Capítulo 03 “E o rio-rio-rio, o rio pondo perpétuo Sou doido? Não Na nossa casa, a
3.3.1 A memória do Suicídio
Outro motivo de preocupação para os Karajá é a memória, a lembrança constante e desenfreada dos parentes que morreram. Pensando na especificidade do suicídio, o primeiro caso etnográfico de suicídio que presenciei, consistia na dificuldade do pai em “esquecer” a filha morta e reiterar sua relação com os parentes vivos, levando, ao limite, a impossibilidade de coexistência entre os dois mundos, em que a condição de diferenciação que produz o mundo dos viventes é suspensa e gradualmente as diferenças que separam vivos e mortos é suprimida. Por fim, o pai da moça, acabou por enforcar-se. Desse modo, lembrar-se dos mortos (recentes) é produzir-se como um igual para eles e, portanto, como um diferente para os vivos (Nunes, 2012:187). Quando as relações cotidianas de alteridade não são compartilhadas pela memória da reciprocidade, a humanidade passa a perder sentido e torna-se insustentável a confusão entre um mundo e outro, a diferença precisa ser marcada.
Assim, estar vivo é relacionar-se com os pares viventes, é atualizar as relações de um plano nele mesmo. A relação pretendida entre o plano do vivente e dos mortos, neste caso, deve consistir em afirmar e efetuar suas distâncias: a saudade desmedida e a dificuldade em “esquecer” os parentes mortos causa uma mixórdia perigosa. Adentrando ainda mais as especificidades dos grupos Jê, no caso Xikrin, é a separação dos mortos com seus parentes vivos o que marca esta relação de diferença: o sofrimento fruto da separação fixa o morto em sua
92 Devo essa expressão a uma reflexão de Nunes (2018) sobre os efeitos das recorrências das mortes por
enforcamento e as tentativas: segundo o autor, a cada novo caso, a memória dos que morreram é reavivada, podendo haver uma encadeamento das memórias dos mortos por suicídio, provocado pela recorrência dos casos em curtos espaços de tempo.
condição saudosa, relegando-o a procurar notícia de seus parentes vivos e também possibilidades de aproximação com estes, por quem ainda estão ligados pelos laços consanguíneos. Inevitavelmente oferecendo em suas tentativas de aproximação e contato, risco aos viventes (Cohn, 2001). O caso Xikrin ressalta o drama vivido pelos mortos, enquanto no caso Karajá, apenas a situação do parente vivo e seu luto recebe, no geral, mais atenção etnográfica. Pensando nessa questão, busquei aproximar-me dessa difícil situação através de um amigo e atual cacique, que perdeu a irmã, vítima de uma morte repentina, em 2014. Embora já passado alguns anos e o caso dela não se tratasse de suicídio, mas de feitiço que causou uma doença inesperada e sem explicação e sua morte em poucos dias, seu irmão diz “ a dor volta tudo de novo, não tem como fugir”. Antes do falecimento de sua irmã, seu pai, cacique no período do acontecimento, sua mãe, seu irmãos, as esposas e os filhos, seis crianças no total, viviam em uma mesma casa grande, perto da escola. A morte inesperada de sua irmã, que era jovem e tinha uma filha pequena, causou uma dor sem tamanho entristecendo toda a família e todos da aldeia Ibutuna. Em 2017, três anos após o ocorrido, a dor da perda da mulher e as outras tantas perdas que somaram-se a esta, tornaram insuportável a vida na casa em que a moça vivia e todos construíram uma casa e mudaram-se, menos Beto, sua esposa e suas cinco filhas, diz ele:
“Eu acredito que a morte tem seu espírito que se alimenta e vai se alimentando aí sempre vai levando as coisas pro túmulo, né? Por isso que eu fiquei na casa (da família). Eu não queria sair de lá, porque eu sinto que o espírito da irmã está lá ainda, junto com nós, né? Eu não fico com medo, desde que ela morreu. Minha mãe e meu pai não aguentaram e saíram de lá porque lembrava e aí eu não queria ir...eu queria ficar mais próximo e escutar o barulho dela. Queria que ela .... hoje eu fico lá sozinho com minha esposa e com minha família, ninguém tem medo. Eu falo pra minha esposa pra não ter medo... A gente não tem como fugir do espírito, né”?
Segundo relata Beto, o espírito de sua irmã permanece na casa e até faz “barulho”. Ele não conseguiu deixar a casa e, ao que parece, sua irmã também não. Algo aconteceu e parece que ela não foi morar no wábádè, mas permaneceu na casa que vivia enquanto viva, sua família não suportou a dor, mas assim como ela, seu irmão também persistiu em não romper, a lembrança contínua. Há três meses, soube que por diversos motivos, ele brigou e separou da esposa, ela não “aguentou”, pegou as filhas e foi embora para a casa da mãe em Macaúba. Beto continuou na casa, o que é, no mínimo, incomum, uma pessoa morar sozinha em uma casa, ainda mais tão grande. Difícil conseguir mais detalhes sobre o assunto, pois é ainda muito doloroso, principalmente para Beto e para toda a sua família também, mas aparentemente há algo, que nem ele e nem sua irmã romperam. Assim como Cohn relata no caso Xikrin, e como
126 falaram-me em Ibutuna, a moça sente muita falta da filha que foi morar com a avó materna, “nem ela esperava (morrer)”. O que pode ter acontecido para os woràsÿ não terem a convencido de sua nova morada? E mesmo no início ela sendo kuni, como era dito na ocasião de sua morte, parece que ela não representa mais o perigo que poderia representar, pois seu irmão se recusa a abandoná-la, ou justamente será esse o perigo, uma vez que seu irmão não conseguiu viver com a família que o abandonou e está descontrolando-se com o consumo de álcool e tendo dificuldades de realizar outras tarefas? Seja o que for, nem ele parece estar com os vivos e nem ela com os mortos. Lembrando-se do “pai” do conto de Guimarães Rosa que partiu para a “terceira margem”, mesmo com dificuldade, todos puderam seguir suas vidas, rompendo com ele, menos seu filho, que passou toda a sua vida desequilibrando-se entre um mundo e outro. Para o rapaz do conto e Beto, fica a lição Karajá de que é “na terra que se vive”. Fica também o mistério sobre os rumos de sua irmã e do pai do rapaz que, ao que parece, nem foram e nem ficaram, mas continuam com seus ruídos enquanto houver quem ouça. Há aí uma passagem interrompida, um morto saudoso, uma irresignação. Afinal, os mortos, antes de serem encaminhados a suas novas moradas, tentam voltar aos seus parentes vivos, tanto que cabe aos
woràsÿ enganá-los e inicia-los em suas novas vidas. Nem todos conseguem ser absorvidos ou
se convencem da nova condição, e uma morte abre espaço para novos ruídos e mais possibilidade de adesão dos vivos aos chamados dos mortos. É preciso estar atento aos mortos, alimentá-los, o xiwè é uma forma de neutralizar a lembrança a memória desenfreada, como um mecanismo de gestão entre planos para apaziguá-los todos. Mas, sempre há ruídos. E cabe aos vivos, segundo os Karajá, a vigília, a observação de si: a decisão. Ao menos que não se tenha o controle sobre si mesmo, ao menos que esteja enfeitiçado...