estão, nem onde fazer passar a linha que estão em vias de traçar: numa palavra, há toda uma geografia nas pessoas, com linhas duras, linhas flexíveis, linhas de fuga, etc. (D, p. 16-17 [tr: 21]).
Disso decorre a impossibilidade de conceber uma geografia definida por estruturas e categorias espaço-temporais fixas. De fato, há linhas de segmentaridade “duras” que fixam os espaços compondo um plano de organização inerente aos estratos, tais como “habitar, circular, trabalhar, brincar”, e visam à ordenação e organização espacial do vivido em linhas estáveis rígidas, a saber, a distribuição dos cômodos, delimitação das ruas e de suas habitações, conforme a cidade; ordenação dos espaços e funções, e dos afetos. Dessa forma, somos segmentarizados binariamente por classes, sexos, gêneros, mas também
circularmente segundo modelos e padrões generalizados, e, num terceiro nível, linearmente, numa disposição linear em sequência de processos (MP, p. 254 [tr: 83-84, vol.
3]).
Assim, no que concerne à estratificação do mundo molar, ele é regido por uma linha de segmentaridade dura que organiza e codifica indivíduos e grupos, um meio e um território, sobre um espaço estriado, fixando limites e fronteiras. Entretanto, de modo complementar, uma outra linha se cruza desequilibrando e tensionando os espaços, um corpo-sem-órgãos que agita a superfície e se introduz nos estratos, estas são linhas moleculares, linhas maleáveis de coexistência imperceptível. Ainda num terceiro nível, se interpõem linhas de fuga que não admitem nenhum seguimento, pois são linhas do devir que agem como em regime desterritorialização absolutra, são linhas abstratas, incorporais (MP, p. 239-240 [tr: 67-68, vol. 3]; MP p. 16 [tr: 18, vol. 1]).
Essas três linhas se embaralham, se cruzam e se permutam, configurando, assim, um “mapa” e cartografias geográficas singulares, de modo que “meus territórios já não existem
a priori”, e assim, “não somos mais do que uma linha abstrata, como uma flecha que
atravessa o vazio. Desterritorialização absoluta”, porque “entramos em devires-animais, devires-moleculares, enfim em devires-imperceptíveis”, e, desse modo, o deslocamento não
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é mais no extenso, local, mas intensivo; assim como a biologia define, tratam-se de “migrações, invaginações, deslocamentos, por impulsos morfogenéticos, cujos segmentos não são mais definidos por pontos localizáveis, mas por limiares de intensidades” (MP, p. 246 [tr:73-74]).
Nesse caso, não se trata de traçar linhas, mapear vizinhanças, delimitar fronteiras, cartografando espaços fixos e limites, segundo o modelo de segmentarização e estratificação. Trata-se de pensar uma geografia para além das estruturas do vivido, mas também dos limites do entendimento e ditames de uma “geografia da razão” que se ocupa em fixar “domicílios” e “territórios”. Como asseveram Deleuze e Guattari, “somos atravessados por linhas, meridianos, geodésicas, trópicos, fusos” que nos compõem, mas com ritmos e naturezas distintas (MP, p. 247 [tr: 76, vol. 3]).
Nesse caso, a geografia não concerne a sujeitos, lugares, regiões, mas aos devires e suas transformações, e reside segundo o plano dos encontros e afetos e, sendo assim, ela se determina menos pelas marcas de divisa e fixação de limites ou domicílios do que pelas linhas que se instalam entre as conexões e fronteiras, que são linhas abstratas, incorporais. Consoante ao devir, ela concerne, então, aos dinamismos e deslocamentos, direções e velocidades. E, como dirá Deleuze, trata-se de seguir os trajetos, deslocar entre os meios, entre a casa e a rua, habitações, afetos e movimentos que se conjugam, demarcando entradas e saídas, ruas, lugares, travessias, circunscrevendo meios que se cruzam (CC [tr: 73). Nesse sentido, o mapa não é a repartição ou compartilhamento dos espaços em unidades fixas, “o mapa exprime a identidade entre o percurso e o percorrido”, passagem e trajetos, cujo objeto é apenas o movimento e suas velocidades, logitudes e latitudes. Ultrapassando as categorias e modelos tradicionais da geografia, o que entra em curso é a demarcação de cartografias e mapas que não se distinguem de uma clínica do devir, como “geoanálise”. Como assinala Deleuze em Critique et clinique, “o próprio da libido é impregnar a história e a geografia, organizar formações de mundos e constelações de universos, derivar os continentes, povoá-los com raças, tribos e nações”. Tudo o que nos povoa, sonhos e desejos, “envolve paisagens, continentes e populações mais ou menos conhecidos, mais ou menos imaginários” (CC [tr: 74]). São cartografias esquizoanalíticas, tal como nomeia Guattari, que se ocupam em talhar os desejos e os afetos sobre uma trama de espaço-tempo que deve-se compreender como mapa.
