• Nenhum resultado encontrado

1BRASÍLIA - 2020

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2022

Share "1BRASÍLIA - 2020"

Copied!
128
0
0

Texto

(1)
(2)
(3)

BRASÍLIA - 2020

(4)

Copyright 2020 Marcus Ottoni/Paulo Estanislau

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser repro- duzida, transmitida por qualquer forma eletrônica, mecânica, fotocopiada ou gravada sem a citação da fonte e autorização expressa dos autores.

A violação dos direitos autorais, de acordo com a Lei 9.610/98, é crime (artigo 184 do Código Penal).

CAPAMarcanttoni

DESIGNER GRÁFICO Marcanttoni

REVISÃO Paula Lima Crônicas

Marcus Ottoni e Paulo Estanislau

(Publicadas originalmente no portal: www.galeriadopovodf.blogspost.com) FOTOS:

Marcus Ottoni: Galeria do Povo (Natal-RN) | Cruzeiro Novo - Brasília (DF)

Catalogado na Fonte

(5)

AMI GOS P RES ENTES

(6)

AGRADECIMENTOS

À minha mãe Dona Elífias, meus filhos Bruno Lima, Filipe Lima e Paula Lima, às suas mães e aos meus netos Enzo Gouveia e Sophie Gouveia pelo apoio e incentivo e, aos companheiros de Galeria do Povo pelo trabalho conjunto e colaboração.

Paulo Estanislau

Ao momento de amor que me gerou e aos outros momen- tos de amor que geraram meus filhos. Impossível deixar

de agradecer os amigos que conquistei no meu caminhar.

Sem eles seria muito mais diíficl caminhar pela vida. À todos os que habitam em mim e assim me fazem ser.

Marcus Ottoni

(7)

DEDICATÓRIA

Este é um livro é dedicado à todos

os talentos que movem o mundo

cultural e artístico, revelados ou

ainda por revelarem-se.

(8)

2º CAPA

A

origem da Galeria do Povo data de 1977 quando o poeta e artista plás- tico Eduardo Alexandre realizou a primeira exposição, num final de semana, em um muro de uma residência na Praia dos Artistas, litoral urbano de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Nascia naquele sá- bado/domingo a concepção de uma audaciosa e irreverente forma de protestar contra a censura imposta pelo regime militar as artes em geral e, particularmente, nas manifestações artísticas de uma nova geração cansada das imposições culturais promovidas por um regime de exceção.

Libertária e independente a Galeria do Povo surgiu como instrumento de afirmação da arte produzida por novos talentos artísticos da cidade do Natal e um espaço livre de qualquer censura e com total liberdade de expressão para todos os segmentos culturais da cidade. A concepção da nova forma de expressão artística trazia na simplicidade sua característica mais marcante, já que o espaço público era ocupado por artistas de qualquer matiz, conhecidos ou anônimos, famosos ou amadores.

A Galeria do Povo desembarcou em Brasília no final de 1978 pelas mãos do jornalista Marcus Ottoni, um dos integrantes do movimento em Natal. A primeira exposição aconteceu na quadra 501 do Cruzeiro Novo, com os trabalhos sendo expostos no tapume que servia de muro para o Colégio Ciman. Foram expostas pinturas em tela, poesias em cartolina, fotografias, bonecos de mamulengo, entre outras diversas manifestações da arte. A exposição ficou montada durante todo o dia e teve uma frequência de público flutuante bastante acentuada para um movi- mento que se iniciava sem qualquer propaganda ou divulgação prévia.

As edições seguintes aconteceram todos os domingos. A participação de no- vos artistas teve um aumento considerável, acontecendo o mesmo com o público que visitava as exposições. Foram agregados ao movimento novos músicos, artis- tas plásticos, poetas, atores e atrizes, instrumentistas e dezenas de outras pessoas que produziam arte na comunidade, mas não tinham a oportunidade de expor seus trabalhos e se congregar com outras pessoas que também desenvolviam ativida- des artísticas. A ampliação do universo de produtores de arte e a interação entre eles foi um dos objetivos alcançados pela Galeria do Povo o que proporcionou a descoberta de novos talentos em diversas áreas da atividade cultural no Cruzeiro.

Ao longo das atividades realizadas sempre aos domingos no espaço verde da Quadra 403, a Galeria do Povo promoveu shows musicais, além das exposições tradicionais que sempre marcaram o movimento como ponto de encontro da co-

Galeria do Povo

Natal - Brasília

(9)

munidade e dos próprios artistas locais e de outras comunidades que visitavam a Galeria do Povo nos domingos. Promoções conjuntas com outros movimentos similares também fazem parte da história do movimento no Cruzeiro Novo.

A Galeria do Povo serviu também de palco para o lançamento, em Brasília, no governo militar do presidente João Figueiredo, do Partido do Povo Brasileiro com a leitura do manifesto de fundação dirigido a sociedade brasileira e idealizado em Natal pelo poeta Eduardo Alexandre. Também foi foco da imprensa brasilien- se (Correio Braziliense) a manifestação da Galeria do Povo em defesa da anistia ampla, geral e irrestrita, que produziu um cartaz de apoio à anistia trazendo a frase do poeta Eduardo Alexandre: “Abram-se todas as

celas/Abram-se todos os corações/Anistia”, va- zada sobre uma foto do jornalista Marcus Ottoni retratando a masmorra do Forte dos Reis Magos, em Natal, onde ficou aprisionado o herói potiguar Felipe Camarão.

O legado da Galeria do Povo, como movi- mento de vanguarda da cultura candanga, pode ser medido pelos inúmeros artistas que saíram do anonimato e ganharam, muitos deles, o mercado artístico brasiliense, firmando-se como nomes de respeito no cenário cultural do Distrito Federal.

Também pode ser mensurada a importância da Galeria do Povo para a comunidade do Cruzeiro e, indiretamente para todo o Distrito Federal, pela oportunidade que deu aos jovens de descobrirem o caminho da arte desenvolvendo seus talentos junto aos artistas que integravam o movimento e

que ministravam oficinas de arte ao ar livre para os moradores da comunidade, independente de idade, raça, credo ou condição social.

