Marcus Ottoni
charcado de Vodka. Fumaça que se aspira, loucura que se permite. A estra-da mudou. O caminho do pecado não. Vai por aí para se chegar ali. Uma porta, um corredor. Sem destino, sem pudor, sem roupa alguma por algum tempo. Dois e uma... uma com dois. Uma cama, uma meia luz, uma doce delicia de carne e suor.
Se abre enfim. Assim se faz. Cresce em mim, entra em ti. Vai e vem como a viagem de trem. Mais um com uma, uma com dois. Final de tudo.
Tudo no seu final. Nada fica. O sono, o descanso, o abandono. Se fica bem, não sei nem saberei. Se fica mal, sei que assim foi. Se fica nua, fica até o fim.
Partir é como chegar. Voltar de onde se foi. Estar no mesmo lugar. Sair de lá e por aqui aportar. E lá? Ficará a emoção satisfeita? A dor será profunda?
Haverá desespero?
Não importa se a porta não fechou. Se uma faca cega corta a carne e sangra a alma. Não faz sentido o que vem depois. O prazer se fez presente.
Não se sente o que sente outra pessoa. Sentimentos são adereços da alma que carregamos de tempos em tempos. Sem tempo para reflexões, para contar as muitas emoções.
Já faz tempo e o tempo não apaga a menina do anel de lua e estrela.
Penso em você, fico com saudade. Conta pra mim, diz como te encontro.
Quem é você, qual o seu nome...
P
oucas vezes no mundo se viu um enfretamento de um Davi com um Golias em que o mais fraco levasse vantagem sobre o mais forte. Isso poderia ser considerado obra de ficção não fosse a guerra do Vietnã.Para ser sincero, no momento me vêm à memória apenas três casos. A vitória de Ho Chi Minh contra Tio Sam, o clássico caso editado nos livros bíblicos, que me parece obra de ficção ilustrativa da fé, sem possibilidade de comprovação científica e a disputa entre Messias e o Olavo Setúbal, o poderoso empresário e banqueiro. Deixem-me primeiro explicar quem é cada um dos protagonistas do fato em questão.
Olavo Setúbal, homem alto, pouco mais de dois terços da altura do Golias dos textos bíblicos, forte, cara de poucos amigos, muito embora uma pessoa educada e simpática com seus funcionários e dono do Conglo-merado Itaú, um dos maiores do país.
Messias, meu amigo, pessoa simples, inteligente, prestativo, pouco mais de 1 m e 60 cm, portanto menor que o pretenso herói bíblico Davi, pelo que se extrai dos livros religiosos, magro, escriturário no banco do seu Olavo.
O meu amigo, trabalhava na compensação, no turno da madrugada.
Por ser um sujeito calado e de uma humilde invejável, era o alvo preferido dos colegas para as pegadinhas e algumas sacanagens. Certa vez, por ser baixinho, pediram-no para pegar, no cestão de lixo, um relatório que al-guém havia jogado fora por engano. Ele, do alto de sua inocência, solícito como sempre, enfiou sua cabeça e esticou o braço para pegar o tal relatório, quando maldosamente teve suas pernas puxadas e foi jogado de cabeça para baixo naquele cabaz, que tinha um tamanho próximo do seu e era do-tado de rodas para facilitar o deslocamento. Alguns amigos, da onça e não do nosso amigo Messias, o empurraram, por longos três ou quatro longos
A disputa
Paulo Estanislau
minutos, pelo corredor que media uns cinquenta metros. Até que o chefe do setor, Rubão apareceu e pediu, em gargalhada, para que parassem com aquela brincadeira.
Voltemos ao caso em questão.
Certa madrugada, um servidor do banco que trabalhava com motoris-tas das chefias, encontra com o Messias no corredor e lhe pede para levar uma máquina de escrever à sala da diretoria pois o Doutor Olavo precisava bater um documento para ir a uma reunião. O meu amigo olhou para o relógio que controlava o ponto dos funcionários, voltou-se para o colega e exclamou determinado:
- Se o Doutor Olavo quiser uma máquina de escrever, ele que venha buscar.
O aquele funcionário, possuidor das mesmas qualidades do nosso ami-go ainda tentou persuadi-lo a lhe entregar a máquina de escrever, mas ele, irredutível, não cedeu;
- Se o Olavo Setúbal vier buscar, eu entrego.
Analisemos juntos. Uma hora da manhã de uma sexta-feira, agência do banco no Setor Comercial Sul, local perigoso para qualquer ser vivente naquele horário. Só poderia ser mais uma sacanagem de algum colega. Era mais uma pegadinha para fazê-lo levar a máquina de datilografia até o pri-meiro andar.
Ademais, o dono do banco trabalhando esse horário, em Brasília. Essa não! Nessa, nem o Messias cairia.
