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1 O PROGRAMA NUCLEAR BRASILEIRO E SEU MODELO DE REGULAÇÃO

1.2 Os países dependentes da energia nuclear

Em 2003, o Massachusetts Institute of Tecnology- MIT divulgou um relatório em que apontava a energia nuclear como uma das quatro opções mais realistas para a redução das emissões de dióxido de carbono provenientes da geração de eletricidade. Mas não só: o estudo aponta também para outras modalidades, como tornar mais eficiente a etapa de geração e mais consciente o uso dessa energia. Vale aqui ser trazida a tona para debates, a proposta dos pesquisadores do MIT, que segundo Guilherme Gorgulho para os estudos de política energética dizem:

Um estudo recém-divulgado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) calcula que os Estados Unidos necessitam de US$ 1 bilhão por ano para investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e programas de infraestrutura na área de energia nuclear. O relatório "The Future of Nuclear Fuel Cycle", apesar de ter sido publicado em 26 de abril (após o acidente nuclear no Japão, em março), defende que essa fonte de energia continuará sendo um importante componente na matriz energética norte-americana. (grifos do autor)13

13Estudo do MIT recomenda investimento anual de US$ 1 bilhão em P&D para energia nuclear. Reatores de água leve, os mais comuns em uso nos EUA, continuarão sendo a opção preferida no país pelas próximas décadas. O MIT recomenda que o foco principal em P&D deva ser no aprimoramento dos projetos de reatores de água leve, para aumentar a eficiência no uso dos combustíveis e reduzir os custos de futuros reatores. Segundo o estudo, os reatores de água leve, os mais comuns em uso nos Estados Unidos, continuarão sendo a opção preferida no país pelas próximas décadas. O documento aponta a necessidade no país de depósitos centralizados de lixo atômico de longo prazo, mas pondera que o armazenamento provisório do material nuclear poderá continuar sendo feito em usinas e outras instalações. "O planejamento da gestão de armazenamento de longo prazo de combustível nuclear usado — por cerca de um século — deve ser uma parte integral do planejamento

Todavia, se a ampla utilização da energia nuclear na maior parte dos países do mundo desenvolvido, do qual o Brasil pretende fazer parte num futuro próximo, tem sido uma justificativa largamente utilizada pelo governo para dar continuidade e novo impulso ao seu Programa Nuclear, essas concepções não raro deixam em segundo plano as peculiaridades nacionais, especialmente, o desenvolvimento de sua indústria e as suas potencialidades decorrentes de outras fontes, como o gás, a energia eólica, o petróleo de jazidas convencionais e do pré-sal, a energia solar e o potencial hídrico de pequenas hidrelétricas com baixo potencial de danos ao meio ambiente. E por fim, que países desenvolvidos como a Alemanha que sequer dispõem dessa diversidade de fontes alternativas vivem uma moratória em termos de novas usinas nucleares, desde a década de 1970.

De acordo com os dados do Group aims sharing opportunities between Environmental Engineers que tem como objetivo partilhar oportunidades entre profissionais de Engenharia do Ambiente, atualmente, são 10 (dez) os países que mais se utilizam do uso da energia nuclear. No entanto, pode-se observar que o Japão que consta dentre os dez países consumidores dessa fonte energética propõe abandonar esse modelo. Apontam os relatos de Vanessa Barbosa publicados na Revista Exame acerca dos estudos desenvolvidos pelo Environmental Engineers sobre os 10 (dez) países no mundo mais dependentes de energia nuclear:

O Japão anunciou recentemente que vai abandonar até 2030 a fonte nuclear, que supria 30% de sua demanda antes do desastre de Fukushima. Veja outros países no mundo extremamente dependentes de usinas nucleares. Alguns já têm planos de abandoná-las.

Sobre a França o relatório menciona que o país é grande dependente da energia radioativa.

A França é o país mais dependente dessa fonte de energia radioativa, que representa 77,7% da matriz energética. Os dados são da ONG World Nuclear Power e foram atualizados em setembro. Anualmente, os franceses produzem 423 bilhões de kWh, perdendo só para os Estados Unidos.

Não à toa, a energia nuclear é um dos principais pontos de debate do programa dos candidatos à eleição presidencial. No país, existem 58 reatores em operação, além de um em construção, outro na fase de planejamento, e um terceiro cuja proposta ainda está sendo estudada. (Group Environmental Engineers).14

do ciclo de combustível nuclear. Apesar de o armazenamento administrado ser considerado seguro para esses períodos, um programa de P&D deve se dedicar a confirmar e estender o prazo de transporte e armazenamento seguro", recomenda o MIT.Disponível em: http://www.inovacao.unicamp.br/documentos/estudo-do-mit-recomenda-investimento-anual-de-us-1-bilhao-em-pd-para-energia-nuclear. Acesso em 25/01/2014.