O ponto de destaque da Galeria do Povo no cenário cultural do Distrito Fe- deral está na rebeldia de romper os paradigmas da cultura oficial do regime militar e se posicionar como o primeiro e único movimento de arte livre e independente de toda a capital da República nos anos finais da ditadura militar, rompendo o

“status quo” cultural e libertando a arte como instrumento de mudança e cons- cientização política e social.

(10)

PAULO ESTANISLAU: nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 09 de outubro do século passado (1956). No final de 1973 mudou- se definitivamente para Brasília levando um coração apaixonado.

Em 1974 terminou o segundo grau no Centro de Ensino Médio Elefante Branco e em 1975 começou o curso de Administração de Empresas na Faculdade Católica de Ciências Humanas, estudou ainda, Licenciatura em Filosofia na Faculdade de Educação e Teo- logia do Brasil – Brasília/DF.

É poeta, escritor blogueiro, jornalista e cronista (como entreteni- mento). Consultor e dirigente de ONG. Faz do movimento social uma das prioridades de militância da sua vida. Já foi militante estudantil, cultural, dirigente partidário e sindical (diretor do Sindicato dos Bancários de Brasília), empresário, comerciante, juiz arbitral e Juiz Classista Titular do Tribunal Regional do Trabalho.

Em 1978 iniciou sua participação no movimento cultural Galeria do Povo no Cruzeiro, a convite do poeta e escritor Marcus Ottoni, fundador do movimento em Brasília, a partir do projeto do jornalista, escritor e artista visual Alexandre Garcia iniciado em Natal-RN no ano de 1977. Começou daí uma parceria que permanece até os dias de hoje. Em 1980, juntos, escreveram o livreto poético “Poetas do Muro”. Em 2005 fundaram o Tabloide, GAZETA POPULAR DO ENTORNO, uma edição quinzenal. Hoje, juntamente com Marcus Ottoni, desenvolve três projetos: livro que conta a verdadeira história do movi- mento cultural no Cruzeiro / DF nas décadas de 1970 e 1980, o documentário a partir do livro e o Portal “galeriadopovodf.blogspot.com”.

É pai de três filhos, Bruno Gouveia de Lima, Filipe Dinato de Lima e Paula Bastos de Lima e avô do Enzo e da Sophie.

MARCUS OTTONI: jornalista, poeta, escritor, fotógrafo e blo- gueiro. Nasceu em São João del Rey, em 1954. Iniciou sua carreira profissional em Brasília, no Diário de Brasília, estagiando no de- partamento de fotografia. Passou pelo Jornal de Brasília, Ultima Hora de Brasília e Correio Braziliense. Em Natal trabalhou nos jornais potiguares com destaque para o semanário Jornal de Natal, onde exerceu a função de repórter especial e editor chefe. Fundou e colocou em circulação 12 jornais municipais e dirigiu a Associa- ção dos Jornais do Interior do Rio Grande do Norte (Adjori/RN).

Em 1977 conheceu Eduardo Alexandre quando trabalhava no Di-

ário de Natal. Dunga como é conhecido o jornalista e poeta Eduardo Alexandre, criou e fundou a Galeria do Povo, em 1977, na Praia dos Artistas. Marcus Ottoni integrou-se ao movimento e participou ativamente da Galeria do Povo todos os finais de semana enquan- to morou em Natal. Em 1978, regressando à Brasília, implantou a Galeria do Povo no Cru- zeiro Novo junto com Paulo Estanislau, dando o ponta pé inicial para a livre manifestação cultural e artística na capital federal, até então garroteada pelo regime militar.

Atualmente Marcus Ottoni atua na rede mundial de computadores como blogueiro e pro- duz livros com temas variados da ficção ao romance, passando pela poesia, crítica social, humor e erotismo. Pai de três filhos: Pablo, Bianca e Antônio Miguel, voltou a morar em Brasília onde participa, junto com Paulo Estanislau, do projeto de resgate da memória cultural do Cruzeiro “Rebeldia dos Excluídos” dando visibilidade ao movimento Galeria do Povo e seu legado cultural e artístico no Distrito Federal.

OS AUTORES

Paulo Estanislau Marcus Ottoni

(11)

Prefaciar um livro é certamente mais difícil que escrever, por isso senti um misto de alegria e nervosismo, prazer e medo quando me pediram para falar sobre esse, mesmo conhecendo os autores de longa data. É complicado dissertar sobre os textos que compõem as páginas sem citar a luta de ambos em defesa da arte e da cultura no Distrito Federal e no Brasil.

A falta de apoio, de incentivo à cultura, à arte e à leitura hoje no país é enorme, só comparada ao período da ditadura militar nas décadas de 1960 até o início da de 1980. Foi exatamente nesse perí- odo que Marcus Ottoni participou, em Natal (RN), junto com o ide- alizador, Eduardo Alexandre, da criação de um movimento cultural e artístico, independente das amarras oficiais, denominado Galeria do Povo. Em 1978, ele traz para Brasília o projeto que uniu de crianças a jovens e adultos, poetas, artistas, pintores, desenhistas, contadores de histórias, toda gama de cidadãos na luta pelo desenvolvimento da cultura no DF. Marcus Ottoni e Paulo Estanislau uniram-se na coor- denação desse projeto a vários artistas candangos e o desenvolveram até meados da década de 1980.

Na época, assim como hoje em dia, o acesso à cultura e à arte de uma forma geral era e é restrito às elites, o povo humilde continua excluído. Esse maravilhoso livro de crônicas, super engraçado e que as vezes nos põe a pensar, precisa andar nas ruas. Ele será, como foi feito com outros livros de poesias, de ambos, publicado pela Galeria do Povo, repassado à população humilde, seja na forma tradicional,

Luiz Fernando Lima

PREFÁCIO

(12)

seja de na forma digital. Como é do feitio deles.

Como canta em verso e prosa o extraordinário poeta Tiago de Melo: “É preciso trabalhar todo dia pela alegria geral. É preciso aprender essa lição, sair pelas ruas cantando e repartindo a mão cristalina, a fronte fraternal”.