O motorista desceu as escadas para a sala da diretoria cabisbaixo, dei-xando o meu amigo sorrindo. Certo de que teria anulado mais uma pegadi-nha dos colegas, foi feliz ao CPD contar o fato. Entrou, puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente de costas para a porta e, sorrindo começou o seu relato. Eu interrompendo meu trabalho, era todo ouvidos.
O Messias não teve tempo de contar toda a história, de repente um senhor de aproximadamente dois metros de altura, forte, com cara de pou-cos amigos, certamente pelo cansaço de um dia inteiro de reuniões, entra, dá boa noite e pergunta se ali teria alguma máquina de datilografia. Obvia-mente, todos no CPD, ficamos surpresos com a visita do patrão. Messias mais ainda. Virou-se, olhou atentamente para aquele senhor, levantou-se, sentou-se, pôs-se de pé novamente e, nervoso se entregou.
- Olha Senhor Doutor Olavo, eu pensei que fosse brincadeira do pes-soal.
Talvez aquela auto delação, pela experiência do patrão, fosse comple-tamente desnecessária. Aquele senhor interrompeu o nosso amigo Messias, já angustiado e nervoso, dizendo:
- Calma meu rapaz, eu só quero saber onde tem uma máquina de da-tilografia.
E o diálogo continuou:
- Eu vou buscar. Pode deixar que eu levo para o senhor Doutor Olavo.
- Não precisa. Eu já estou aqui, eu levo.
- Não senhor, pode deixar que eu levo para o senhor Doutor Olavo.
E saíram os dois nessa contenda, lado a lado à procura daquela máqui-na no fimáqui-nal do corredor, que para o Messias tinha, máqui-naquele momento, uns dez quilômetros.
Um Golias calmo e até afável. Um Davi angustiado e irredutível que vez ou outra suas pequenas pernas cambaleavam, perdiam o compasso de-monstrando seu nervosismo continuava aquela contenda pelo longo cor-redor.
- Não senhor, pode deixar que eu levo para o Senhor Doutor Olavo.
Talvez divertindo-se com a situação o patrão brincou:
- Está bem, levamos os dois.
O Messias, tentando se redimir de um erro que certamente não co-metera, pôs suas pequenas pernas para funcionar, acelerou os passos em direção à compensação, pegou a máquina de datilografia, desceu as escadas enquanto senhor Olavo o seguia, e a deixou na mesa do patrão. Saiu antes que o chefe entrasse na sala, sequer viu ou ouviu o agradecimento e o sor-riso daquele Golias.
O importante é que Messias ganhou a disputa.
Anos depois deste fato continuava trabalhando no banco.
Certamente aquele patrão outrora fora funcionário e tinha total com-preensão do ocorrido, inclusive que desta vez o Messias havia vencido o Golias.
A
quela sexta-feira não seria, jamais, como tantas outras que já passara pela vida de Manequinho. Ele também, como todos os seus amigos mais próximos, não imaginava que aquela sexta-feira acarneirada iria se transformar, no final da noite já na madrugada do sábado, num entrevero corporal apenas por conta de Chiquinha de Abricó.O café da manhã na grande mesa, rodeado de guloseimas tradicionais e com um cheiro de café preto feito com pó saindo pelo ladrão do velho coador de pano, era o prenúncio de uma dia de glória onde o hinário da felicidade começava com um salve entoado a todo peito sinalizando que aquele dia, como a noite que o seguiria, havia sextado.
Sorriso largo na cara, fome grande no bucho, Manequinho saboreava sem pressa as iguarias da culinária nordestina posta a seu dispor em bande-jas feitas de palha de coqueiro trançada nas pernas morenas de Chiquinha de Abricó. Essa arrumação dava, segundo ele dizia, um sabor especial a comida porque o levava a viajar na imaginação em cada pedaço de tapioca, ou queijo de coalho, ou ginga frita, ou mesmo os ovos fritos mal passados quando esses alimentos escorregavam leitosamente pelas bandejas como a passar suavemente pelas coxas da menina moça de 18 anos bem formados.
Assim o café terminou quase uma hora após ter sido servido. Bucho cheio, cabeça cheia, dia cheio, imaginação farta, Manequinho se pôs a descer os degraus de madeira batida que separava os cômodos da casa do amplo quintal que se perdia no horizonte ou onde a vista alcançasse. Ele lembrava o avô sempre que descia aquela escadinha de pau de coqueiro.
“Meu neto, o que tu tá vendo daqui até a barra do horizonte um dia será tudo teu. Olhe com olho aberto e com a cabeça pensante. Esse mun-dão de terra é da nossa família e se tu não morrer antes de nós tudinho, será teu. Mas não olhe com o olhar de cambiteiro não, porque quem vê por esse