2 OS PRINCÍPIOS DA PREVENÇÃO E PRECAUÇÃO
2.1 Meio ambiente e desenvolvimento sustentável
O embate proporcionado pelo discurso do ―desenvolvimento como progresso‖ e sua contraposição ao ―desenvolvimento pela contínua busca da paz‖, num mundo em constante transformação desde os períodos pós-guerra, encontrou soluções de diversas formas, dentre elas as próprias ações bélicas de um lado, como forma de gerar riqueza através do comércio de armas, e saídas pacíficas através do diálogo, como forma de se encontrar uma resposta aos novos desafios que se apresentavam à manutenção de um ritmo continuamente crescente de desenvolvimento. Dentre as soluções para se alcançar tais objetivos são apresentadas por Mota:
Nestes países, surge o que Pierre Rosanvallon denominou Estado-Providência, onde se estruturam os grandes sistemas de seguridade social afiançados pelo Estado: aposentadoria, saúde, acidentes de trabalho e desemprego. Sistematizam-se a Legislação Trabalhista e a Justiça do Trabalho, e são criados os grandes sistemas públicos da Educação, Assistência Social, Transporte etc. (MOTA, 2001, p. 38-39)
Em outros termos tem-se o chamado Welfare State, uma junção entre política e Estado, bem como sociedade e mercado e da geração de direitos baseados na solidariedade, tão peculiar no pós II Guerra Mundial cujas propostas se destacam os investimentos na área da Saúde, Educação, Assistência e Seguridade Social. (MOTA, 2001, p. 32). As ideias de John Maynard Keynes serviram de respaldo às novas teorias de desenvolvimento como bem-estar social:
[...] com forte ênfase na atuação do Estado como produtor e distribuidor de recursos, não foi inconciliável na prática à noção de desenvolvimento como progresso – apesar de teoricamente na versão liberal de desenvolvimento como progresso estar sempre destacada a importância de calcar o desenvolvimento no Estado.
Na América Latina a teorização do desenvolvimento ganhou fôlego próprio nos estudos gestados pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL),
órgão da Organização das Nações Unidas, criado em 1948 para estabelecer pesquisas e propostas de Desenvolvimento para a América Latina onde se enraíza a concepção de exportadores de matéria-prima e importadores de bens de valor agregados. (MOTA, 2001, p. 34).
Segundo Mota (2001, p. 35) os conflitos advindos da má distribuição de benefícios perduram no Brasil até os dias de hoje e refletem-se no conflito pela terra, habitação, educação, saúde e outras ações de cunho socioeconômicas, porque uma parcela gerada da renda no país está na maioria centralizada nas mãos de uma minoria que não abre mão de sua posição dominante, que reluta em contribuir para uma melhor distribuição dos benefícios em prol de toda a sociedade.
E nesse contexto o que significa desenvolvimento sustentável? Sobre esse fórum o relatório do Clube de Roma, surgido nos idos da década de 60 formulou uma análise de tendências futuras do planeta que contribui, sobremaneira, ao entendimento de que haveria, inevitavelmente, em longo prazo, uma escassez dos recursos não-renováveis. Segundo aponta Mota (2001, p. 35-36) o Relatório é incisivo ao ditar que deve haver um equilíbrio entre os avanços tecnológicos e o desenvolvimento, tendo em vista o controle de uso dos recursos naturais e um suposto desenvolvimento desenfreado.
Nos anos 70 o debate se fortaleceu pelo apoio dos grupos ecológicos e ambientais transportando-o para o seio da sociedade, o que despertou politicamente a defesa do meio ambiente corroborada em 1987, pela Comissão Mundial da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, por meio do documento ―Nosso Futuro Comum‖, vindo a culminar com a adoção do conceito de desenvolvimento sustentável com um viés de desenvolvimento sem colocar em risco a capacidade das gerações futuras (Mota, 2001, p. 36-37).
Assim, vários conceitos procuraram definir o que significaria desenvolvimento sustentável, cuja ideia destaca sua natureza não só econômica como sua dimensão ética e social. A legislação pátria assim o definiu.
Por sua vez a Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento integrante da Organização das Nações Unidas em seu famoso informe ―Nosso Futuro Comum‖ definiu desenvolvimento sustentável como ―[...] aquele que permite satisfazer as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das futuras gerações para satisfazer as suas próprias‖. No entanto, esse conceito não expressa qual é o seu objetivo e qual é o seu fundamento.
Em uma referência clara ao desenvolvimento sustentável o mesmo documento assinala a necessidade de que haja uma preocupação em nível mundial por uma harmonia entre o
desenvolvimento e o meio ambiente, sem desprezar as necessidades humanas as quais devem continuar a serem atendidas, tendo em vista a melhoria da qualidade de vida a fim de que atinja a plena satisfação, não só da geração presente como também das gerações futuras; no entanto, dado que somente será possível se este processo estiver fundamentado na preocupação constante com a proteção e a preservação ambiental.