Isso, Marcus Ottoni e Paulo Estanislau fazem! E farão, certa- mente, com esse livro maravilhoso de ler. MAPA, crônicas do portal, vem para nos alegrar e fazer pensar.

Luiz Fernando Lima Advogado, poeta,

contador de histórias

(13)

CRÔNICAS

Areia, pegadas, oceanos e saudades...15

A cantada...17

A família Karamascovi...19

O flatulento...22

A escuridão da noite...24

A culpa é do garçom...26

A menina do anel de lua e estrela...29

A disputa...31

Chiquinha de Abricó não sextou...34

Avaliação precipitada (A cantada II)...37

A longa noite...39

Cesto sentido...41

Mariazinha I...44

O infiltrado...47

Mariazinha II...20

Feijoada, buchada de bode e urubu...53

Mariazinha III...56

Sinhá Mocinha...58

Jackie partiu. Foi para as Gerais com Fred e Coisinha...60

Jorginho e seus pares...62

De amigo...64

Nadismo, filosofia dos inúteis...66

(14)

Eu, minha alma e os cães negros...68

O apagador de páginas...71

Há uma menina embaixo dos papelões...73

O francês distraído...75

Fêmea divinal...77

O mico...79

Foi tu?...81

O dia do sogro...84

Uskarafeiu...86

O desastre...89

Nem taca lá, nem taca cá...92

Viva Roberto Carlos...94

O despertar do prazer...96

O flatulento II...99

Roberval e Crisantema...101

Os lençóis de Bramante...104

O frio na alma...106

Quando Paulo Diniz virou Civuca...108

Saudade... essa saudade...112

Vingança a prestação...114

João Merinho, o cara!...116

Viva Mundico!...119

O amargo doce sabor da liberdade...121

O noivo atrasado...123

(15)

P isar novamente aquela areia molhadas é, na verdade, amassar solitaria- mente os sonhos que se ergueram alguns anos atrás quando os passos eram seguidos por outros pés que edificaram esperanças e cumplicidades.

Muita coisa mudou. As grandes paredes de rochas arenosas ganharam no- vos contornos e as pedras que formam as passarelas entre o mar e a mata redesenharam suas posições revelando estranhas criaturas que se banham no vai e vem das ondas oceânicas do Atlântico Sul.

O infinito do horizonte marcado por um céu azul provinciano de tons fortes se infiltra no mar como a querer esconder os destinos de quem ousa buscar novos portos para aliviar a ânsia de amar e a dor da angústia de re- tornar e saber ser preciso navegar mesmo sem ter noção de onde chegar.

A brisa de um vento sueste é ainda tão calma como era no tempo em que o amor percorria, lado a lado, o caminho banhado por gotas sutis de água salgada.

Com a mente divagando pensamentos e saudades, as pegadas vão cra- vando na areia os passos que pretendem refazer o caminho tantas vezes percorrido há pouco mais de uma dezena de anos. Bons anos, arrisca a mente a criar mecanismos perigosos de lembranças que são boas e agradam as recordações de quem pisa, agora, sozinho, em praias que dividiu com quem o quis seguir sem medo de se perder no caminhar em uma estrada longa e tortuosa, como são os caminhos do coração.

O sol, talvez o mesmo de antigamente, tem agora um novo calor. Não queima, não arde, não atrapalha o passo a passo. Apenas aperta o peito quando o coração pula o tempo e corre atrás do passado que já não volta mais e que é bom porque está onde está e, assim, diz a razão, deve ficar como lembrança boa e saudade saudável. Caminhar e ver, sem olhar, o que escrevem as pedras, a areia, as rochas, a mata, o vento, o mar e o silêncio do

Areia, pegadas, oceano e saudades

Marcus Ottoni

(16)

tempo que passa a passos lentos sem pressa de chegar a qualquer lugar ou nenhum lugar.

Há, entretanto, uma porta de regresso que se abre na memória quando se aproxima de um destino que não existe mais, de um ponto que não mais está aqui, da alcova natural feita de relva e areia, de brisa e respingos de água do Atlântico Sul, onde, pela primeira vez, se originou o pecado sem culpa, a entrega sem posse, o dar e receber, o querer sem limite e a fusão de corpos, mentes e desejos numa explosão de êxtase completo. Onde dois são um e um único momento se transforma no início, meio e fim da mais pura e louca paixão.

Deixar vagar o pensamento enquanto os pés moldam pegadas de re- torno, indecisas como a vontade de ficar, é a ordem natural da caminhada.

A lembrança de formas, gestos e sons é tão presente como real foi no tem-

po do ontem. E no tempo do hoje a certeza de que se prosseguiu deixando

pegadas de bons momentos, garante, assim, lembranças felizes de um tem-

po que faz parte da parte boa da vida.

(17)

C ertamente aquela era pra ser apenas mais uma cantada. Daquelas que não são ditas para darem certo, são ditas apenas para serem ditas. Des- culpem-me os amigos se eu insisto, mas existem cantadas que são dadas apenas para serem dadas e ponto final.

O único problema é que essa, dada por um amigo nosso, antes de ter um ponto final, teve vírgula, interrogação, exclamação, trema, etc. Por falar em trema, ele tremeu.

Nosso amigo ficou de tal forma impressionado com a beleza daquela jovem, que ao cruzar com ela em um shopping da cidade não resistiu e sol- tou a seguinte pérola em forma de cantada:

- Se eu fosse vinte anos mais novo lhe pediria em casamento.

Antes de contar o resultado do insólito fato, vamos descrever os pro- tagonistas aos amigos leitores, até para facilitar avaliações, aos interessados em futuras cantadas.

Ela, vinte e poucos anos, aproximadamente um metro e setenta de altura, pele morena da cor de castanha de caju levemente assada, cabelos longos, corpo riscado por Niemeyer e esculturado pelos Cooper feitos no Parque da Cidade, olhos verdes tal qual o mar de Porto de Galinhas e com uma elegância e charme no andar que faria inveja a qualquer Gisele Büd- chen.

