1 O PROGRAMA NUCLEAR BRASILEIRO E SEU MODELO DE REGULAÇÃO
1.4 O Programa Nuclear Brasileiro: Acordo Nuclear Brasil – Alemanha
Desde a formação de uma massa crítica científica no campo da física nuclear, nas universidades e centros de pesquisas nacionais, a condução pelo governo brasileiro das decisões no campo nuclear passou a receber críticas por sua forma autônoma e centralizada de atuação, capitaneada por tecnocratas ou militares com baixo conhecimento de área, sem ouvir os especialistas nem submeter as proposições a um processo democrático e transparente de decisões.
No período do regime militar em que foram instaladas as bases do programa nuclear governamental no Brasil, percebe-se que esse processo recrudesceu e se enraizou, blindando as decisões contra qualquer crítica científica e que não viesse dos escalões internos do governo ou de sua base parlamentar, tendo como resultado disso consequências negativas aos interesses do país, viabilizando grandes ganhos para empresas e pessoas físicas envolvidas, aqui e na Alemanha, ao lado de grandes e inegáveis prejuízos econômicos para o erário nacional - isto pode-se falar independentemente de qualquer análise das questões ambientais ou estratégicas envolvidas. Vale ressaltar, tais consequências puderam-se observar nos dois negócios que o Brasil estabeleceu para aquisições de usinas nucleares – o primeiro com empresa americana, de menor importância, e o segundo, o Acordo Nuclear Brasil - Alemanha. Na Alemanha Ocidental, os industriais do ramo nuclear e de outras empresas ligadas à área ameaçavam o governo de despedir dezenas de milhares de técnicos nucleares e trabalhadores das indústrias vinculadas pela falta de encomendas de fabricação de reatores. Assim, embora a Alemanha já produzisse energia elétrica em excesso, provinda de fontes clássicas e de alguns reatores nucleares, e enfrentasse uma oposição cerrada ao crescimento da energia nuclear por parte do movimento social e político conscientizado, restando baixíssimas possibilidades de instalar reatores em seu próprio território, o governo alemão havia autorizado a construção de mais 19 reatores nucleares para evitar demissão em massa.
Em consequência, o governo alemão teve necessidade de dar vazão a esse excedente de sua produção de reatores, o que conseguiu fazer muito bem mediante um plano de comercialização de reatores com países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil, atraídos por propostas aparentemente irrecusáveis.
A respeito dos perigos da transferência de tecnologia e do material que poderia ser enviado juntamente com equipamentos destinados à energia pacífica, transcreve-se a afirmação do então Ministro da Pesquisa e Tecnologia da Alemanha, Hans Matthofer:
Somos um país pobre em matéria-prima e energia e por isso somos forçados a exportar tecnologia moderna e complexa... não vejo como a economia alemã possa comercializar apenas com os estados democráticos, que infelizmente, já não são os mais numerosos (MACHADO, 1980, p. 16).19
Na sua proposta, o país europeu ofereceu desde o financiamento e a formação de técnicos especializados, até fábrica de reatores, construção de usinas de reprocessamento de combustível e instalação de usinas de enriquecimento de urânio, tudo condicionado apenas à compra pelo Brasil dos reatores fabricados pela indústria alemã. (SAFFIOTTI, 1982, p. 167).
Em 1975, após uma série de negociações secretas envolvendo os governos brasileiro e alemão, bem como a cúpula de gigantes da indústria alemã, como a Siemens, a AEG, e Thissen, a Noell e a Krupp, tendo como carro-chefe a KWU, houve a assinatura do programa de cooperação com a Alemanha, o famoso Acordo Nuclear: comemorado no velho continente como o contrato do século, criticado no Brasil pela comunidade científica.
Ora, o acordo nuclear foi assinado em momento qual já não se podia apresentar a energia nuclear ao mundo como alternativa barata e limpa, principalmente segura, da forma que vinha sendo propagada até poucos anos antes.
A questão ambiental já se encontrava na ordem do dia e o próprio Presidente Nixon dos Estados Unidos, que em 1972 havia nomeado uma ambientalista notável e independente para a Comissão de Energia Atômica, Dixy Lee Ray, havia levado a mesma à sua presidência no final de seu mandato (TENNENBUM, 2000, p. 317-332).
