MATRIZ MULTIDIMENSIONAL DE ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE A partir da análise das categorias, pode-se considerar que as relações e as

No documento Acesso aos serviços de saúde: perspectivas de profissionais e usuários (páginas 121-125)

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VII) MATRIZ MULTIDIMENSIONAL DE ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE A partir da análise das categorias, pode-se considerar que as relações e as

representações que os usuários estabelecem com os serviços influenciam o acesso aos serviços de saúde. Constatou-se que contextos econômicos e geográficos, contextos e demandas sociais, biológicas, culturais, entre outras, acolhimento e vínculo com o serviço, serviços ofertados e crenças influenciam o processo de busca e de utilização dos serviços de saúde e acabam por caracterizar o acesso em uma dimensão ampliada.

Os pontos de interseção representam a dinamicidade das demandas, indicando que não ocorrem de forma isolada e, sim, apresentam-se de forma conjugada e relacional. As demandas são gravitacionais, ou seja, movimentam-se dialogicamente a partir da necessidade sentida pelo usuário/família em um dado momento específico.

Ao entendermos o acesso aos serviços de saúde sob esta perspectiva multidimensional, fica evidente que a abordagem aos usuários também deverá ser. O que se propõe, a partir desta Matriz, é que ela sirva como um instrumento de exame dos fatores que interferem diretamente na questão do acesso, tratando- se, assim, de um instrumento de avaliação e de intervenção junto aos usuários e suas famílias.

Trata-se de uma Matriz Multidimensional das dimensões que influenciam o acesso que permitirá discriminar as distintas necessidades do usuário a partir da avaliação de cada uma das dimensões que o induzem a buscar os serviços de saúde. Esta ação possibilitaria a ampliação da oferta de ações com maior eficácia, visto que seriam direcionadas às necessidades e às demandas evidenciadas naquele momentoe que deveriam ser exploradas.

A ideia é apreender, a partir da matriz, quais dos aspectos estão atraindo ou estabelecendo sensação de repulsa por parte do usuário, estabelecendo possibilidades de levantamento das demandas/necessidades. Entende-se que, em algumas situações, as demandas se apresentam por necessidades biomédicas ditas reais. Em outras, a demanda se dá devido às necessidades na estrutura familiar, social ou cultural. A análise de quais fatores estão influenciando a busca pontual pelo serviço (acesso) permitirá oferecer soluções mais eficazes e cuidadoras (tecnologias), com o objetivo maior de atender as demandas e as necessidades a partir da lógica do usuário (resolutividade).

A Matriz permite a avaliação do usuário – família de forma a diagnosticá-lo/ informá-lo qual ou quais destas forças estão influenciando-o para que se busque saná-las. Entende-se que a resolutividade ocorrerá a partir do momento em que houver a compreensão das causas que estão motivando a busca pelos serviços, e não somente da realidade relatada pelo usuário friamente diante de uma anamnese clínica.

A oferta de ações seria dada a partir da avaliação das forças de atração e repulsa. Cada uma das dimensões inseridas na Matriz poderiam agir de forma a

atrair ou excluir / repulsar o usuário a acessar / utilizar o serviço. Propõe-se que as ações de acolhimento ocorram de forma a avaliar quais destas forças, naquele momento específico, estariam sobressaindo, sobrepondo-se aos demais e o que estaria levando o usuário a buscar, e em que condições, o serviço de saúde.

A avaliação seria feita a partir de entrevistas, bem como a elaboração de genograma e ecomapa, propiciando o reconhecimento das forças de atração que estariam levando o usuário àquela demanda específica, seguida de uma anamnese padrão, da lógica biomédica, no momento em que se perguntaria sobre seus remédios, condição de saúde, etc. Desta forma, haveria, num primeiro momento, o (re)conhecimento de todas as condições de saúde daquele indivíduo, incluindo sua situação familiar e de como ele está e se posiciona no mundo do trabalho, renda, lazer, vínculos sociais, podendo-se, desta forma, avaliar a condição de saúde ampliada, Em um segundo momento, a entrevista clínica padrão e tradicional, que seria capaz de avaliar as condições biomédicas do usuário e relacioná-la com as condições de vida relatadas na entrevista anterior.

Uma vez descritas as duas situações, seria realizada a avaliação da condição, momento em que seriam traçados “diagnósticos”, que poderiam ser sociais ou físicos, indicados dentro de cada dimensão de força repulsa. Por exemplo, ao evidenciar que um usuário busca o serviço, inicialmente, queixando- se de dor nas costas frequente, mas durante a entrevista averigua-se que esta pessoa está em situação familiar de abandono, pode-se inferir que ela, naquele momento de dor, encontra-se em força de atração por demanda biológica agregada a demandas sociais. Tendo-se isso diagnosticado, haveria uma oferta de serviços detalhada para ela e compartilhada formalmente entre os diversos membros da equipe.

Esta forma de intervenção permitiria uma abordagem que se afastaria do modelo individual curativo, calcado na queixa conduta e estaria na premissa das ações usuário-centrado. Entende-se que assim como as necessidades, essas dimensões de atração e repulsa são dinâmicas e, portanto, as avaliações deverão ser constantes, pois uma vez sanadas as primeiras demandas, logo outras aparecerão, pois logo que uma necessidade é sanada, novas são formadas. O objetivo da ação das unidades será levar o usuário ao máximo de sua independência, utilizando-se, para tanto, de outras fontes de apoio sociais, recorrendo principalmente a ações intersetoriais.

Não é claro ainda o tanto de pacotes de serviços que cada dimensão poderia listar, mas seria recomendado a cada unidade de saúde reunir seu rol de possibilidades para cada dimensão. Por exemplo, observando-se que há a dimensão repulsa por fatores geográficos (distância da unidade) a unidade poderia fazer um levantamento sobre os recursos disponíveis em sua comunidade para que essas distâncias tornassem-se menores, vizinhos fizessem mutirões com seus carros, ou o padre/pastor se propusesse a colaborar. Enfim, esta é uma possibilidade de mapeamento/avaliação das forças que atraem e afastam os usuários das unidades, que permitiria aos gestores das unidades um reconhecimento mais ampliado das necessidades de sua comunidade bem como planejamento da oferta das ações a partir de suas REAIS necessidades.

Porém, para que as ações de avaliação e intervenção a partir da Matriz sejam eficazes, seria necessário certo rompimento com as formalidades verticalmente impostas, pois o que se propõe é o reconhecimento das demandas – necessidades apresentadas em cada unidade de ESF para que, a partir delas, sejam estabelecidas as ações de cuidado. A equipe de ESF, dotada de autonomia e munidos de informações formalmente descritas, poderia transformar a realidade da comunidade sem que estivesse presa às amarras das regras do financiamento púbico, ou seja, as ações estariam voltadas para resolutividade das demandas – necessidades dos usuários e suas famílias, mais do que ao cumprimento de metas e programas.

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