Ele, exatos quarenta e nove anos, casado, com um abdômen ligeira- mente avolumado, ligeiramente é por minha conta, para não denegrir a ima- gem do nosso amigo, esculturado pelas cervejas e costelinhas do Amigão, bar do nosso amigo Rubens.

Certamente ele deve ter pensado: “Ela jamais dar atenção a qualquer coisa que eu lhe diga”.

Voltando ao que interessa; ele, ao cruzar com aquele exemplo de bele-

A cantada

Paulo Estanislau

(18)

za, repetindo, soltou a pérola:

- Se eu fosse vinte anos mais novo, lhe pediria em casamento.

Ela, parou, olhou em seus olhos, esboçou um leve sorriso e disse:

- Se eu fosse pedida em casamento por um homem como você, acei- taria.

Chão - Plano; piso; terreno em que se anda; solo; pavimento; porção da superfície da terra...

Faltou! Sumiu!

Asas - Membros das aves guarnecidos de penas; grande barbatana pei- toral de alguns peixes; qualquer expansão que lembre as asas das aves...

Ele não as tinha. Precisou! Mais que precisar, desejou ter como jamais desejou qualquer outra coisa.

Não correu, pois as pernas paralisaram, congelaram. Nunca a expres- são sorriso amarelo teve um significado tão forte.

Ela, sentindo que acabara de provocar um acidente de lesavoz e vendo que aquele diálogo caminhava para um triste monólogo, retirou-se piedo- samente.

Não se sabe, até hoje, que motivos levaram aquela bela jovem a pro-

nunciar frase tão aterradora. Se ela aceitaria ou não jamais se saberá. Qual-

quer coisa que se diga nesse sentido não passa de mera elucubração. No

meu modesto entendimento, aquela frase tinha a intenção de causar o efeito

que realmente causou ao nosso amigo. Até hoje, passados cinco anos do

fato, ele, não emite qualquer gracejo às jovens, independente da beleza ou

idade.

(19)

E ra um domingo como outro qualquer de tantos que já haviam passa- dos no sertão do Seridó Potiguar. A família Karamascovi, com seus 10 membros, repetia, religiosamente, o ritual de todos os domingos ensolara- dos. Ou melhor, de sol causticante já às seis horas da manhã. A casa grande dos Karamascovi, construída na várzea, se destacava entre as outras casas da região por ser a única feita com paredes de tijolo cru e coberta com te- lhas de barro colorido batidas nas coxas dos filhos dos Karamascovi, cinco no total e de idades variadas entre 19 e seis anos. Por isso, nem sempre uniformes.

Na cozinha a senhora Karamascovi, com seus 40 anos e, embora a lida no sertão seridoense a tenha marcado a sol e seca ao longo de toda sua vida, ainda mantinha os traços da beleza nordestina de uma mulher com des- cendência tupi/europeia perdida já há muito tempo quando os “patrícios”, junto com os indígenas entreguistas e catequizados pelos padres católicos, expulsaram os holandeses das terras ao sul do Equador na capitania do Rio Grande.

Ela cozinhava um guisado a moda sertaneja, coava café preto forte adoçado com açúcar mascavo, já estava pronto o cuscuz de milho e, para reforçar, batata doce cozida com casca. O cheiro do café forte invadia a casa tirando da cama os meninos e meninas mais preguiçosos e com maior den- sidade sonífera. O patriarca dos Karamascovi percorria os poucos cômo- dos da casa entoando uma canção num idioma desconhecido até mesmo de seus filhos, mas que era o hino da família cantado quando a ocasião exigia a presença de todos ao redor da velha e carcomida mesa de madeira de lei talhada no machado do patriarca.

Dos oito filhos, cinco eram mulheres e os três restantes eram homens, ou melhor, dois. Um deles, o mais velho com 16 anos tinha trejeitos mis-

A família Karamascovi

Marcus Ottoni

(20)

turando masculinidade anatômica com docilidade feminina. Ele não sofria discriminação por parte de seus familiares, mas a vizinhança era cruel. Cha- mavam-no de “Karamacosvi invertido” o que pouco o incomodava. Tam- bém, por conta de sua forma de comportamento, tanto o senhor como a senhora Karamascovi o poupavam das tarefas mais árduas no cotidiano da família de criadores de gado de leite e de corte.

Independente disso, a família Karamascovi era um exemplo de união, socialismo familiar e disciplina caninamente instituída. Com todos já de pé, com os rostos lavados, cabelos escovados, roupas limpas e apetite desperto pelo aroma delicioso vindo da cozinha, sentavam-se à mesa a espera do alimento que os encheria de energia para aquele domingo de sol e calor. O patriarca sentava-se na cabeceira da mesa e a senhora Karamascovi come- çava a servir, um a um, o café da manhã.

O ritual tinha início com os mais jovens indo em escala crescente até a mais velha, para enfim, chegar ao chefe da família que tudo acompanhava com olhar de sertanejo severo. Todos servidos, esperavam a senhora Ka- ramascovi sentar-se à mesa com seu café da manhã para, então, orar pelo alimento e pelo dia que nascia e só depois começavam a comer. A oração que não existia em qualquer livro religioso do conhecimento da humani- dade, era exclusiva da família Karamascovi. De acordo com o depoimento dos mais antigos fora recebida numa sessão amadora de psicografia por um ancestral dos Karamascovi no início dos anos de 1755, tornando-se, assim, patrimônio religioso da família passando de pai para filho desde então.

Ninguém além dos Karamascovi tinha permissão de rezar aquela ora- ção. Quem o fizesse, estaria cometendo sacrilégio e banido para sempre do rol de amigos e conhecidos dos Karamascovi. Por isso, ao rezarem a tal oração psicografada de um ancestral, a família o fazia em tom de sussurro inteligível assemelhado ao ronronar de um felino. Mas todos rezavam afi- nados com o tom dado pelo patriarca e recitavam os versos da oração sem errar uma vírgula e sem cometer qualquer deslize durante o ato de rezar no café da manhã.

