COMMEDIA A LA CARTE
Foto 28 Marco Graça (à esquerda) contracena com Marco Martin durante apresentação do
espetáculo “Nocturnus – Os Contos Improvisados de Edgar Allan Poe” na Quinta de Regaleira, em Sintra, na noite de 17 de agosto de 2018
Crédito da fotografia: Zeca Carvalho
O projeto artístico dos Instantâneos envolve o aporte permanente de notórias referências literárias, cinematográficas e dramatúrgicas para o espetáculo impro- visado, tais como as obras de Shakespeare e Poe, como ilustra a Foto 28, que traz um momento de “Nocturnus – Os Contos Improvisados de Edgar Allan Poe”. Outra criação do grupo merecedora de realçamento é o espetáculo “Evaristo”11,
que alude ao cinema português das décadas de 1930 e 1940, portanto, aos pri- meiros anos da ditadura salazarista, período que naturalmente serve como pano de fundo para improvisações de saibo político. Endossando a perspectiva de
11 “Evaristo” é o nome de um personagem do filme “O Pátio das Cantigas”, cuja
versão original foi dirigida em 1942 por Francisco Ribeiro. Típica “comédia à portuguesa”, geralmente associada à “idade do ouro” do cinema português (ver: CUNHA, 2016, p. 39), a película retrata um jogo de enganos e sentidos dúbios que ocorre num bairro lisboeta durante as festas dos santos populares. Os personagens principais do filme, Narciso Fino e Evaristo Droguista, foram interpretados respectivamente por Vasco Santana e António Silva. Curiosamente, “O Pátio das Cantigas” ganhou uma segunda versão em 2015, com direção de Leonel Vieira, que escalou como intérprete do personagem Narciso Fino o ator e improvisador César Mourão, do grupo Commedia a la Carte.
Freitas (2011), no sentido de haver grande relevância na análise das trajetórias de coletivos teatrais na cena portuguesa contemporânea, bem como na investigação de suas práticas, pode-se sugerir que os Instantâneos constituem não somente um grupo dedicado ao gênero impro, mas antes um coletivo teatral que amadurece a proposta de romper as regras tradicionais do teatro (cf. GRAÇA, 2015) por in- termédio da improvisação como processo e resultado da criação artística. Como ingredientes fundamentais a tal projeto, o diretor artístico (op. cit.) enumera a intensa comunicação com o público e a simbiose entre os membros do grupo, que eram amigos antes de decidirem fundar os Instantâneos, em razão de participa- rem de um circuito de empresas que contratavam atores para atuar em animação cômica para eventos12, interpretando personagens históricos ou fictícios.
Os Instantâneos são os idealizadores e organizadores do Festival Espontâneo, maior evento internacional de teatro de improviso sediado em Portugal, cuja oi- tava edição ocorreu em fins de março de 2019. Concebido para fomentar a ex- pansão do gênero impro na cena teatral portuguesa, o Festival Espontâneo busca reunir coletivos e encenadores estrangeiros para propiciar ao público a chance de conhecer outras realidades artísticas fundamentadas na improvisação, bem como para estimular a constituição de novas iniciativas em impro no país (GRAÇA, 2015). O evento também se distingue dos demais festivais europeus de teatro de improviso por conceder proeminência a grupos e improvisadores brasileiros13.
Além do Festival Espontâneo, o grupo promove, geralmente com periodicidade semestral, oficinas customizadas de formação teatral com improvisadores e ence- nadores de expressão no cenário europeu, de modo a possibilitar o desenvolvi- mento contínuo de seus integrantes. Participam das oficinas não apenas os quatro improvisadores que sobem ao palco, mas também os membros dos Instantâneos que desempenham funções mais técnicas, e que são colocados pelo diretor artísti- co Marco Graça em situação de igualdade com os atores.
Em termos de preparo e treinamento profissional, Marco Martin e Ricardo Soares foram submetidos a formações mais sistematizadas como atores, enquanto Marco Graça e Nuno Fradique têm sua formação relacionada à prática, contando com um trabalho consistente em termos de palhaçaria e Commedia dell´Arte. Fradique dedicou-se igualmente ao estudo da mímica, enquanto Graça cursou
12 A participação de improvisadores portugueses em atividades de animação
cômica e/ou sociocultural ganha destaque em uma das seções do capítulo de representação dos resultados desta investigação.