O direito ao desenvolvimento está condicionado pela própria Declaração de Princípios sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento proclamada no Rio de Janeiro na Conferência das Nações Unidas - Rio+2028 (2012) que o condiciona a uma ―saudável e produtiva harmonia com a natureza‖, pois, a condição principal é que o ser humano tenha direito a uma digna qualidade de vida.
Assim ―[...] desenvolvimento sustentável não é um estado de harmonia fixo, senão um processo de substituição pelo qual a exploração dos recursos, a direção das invenções, a orientação dos processos tecnológicos e a modificação das instituições concordem tanto com as necessidades presentes como futuras‖ é o que consta do informe da Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD.
Tomando por base tal disposição, a Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL estabeleceu, através de um informe, alguns preceitos que indicam a existência de coerência entre desenvolvimento e preservação do meio ambiente são eles:
a) Se aceite que o objetivo de toda ação política nacional e internacional é melhorar a qualidade de vida da população;
b) Se reconheça que a produção deve orientar-se a satisfazer as necessidades básicas da população;
c) Se combinem harmonicamente todos os fatores da produção, incluídos a tecnologia, a mão de obra e o próprio meio ambiente;
d) Se reconheça que a qualidade de vida do ambiente é parte da qualidade de vida e que, por tanto, é impossível ser tratado em separado dos demais componentes do sistema humano, e
e) Os processos de desenvolvimento e de manejo do meio ambiente se orientam tendo em conta sua contribuição à qualidade de vida.
De qualquer forma não há um consenso entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento de quais ações devem ser implementadas para que haja uma atuante e efetiva proteção ao meio ambiente, até porque as qualidades de vida de seus cidadãos são dispares.
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O principal objetivo da Rio+20 foi renovar e reafirmar a participação dos líderes dos países com relação ao desenvolvimento sustentável no planeta Terra. Foi, portanto, uma segunda etapa da Cúpula da Terra (ECO-92) que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro.
No plano interno, os desajustes são consequências da desorganização na normatização e da ausência de políticas públicas que minimizem a contaminação ambiental ou mesmo, garantam a preservação ambiental, cujos órgãos de fiscalização carecem de poder coativo e de instrumentos sancionatórios que sejam dotados de eficácia quando de sua aplicação contra aqueles que infringem as normas vigentes. Afinal, muitas vezes o Estado é leniente em sua manus imperia, quer seja durante a fiscalização do cumprimento dessas normas, quer seja no momento de aplicação de sua consequência sancionadora. Essa leniência advém em grande parte do poderio econômico das pessoas físicas e jurídicas envolvidas na degradação ambiental, não raro ligadas à produção, distribuição e elevado consumo de energia.
De acordo com Reis, Fadigas e Carvalho (2005, p. 23) até o final da década de 1980, o modelo de planejamento estratégico mundial adotado para satisfazer a demanda crescente por energia, seguiu as estratégicas orientadas para o ―suprimento‖. Os recursos energéticos abundantes colocados à disposição dos países jogaram ―lenha‖ no crescimento econômico, porém serviram mais para satisfazer o apetite das elites do que as necessidades dos pobres.
Aqui fica visível a necessidade de um consenso entre todos os atores envolvidos no processo de preservação do meio ambiente sejam eles governos, empresas, ou a população, direta ou indiretamente afetada pelos danos causados ao meio ambiente, principalmente, quando se trata como aqui é o caso em específico de utilização da energia nuclear.
Importante destacar a posição do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura- IICA, ao afirmar que o crescimento econômico, o desenvolvimento social e a proteção do meio ambiente são compatíveis. Deve entender-se que nem o desenvolvimento pode subsistir as expensas de recursos ambientais que se deterioram, nem o meio ambiente pode ser protegido quando os programas de crescimento ignoram sistematicamente os custos da destruição ambiental.
Tal assertiva deve ser entendida no sentido de que o desenvolvimento sustentável é o adequado equilíbrio entre sustentabilidade social (equidade social), sustentabilidade econômica (crescimento econômico), e sustentabilidade do meio ambiente (adequada proteção ambiental). A realidade do momento de avaliação da política a ser implementada é que irá reger a importância de cada princípio, afinal, o desenvolvimento sustentável está arraigado ao constitucionalismo ambiental latino-americano como um dever do Estado e das pessoas em proteger o meio ambiente. Esta ideia está em nossa Constituição de 1988 e acompanhou a maioria das constituições mundiais ao estabelecer em seu bojo um modelo de desenvolvimento econômico, estabelecidos na parte que trata da Ordem Pública Econômica,
por meio de princípios em que se destaca a atuação subsidiária do Estado em matéria econômica.