Há um registro de um texto que dizem ser da oração. Não se sabe

quem o conseguiu e também não se pode apostar como sendo a verdadeira

oração dos Karamascovi. Diz o texto: “Pai que não estais no céu e sim em nosso

corpo/ manifeste teu querer em nossas vidas/faça santo quem nos é precioso/e santifique

todos aqueles que nos desejam o bem/Que teu querer se estenda por todos/ e que o reino

que habitas em nosso interior seja eterno e próspero de bondade/ Nos alimente sempre

(21)

com o pão da vida/ fazei tremer todos que nos ameaçam/afaste de nós e do teu reino em nós/os males dos homens/as dores do sofrer/o martírio da fome/a angustia de perder-te dentro de nós/ fazei, ó Pai que habita em nosso interior/que nossa vida seja de luz/

que nossa boca seja bendita/que teu reino em nós jamais seja violado/que possamos

encontrar a paz eterna em vida/Pai que não estais no céu e sim em nosso corpo/fortalece,

agora e sempre, o meu amor pelo amor”.

(22)

D izem os mais experientes que educação vem de berço, sua falta não vem, necessariamente, do mesmo ambiente. No caso do Luis Fernan- do a sua flatulência vem desde o berço e perdura até hoje, mais de sessenta anos após ter abandonado aquele singelo móvel infantil. Conta sua mãe, Dona Isaura, que ele não arrotava após mamar, flatulava.

Na escola, ainda no primário, em plena sala de aula, costumava liberar seus gazes intestinais de forma silenciosa e acusar o colega à sua frente.

Era o primeiro a chamar a professora e pedir pra levantar pois não estava aguentando aquele mau cheiro. Graças a sua imensa capacidade para a arte cênica, os mestres acreditando em sua inocência, terminavam quase sempre por repreender seus colegas.

Certa feita, em um domingo de verão, sob um sol de quarenta graus, voltava com seu pai da famosa feira de Carpina, em uma Kombi velha que servia de lotação e que não passava dos quarenta km por hora, pouca ventilação, pois dos vidros só abriam o do motorista e do carona, isso pela metade, ele nesse ambiente quase infernal resolveu liberar seus gazes.

De pé, encostado ao banco do condutor, aproveitando o vento, muito embora quente, que entrava por aquela janela esticou sua cabeça quase a encostando na do motorista e os liberou, de forma silenciosa, um pum do tipo ninja assassino, terrorista suicida.

Não demorou muito para que uma pobre sexagenária senhora, sentada bem atrás do pequeno Luiz Fernando, o Lula, e bem em frente ao seu ori- fício ventoso, começasse a passar mal.

A pobre senhora, que mal conseguia respirar, reuniu todas as suas for- ças e, numa última tentativa de salvar sua vida e as dos demais companhei- ros de lotação, gritou:

- Motorista, para, para que eu vou morrer!

O flatulento

Paulo Estanislau

(23)

Ele, o autor daquela façanha, continuava inerte, aproveitando o ar puro que entrava pela janela. Bem mais puro que o de dentro daquela velha condução.

Seu pai, numa tentativa heroica de ajudar aquela agonizante senhora, gritou:

- Para logo motorista, senão vai todo mundo morrer aqui atrás.

Assustado com o vozeirão daquele senhor, alto forte e de cara embur- rada, o motorista resolveu parar o veículo. Certamente aquele ato heroico do emburrado senhor era, também, um gesto de autopreservação.

Com a simples redução de velocidade, as portas se abriram e os pas- sageiros começaram a pular. Menos aquela senhora, que já não tinha mais forças e precisou ser abanada.

Após o total estacionamento do veículo e a parada na circulação de ar em seu interior, os passageiros do primeiro banco sentiram na pele, ou, no nariz, o motivo do desespero dos demais companheiros de viagem e saltaram correndo.

Teve início uma discussão sobre quem poderia ter cometido ato tão feroz contra os passageiros. Nem o motorista foi isentado de culpa, nem aquela pobre sexagenária senhora.

Apenas sobre as três crianças, o Luiz Fernando de 11, seu irmão de 10 e outro menino, aparentando 8 anos, não recaiu qualquer suspeita. Quem em sã consciência imaginaria sair de uma criança gazes tão letais.

Sem qualquer possibilidade de elucidação do fato, pois todos negavam sua autoria, resolveu-se após alguns minutos seguir viagem. Obviamente, com os devidos pedidos de que o fato não se repetisse.

Antes que todos entrassem o pai daquele anjo o afastou do grupo e fez o seguinte alerta:

- Se você fizer isso novamente, quando chegar em casa apanha, ouviu?

Ele balançou a cabeça afirmativamente e entrou. Aquele criador certa- mente conhecia a capacidade de sua criatura.

E a viagem prosseguiu, sem mais interrupção.

(24)

E le viu o céu escurecer tomando o dia num monstro faminto ao devorar sua presa e jogando sobre a cidade a escuridão que oculta segredos e angústias. Não viu o sol se por no horizonte oeste por sobre casas e arvores porque estava voltado para o leste. Mas sentiu quando o calor morno da tarde de verão foi deixando suas costas lentamente, descendo até não mais tocar seu corpo.

As meninas dos olhos abriram-se mais que puderam para adaptar a vis- ta ao novo cenário que abocanhou a cidade inteira e fez do que antes eram linhas definidas e cores vivas, silhuetas acinzentadas em mais de 50 tons de negro num “ton sur ton” inigualável. Tentou fixar o olhar num ponto qualquer daquele horizonte escuro, mas desistiu porque nada se identificava naquele momento, principalmente quando a escuridão engoliu por comple- to a luz.

Sua mente correu léguas de onde estava e aportou em um lugar fa- miliar para onde sempre ia quando algo ou alguma coisa o incomodava.

Naquele instante a escuridão o incomodava demais. Chegava mesmo a lhe assustar por estar onde estava e sentir o que sentia quando nada conseguia enxergar, a não ser seu próprio temor de não saber, realmente, onde estava.

Com o corpo na escuridão e a mente na imensidão da claridade da luz, pode, por momentos, deliciar-se com a liberdade que usufruía no lugar onde a mente repousava e se divertia com imagens, sons e cores que seu ín- timo produzia num sem fim de infinitas possibilidades de risos e felicidade explícita. Era ali, onde sua mente estava, que ele desejava permanecer para todo o sempre e sempre.