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A concepção arqueológica da psicanálise ata o inconsciente à memória construindo uma visão memorial da história psíquica que “incide sobre pessoas e objetos, sendo os meios apenas terrenos capazes de conservá-los, identificá-los, autentificá-los”, num vetor de verticalização que segue de cima para baixo, como busca da origem (CC [tr: 75]). Mas, numa concepção cartográfica, acontece o contrário, os mapas se superpõem num remanejamento que não se remete a uma origem, mas a uma “avaliação dos deslocamentos. Cada mapa é uma redistribuição de impasses e aberturas, de limiares e clausuras” que emanam do fundo da terra para a superfície, onde o inconsciente já não mais se refere a pessoas e objetos senão aos trajetos e devires que saem da terra e “levantam vôo” (CC,
Idem) e, nesse sentido, o que o inconsciente cartografa do universo são continentes, povos,
migração, territórios e devires.
Assim considerando, “os mapas não devem ser compreendidos só em extensão, em relação a um espaço constituído por trajetos. Existem também mapas de intensidade, de densidade, que dizem respeito ao que preenche o espaço, ao que subtende o trajeto”, que são forças e devires de “uma constelação afetiva”(CC [tr: 76]). São mapas de movimentos e trajetos que invocam forças intensivas, devires animais e imperceptíveis que subvertem a organização de um espaço extenso. Não se trata de uma disposição métrica e geográfica, pois tais mapas não concernem ao corpo, ao organismo, ao vivido como forma e extensão de uma imagem prévia e suplementar. Portanto, não se trata mais de uma geografia da razão, mas de uma geografia da terra em seus movimentos subterrâneos, movimentos geológicos e catástrofes, desenhando mapas que se compõem de linhas móveis, linhas intensivas e transversais. Assim, essas linhas não são homogêneas, lineares, fios estendidos que ligam um começo e um fim, mas são linhas abertas, atravessadas por errâncias, tal como define Deligny. Deleuze e Guattari partem das concepções de Fernand Deligny20 sobre o autismo para definir as linhas como um traço de errância. Avaliando o trajeto de uma criança autista, Deligny considera que em seu percurso cotidiano se distingue “linhas de errância” sobre a qual ela “vibra”, “estremece” e “dá guinadas”, de modo que, entre os
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trajetos, se introduzem uma composição de linhas múltiplas, linhas “motoras, gestuais, sonoras”, com desvios, velocidades e movimentos distintos, que são movimentos de desterritorialização.
Somos povoados por linhas, traços, de efetuação “menor”, devires animais que não convergem para uma identidade ou imitação, mas revelam uma zona de vizinhança. Não se trata de ler os mapas como geógrafo, mas como artista, pois tratar-se-á de uma experiência que se assemelha aos traços e composições que seguem o mesmo ritmo e expressividade da arte, uma tela, uma escultura, de uma “arte-cartografia” consoante ao esquecimento e aos lugares de passagem, que não apenas evoca lugares e territórios, mas remete-se a percursos, caminhos, viagens (CC [tr: 78]) que nos afetam, nos transportam e desterritorializam. A respeito desta “arte-cartografia”, Deleuze pontua:
A posição no espaço circundante depende estreitamente desses trajetos interiores. É como se alguns caminhos virtuais se colassem ao caminho real, que assim recebe deles novos traçados, novas trajetórias. Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma (CC [tr: 79] ).
Sob tais configurações, portanto, na perspectiva traçada por Deleuze e Guattari, o esboço das indicações geográficas assinaladas parte de uma desterritorialização das estruturas e modelos que povoam o pensamento seja da filosofia seja da geografia. Tratar- se-á de uma geografia circunscrita no âmbito da conjunção de relações variáveis da terra com o territorio, e se refere aos movimentos e erupções da terra; a uma geologia e ecologia agitadas, às fronteiras e intensidades de um meio social; aos territórios múltiplos que se abrem alhures; e devires cujos movimentos desequilibram os estratos numa operação de desestratificação que dissolve as linhas de segmentaridade. São movimentos de peregrinos em fuga, povoações agitadas; mutações que arrastam o Natal à um linha “menor” e cujo domínio implica um devir-minoritário, um devir-povo, devir molecular e imperceptível que percorre os fluxos e flutuações, e que, sobre um corpo sem órgãos, referem-se ao infinito e ao cósmico.
Portanto, podemos assinalar que no plano em que se consagram os conceitos implicados, a geofilosofia reclama uma esfera lisa e topológica que, ao rivalizar com as
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codificações e apelos igualitários, suplanta toda uma distribuição sedentária que fixa territórios e domicílios. Como assevera Jean-Clet Martin, “à dimensão lisa de uma terra móvel, aos fluxos turbilhonares de uma natureza tumultuosa, em condições de fazer bifurcar todas as declinações elementares” sobre um espaço aberto sem um ponto definido, “é preciso opor um sistema de lugares organizados por um princípio sólido próprio a quadrilhar e a mesurar todas as mudanças sobre o fundo de uma causalidade universal” (MARTIN, 1993: 21).