Gilson Leandro Queluz
MARIA LACERDA DE MOURA NA REVISTA ESTUDIOS
A aposta na maternidade consciente e nas uniões livres, baseadas em preceitos éticos e morais libertários, é uma das razões pelas quais se compreende a presença da brasileira Lacerda de Moura na Revista Estudios. Seu pensamento se insere na revista com grande prestígio: no número em que publica sua segunda participação na revista, é apresentada por Santiago Valenti Camp como La Elena Key brasileña e, “como la inmortal reina sin corona, expresa las ideas con toda emotividad, sin rodeos y con inusitada y asombrosa valentía” (CAMP, 1931, p. 11-12, grifo do autor), sendo uma escritora ávida pela “santa liberdade” (CAMP, 1931, p. 12). Sua contribuição à revista espanhola justifica-se ao passo que a escritora “tiene noción exacta de cuáles son los derroteros que han de seguir las mujeres para liberarse de toda opresión y ser dignas de regular libremente a la propia existencia, ya que ésta es la única forma de independizarse de la férula masculina” (CAMP, 1931, p. 12).
A proximidade de Maria Lacerda com os ideais da Revista Estudios fica clara se percorrermos o número em que consta seu primeiro artigo, Maternidade consciente (LACERDA DE MOURA, 1930). Neste artigo, ela defende enfaticamente Isadora Duncan que, tomada pela “voluptuosidade da maternidade consciente” (LACERDA DE MOURA, 1930, p. 20), propusera a Maeterlinck, para escândalo da imprensa burguesa, que tivessem um filho, tendo antes, é claro, o cuidado de consultar a companheira do escritor. Esta temática, característica do neomalthusianismo libertário, é abordada no mesmo número por Isaac Puente, no artigo intitulado Neomalthusianismo, em que afirma que “desde ningún punto de vista es más defendible el neomalthusismo que desde el de la maternidade consciente. Derecho de la madre a serlo plenamente y a dejarlo de ser. Emancipación de la mujer de la esclavitud de su sexo” (PUENTE, 1930, p. 9).
O mesmo exemplar apresentaria artigos sobre outras temáticas frequentes na obra de Lacerda de Moura e na tradição anarquista, como a educação, presente na seção, Para uma antologia de tema pedagógicos, que neste número se refere à Moral de Franklin. O tema da educação sexual está presente no artigo de Lorulot (1930, p. 14), La moral y la educación sexual, como forma de combate à falsa moral que incide sobre a sexualidade humana e que, em seu esforço de “sujetar el amor a reglas y disciplinas en absoluto contrarias a las leyes naturales”, acabaria por resultar em ódio, violência e inveja. A crítica à ciência moderna a serviço do militarismo, presente por exemplo na obra Civilização tronco de escravos de Lacerda de Moura, transparece no artigo do argentino Dr. J. Nicolai Ciencia e revolución, no qual argumenta, “Si en el reino de la ciencia algo se descubre, en primera fila lo usan los soldados para la destrucción. Antes de que hubiera aviones comerciales, los hubo militares. [...] Casi parece la ciencia un laboratorio especial para los fines de la matanza” (NICOLAI, 1930, p. 18).
Outro tema caro a Lacerda de Moura, o amor, e especialmente a amizade amorosa, a “suprema aspiración amorosa” é abordada por Maymon (1930, p. 19). O individualismo, área comum de interesse entre Lacerda de Moura e os articulistas de Estudios, seria tratado por Ganz-Allein (1930, p. 27), no seu texto El siglo XX contra el individuo, sendo assim definido:
Un individualista es, en primer lugar, un espíritu paciente, laborioso, objetivo y cruel que, después de haber analizado, como un químico en su laboratorio, todo lo que puede limitar, restringir y negar las tendencias de un ser hacia la individuación, llega a extraer de estas comprobaciones (desoladoras para un espíritu pasivo, lógicas y naturales para un espíritu que quiere realizar
el hombre) un conjunto de reglas que le permiten hacer su ley, su
unidad mental y pragmática.
Os 36 artigos (Quadro 1) publicados pela pensadora, traduzidos por José Elizalde, abordam diversos temas, e nos possibilitam identificar as principais características da sua obra, sua fundamentação filosófica, ética e política, centrada na emancipação da mulher através da educação e da maternidade consciente. Neomalthusianismo e eugenia, defesa do amor plural com base nas ideias de Han Ryner como nova base para as relações sociais, crítica a verdades organizadas, bem como às religiões e toda forma de poder e dominação são os principais temas dos seus artigos.