Mas o frio da escuridão o trouxe de volta a realidade acinzentada do lu- gar onde permanecia preso pelo corpo e por razões que ele mesmo desco- nhecia. Mas lá estava, cravado no chão de cimento poroso, agarrado a seus

A escuridão da noite

Marcus Ottoni

(25)

joelhos e abraçando aquela angústia que ria dele toda vez que sua mente o trazia de volta para a negritude da noite e a solidão da imensidão urbana.

Decidiu então não mais pensar em nada, nem mesmo pensar em pen- sar em coisa alguma. Que sua mente vagasse pelos recantos da alma e dela trouxesse, ou não, qualquer alento para seu coração que batia em descom- passo com sua estranha excitação noturna. Estaria entrando em um pro- cesso de abdução egocêntrica de forma a cooptar seus pensamentos como fazem os carrascos ao serem anunciados como algozes de bruxas e feiti- ceiros? Ou seria a friagem da noite e a negritude do tempo que o estariam fazendo “caraminholar” ideias absurdas e aterrorizantes?

Não sabia. Também, pouco queria saber o que o movia para um labi- rinto de dúvidas e incertezas. Para ele, sentar onde estava e olhar o nada na escuridão já era suficiente para se sentir menos vivo, ou melhor, vivo-mor- to. Sem pensar em nada e com essa única certeza no coração, se dispôs a seguir sua sina de humano perdido em tirocínios desconexos e sem nenhu- ma coerência mental.

A noite seguiu seu curso tornando, a cada hora, mais escuro tudo o que tocava com seu véu de viúva negra. O corpo se arqueou por sobre as pernas dobradas e abraçadas pelos braços que entrelaçavam os dedos das mãos como cadeados de carne prendendo correntes de peles e pelos. Os olhos, encostados nos joelhos, não se abriam. Cerrados estavam, cerrados iam permanecer. A boca, seca como areia quente de deserto, não salivava e não se abria. Nada identificava vida naquele amontoado de ossos, carnes, órgãos e emoções. A vida estava, segundo ele imaginava, num lugar onde havia vida eterna.

A gota de orvalho que caiu sobre sua cabeça, rolou pela face misturan-

do-se ao rio de lágrimas que corria franco pelo rosto pingando silenciosa-

mente gotas de solidão no chão frio de concreto acinzentado.

(26)

O utro dia recebi um e-mail de um velho camarada de militância, indig- nado com um outro condiscípulo também talhado nas pelejas sociais e estudantis e o achei tão interessante que resolvi repassá-lo a vocês, gran- des amigos.

Leiam com atenção!

Camarada Paulinho, esses dias precisei da ajuda de alguns antigos ca- maradas e não obtive. O que mais me entristeceu foi a resposta do Cama- rada Marquinhos. Estou lhe mandando o e-mail enviado a ele e a respectiva resposta para sua avaliação.

Eis o email:

- Grande Camarada “Cauê”, quanto tempo não nos falamos nem nos vemos. Há muito tencionava lhe escrever, mas só esses dias consegui seu endereço eletrônico com a Leca, lembra dela? Coisa maravilhosa essa tal de internet! Pode soar estranho a minha aparição repentina, mas é que estou precisando muito da sua ajuda. Há dias acordo com um mau pressentimen- to. Uma coisa me diz que algo de ruim está por vir. Hoje levantei, olhei pela janela e vi pessoas que eu jamais havia reparado passar em frente de minha casa. Talvez seja paranoia. Sei não!

Fui preparar o café das crianças me sentindo angustiado sem saber por que. Para amenizar aquela sensação, liguei o televisor, baixinho, para que aqueles estranhos não soubessem que eu estava em casa e fui assistir ao telejornal. Quando acabou o primeiro, mudei de canal e assisti a outro, foi aí que a minha aflição aumentou. Corri para o computador e nenhuma informação. Agora já é pavor o que estou sentindo. Nenhuma palavra sobre os ATOS SECRETOS DO SENADO, aqueles do desvio de recursos do Senado Federal. Em nenhum dos telejornais. Isso é sinal de que eles estão chegando perto. A polícia sempre foi assim, quando está próximo de des-

A culpa é do garçom

Paulo Estanislau

(27)

cobrir um crime fica calada para não assustar o bandido.

Vai ver que a polícia do Congresso é igual.

Vão chegar a mim. Eu sabia que não devia ter aceitado aquele empre- go de garçom, logo em um restaurante tão bem frequentado, só gente de bem. Hoje em dia garçom é uma profissão muito visada, mais do que mor- domo. Conhece muita gente boa, e ruim também, deputados, senadores, di- retores de secretaria, de departamento, pessoal do judiciário, mas bandidos também bandidos.

Garçom é uma profissão muito perigosa. Mas lhe garanto que não sei de nada. Eu juro que a última vez que eu estive no Congresso foi no dia da cassação do Collor. Será que os homens do governo estão com raiva por eu ter apoiado o fora Collor e agora vão vir atrás de mim. Afinal, eles estão todos juntos, Lula, Dilma, Jader Barbalho, Romero Jucá, José Múcio, Aloí- sio Mercadante, Fernando Bezerra, Ideli, até o Fernando Collor. São todos do mesmo governo.

Será que o horror vai recomeçar? Será que eles vão entrar no meu barraco gritando, chutando mulher e crianças, como faziam na época da di- tadura? Não, isso só pode ser paranoia, a polícia do Congresso não é assim não. Será? Confesso que estou com um pouco de medo. Já não sou mais aquele jovem destemido da década de 70. Vou mandar a mulher e as crian- ças para a casa dos pais e desaparecer por uns tempos. Estou precisando ficar em algum lugar em que ninguém me conheça.

Liguei para o Gilson, que está em Campo Grande, expliquei a situação, ele desconversou, disse que ia fazer uma viagem de barco pelo amazonas com a namorada. Acho que é pelo velho cachimbo da paz. Não está que- rendo chamar mais atenção para si.

