Embora, ao longo da história, a memória tenha sido, também, abordada em contraposição ao esquecimento, recordar e olvidar caminham pari passu, de mãos dadas, podendo manifestar-se como a dupla face de um mesmo processo. É que, ao lado da memória e da história, o esquecimento constitui um dos três pólos de acesso ao passado. Sendo assim,
revelar-se-ia mais pertinente e produtivo não considerá-los (os três pólos mencionados) nem de forma estanque, nem em relação dicotômica. Nessa esteira, não haveria contrassenso falar em lembrar-esquecer e esquecer-lembrar do que se viveu antes do agora como uma dinâmica da composição mnemônica.
As tensões geradas pelo entrelaçamento entre memória, história e esquecimento repousam sobre uma relação emulativa e de confronto entre a intenção de verdade da história e a pretensão de fidelidade da memória. História e memória convergem no fato de se apoiarem em testemunhos de homens do passado, sejam os testemunhos orais ou escritos, tenham eles assumido o caráter de documento, arquivo ou monumento. Porém, podem divergir no tratamento dos testemunhos, nas perguntas feitas a estes em busca da coerência, da probabilidade e da plausibilidade com vistas a alcançar a aceitabilidade social mediante convencimento. Desse modo, tanto os esquecimentos, os silêncios, os não-ditos, quanto a organização dos testemunhos decorrem da subjetividade interpretativa destes (ou de não testemunhos26) conjugada com os (re)ajustamentos revisionistas.
Assim sendo, põe-se a questão da fiabilidade da memória, principal causa da sua vulnerabilidade. Reconstrução de algo que já não está mais aí, mas que foi anteriormente, a memória “presentifica” uma “ausência” (a da coisa lembrada) através da representação, e por isso mesmo, revela-se suscetível a diversas formas de abuso na sua própria representação. É dentre desta perspectiva que investe o pensamento de Ricoeur, ao distinguir em A memória, a
história, o esquecimento(1993), três tipos de abuso da memória: a memória impedida, a
memória manipulada e a memória forçada.
Fundamentando-se em teorias psicanalíticas, Ricoeur (1993) chama de memória impedida a dificuldade de se lembrar de um traumatismo. Tal dificuldade demandaria um trabalho de memória, passando pelo luto, a fim de poder renunciar ao objeto perdido e acalmar a memória rumo à pacificação e reconciliação com o passado. Com efeito, se a lembrança traumática, na dimensão da memória coletiva, não for objeto de um trabalho de rememoração, envolvendo um verdadeiro trabalho de luto e de distanciamento crítico, ela pode levar uma coletividade, segundo os psicanalistas, à “compulsão da repetição”, um perigo materializado na prática de excesso de memória, notadamente pela demasiada repetição de celebrações, a maioria segundo um calendário recheado de datas comemorativas, fazendo um uso abusivo e, por vezes, descontextualizado de eventos pretéritos, e impondo um ritmo “de celebração em celebração” à vida social.
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Nessa senda, ao tratar da função do “não-dito” em Memória, Esquecimento, Silêncio, Michael Pollak (1989), analisando testemunhos acerca dos crimes stalinistas, das deportações para os campos de concentração e dos recrutamentos forçados para participar da Segunda Guerra Mundial, assevera que “essas lembranças proibidas, indizíveis ou vergonhosas são zelosamente guardadas em estruturas de comunicação informais e passam despercebidas pela sociedade englobante” por se oporem à “mais legítima das memórias coletivas, a memória nacional.” (p. 7). O evitamento materializado nas zonas de sombra, nos silêncios e nos “não- ditos” remete à fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, enfim, entre o narrável e o inenarrável, fronteira esta que separa “uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam (sic) passar e impor.” (p. 9).
No caso da memória manipulada, trata-se, para Ricoeur (1993), das manipulações ideológicas efetuadas pelos detentores de poder. A memória coletiva é, assim, mobilizada por estes para fins ideológicos a serviço da (re)construção de identidade. Geralmente, as manipulações ideológicas da memória coletiva visam a uma legitimação do poder estabelecido. Ricoeur (1993) põe como principal agente de ideologização da memória o caráter narrativo da narração, vez que esta abarca seleção e organização com vistas à plausibilidade e à coerência. Isto posto, é na narratividade que residem as estratégias do esquecimento e da rememoração, e a história oficial constitui também uma memória imposta, na medida em que ela é ensinada e celebrada nos espaços públicos e publicamente. Cabe mencionar aqui os estudos de Todorov (1995) sobre os abusos da memória para quem todo trabalho sobre o passado é um trabalho de seleção e combinação refletida dos acontecimentos considerados em inter-relação, portanto um trabalho, necessariamente, orientado, porém não em busca da verdade objetiva - aliás, intangível e até indesejável -, e sim em busca do bem. Este bem, conforme o contexto, pode ser traduzido, por exemplo, na legitimação do poder (já) estabelecido, na paz social ou na institucionalização de um arquivo de memória.
Já a memória forçada, segundo Ricoeur (1993), encerra a questão do “dever de memória”. Este não é forçosamente um abuso. Trata-se, antes, de um dever social indispensável à luta contra os totalitarismos, por um lado, e de uma necessidade de fazer justiça, restabelecendo a dignidade de vítimas, ao identificá-las enquanto tal e nomear os agressores, por outro. Contudo, a possibilidade de abuso reside na autenticidade do dever de memória, no contexto histórico em que este dever é solicitado e, por vezes, requisitado, pois gera a noção de débito dos contemporâneos para com seus predecessores, principalmente os
identificados como vítimas (da história).
Assim, operação, realizada no presente, de seleção e organização crível do passado, a memória (coletiva), longe de preservá-lo na sua integralidade, constitui uma interação entre o vivido e o aprendido, o vivido e o transmitido, entre o apagamento e a conservação de certos elementos pretéritos, levando Todorov (1995) a afirmar que "conserver sans choisir, ce n’est pas encore un travail de mémoire". Dessa maneira, toda memória, seja ela individual ou coletiva, e em particular a memória nacional, contém em si uma seleção, um ajustamento no presente e ao presente com vistas à credibilidade e à aceitação sociais. Importante lembrar que esse trabalho de seleção exige escolhas e critérios, conscientes ou inconscientes, que orientarão o uso do passado e, por conseguinte, o olhar para o futuro.
A par da pseudo-oposição concorrencial entre memória e esquecimento, não podemos deixar de adentrar o seguinte “dilema paralisante: ‘a memória é primordialmente pessoal ou coletiva?’, ‘a quem é legítimo atribuir o pathos correspondente à recepção da lembrança e a
praxis correspondente à busca da lembrança?’” (RICOEUR, 2007, p. 105). Embora memória
individual e memória coletiva sejam, frequentemente, polarizadas, tomadas numa relação dicotomizante, e até postas em posição de rivalidade, reforçada pela própria antonímia, elas não devem ser abordadas na mesma dimensão, ainda que se admita uma certa oposição, “elas não se opõem no mesmo plano, mas em universos de discursos que se tornaram alheios um ao outro” (RICOEUR, 2007, p. 106). Alheios até certo ponto, porém não impermeáveis um ao outro vez que experimentam influxos recíprocos, interpenetrando-se e, por vezes, até confundindo-se.