No artigo em que apresenta seu programa, Lacerda de Moura (1931a, p. 1) se define como uma individualista harmônica, afirmando: “El único programa que puedo formular es que procuro encontrar mi armonía interior”. No seu programa destaca a importância da divisa apresentada pelo anarco-individualista Han Ryner, do aprender a amar e como seu primeiro capítulo, necessário à evolução interior, ressalta o exercício do protesto, “consciente, fuerte y heroica, en cualquier circunstancia, contra las guerras y el engaño de las fronteras”, e contra todas as causas de conflitos entre os homens (LACERDA DE MOURA, 1931b, p. 21). Afirma que pretende dissolver-se no programa da Vida – não submetendo sua liberdade a qualquer limitação religiosa, política partidária, seita ou concorrência social –, mas sim na exaltação da solidariedade biocósmica, do programa da liberdade integral, do programa do Direito Humano (LACERDA DE MOURA, 1931b).
Título Número Página
1 La maternidad consciente 86 26
2 Un programa? 90 19
3 Tiene sexo la intelligencia? 95 25 4 Tiene sexo la intelligencia? 100 16
Título Número Página 5 Religión y catolicismo 101 61 6 El sentido religioso 102 25 7 La violencia y la sociedad 104 24 8 Procreación y miseria 105 10 9 Procreación y miséria II 106 9 10 Los libertarios y el feminismo 107 17 11 La educación moral 108 22 12 La santa violencia 109 30 13 Todo es creación nuestra 110 17 14 El trabajo femenino y la aspiración de la mujer 111 31 15 El trabajo femenino y la aspiración de la mujer II 112 19 16 Una hipótesis que es un sueño de perfección 113 23 17 El problema económico 114 40
18 Kardec y Comte 116 40
19 La Asociación Internacional Biocósmica 118 31 20 La Asociación Internacional Biocósmica 119 15 21 El salvajismo fascista contra los israelitas 120 31 22 La sujeción de la mujer y el predominio religioso y capitalista 121 19 23 La cadena de la buena suerte 122 31 24 La Escuela de la Nueva Oportunidad 125 69 25 La Escuela de la Nueva Oportunidad 126 12 26 Cuando el amor muere 127 24 27 Qué es el amor plural? 128 26 28 El amor plural frente a la camaradería amorosa 129 24 29 La mujer nueva y la moral sexual 130 23
Título Número Página
30 La mujer nueva II 131 33
31 Amor y libertad 132 28
32 Pedagogía y educación 138 18 33 Mussolini, las mujeres y el maltusianismo 142 35 34 El fascismo contra la evolución humana 148 35 35 Han Ryner, el Sócrates moderno (n. 152, p. 43); 152 43 36 El ídolo de la cultura fascista 153 48
Quadro 1 – Artigos publicados por Maria Lacerda de Moura Fonte: Autoria própria (2017).
Influenciada pelo individualismo ryneriano, Maria Lacerda teceu ao longo de seus textos diversas críticas à alienação decorrente das religiões, da defesa do estado, da pátria e da servidão da mulher dentro da instituição familiar. Sua crítica à verdade organizada perpassa grande parte de seus artigos, e afirma que “la verdad organizada es la causa esencial de todos los males sociales” (LACERDA DE MOURA, 1932a, p. 22): “O dogmatismo negativo racionalista é tão perigoso quanto o dogmatismo afirmativo das religiões“; a família, por sua vez, onde a sociedade organizou o amor, “está baseada na ignorância da mulher, no servilismo e na escravidão feminina” (LACERDA DE MOURA, 1931c, p. 12).
Para Lacerda de Moura (1932b, p. 8), a Lei de Malthus (lei de população) é “la esfinge simbólica del problema humano”, que clama: “Descíframe o te devoro” – “el problema humano es un problema sexual”. A pensadora afirma que a humanidade não soube encontrar a solução das suas duas principais necessidades: comer e amar (LACERDA DE MOURA, 1931c) ou, traduzido em outras palavras, o instinto de nutrição e o de multiplicação da espécie.