Foi na gestão de Dixy Lee Ray que se deu a elaboração do famoso Relatório Rasmussen que apontava a total segurança das usinas nucleares no ocidente. E mesmo assim, o sistema democrático americano jamais permitiu ou pressionou para que se calassem os críticos da energia nuclear. Havia um embate transnacional de opiniões científicas e estatísticas – como existe hoje – em que, nos países desenvolvidos, levavam vantagem os defensores da questão ambiental. Como esclarece Dasaix Myers III:
Os que preconizam uma confiança sempre maior na energia nuclear fazem duas asserções de ordem geral: o aumento do suprimento de energia é essencial à melhoria do padrão de vida, e as fontes de combustível
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Segundo Machado, a entrevista foi citada no Relatório Desenvolvimento, Meio Ambiente e Bomba Atômica, da Anistia Internacional – Brazilienkoordinationgroupe.
nuclear estão-se exaurindo cada vez mais ou não serão capazes, por várias razões, de satisfazer à procura de energia no futuro (...).
A procura de eletricidade aumentará ainda mais depressa, dizem eles, graças à sua flexibilidade e aos atrativos que oferece como forma de energia. Acreditam seja o desenvolvimento da energia nuclear indispensável para assegurar um suprimento adequado de energia a fim de satisfazer a essa procura. (MYERS III, 1977, p. 29).
Os defensores da ampla aceitação e total controle ou ausência de riscos na energia nuclear afirmavam que uma grande riqueza de dados justifica a assertiva amplamente aceita de que a ampliação do emprego da energia e o crescimento da economia estão ligados de maneira inextricável, como argumentava o então presidente da Westinghouse (BURNHAM et al., 1974, p. 367).
No Brasil, no entanto, era comum a falta de transparência que sempre norteou os governos – em geral ditatoriais entremeados com curtos períodos democráticos. A visão era diversa e os objetivos nem sempre eram os que constavam dos documentos assinados.
Assim, a situação em que se deu o acordo nuclear Brasil – Alemanha era extremamente favorável aos interesses do país subdesenvolvido, de um lado, que pretendia burlar o bloqueio norte-americano de acesso às tecnologias de enriquecimento de urânio, tendo de outro lado uma nação que necessitava transferir seus déficits orçamentários e fiscais.
Todavia, por esse prisma, não é difícil entender que na formulação do acordo havia tanto interesse econômico da Alemanha quanto estratégico do Brasil. Assinado em junho de 1975, o acordo previa, além da instalação de oito centrais nucleares, a criação de empresas de prospecção e exploração de urânio, fabricação de elementos de combustível, fabricação de componentes pesados para usinas e reatores, o reprocessamento do combustível irradiado, o enriquecimento do urânio, enfim, a criação de toda uma indústria, a indústria nuclear.
Se de um lado, havia forte oposição ao acordo nuclear com a Alemanha por parte dos meios científicos, havia a defesa por parte daqueles que criaram a expectativa de criação de alguma indústria nuclear aqui, possibilidade impensável no acordo com a Westinghouse americana para a construção de Angra 1.
Ao longo dos debates que se seguiram à sua assinatura, fortemente nutridos por propaganda institucional do governo para demonstrar as grandes vantagens do acordo para o Brasil, a quase totalidade da comunidade científica nacional pôs-se contrária, levantando sérias objeções à forma como foi negociado, ao seu conteúdo e às possibilidades concretas de sua implantação.
Entre as principais objeções, a comunidade científica criticava a ausência da sua participação no processo de tomada decisão, desconfiava da real possibilidade do país absorver em um curto espaço de tempo uma tecnologia tão sofisticada e denunciava que o método do processo de enriquecimento de urânio adotado nas centrais previstas no acordo, o jato centrífugo, era ainda experimental (CARVALHO, 2008, p. 25).
Nada obstante, foram feitas adaptações institucionais do setor nuclear brasileiro para a necessária adequação aos moldes alemães, a fim de que a NUCLEBRÁS – transformada a partir da extinção da Companhia Brasileira de Tecnologia Nuclear – pudesse se associar a empresas ligadas à Siemens, para as diversas atividades relativas ao ciclo do combustível nuclear.
O acordo previa, basicamente, a construção pela Nuclebrás, em associação com a KWU e demais empresas do bloco alemão, de 8 centrais nucleoelétricas no país até 1990; uma fábrica de componentes pesados e determinadas unidades do ciclo do combustível nuclear, tais como as instalações de conversão e de enriquecimento de urânio, a fábrica de elementos combustíveis e uma unidade de reprocessamento de combustíveis irradiados.
