3.2 DESENROLANDO OS FIOS: BUSCANDO ÂNCORA PARA TRABALHAR O
3.2.2 Memória discursiva e interdiscurso: Teia que constitui os efeitos de sentido do
Como foi possível perceber até aqui, a constituição dos efeitos de sentido sempre se dá numa interlocução mediada pelo sujeito na relação com a história. Tanto que é
extremamente difícil falar de um conceito sem envolver o outro, pois eles estão sempre interligados, conectados. A compreensão disso é fundamental nesta tese, principalmente porque para a AD o sentido sempre pode ser outro. Também não podemos esquecer que “todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sócio-históricas de identificação” (PÊCHEUX, [1988] 2012, p. 56).
Os efeitos de sentido, então, “se dão porque são sujeitos dentro de certas circunstâncias e afetados pelas suas memórias discursivas” (ORLANDI, 2010, p. 15). Uma vez abrigado pela memória discursiva como propulsora e articuladora das dimensões linguística, ideológica e histórica, o analista pode viajar por uma trama de sentidos que, ao mesmo tempo que evidencia os possíveis gestos de leitura, o caráter opaco da língua, permite a sua fluidez.
Dito isto, para o analista do discurso, a indissociabilidade entre o social, o histórico e o ideológico no discurso é um fato discursivo. É preciso analisar a linguagem no seu funcionamento, de forma a considerar todos os elementos que podem interpelar os sujeitos, a discursividade, os discursos, pois é nessa relação entre língua e ideologia que o dispositivo analítico se sustenta e de onde o analista vai depreender os sentidos possíveis, e compreender o funcionamento do discurso.
Também está implicado na análise o dispositivo teórico da interpretação, porém é importante destacar que, ao evocar esse dispositivo de análise, o foco não se dará, conforme explicitado no tópico anterior, pela análise de conteúdo, mas pressupõe a sua materialidade, a sua discursividade, de forma que seja possível, a partir do funcionamento dos textos da política/da Lei 11.274/2006 e que constituem parte do corpus desta pesquisa, compreender como eles produzem (e continuam produzindo/fazendo) sentido, e pelos seus desdobramentos estão funcionando (ou funcionam) na instituição escola. Entretanto, este gesto de interpretação só é possível se considerarmos as suas condições de produção, o que implica, para o analista, considerar, também, as FDs e FIs que constituem os discursos.
Consequentemente, pode-se dizer que o real é o que é pelas suas determinações históricas e condições de produção materiais, e a realidade são as relações imaginárias dos sujeitos com essas determinações, tais como aparecem no(s) discurso(s). Esse é um processo que, para Pêcheux, se materializa pelos esquecimentos (conforme abordado anteriormente).
O discurso é, então, essa conjugação articulada da língua com a história e que se traduz na impressão de realidade, que podemos tentar explicar utilizando os dispositivos da AD. Como afirma Orlandi (2012b), os sentidos nunca se fecham, eles estão sempre em aberto; é o que a autora chama de incompletude.
E é a partir dessa concepção que Orlandi (2012c, p. 11) também caracteriza o dizer. Para ela “o dizer é aberto. É só por ilusão que se pensa poder dar a ‘palavra final’. O dizer também não tem um começo verificável: o sentido está (sempre) em curso” (p. 11). Dito de outro modo: quando um sujeito fala, sustentado pelo imaginário, ele cria uma imagem de realidade e é a partir de tal gesto que ele se constitui e produz o seu dizer, o dito e o não-dito. Mas sobre o não-dito, sobre o silêncio como efeito de sentido, vamos refletir um pouco na sequência.
3.2.3 O silêncio produzindo sentidos: discurso pedagógico do EF9A
Existem coisas que, mesmo silenciadas, estão presentes nas discursividades que expressam o funcionamento da política do EF9A. Para Orlandi (2012b, p. 129),
Em princípio o silêncio não fala, ele significa. Se traduzirmos o silêncio em palavras há transferência, logo, deslizamento de sentidos, o que produz outros efeitos. Isto se deve ao fato de que mesmo se o silêncio não fala, enquanto forma significante, ele tem sua materialidade, sua forma material específica.
Dito de outra maneira, a linguagem em todas as suas dimensões possui uma relação direta com o sentido, com a produção de sentidos, pois ao manifestar/produzir um texto (oral ou escrito) já recorremos ao sentido. Vale ressaltar, porém, que os sentidos não são evidentes, há sempre uma relação do sentido com a interpretação e que possui relação com o equívoco, com a ausência, com o silêncio, com “os sentidos do não-sentido”. É como nos diz a própria Orlandi (2012c, p. 9): “Como a linguagem tem uma relação necessária com os sentidos e, pois, com a interpretação, ela é sempre passível de equívoco. [E é por isso que] [...] os sentidos não se fecham, não são evidentes, embora pareçam ser. [...] eles jogam com a ausência, com os sentidos do não-sentido.” (p. 9).