No plano internacional, por sua vez, a Declaração de Princípios sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Janeiro, emanada em 1992, preconiza em seu Quarto Princípio: ―A fim de alcançar o desenvolvimento sustentável, a proteção do meio ambiente deverá ser constituída como parte integrante do processo de desenvolvimento e não deve ser considerada de forma isolada‖. O Princípio Oitavo da mesma declaração informa que: ―para alcançar o desenvolvimento sustentável e uma melhor qualidade de vida para todas as pessoas, os Estados deveriam reduzir e eliminar as modalidades de produção e consumo insustentáveis.‖
Os princípios vetores da normativa ambiental ganham relevo nesse contexto em que desde 1988, estão plasmados na Constituição, que ainda estabelece as formas que poderão ser utilizadas pelo Estado para levar a cabo o seu dever de proteger o meio ambiente, destacando-se o princípio da precaução e o princípio da prevenção.
Neste sentido preconiza o Princípio Quinze da Declaração de Princípios sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Janeiro, de 1992:
Com o fim de proteger o meio ambiente, os Estados deverão aplicar amplamente o critério de precaução conforme as suas capacidades. Quando haja perigo de dano grave ou irreversível, a falta de certeza científica absoluta não deverá ser utilizada como razão para postergar a adoção de medidas eficazes em função dos custos para impedir a degradação do meio ambiente.
As cartas latinoamericanas em sua grande maioria trazem o princípio da prevenção. Assim, por exemplo, a Constituição Equatoriana de 1998, estabelece em se artigo 91 inciso 2º que o Estado ―tomará medidas preventivas en caso de dudas sobre el impacto ou las consecuencias ambientales negativas del alguna acción u omisión, aunque no exista evidencia científica de dano‖.
Ainda que a Constituição brasileira de 1988 não traga em seu texto tal assertiva, fortemente embasada no princípio da precaução, prevê outras que consagram o princípio, como a garantia intergeracional (garantia do meio ambiente saudável para as presentes e futuras gerações) e a obrigatoriedade da realização de Estudo Prévio de Impacto Ambiental para atividades, ainda que apenas potencialmente poluidoras.
No mesmo sentido as Cartas da Venezuela e da Argentina. No tocante ao dever das pessoas na proteção do meio ambiente, no plano constitucional, preconiza a Constituição Venezualana em seu artigo 127 que ―es un derecho y un deber de cada generación proteger y
mantener el ambiente en beneficio de si misma y del mundo futuro.‖ No mesmo sentido milita a Constituição Argentina que em seu artigo 41 preconiza em relação ao meio ambiente que todos os habitantes têm ―o deber de preservalo‖.
Desse modo, é mister dizer que:
A questão ambiental emerge, portanto, no terreno político-econômico e da própria concepção de vida do homem sobre a terra. Destarte, toda política ambiental deve procurar equilibrar e compatibilizar as necessidades de industrialização e desenvolvimento, com as de proteção, restauração e melhora do ambiente. Trata-se na verdade, de optar por um desenvolvimento econômico qualitativo, único capaz de propiciar uma real elevação da qualidade de vida e o bem-estar social. Isto vale dizer: ecodesenvolvimento, como desenvolvimento racional do ponto de vista ecológico, acompanhado de uma gestão judiciosa do meio. (KIECKHÖFER, apud, NASSER FERREIRA, 2008, p. 11-34).
Como se pode notar, desenvolvimento, crescimento energético e crescimento econômico se influenciam, e como dizem REIS, FADIGAS e CARVALHO (2005, p. 25): 1) Os países desenvolvidos basearam o seu crescimento no consumo elevado de energia; 2) porém, souberam articular estratégias de crescimento, quando se viram em crise energética.
Portanto, como se observa, a temática ambiental está atrelada de modo incisivo nas questões do desenvolvimento sustentável e do crescimento econômico, mas permeada de ausência de debates claros sobre os problemas envolvidos, os quais, não raro sequer são discutidos de forma pública e transparente com os diversos segmentos da sociedade.
Embora as consequências desses problemas sejam visíveis e sentidos pelos indivíduos todos os dias desde que acordam – falta de energia de boa qualidade para todas as camadas da sociedade, ausência de água de qualidade para o consumo humano e saneamento básico em todos os seus níveis, com tratamento de esgoto e das águas servidas antes de devolvê-las à natureza (os rios e mares), falta de urbanização e coleta adequada de lixo, etc. – infelizmente, a maioria não se apercebe de forma clara da conectividade entre esses problemas porque não foram capacitados para percebê-lo de forma crítica, dado talvez tão grave quanto os próprios problemas sociais decorrentes da desigual distribuição de riqueza e renda que se apresenta no âmago da questão.