Assevera o relatório que a Bélgica também faz parte do rol dos dependentes e uma informação significativa merece destaque, tendo em vista os constantes problemas ocasionados pelos reatores devido ao tempo de uso. Diz o documento que mais da metade de toda a energia consumida na Bélgica (54%) vem de usinas nucleares. Seus sete reatores operantes são antigos e às vezes apresentam problemas, como fissuras que em agosto obrigou o fechamento de uma das centrais. Em 1999, o país anunciou a descontinuação de seu programa nuclear durante 40 anos, mas acabou retomando-o em 2000. A Bélgica produz 14.8 bilhões de kWh de fontes nucleares, o triplo da geração brasileira. (Group Environmental Engineers)

No tocante à Eslováquia tem-se a energia nuclear suprindo cerca de 54% das necessidades do país. Quatro reatores são responsáveis pela produção anual de 14,3 bilhões de kWh. Outras quatro centrais estão sendo construídas, duas estão em fase de implementação e mais uma encontra-se em estudo pelos governantes do país (Group Environmental Engineers, 2014, p. 2).

Cenário de um dos piores acidentes nucleares da história surge a situação de Chernobil. No trabalho desenvolvido pelo então grupo de engenheiros ambientais menciona que:

Palco de um dos piores acidentes nucleares da história, na usina de Chernobil, a Ucrânia é o quarto país que mais consome energia nuclear no mundo. Por ano, seus 15 reatores em atividade produzem 84,9 bilhões de kWh de energia nuclear, montante que supre 47,2% das necessidades energéticas do país. Atualmente, existem duas novas usinas em fase de implementação e propostas sob análise para criação de mais 11 reatores. (Group Environmental Engineers)

Na Hungria, quatro centrais nucleares são responsáveis pelo suprimento de 43,2% da energia consumida na Hungria. Há propostas de implementação de mais dois reatores no país, que produz anualmente 14,7 bilhões de kWh, equivalente à produção brasileira. (Group Environmental Engineers, 2014, p. 3)

Sobre a história da usina nuclear de Eslovênia, os pesquisadores citam:

Localizada a 120 quilômetros da capital, fica a única usina nuclear da Eslovênia. A central atômica de Krsko produz anualmente 5,9 bilhões de KW, que abastecem 41,7% das casas, prédios, indústrias e outras unidades consumidoras do país. Há uma proposta para implementar mais uma central, mas a ideia ainda aguarda aprovação. (Group Environmental Engineers) Considerado um dos países mais desenvolvidos do mundo, a Suíça também emprega 40,8% de energia nuclear.

Atualmente, 40,8% da eletricidade consumida na Suíça vem da energia nuclear gerada por cinco reatores. O país, que produz anualmente 25,7 bilhões de kWh, estuda no entanto abandonar a energia atômica até 2034. Para compensar a saída de cena das atuais centrais nucleares e garantir a segurança energética do país, o governo helvético promete investir pesado na geração alternativa a partir de fontes renováveis, como hidráulica, solar e eólica. (Group Environmental Engineers)

Concernente à Suécia, outro país desenvolvido, 40% da energia vêm de fonte nuclear. No entanto, segundo dados do relatório a Suécia se utiliza dessa fonte porque, segundo o governo local, esse modelo de geração energética não produz emissões de gases efeito estufa; por isso, acredita-se que ao decidir por esse modelo o país de certo modo estaria contribuindo na diminuição do aquecimento global.

Quase 40% da energia consumida na Suécia vêm de usinas nucleares. Somadas, as dez centrais do país produzem anualmente 58,1 bilhão de kWh. Aos olhos do governo local, o uso da energia nuclear (que não gera emissões de gases efeito estufa) é uma das razões de diminuir a participação sueca no processo de aquecimento global. (Group Environmental Engineers)

Referente à Coreia do Sul temos dados significativos sobre a produção de energia nuclear. No contexto mundial ocupa a nona posição de dependência dessa fonte e de acordo com as estimativas prevê ampliar a utilização energética de cunho radioativo.