13 Da oitava edição do Festival Espontâneo, em 2019, além do autor da presente
pesquisa, que se apresentou nos espetáculos “Impro Ensemble” e “O Baile”, participaram também os coletivos brasileiros ImproMime e Grupo de Risco.
O COrpOnO TeaTrOde ImprOvIsO
diversas oficinas no Chapitô envolvendo o trabalho corporal. Também egresso na Companhia do Chapitô, Ricardo Soares – que também integra o prestigiado coletivo teatral MUSGO, sediado em Sintra – praticou longamente a atividade de “forças combinadas”, que, no Chapitô, constitui a base para o trabalho acro- bático e circense. Ainda no que tange a experiências pregressas em palco, Graça e Fradique dedicaram-se por um período de aproximadamente dois anos à prática de stand up comedy, principalmente em bares e restaurantes de Lisboa. No que se refere às demais vivências em termos de corporalidade, Nuno Fradique é o esportista do grupo, tendo praticado surf, corrida, maratona, ultramaratona e, no quesito artes marciais, conta com algum treinamento em Jiu-Jitsu.
Até chegar à sua formação atual, os Instantâneos chegaram a reunir um elen- co de quase uma dezena de improvisadores, dentre os quais alguns artistas que atualmente integram outros coletivos portugueses de impro. Além de Fradique, Graça, Martin e Soares, a ficha técnica dos espetáculos dos Instantâneos traz al- guns nomes recorrentes, os quais compõem a abalizada trupe que concede supor- te permanente aos atores. O compositor e pianista pernambucano Glauco César Segundo costuma dividir o palco com os improvisadores, embora a função de músico improvisador do grupo ocasionalmente seja ocupada por renomados ar- tistas portugueses, tais como Gimba e Noiserv. O artista multifacetado João Fra- zão comanda a sonoplastia em todos os espetáculos dos Instantâneos, e também responde pela comunicação visual, pela cenografia e pelos primorosos figurinos do coletivo. Nuno Gomes é o improvisador de luz, função que tem sua importân- cia acrescida à medida que os Instantâneos buscam apresentar-se em espaços não convencionais. A Foto 28, mostrada anteriormente – a qual que retrata uma cena apresentada de madrugada e ao ar livre –, oferece uma ideia da importância dos figurinos, da cenografia e da iluminação para as obras do grupo.
Os sete artistas que mais frequentemente se apresentam nos espetáculos dos Instantâneos – os improvisadores Marco Graça, Marco Martin, Nuno Fradique e Ricardo Soares, além do músico Glauco César Segundo, do iluminador Nuno Gomes e do cenógrafo/figurinista/sonoplasta João Frazão – foram sinalados como sujeitos da presente investigação, recebendo então codinomes tais como [Gra- ça_Instantâneos_POR], [Martin_Instantâneos_POR] e assim por diante.
IMPROV FX
Desde os tempos em que era conhecido do grande público como Improvio Armandi, o grupo Improv FX atua em peças abertas ao público, mas também rea- liza apresentações em festas e eventos particulares e empresarias, geralmente tendo como mote de seus espetáculos a cultura geek. O grupo é também o único elemen- to da amostra a ter em seu repertório espetáculos improvisados para crianças. No infantil “Aventuras de Papelão”, por exemplo, contando com adereços confeccio- nados em cartão, os atores improvisavam histórias de super-heróis e supervilões, nas quais as crianças eram contempladas com o poder de decisão para definir os rumos das aventuras e para influenciar as trajetórias dos personagens. Fichtner (2010), Fiorindo e Wendell (2014) e Koudela (2011), dentre outros tantos pes- quisadores, discorrem acerca das inúmeras potencialidades da improvisação teatral criada no instante para o desenvolvimento psicossocial de espectadores infantis.
O elenco fixo do grupo Improv FX conta com o designer André Sobral, o engenheiro informático Hugo Rosa e o produtor cultural João Cruz, embora, à época do Improvio Armandi, tenha incluído outros nomes no quadro perma- nente ou como atores substitutos, tais como Juan Pereira, Paulinho Cintrão, Ri- cardo Karitsis, Rui Moreira e Telmo Mendes. O coletivo sempre se relacionou fortemente ao universo geek, propondo-se a enfatizar o estilo cinematográfico em suas apresentações. Cabe detalhar que, em impro de short form, bem como em competições de Teatro-Esporte, jogos envolvendo cinema são bastante comuns, caracterizando um estilo de improvisação que comporta diversas sub-categorias, geralmente relacionadas a cineastas consagrados ou a gêneros cinematográficos14.