Sendo assim, Lacerda de Moura (1932b, p. 9) afirma que o segredo da esfinge abarca duas fases do problema humano, tendo sido o lado ético decifrado por Han Ryner10 com sua não-violência estoica – “el No matarás”, el “Ama a tu prójimo
como a ti mismo”, simbolizados “en el fraternismo de Cristo y en el subjetivismo de Epicteto”. No plano material, da existência humana, “el secreto de la esfinge es el problema sexual – íntimamente relacionado con el instinto de nutrición – que se halla magistralmente resumido en la famosa ley de población de Malthus” (LACERDA DE MOURA, 1932b, p. 9). A responsabilidade da humanidade, portanto, recai na reprodução consciente, importando mais a qualidade que a quantidade – daí a
ligação entre neomalthusianismo, pressupostos eugênicos e procriação consciente defendidos por Lacerda de Moura e por outros autores que publicavam na revista.
Diferentemente do que defendiam alguns libertários, Lacerda de Moura não acreditava que a miséria, decorrente da alta taxa de natalidade e de baixos salários, causaria a rebeldia. Em seu artigo Procreación y miseria, Lacerda de Moura (1932b, p. 10) argumenta:
La burguesía tiene sobradas razones para procurar que procreemos muchos hijos. Sobradas razones, compañeros! Porque necesita ranchos soldados, mucha policía, mucha guardia civil, muchos carceleros y ejecutores de la Justicia. Necesitan todo esto para mantener la esclavitud de los trabajadores que se disputan encarnizadamente un pedazo de carne.
Desde o início do século XX as ideias neomalthusianas perpassaram as discussões do movimento anarquista (DIEZ, 2007), a partir da crítica à ordem social. Junto a elas, também uma reapropriação das ideias eugênicas se fez presente. Diferentemente do eugenismo acadêmico, o eugenismo anarquista não caminhava para a restrição, mas sim para uma concepção de procriação que visasse à melhora progressiva e ao aperfeiçoamento integral dos indivíduos (DIEZ, 2007).
Masjuan (apud DIEZ, 2007) aponta quatro componentes do eugenismo anarquista: biológico, médico, sociológico e de pedagogia sexual. Este último, aliado à eugenia, seria essencial para a construção de uma nova moral sexual “que en la transformación revolucionaria de la sociedad acabaría con la hipocresía y la incomunicación entre hombres y mujeres, en el contexto de un marco social más justo y equitativo” (DIEZ, 2007, p. 263).
Lacerda de Moura, que, em concordância com a pedagogia de Francisco Ferrer11, lecionou em Escolas Modernas, desde o início de seus escritos apostou
na educação para a construção de uma nova moral e, consequentemente, uma nova sociedade. Seu maior interesse, no entanto, estava na educação e emancipação da mulher. Criticando o servilismo das mulheres em relação aos homens e à maternidade obrigatória, em seu artigo El trabajo femenino y la aspiración de la mujer, Lacerda de Moura (1932e, p. 16, grifo do autor) afirma:
El mandar como el obedecer, envilece. La variación y el trueque de ocupaciones eleva. Dedicarse a algo constituye un placer. Pero la acción de servir implica esclavizarse. Para ser libre precisase sentir en carne propia los derechos ajenos a una libertad exactamente igual a la nuestra. Para realizar semejante liberación no hay otro camino que la maternidad libre y consciente, y, además, LIMITADA, LIMITADÍSIMA.
Como também a educação dos filhos normalmente era encargo da mulher, investir em sua educação e emancipação garantiria uma geração apoiada em uma nova moral.
Baseando-se no individualismo de Han Ryner, que trazia “ideas sobre la búsqueda interior de la sabiduría, el concepto de la existencia como proceso permanente de aprendizaje” (DIEZ, 2007, p. 158), Lacerda de Moura enfatizava a maternidade consciente e voluntária, aliada à ideia do amor plural ryneriano. O direito de ser dona do próprio corpo, de suas vontades e desejos, a fim de se desenvolver plenamente em todas as possibilidades, seriam eixos centrais para a emancipação da mulher de acordo com a autora:
Que aprenda a ser libre para poder libertarse de las propias cadenas de los instintos que no están acordes con nuestras necesidades actuales (como, por ejemplo, el instinto de amar a la fuerza bruta, el instinto guerrero, etc.), instintos inferiores todos ellos, a fin de ascender hasta el plano superior donde penetra nuestra alma el ansia de ser algo más que instrumento de voluptuosidad y de explotación, para escalar un grado más elevado de individualidad a través de la libertad de vivir para su propio corazón y de pensar por su propia mente (LACERDA DE MOURA, 1931b, p. 20-21). Para ser dona de si mesma e ter direito ao seu próprio corpo e vontade, a mulher deve libertar-se da escravidão da maternidade obrigatória. Era preciso, portanto, emancipar a sexualidade da reprodução. Desse modo, uma das prioridades da imprensa anarquista era a difusão de métodos anticoncepcionais, fossem artificiais ou naturais (DIEZ, 2007).