Nono país mais dependente de energia nuclear, a Coreia do Sul conta com 23 usinas para produzir 147 bilhões de kWh necessários para abastecer 34,6% da demanda. Segundo a Ong World Nuclear, quatro reatores estão em construção atualmente no país, e outros cinco estão em fase de planejamento. Cerca de 33% de toda a energia consumida na Armênia vem de fontes atômicas. Ou melhor, de um único lugar, o complexo nuclear de Metsamor, considerado um dos mais perigosos do mundo. Em 1988, a usina chegou a ser fechada depois de um terremoto atingir o país. Mas, sete anos depois, ela foi reaberta sem nenhuma melhoria ter isso feita no sistema de segurança. Há estudos em andamento para a instalação de mais um reator.15

Lado outro, a contenção forçada da energia nuclear na Alemanha desde um momento de enorme recessão econômica – o início dos anos 1970 – só foi possível em decorrência da organização da sociedade que, conscientizada da necessidade de tomar posição sobre tudo o que lhe diz respeito, forçou o máximo de transparência por parte do governo na condução da política nuclear. Diferentemente, na maioria os países ditos em desenvolvimento, a ideia de

produção de energia nuclear segue num ritmo crescente tanto quanto decresce a participação da sociedade na formulação dessas decisões.

Como assevera Vianna, os padrões mundiais de geração e consumo de energia têm sido marcados por profundos desequilíbrios entre os interesses socioeconômicos e a sustentabilidade do meio ambiente (VIANNA, 2000, p. 167).

Só muito recentemente passou a ser hegemônica entre os governos dos países desenvolvidos a ideia de que não é mais possível prosseguir expandindo a oferta de energia sem considerar os efeitos deletérios ao meio ambiente decorrente de todas as fases de sua produção e consumo16.

Nesse sentido pondera Mota sobre o efetivo direito ao meio ambiente como garantia de proteção à vida, e que no caso em específico deva ser levado em conta, uma vez que, os efeitos depredatórios decorrentes do uso da energia nuclear não são afastados:

Como considerar efetivo tal direito ao meio ambiente se o instrumental de garantia deste, para as presentes e futuras gerações, acha-se comprometido com a capacidade de cada Estado (financeira, impositiva e regulatória), na medida de seus meios, de fazer frente a essa responsabilidade de proteção? Deve-se ter em conta um outro modelo jurídico que conceba o direito não como uma função do sujeito (todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado), mas como um resultado da organização de cada sociedade (o nível de proteção possível do meio ambiente para as presentes e futuras gerações será aquele ótimo que cada sociedade conseguir suportar com a utilização da melhor tecnologia disponível, a partição justa da proteção ambiental). (MOTA, 2006, p. 3).

Antes, a regra era incentivar a demanda crescente, induzindo desenvolvimento econômico do eixo central do globo ao custo do aumento da desigualdade nos países em desenvolvimento, que por sua vez, veem crescimento sem elevação equitativa do padrão de vida.

Isso tem a ver justamente com a propositura de Mota quando expõe sobre as sociedades contemporâneas e como essas passaram a ser concebidas simultaneamente tanto como produtoras de mercadorias em larga escala, quanto produtora de riscos. Defende o autor:

As sociedades contemporâneas não se singularizam apenas por sua capacidade de produção de riquezas, mas também pelos riscos que elas mesmas produzem por meio de seus sistemas produtivo e científico. Dessa maneira, as pessoas hoje estão expostas a riscos de toda natureza − sociais, sanitários, tecnológicos, ecológicos − ligados à modernização das

sociedades. Isso caracteriza o que Ulrich Beck denomina uma ―outra modernidade‖, na qual emerge uma sociedade industrial diferente da sociedade industrial clássica: a sociedade de risco (risk society) (MOTA, 2006, p. 1)

Retomando Beck (1999, p. 32), Mota (2006) ainda acentua o necessário cuidado com o desenvolvimento da ciência, do conhecimento e da tecnologia. O perigo e o risco – diante do enorme e instigante impacto na natureza e na própria natureza humana (manipulação genética) acompanham a possibilidade de catástrofes e de imprevisibilidades).

Nesse diapasão diz-se que esse modelo de geração de energia, ou seja, a nuclear, ocasiona inúmeras controvérsias inclusive de ordem jurídica; afinal, de um lado crê-se que ela constitui uma alternativa viável para suprir as demandas energéticas do Brasil e, porque não se dizer das sociedades modernas que crescem demasiadamente; por outro, pode-se dizer que os recursos energéticos provenientes de outras fontes ainda conseguem suprir as exigências mercadológicas ou de consumo. Contudo, em decorrência dos diferentes tipos de radiações por ela emitidas durante o processo e os riscos de acidentes radioativos com proporções catastróficas para a humanidade, ainda encontramos muitos posicionamentos contrários a esse tipo de energia, seja no âmbito nacional quanto internacional.