Para um melhor entendimento do contexto histórico das medidas socioeducativas no Estado de São Paulo, é importante ressaltar que antes do surgimento do ECA, crianças e adolescentes, enquanto seres em fase de desenvolvimento, não tinham direitos específicos reconhecidos e assegurados.
Não existiam medidas socioeducativas, como já mencionado. Havia uma preocupação por parte da sociedade e sistema político em resolver o problema gerado pelos chamados menores carentes e menores infratores. Ambos eram alocados no mesmo espaço sem objetivos educacionais e nem preocupação com o seu desenvolvimento.
Com o ECA ocorreram transformações concernentes à legislação, ofertando possibilidades e condições de reinserção social aos grupos em situação de vulnerabilidade e risco, pois, a partir desse estatuto, ocorreu a municipalização de atenção direta e, também, não era mais permitido a internação de forma coercitiva para os desamparados socialmente, tornando legal apenas a internação dos adolescentes que fossem flagrados no ato infracional.
As medidas socioeducativas são previstas pelo ECA, no artigo 112, aos jovens que comentem atos infracionais, as quais podem ser cumpridas em meio aberto, como advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade e liberdade assistida, como também em meio fechado, ou seja, privativo. Quem se enquadra no recebimento dessas medidas são adolescentes na faixa etária de 12 a 18 anos. Sua aplicação e seu cumprimento poderão ser estendidos até os 21 anos,
sendo que o período para a medida vai de seis meses, não podendo ultrapassar três anos.
A todas as sentenças proferidas pelos juízes da Vara da Infância e da Juventude e da Vara Regional de Atos Infracionais da Infância e da Juventude cabe apelação, no prazo de dez dias, juntamente com a apresentação das razões. Apesar de as medidas socioeducativas configurarem resposta à execução de um delito, têm caráter pedagógico com o objetivo da reinserção social, partindo do pressuposto da ressignificação de valores e reflexão de si mesmo e do mundo, ou seja, apresentam um caráter predominante educativo e não punitivo.
As medidas socioeducativas previstas no ECA são:
1. Advertência (uma “bronca” judicial, com reflexão sobre o ato praticado).
2. Obrigação de reparar o dano (ressarcimento do prejuízo econômico à vítima pelo adolescente).
3. Prestação de serviços à comunidade (realização de tarefas gratuitas por parte do adolescente, em entidades públicas ou privadas, por período não excedente a seis meses).
4. Liberdade assistida (acompanhamento do adolescente nos âmbitos familiar, escolar e comunitário por período mínimo de seis meses). 5. Inserção em regime de semiliberdade (privação parcial de liberdade durante a qual o adolescente tem direito de se ausentar da unidade para estudar e trabalhar, devendo retornar no período noturno, além de passar os fins de semana com a família).
6. Internação em estabelecimento educacional (privação de liberdade durante a qual o adolescente se encontra segregado do convívio familiar e social por até três anos). (BRASIL, 1990)
Cabe ao juiz da Infância e da Juventude a responsabilidade sobre a aplicação das medidas, sendo este competente para proferir sentenças socioeducativos, após análise da capacidade de o adolescente cumprir a medida, das circunstâncias do fato e da gravidade da infração. No âmbito da Justiça, compete à Vara da Execução de Medidas Socioeducativas acompanhar e avaliar, constantemente, o resultado da execução das medidas, bem como inspecionar os estabelecimentos e os órgãos encarregados do cumprimento destas, além de promover ações para o aprimoramento do sistema de execução estabelecidas no ECA.
Em resumo, foi somente com a criação do ECA em 1990 que ocorreu a disponibilização dos direitos e deveres dentro de uma visão de proteção às crianças e adolescentes do Brasil. Dos artigos estabelecidos pelo ECA, entende-se, então, por ato infracional quaisquer atos criminosos ou transgressão penal. Dessa forma, segundo o Artigo 106 desse Estatuto, “nenhum adolescente será privado de sua liberdade senão em flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciaria competente”. (BRASIL, 1990)
Sendo confirmada a contravenção penal, o ECA garante ao indivíduo o direito de convocar a presença dos pais ou responsáveis em qualquer fase do processo, bem como o de contratar um advogado que trabalhe a seu favor. Já, em caso de necessidade, haverá a assistência judiciária gratuita e para que não haja nenhuma desigualdade em relação ao processo, o jovem poderá confrontar-se com testemunhas para obter todas as provas necessárias para a sua defesa.
Importante ressaltar que o ECA delimitou em capítulo específico os direitos dos adolescentes sujeitos à apuração de ato infracional. Portanto, não é passível tratamento diferenciado a nenhum adolescente. Os direitos individuais encontram-se respaldados nos seguintes artigos:
Art. 106. Nenhum adolescente será privado de sua liberdade senão em flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente.
Parágrafo único. O adolescente tem direito à identificação dos responsáveis pela sua apreensão, devendo ser informado acerca de seus direitos.
Art. 107. A apreensão de qualquer adolescente e o local onde se encontra recolhido serão incontinenti comunicados à autoridade judiciária competente e à família do apreendido ou à pessoa por ele indicada.
Parágrafo único. Examinar-se-á, desde logo e sob pena de responsabilidade, a possibilidade de liberação imediata.
Art. 108. A internação, antes da sentença, pode ser determinada pelo prazo máximo de quarenta e cinco dias.
Parágrafo único. A decisão deverá ser fundamentada e basear-se em indícios suficientes de autoria e materialidade, demonstrada a necessidade imperiosa da medida.