De acordo com Herrmann (2018) e Knepper (2018), o termo geek remete aos rituais, às práticas de comunicação, aos estilos de vida e aos padrões de consumo associados às tribos urbanas relacionadas a determinados produtos da indústria cultural e do denominado “tecnocapitalismo”, especialmente histórias em quadri- nhos, séries televisivas, videogames, desenhos animados, filmes e livros de ficção científica. Por conta de sua identificação com a cultura geek, o coletivo participou de todas as edições da feira Comic Con Portugal15 desde 2014, com espetáculos
14 Exemplos de improvisações envolvendo o estilo cinematográfico presenciados
pelo autor desta pesquisa em jogos de improvisação no Brasil e no exterior incluem aventura, ficção científica, Quentin Tarantino, pornochanchada,Woody Allen, spaghetti western, cinema noir e terror.
15 Celebrados em diversos países ao longo dos últimos anos, os festivais Comic Con,
cuja quinta edição portuguesa se estendeu por quatro dias em setembro de 2018, caracterizam-se pelo encontro de indivíduos predispostos a partilhar experiências
O COrpOnO TeaTrOde ImprOvIsO
tais como “Trailer”, “Trailer 2 – O Improv Contra Ataca”, “Jogo dos Tronos – Uma Paródia Improvisada” e “COMIX”.
O grupo Improv FX, retratado na Foto 29, conta com os integrantes que apresentam a formação mais heterogênea em teatro de improviso dentre os três coletivos portugueses analisados. Em seu desenvolvimento como improvisador, cada membro do grupo seguiu um caminho completamente diferente do outro. André Sobral começou a praticar Teatro-Esporte em 2007, na Suécia, país em que residiu durante o cumprimento de um serviço voluntário europeu. De retor- no a Portugal, juntou-se aos Instantâneos, com os quais participou de diversos programas de formação em impro, até sua saída definitiva do grupo. João Cruz iniciou no teatro amador na época da faculdade, tendo seu primeiro contato com o teatro de improviso por meio de workshops ministrados por César Mourão, do grupo Commedia a la Carte. Hugo Rosa – que não se considera ator – começou em stand up comedy, prática à qual João Cruz eventualmente também se dedicou. Rosa incorporou o teatro de improviso em seu repertório como comediante a partir do ano de 2010, quando atendeu a oficinas ministradas por Marco Pedrosa, improvisador formado pela escola mantida pelo grupo Os Improváveis.
Em termos de corporalidade, André Sobral e João Cruz aparentemente anga- riaram maiores recursos, em razão de suas vivências no teatro regular, embora em palco os três improvisadores do grupo não apresentem disparidades significativas no que tange ao trabalho corporal. André Sobral conta com workshops de clown em seu currículo, enquanto João Cruz participou de várias formações teatrais comple- mentares, tais como mímica e Commedia dell´Arte, as quais foram fundamentais para sua atuação profissional. Por exemplo, ao longo de cinco anos, João atuou principalmente em espetáculos dirigidos ao público em idade escolar, período du- rante o qual o improvisador acredita ter tido suas peças assistidas por mais de vinte mil crianças. Hugo Rosa nunca fez cursos de teatro, nem tampouco foi submetido a treinamentos envolvendo o corpo. Sua formação em artes cênicas foi empírica: aprendeu os fundamentos da prática teatral com João Cruz, à época seu colega de Improvio Armandi, e com Telmo Mendes, que eventualmente se desligou do grupo. No que se refere às atividades desportivas, Rosa foi praticante regular de tênis, enquanto Sobral fez natação, basquetebol, handball e ultimate frisbee, esporte que guarda semelhanças com o rugby, porém praticado com um disco em vez de uma bola. Com respeito às artes marciais, Sobral praticou Karate, Judô e, no momento da coleta de dados para a presente pesquisa, começava a treinar luta com sabres de luz, a exemplo dos filmes da série “Star Wars”, de modo a favorecer sua atuação em histórias
de consumo, histórias, vivências, gostos e estilos de vida provenientes do cinema, da televisão, dos games, da publicidade e das histórias em quadrinhos.
improvisadas que envolvessem ficção científica. Os três improvisadores que formam o elenco do grupo Improv FX tiveram aqui seus nomes codificados como os sujeitos [Cruz_ImprovFX_POR], [Rosa_ImprovFX_POR] e [Sobral_ImprovFX_POR].