Pouco tempo depois, já se percebia que os resultados do acordo nuclear não foram os previstos, especialmente no que prejudicou a continuidade das pesquisas físicas no país.
Até 1982, o que se tinha construído no prazo, mas ainda ociosas, eram a fábrica de elementos combustíveis (FEC) em Resende (RJ), ao custo de 75 milhões de dólares, e a fábrica de equipamentos pesados (Nuclep) em Itaguaí, ao custo de 350 milhões de dólares. (CARVALHO, 2008, p. 55).
A construção dessas indústrias inicialmente só era do interesse das empresas alemãs, pois toda a tecnologia era fornecida pelas mesmas, com enormes ganhos para elas próprias, além do que incentivariam a construção de outras centrais, já que a Nuclep somente apresentaria retorno se construísse um conjunto de equipamentos pesados por ano; em consequência, ficou paralisada por anos, sendo depois readaptada para elaborar componentes convencionais para evitar o sucateamento de suas máquinas, embora com prejuízo financeiro subvencionado, tendo em vista seu custo evidentemente superior ao da iniciativa privada.
A Fábrica de Elementos Combustíveis, da mesma forma, não se prestou ao seu fim, pois somente poderia produzir a partir da importação de urânio enriquecido, dependendo do funcionamento da Nuclei – Nuclebrás de Enriquecimento Isotópico, que depois de consumir mais de 1 bilhão de dólares ainda não realizou o enriquecimento do urânio (CARVALHO, 2008, p. 53-59).
O Complexo Mínero-industrial de Poços de Caldas - CIPC, hoje denominado Unidade de Tratamento de Minérios em Caldas, vinculado à INB, em Poços de Caldas, Minas Gerais, destinado a transformar o urânio natural em yellow cake, custou 200 milhões ao país.
Hoje, todas as essas empresas ligadas à cadeia produtiva do urânio estão reunidas na INB – Indústrias Nucleares do Brasil, com sede no Rio de Janeiro e unidades na Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Vinculada à autarquia CNEM – Comissão Nacional de Energia Nuclear, a gestão do Programa Nuclear Brasileiro está ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
A obra da Usina de Angra I, apesar de ter obtido licença para operar em dezembro de 1984, sofreu várias interrupções, inclusive por ordem judicial, e apresenta 657 MW de potência instalada.
Com um reator PWR – pressurized water reator – da americana Westinghouse, vem apresentando problemas desde sua inauguração, em 1985. Foram registrados eventos como vazamentos de material radioativo pelas varetas que acondicionam o combustível físsil no interior do reator nuclear, falhas no manuseio do material, situações que já chegaram a apresentar-se com frequência preocupante (BERMANN, 2003, p. 28). 20
Concedida a licença de construção de Angra 2 em 1981, obteve a licença de operação apenas em março de 2000. Iniciando a operar em julho de 2011, seu reator PWR da alemã KWU apresenta potência líquida de 1230 KW, exatos 25 anos e muitos bilhões de dólares depois da assinatura do acordo com a Alemanha. Longe das 8 usinas previstas no acordo, o programa nuclear brasileiro gerou e ainda gera muitos prejuízos ao país em razão do impasse que se seguiu em relação à usina de Angra 3, com previsão de conclusão em 2018.
Em razão disto especialistas defendiam uma moratória do projeto. Nesse sentido, BERMANN (2003, p. 29) menciona que já eram razões consideradas suficientes para uma moratória do programa. ―Os custos do programa tem sido objeto de muitas controvérsias. Entretanto, o que se sabe é que eles são muito altos e este é o principal motivo alegado para a sua manutenção. Afinal, ―não se pode parar o que já custou tão caro‖, seguindo a lógica do fato consumado. 21
20 A falha ocorrida em 28 de maio de 2001 permitiu que 22 mil litros de líquido radioativo vazassem para um vaso de contenção interno e obrigou a paralisação da usina por 7 dias.
