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O despertar do prazer

No documento 1BRASÍLIA - 2020 (páginas 96-101)

Marcus Ottoni

manhã exorcizasse aqueles demônios imaginários que a devoravam com tamanha volúpia e para quem ela se entregava sem medir a dimensão do pecado que vivenciava, e sem temer o momento da explosão de seu prazer na plenitude de seu corpo e na intimidade de seu ser fêmea enlouquecida pela luxúria infinita que se acomodou no seu íntimo noite adentro, pos-suindo-a como um ser dominador que entra e se apossa da alma onde o prazer controla a mente e o coração. Não os abriria até o momento em que os demônios que a tentavam e a tocavam fizessem seu corpo revirar-se por voltas e voltas ao seu redor e se jogasse desvalido e arquejante no chão de pedra polida que sustentava a cama.

Lambeu os lábios, sussurrou palavras obscenas para si mesma, tocou seu sexo, seus seios. Alisou suas pernas, coxas, nádegas e o rosto. Apertou os seios contra si mesma e mordeu suavemente a língua enquanto penetrava seu sexo com o membro imaginário do demônio que participava daquela orgia solitária. Contorceu-se encolhendo o corpo e quase tocando os joe-lhos no próprio queixo. Deixou sua mão entre as coxas, coladas no sexo e jogou a cabeça para trás abrindo a boca como a pedir que a vida entrasse por ela e penetrasse seu corpo até o mais íntimo de sua essência de fêmea possuída pela imoralidade da entrega sem vexame ou pudor, sem limite ou tabu, sem pecado ou culpa.

Sentiu sua carne rasgar. Sentiu seu corpo se abrir. Sentiu sua alma ser penetrada e seu coração acelerar. Havia um demônio entrando nela com toda a força da luxúria dos Deuses caídos. Como aríete que derruba portões sagrados de castelos de reis vencidos. Sentiu o fogo do prazer se propagan-do pelas veias e como ferro em brasa viu suas entranhas se incendiaram levando-a ao delírio que precede o prazer total do orgasmo inimaginável.

Contorceu-se, aninhou-se no próprio corpo. Quis gritar, se abrir de vez e pedir para que aquilo nunca tivesse fim. Queria todos os demônios naquele momento. Queria ser fêmea possuída. Queria ter na carne o ferro da santi-dade proibida. Queria que a vida fecundasse o prazer. Queria que seu corpo fosse de todos os pecadores e de todo o mundo. Queria ser a meretriz, a profana, a rejeitada, a vadia, a dama de todos os homens, ou de todos os demônios que o céu e a terra tenham gerado. Queria ser rainha do pecado, deusa da indecência, senhora de todas as fêmeas. Queria explodir com os demônios imaginários em seu interior.

Gritou. Gritou mais alto que pôde. Urrou como loba em noite de lua cheia chamando a matilha para a caça. Sacudiu-se por momentos muitos.

Balbuciou palavras imorais. Chamou para si todos os pecados existentes e deixou que a explosão se fizesse inteira, completa, plena, absoluta... arque-jou, soluçou, chorou, sorriu e respirou fundo por minutos eternos. Sentiu o suor umedecendo seu rosto, sentiu o calor de seu corpo indo embora, sentiu o sol entrando pela janela, sentiu o dia amanhecendo.

Fechou os olhos e viu seus demônios desaparecendo no ar. Havia cal-ma agora em seu coração naquela cal-manhã de verão.

A

os poucos todos foram chegando, muito embora não fosse seu cos-tume, o primeiro foi o Comissário Luciano, aquele que, segundo sua mãe, e mãe não mente, quando bebê após mamar não arrotava, flatulava.

Chegaram o Comandante da equipe, Piloto, Copiloto e Engenheiro de Voo, esses subiram ao Despacho para prepararem a papelada.

Curiosamente, o Luciano não subiu ao Despacho Operacional (DO), ficou na garagem, que ficava no subsolo do prédio, em frente ao ele-vador esperando os demais colegas da equipe de voo. Sua cara não era boa, como boa não era sua intenção. Certamente, não seria difícil para quem o conhecia imaginar qual era.