Passei um e-mail para Leca, aquela antiga companheira do Cruzeiro, ela disse que não pode me ajudar, está de companheiro novo, ele é militar e muito ciumento, não iria entender a minha estadia em sua casa. Foi ela quem sugeriu que eu lhe escrevesse. Prometo que é só por uns dias, até eles descobrirem quem ordenou ou quem assinou os ATOS SECRETOS DO SENADO.

Aguardo resposta urgentemente.

Um abraço do velho camarada Esquisito.

OBS: “Estou escrevendo com os antigos nomes de guerra para o caso

do e-mail ser interceptado.”

(28)

- Sabe o que ele me respondeu?

- Pode vir, venha logo. Vou lhe preparar uma festa. Chamarei os meus amigos da imprensa e alguns do PT.

- Vôte! Isso lá é amigo. Eu queria só me esconder por um tempo.

(29)

U ma mesa de bar, uma cerveja gelada, dois jovens, risos e planos pontu- ais. Mesas ao redor, luzes artificiais, som meloso nos alto-falantes e ao longe uma menina mulher. Olhos que se cruzam, bocas que falam silencio- samente, gestos indo e vindo displicentemente. Sinais descompromissados comprometendo a tarde, brindes no ar, algas no paladar. Vai ou fica? Abre outra. Mesas que se aproximam, mãos que se tocam, sorrisos que se envol- vem. Dois com uma. Uma pra dois.

Ao longe o apito de trem que parte rumo as Gerais. Burburinho de pessoas indo e vindo para conseguir ir para algum lugar. Barulhos mistu- rando sons e sons de todos os barulhos. Luzes esbranquiçadas, brilhos de todas as cores, trejeitos, jeitos sem jeito de ficar ajeitado, cansaço, espera, partida, chegada. O riso que esconde o desejo, o desejo desperto e aceso. A mão que tateia outra mão. A boca que revela a luxúria da língua.

Sons que se emitem sem nada dizer. A mente caminha na contramão das palavras. O toque sutil é o toque viril. A pele treme, o corpo se molha, o desejo transparece. Por que não? Por que sim? Melhor o sim do que o não.

O pano esconde a silhueta perfeita revelada pela imaginação. Outros panos ocultam o pecado crescendo sem controle. Todos são únicos em forma e atração. Todos são carne e emoção, volúpia e tentação.

No submundo da mesa pernas se entrelaçam. Peles se arrepiam. Panos sobem e desnudam caminhos pecaminosos. Algo cresce e algo se molha.

Toque e mais um toque e tudo se torna explícito na mente. Cumplicidade e ousadia. Atrevimento e consentimento. Liberdade e libertinagem. O que se abre consome o que cresce. Há um pecado a caminho e uma perversão em curso. Que seja assim, por todos nós e para todos nós.

Pulsos ornamentados. Orelhas com ornamentos brilhantes. Dedos cercados por anéis. Lua e estrela. Um véu cobre o passado. O futuro en-

A menina do anel de lua e estrela

Marcus Ottoni

(30)

charcado de Vodka. Fumaça que se aspira, loucura que se permite. A estra- da mudou. O caminho do pecado não. Vai por aí para se chegar ali. Uma porta, um corredor. Sem destino, sem pudor, sem roupa alguma por algum tempo. Dois e uma... uma com dois. Uma cama, uma meia luz, uma doce delicia de carne e suor.

Se abre enfim. Assim se faz. Cresce em mim, entra em ti. Vai e vem como a viagem de trem. Mais um com uma, uma com dois. Final de tudo.

Tudo no seu final. Nada fica. O sono, o descanso, o abandono. Se fica bem, não sei nem saberei. Se fica mal, sei que assim foi. Se fica nua, fica até o fim.

Partir é como chegar. Voltar de onde se foi. Estar no mesmo lugar. Sair de lá e por aqui aportar. E lá? Ficará a emoção satisfeita? A dor será profunda?

Haverá desespero?

Não importa se a porta não fechou. Se uma faca cega corta a carne e sangra a alma. Não faz sentido o que vem depois. O prazer se fez presente.

Não se sente o que sente outra pessoa. Sentimentos são adereços da alma que carregamos de tempos em tempos. Sem tempo para reflexões, para contar as muitas emoções.

Já faz tempo e o tempo não apaga a menina do anel de lua e estrela.

Penso em você, fico com saudade. Conta pra mim, diz como te encontro.

Quem é você, qual o seu nome...

(31)

P oucas vezes no mundo se viu um enfretamento de um Davi com um Golias em que o mais fraco levasse vantagem sobre o mais forte. Isso poderia ser considerado obra de ficção não fosse a guerra do Vietnã.

Para ser sincero, no momento me vêm à memória apenas três casos. A vitória de Ho Chi Minh contra Tio Sam, o clássico caso editado nos livros bíblicos, que me parece obra de ficção ilustrativa da fé, sem possibilidade de comprovação científica e a disputa entre Messias e o Olavo Setúbal, o poderoso empresário e banqueiro. Deixem-me primeiro explicar quem é cada um dos protagonistas do fato em questão.

Olavo Setúbal, homem alto, pouco mais de dois terços da altura do Golias dos textos bíblicos, forte, cara de poucos amigos, muito embora uma pessoa educada e simpática com seus funcionários e dono do Conglo- merado Itaú, um dos maiores do país.

Messias, meu amigo, pessoa simples, inteligente, prestativo, pouco mais de 1 m e 60 cm, portanto menor que o pretenso herói bíblico Davi, pelo que se extrai dos livros religiosos, magro, escriturário no banco do seu Olavo.

O meu amigo, trabalhava na compensação, no turno da madrugada.