Art. 109. O adolescente civilmente identificado não será submetido a identificação compulsória pelos órgãos policiais, de proteção e judiciais, salvo para efeito de confrontação, havendo dúvida fundada. (BRASIL, 1990)
Em regra, o adolescente não pode ser privado da sua liberdade. Existe previsão para casos de flagrante por meio de ordem judicial escrita e jamais será posto preventivamente para averiguações, como no processo penal.
As características de flagrância seguem o mesmo conceito do Código de Processo Penal. Entende-se por flagrante próprio, quando o adolescente está cometendo o ato infracional, quando acaba de cometê-lo; flagrante impróprio ou
presumido, ao ser perseguido após o cometimento do ato infracional, pela autoridade,
ofendido ou outra pessoa, em situações nas quais se pressupõe que ele seja o autor da infração, ou encontrado logo após, com os objetos do ato que permitam presumir ser ele o autor da infração. (NUCCI, 2015)
Excluída a hipótese de flagrância, poderá haver apreensão do adolescente, a qual deverá ocorrer por meio de ordem do juiz da Vara da Infância e Juventude. Essa é a autoridade competente para demandar a ordem. Caso haja descumprimento dos preceitos do referido artigo, poderá incorrer crime do artigo 230 do ECA.
No momento da sua apreensão, o adolescente será informado de todos os seus direitos, bem como a identificação dos agentes, para evitar abuso de autoridade. Estes são preceitos estabelecidos na Constituição Federal no artigo 5, incisos LXIII e LXIV, reprisados na legislação especial. (NUCCI, 2015). Para a garantia da tomada da medida coerente e para que esta obtenha resultados significativos para o infrator, é necessária a criação de uma organização a fim de amparar o sistema.
Sendo assim, em fevereiro de 2004 a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), juntamente a Subsecretaria de Promoção dos Direitos da criança e adolescente (SPDCA) e o Conselho Nacional dos Direitos da criança e adolescente (CONADA) e com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) planejaram o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), que visa desde a averiguação do ato infracional até cada medida socioeducativa a ser executada, com a preocupação sobre o caráter da educação, saúde, cultura, lazer e trabalho, a fim de que ocorra um processo de inserção social do menor, na busca pela mudança de sua trajetória na vida.
A implantação do SINASE objetiva primordialmente o desenvolvimento de uma ação socioeducativa sustentada nos princípios dos direitos humanos. Defende, ainda, a ideia dos alinhamentos conceitual, estratégico e operacional, estruturada, principalmente, em base éticas e pedagógicas. (BRASIL, 2006, p. 22).
Em conjunto com a SINASE há o Atendimento Inicial Integrado, também, conhecido como Núcleo de Atendimento Integrado (NAI), auxiliador ágil na averiguação do ato infracional e inserção do menor no atendimento socioeducativo. O processo educacional ocorre dentro das medidas socioeducativas em duas situações: a primeira ocorre quando o jovem está em liberdade assistida, o qual precisa apresentar um relatório, bem como o boletim escolar em períodos regulares; a segunda se dá quando ele está sob a guarda do Estado, ou seja, quando está em privação de liberdade.
Assegurar a adolescentes e jovens em situação de privação de liberdade nas unidades da Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente) do Estado o direito à educação básica é o objetivo da Secretaria da Educação em parceria com a Fundação CASA, vinculada à Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado (SJDC).
As normas que regulamentam a oferta de ensino pela SEE no âmbito da Fundação CASA são: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e as Resoluções Conjuntas SE-SJDC 1/2017 e SE-SJDC 2/2017. (SÃO PAULO, 2016)
De acordo com o site da Fundação Casa, existem projetos específicos para o desenvolvimento do processo educacional.
Os jovens que estão em Internação Provisória (com permanência de até 45 dias) integram o Projeto Educação e Cidadania (PEC) – proposta de escolarização disseriada, baseada numa Pedagogia de Projetos, criada e desenvolvida pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
A maioria dos adolescentes que cumprem a medida socioeducativa de internação têm defasagem escolar em relação à idade. Por isso, eles são inseridos no Projeto Revitalizando a Trajetória Escolar (PRTE), que busca o desenvolvimento de habilidades e competências por meio da contextualização do ensino, em que o aluno é incentivado a analisar, comparar, confrontar e sintetizar o conhecimento.
As salas de aula nos centros são divididas por níveis: - Ciclo 1: da 1ª a 4ª série ou 2° ao 5º ano;
- Ciclo 2: da 5ª a 8ª série ou 6° ao 9º ano;
(FUNDAÇÃO CASA, 2010, p. 1).
De certo a educação básica oferecida nas unidades de internação, tem por objetivo proporcionar aos adolescentes em privação de liberdade o acesso e a permanência na trajetória da vida escolar, porém, assim como, mas escolas fora da instituição Fundação Casa, ocorre a falta de materiais adequados, estrutura física, motivação aos professores, tornando o processo educacional não tão interessante e motivador no sentido de despertar os alunos para o conhecimento.
As políticas de cunho assistencialista apresentadas neste capítulo buscaram demostrar brevemente o panorama histórico das trajetórias do atendimento a crianças e adolescentes em situação de abandono ou de infração.
Entre essas políticas, destacam-se as que se referem à Fundação Casa, mote deste estudo, cujas ações encontram-se detalhadas no capítulo a seguir.
3 A FUNDAÇÃO CASA E SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS
O fim da FEBEM deu origem a uma nova roupagem para o atendimento de crianças e adolescentes infratores, a Fundação Casa ou Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente.
Nesta seção, apresentamos dados sobre a criação da Fundação Casa do estado de São Paulo, seus propósitos e principais características.