Os demais companheiros da equipe foram chegando quase ao mesmo tempo. Quando todos estavam reunidos, alguém propôs que subissem e, entraram no elevador. Seria uma longa viagem até o segundo andar, essa no hangar, a outra, seria para fortaleza, voo 304 da Transbrasil. A expres-são viagem até o segundo andar justifica-se pela presença no elevador do comissário Luciano.

Se ele tivesse o mínimo de capacidade de pressagiar não poria em prá-tica o seu plano. Mas não tinha e pôs. Mal as portas fecharam-se, aquele elevador transformou-se em uma pequena cela de tortura, uma verdadeira câmara de gás nazista. Gases extremamente venenosos, liberados pelo fla-tulento comissário Lucky Luciano, esse, o de Carpina, não aquele mafioso italiano nascido na Sicília.

Alguém, após aquela tentativa de genocídio, ainda com uma leve capacidade para o raciocínio, apertou o botão para o térreo. Bastou as por-tas se abrirem, todos pularam fora, menos o proprietário daqueles gases, o responsável pela transformação daquele ambiente. Não lhe foi, pelos de-mais comissários, permitida sua saída. Ele subiu, sozinho, naquele ambiente fétido.

O flatulento II

Paulo Estanislau

O inesperado existe e, obviamente, sem que ele esperasse aconte-ceu. As portas abriram-se no primeiro andar, diante dele, um dos diretores mais sérios da Empresa. Sério e apressado, entrou rapidamente no elevador.

Mais rapidamente ainda, saiu o comissário Luciano que, antes das portas trancarem por completo aquele ilustre cidadão, naquela câmara de tortura, escutou um sonoro, “P... Q.. P....”!

Pior, aquele diretor viajaria com aquela equipe até o Recife. Não fossem os apelos dos demais colegas de tripulação, ele, o flatulento, não faria aquela viagem. Faltava-lhe coragem para encarar o seu diretor.

M

al o dia nasceu e Roberval deu início ao seu plano para conquistar Crisantena. Ele havia passado toda a noite elaborando um jeito de, enfim, arrebatar o coração da moçoila que lhe despertava desejos e emo-ções muito mais que a flor da pele poderia expressar. Seu plano, pensava ele, era infalível e não teria outro fim que não fosse o deleite do amor profano que nutria pela Crisantena.

Assim, e decidido a dar a cartada final naquela angustia sem fim que já durava mais de dois meses, pulou da cama, enfiou-se no banheiro, raspou os pouco pêlos do rosto, entrou no chuveiro e deixou que a água escorresse por um bom tempo pelo corpo enquanto sua mente repassava cada detalhe do plano para conquistar sua platônica amada.

Banhado, meteu-se numa calça jeans surrada, ajeitou-se numa camisa de manga amarela desbotada, calçou uma meia de ginástica marrom com detalhes em branco e jogou os pés no velho tênis das peladas de futsal.

Olhou-se no espelho, fez algumas caretas, umas engraçadas e outras tentan-do parecer sério, besuntou o cabelo desalinhatentan-do com brilhantina de camelô e se viu pronto e acabado para a empreitada que ia começar tão logo colo-casse o pé fora de casa.

Nem mesmo café tomou. Bebeu apenas um copo de água morna com bicarbonato de sódio (sua falecida mãe dizia que era bom para todos os ma-les) e ganhou a rua com a cabeça nas nuvens e os pés em direção a casa de Crisantena. Um sorriso abestalhado desenhou-se em sua boca e para todos com quem cruzava em sua trajetória, balançava a cabeça como uma lagarti-xa feliz. Feliz ele estava e continuaria assim para o resto da vida ao lado de sua amada tão logo seu plano de conquista entrasse em cena.

Da casa dele até a casa de Crisantena eram algo em torno de dois quilômetros. Que fossem 20, 30, 40... para ele não importava a distância,

No documento 1BRASÍLIA - 2020 (páginas 96-101)

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