Isto também nos faz pensar no processo de produção de sentidos, de significação das diferentes situações, como (rememorando exemplo anterior) aquela em que o professor, crendo que o sentido está evidente numa atividade, esquece que as crianças não produzem sentidos da mesma forma, ou do mesmo lugar social, conformado por condições historicamente idênticas. As condições de produção são distintas.
Tal situação nos lembra o que Orlandi (2001a) chama de "relações de força, sustentadas no poder desses diferentes lugares, que se fazem valer na 'comunicação'. A fala do professor vale (significa) mais do que do aluno (p. 40)", ou seja: em AD os efeitos de sentido
se constituem a partir da posição-sujeito ocupada no discurso; assim, quando falamos de lugares diferentes e dependendo desse lugar de fala, no caso do exemplo citado acima, é muito diferente falar do lugar de professor, do lugar de aluno ou do lugar de gestor.
Podemos notar, então, o quanto faz sentido e o quanto na AD precisamos levar em consideração o pré-construído dos espaços discursivos dos sujeitos, em que o discurso é produzido, o que o sujeito quis dizer, por que disse X e não Y, pois a forma como os sujeitos significam produzindo sentidos também tem muito a ver com os conhecimentos e saberes em geral que cada um possui na sua posição-sujeito projetada no discurso. E sendo assim constitui-se também de um efeito que vai ser explicado pelo viés da história para a AD, ou seja: "os sentidos, sendo históricos, acompanham o movimento da história que é descontínuo, que se dá por meio de rupturas e desdobramentos.” (PFEIFFER, 2011, p. 238).
Essas significações, nesta tese, também estão muito presentes se materializando nas noções que subsidiarão a análise; entre elas, cito as formas de silêncio de que fala Orlandi (2012b, p. 128). Para a autora, temos dois tipos de silêncio:
a) Silêncio Fundador: que interfere diretamente na produção de sentidos, dos efeitos de sentido. Aquele que existe na materialidade significante e que permite enxergar os atravessamentos evidenciando o não-dito, o que também nos ajuda, pois por inferência nos fornece as pistas para o processo de significação. "O silêncio como horizonte, como iminência do sentido, é a respiração da significação para que o sentido faça sentido.” (p.128);
b) Política do silêncio: nesse caso há um desdobramento em:
i. Silêncio constitutivo: "nos indica que para dizer é preciso não dizer, [...] todo dizer apaga necessariamente outras palavras produzindo um silêncio sobre os sentidos.” (p.128);
ii. Silêncio local (ou Censura): nesse caso os sentidos são remetidos à interdição – apagamento de sentidos possíveis, mas proibidos, o que é proibido dizer num determinado lugar.
Pode-se dizer, então, que:
O funcionamento do silêncio atesta o movimento do discurso que se faz na contradição entre o "um" e o ''múltiplo'', o mesmo e o diferente, entre paráfrase e polissemia. Esse movimento, por sua vez, mostra o movimento contraditório, tanto do sujeito quanto do sentido, fazendo-se no entremeio entre a ilusão de um sentido só (efeito da relação como interdiscurso) e o equívoco de todos os sentidos (efeito da relação com a lalangue). (ORLANDI, 2007, p.17)
Porém, para compreender o silêncio na sua discursividade, Orlandi (2006a) enfatiza que precisamos considerar o discurso no seu sentido estrito e no seu sentido lato. Compreender o discurso no sentido estrito é levar em conta as circunstâncias da enunciação do dizer, o aqui e o agora do dizer; enquanto o sentido lato envolve refletir sobre as condições de produção – quem disse, onde disse, por que disse desta forma, de onde este sujeito fala e em que circunstâncias o sujeito produziu tal discurso, que é o que interessa para a AD, porém sempre considerando que em AD "A própria língua funciona ideologicamente, tendo em sua materialidade esse jogo, o lugar da falha, do equívoco.” (ORLANDI, 2012b, p. 60).
Mas como esses conceitos se conectam com o sentido? Ainda de acordo com Orlandi, os efeitos de sentido se constituem a partir de uma categoria importante que é o dispositivo teórico da interpretação, o que, dada a sua relevância no processo analítico, apresento de forma sintética, na sequência.