A instituição familiar é o local privilegiado para a servidão feminina, “la institución de la familia está basada en la ignorancia de la mujer, en el servilismo y en la esclavitud femenina”, pois a emancipação mental da mulher seria, aos olhos da moral dominante, “la causa de la destrucción del sagrado hogar” (LACERDA DE MOURA, 1931c, p. 10, grifo do autor).
Lacerda de Moura (1932d, p. 27) afirma que “en este régimen absorbente, de competencia económica desleal, no hay nadie que pueda llamarse emancipado: ni entre los hombres ni entre las mujeres”. A emancipação ryneriana consiste em conhecer-se e, portanto, realizar-se. A liberdade individual, no entanto, não pode criar a servidão dos demais: “Creo que todo el problema humano sé resolverá el día en que cada hombre y cada mujer sabrán ayudar a prójimo, llevando a cabo las labores inherentes a su propio servicio personal” (LACERDA DE MOURA, 1932d, p. 28). Esta moral está aliada à máxima ama a teu próximo como a ti mesmo e se reflete na não-violência estoica, defendida por Han Ryner, e na construção de uma nova sociedade baseada no amor plural.
Afirmando, nos trilhos de Han Ryner, que vivemos para aprender a amar, Lacerda de Moura (1934, p. 18) sustenta que “la monogamia indisoluble, fruto del principio de la propiedad privada y de la superstición religiosa, es la causa de todos les crímenes pasionales, de los celos, del exclusivismo sexual y amoroso, del infanticidio, etcétera”. Para ela, se o amor sempre esteve em luta com a monogamia, o amor plural:
[...] suprime los crímenes pasionales derivados de los celos criminosos y bestiales, si evita las miríadas de mentiras y concesiones indignas, nada de todo ello representa su valor ético y humano, pues su gran victoria consiste en realizar el milagro de abolir la prostitución, de suprimir la existencia de los traficantes de mujeres, dignificando a la fémina que, con él, es libre de elegir al compañero, al amigo, al ser que le habla al corazón y al ideal, a aquel que constituye su sueño de vida feliz y alegre. El amor plural permite al sexo llamado débil sentirse dueño de sí mismo, capaz de bastarse en la lucha por la existencia y capacitado para hacer la felicidad de otros seres igualmente libres (LACERDA DE MOURA, 1934, p. 18-19).
Com a maternidade consciente e planejada, a mulher, além da autonomia de seu próprio corpo, pode decidir em que momento terá filhos. Dentro da ideia de amor plural – moral básica para uma sociedade livre, baseada na fraternidade e no amor ao próximo –, poderá escolher seu parceiro, livre das pressões sociais e religiosas. No primeiro artigo de Estudios, Lacerda de Moura (1930, p. 20) explicita sua concepção eugênica da maternidade consciente e do amor livre: “En la maternidad, nuestro objetivo debería alcanzar a crear algo mejor de lo que nosotros mismos somos”.
Fortemente afeita, portanto, às ideias de regeneração humana e à crença da ciência como primado da razão, o projeto de maternidade consciente, advindo de relações livres baseadas no amor plural e nos ideais anarquistas de liberdade, fraternidade e solidariedade, garantiria uma nova configuração das futuras relações sociais. Essas ideias faziam emergir a mulher como sujeito da redenção social e da emancipação da humanidade, que através do ideal da maternidade consciente estaria cumprindo uma tarefa revolucionária. É a soma desses elementos, incorporados ao eugenismo e neomalthusianismo libertários, que conformaria a nova moral sexual – elemento fundamental e essencial para uma revolução integral nas consciências. Pode-se, assim, compreender o anarquismo para além de “una ideología, un sistema conceptual o un conjunto de creencias”, mas, anteriormente, “una forma de vida y de entender el mundo” (DIEZ, 2007, p. 145).