Conclusões semelhantes, inclusive considerando o ponto de vista econômico da manutenção da geração dessa energia, foram publicadas em diversas análises questionando a eficiência econômica do aproveitamento energético. Segue trecho de uma delas:
(...) Como referência, a Hidrelétrica de Estreito, a maior usina em construção atualmente, com potência instalada de 1.087 MW, entregará 584 MW-médio de energia e custará R$ 3,3 bilhões. Portanto, se não houver estouros de orçamento nem atrasos, a energia de Angra 3 será 25% mais cara que a de Estreito: R$ 7,047 milhões por MW-médio em Angra 3 ante R$ 5,650 milhões por MW-médio em Estreito. Os cálculos da tarifa de Angra 3 (tarifa necessária para remunerar os investimentos acima ao longo do tempo) que têm sido apresentados precisam ser mais bem contextualizados: a Eletronuclear tem dito que Angra 3 fornecerá energia entre R$ 131 e R$ 169 por MWh. Nos últimos leilões regulados de energia, o preço-teto definido pelo próprio governo foi de R$ 126/MWh para usinas hidrelétricas e de R$ 140/MWh para as termoelétricas. Além da amplitude pouco usual da faixa de preço (de R$ 131 para R$ 169 temos um desvio potencial de 29%), é necessário saber qual a taxa de retorno implícita neste preço: se for muito baixa, significará subsídio explícito do Tesouro Nacional à Eletronuclear (SALES, Folha de S. Paulo, 04.07.2007).
Assim, temos que, se a taxa de retorno não for plausível, sendo inferior ao custo de oportunidade do capital, o melhor seria investir os recursos em atividades complementares e sem que se expusesse o contribuinte a riscos desnecessários.
O principal argumento do Governo Federal é a necessidade de ampliação da capacidade geratriz nacional para assegurar o crescimento industrial e tecnológico, para cuja finalidade a matriz nuclear, segundo o Presidente da República Lula da Silva, seria uma energia limpa22, com isso, muitos saem em defesa dessa opção por esta suposta neutralidade da energia nuclear – e, no caso do Brasil, livre de absolutamente qualquer risco, o que soa inacreditável desconhecimento, seja da realidade do país – considerados os acidentes já ocorridos – seja dos riscos existentes em relação à questão nuclear, especialmente que os efeitos da radioatividade proveniente de vazamentos vão muito além do aquecimento global, bem como que os diversos ciclos da produção de energia nuclear envolvem muito dispêndio de energia de outras fontes e poluição do meio ambiente desde a pesquisa e a lavra de urânio.
22 Conforme afirmou o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva: ―não tem nenhum sentido [não terminar a usina]. É uma energia limpa. Não polui. Não emite CO2. Portanto, não contribui para o efeito estufa.‖ E conclui: ―A tecnologia brasileira é perfeita. Posso garantir para vocês que nunca vai acontecer no Brasil o que aconteceu em Tchernobyl. Nunca‖, afirmou o presidente, referindo-se ao grave acidente ocorrido em 1986 na Ucrânia. (...) ―Para a gente crescer acima de 5%, vamos ter de dizer aos investidores que não vai faltar energia no país a partir de 2012, porque até lá está garantido‖ [o suprimento]. FOLHA ON LINE, em Lula Afirma que Angra 3 será concluída, notícia compilada do sítio folha.com.br, publ. em 15.06.2007, às 10h42, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u304668.shtml. Acesso em 25.05.2010, às 14h15m.
Em uma análise simplista, a Eletronuclear alega que não se pode meramente absorver o prejuízo do que já foi pago em aquisição e manutenção de equipamentos. Todavia, é concretamente plausível afirmar cientificamente, do ponto de vista ambiental e econômico, que os prejuízos decorrentes da continuidade do projeto serão incalculavelmente muito maiores, por envolver um custo ambiental ainda inominável e resultar numa produção de energia cara para ainda ser subsidiada pelo tesouro nacional.
Não parece justificável ampliar gastos que hoje já somam R$ 2, bi (dois bilhões de reais) para R$ 13,9 bilhões de reais, custo esse que poderá sofrer potencial acréscimo, em face de previsíveis complicações em contratações públicas, interrupções de obras por decisões judiciais e dificuldades orçamentárias gerando também previsível estouram de prazo. Tudo isso para obter-se um aproveitamento energético que de 2014 já está previsto para 2018, quando se previu necessidades de ampliação do parque brasileiro desde 2010 – necessidades que acabaram sendo absorvidas pela entrada em funcionamento de novas hidrelétricas e distribuição de gás natural.