Por ser um sujeito calado e de uma humilde invejável, era o alvo preferido dos colegas para as pegadinhas e algumas sacanagens. Certa vez, por ser baixinho, pediram-no para pegar, no cestão de lixo, um relatório que al- guém havia jogado fora por engano. Ele, do alto de sua inocência, solícito como sempre, enfiou sua cabeça e esticou o braço para pegar o tal relatório, quando maldosamente teve suas pernas puxadas e foi jogado de cabeça para baixo naquele cabaz, que tinha um tamanho próximo do seu e era do- tado de rodas para facilitar o deslocamento. Alguns amigos, da onça e não do nosso amigo Messias, o empurraram, por longos três ou quatro longos

A disputa

Paulo Estanislau

(32)

minutos, pelo corredor que media uns cinquenta metros. Até que o chefe do setor, Rubão apareceu e pediu, em gargalhada, para que parassem com aquela brincadeira.

Voltemos ao caso em questão.

Certa madrugada, um servidor do banco que trabalhava com motoris- tas das chefias, encontra com o Messias no corredor e lhe pede para levar uma máquina de escrever à sala da diretoria pois o Doutor Olavo precisava bater um documento para ir a uma reunião. O meu amigo olhou para o relógio que controlava o ponto dos funcionários, voltou-se para o colega e exclamou determinado:

- Se o Doutor Olavo quiser uma máquina de escrever, ele que venha buscar.

O aquele funcionário, possuidor das mesmas qualidades do nosso ami- go ainda tentou persuadi-lo a lhe entregar a máquina de escrever, mas ele, irredutível, não cedeu;

- Se o Olavo Setúbal vier buscar, eu entrego.

Analisemos juntos. Uma hora da manhã de uma sexta-feira, agência do banco no Setor Comercial Sul, local perigoso para qualquer ser vivente naquele horário. Só poderia ser mais uma sacanagem de algum colega. Era mais uma pegadinha para fazê-lo levar a máquina de datilografia até o pri- meiro andar.

Ademais, o dono do banco trabalhando esse horário, em Brasília. Essa não! Nessa, nem o Messias cairia.

O motorista desceu as escadas para a sala da diretoria cabisbaixo, dei- xando o meu amigo sorrindo. Certo de que teria anulado mais uma pegadi- nha dos colegas, foi feliz ao CPD contar o fato. Entrou, puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente de costas para a porta e, sorrindo começou o seu relato. Eu interrompendo meu trabalho, era todo ouvidos.

O Messias não teve tempo de contar toda a história, de repente um senhor de aproximadamente dois metros de altura, forte, com cara de pou- cos amigos, certamente pelo cansaço de um dia inteiro de reuniões, entra, dá boa noite e pergunta se ali teria alguma máquina de datilografia. Obvia- mente, todos no CPD, ficamos surpresos com a visita do patrão. Messias mais ainda. Virou-se, olhou atentamente para aquele senhor, levantou-se, sentou-se, pôs-se de pé novamente e, nervoso se entregou.

- Olha Senhor Doutor Olavo, eu pensei que fosse brincadeira do pes-

soal.

(33)

Talvez aquela auto delação, pela experiência do patrão, fosse comple- tamente desnecessária. Aquele senhor interrompeu o nosso amigo Messias, já angustiado e nervoso, dizendo:

- Calma meu rapaz, eu só quero saber onde tem uma máquina de da- tilografia.

E o diálogo continuou:

- Eu vou buscar. Pode deixar que eu levo para o senhor Doutor Olavo.

- Não precisa. Eu já estou aqui, eu levo.

- Não senhor, pode deixar que eu levo para o senhor Doutor Olavo.

E saíram os dois nessa contenda, lado a lado à procura daquela máqui- na no final do corredor, que para o Messias tinha, naquele momento, uns dez quilômetros.

Um Golias calmo e até afável. Um Davi angustiado e irredutível que vez ou outra suas pequenas pernas cambaleavam, perdiam o compasso de- monstrando seu nervosismo continuava aquela contenda pelo longo cor- redor.

- Não senhor, pode deixar que eu levo para o Senhor Doutor Olavo.

Talvez divertindo-se com a situação o patrão brincou:

- Está bem, levamos os dois.

O Messias, tentando se redimir de um erro que certamente não co- metera, pôs suas pequenas pernas para funcionar, acelerou os passos em direção à compensação, pegou a máquina de datilografia, desceu as escadas enquanto senhor Olavo o seguia, e a deixou na mesa do patrão. Saiu antes que o chefe entrasse na sala, sequer viu ou ouviu o agradecimento e o sor- riso daquele Golias.

O importante é que Messias ganhou a disputa.

Anos depois deste fato continuava trabalhando no banco.

Certamente aquele patrão outrora fora funcionário e tinha total com-

preensão do ocorrido, inclusive que desta vez o Messias havia vencido o

Golias.

(34)

A quela sexta-feira não seria, jamais, como tantas outras que já passara pela vida de Manequinho. Ele também, como todos os seus amigos mais próximos, não imaginava que aquela sexta-feira acarneirada iria se transformar, no final da noite já na madrugada do sábado, num entrevero corporal apenas por conta de Chiquinha de Abricó.

O café da manhã na grande mesa, rodeado de guloseimas tradicionais e com um cheiro de café preto feito com pó saindo pelo ladrão do velho coador de pano, era o prenúncio de uma dia de glória onde o hinário da felicidade começava com um salve entoado a todo peito sinalizando que aquele dia, como a noite que o seguiria, havia sextado.

Sorriso largo na cara, fome grande no bucho, Manequinho saboreava sem pressa as iguarias da culinária nordestina posta a seu dispor em bande- jas feitas de palha de coqueiro trançada nas pernas morenas de Chiquinha de Abricó. Essa arrumação dava, segundo ele dizia, um sabor especial a comida porque o levava a viajar na imaginação em cada pedaço de tapioca, ou queijo de coalho, ou ginga frita, ou mesmo os ovos fritos mal passados quando esses alimentos escorregavam leitosamente pelas bandejas como a passar suavemente pelas coxas da menina moça de 18 anos bem formados.

Assim o café terminou quase uma hora após ter sido servido. Bucho cheio, cabeça cheia, dia cheio, imaginação farta, Manequinho se pôs a descer os degraus de madeira batida que separava os cômodos da casa do amplo quintal que se perdia no horizonte ou onde a vista alcançasse. Ele lembrava o avô sempre que descia aquela escadinha de pau de coqueiro.

“Meu neto, o que tu tá vendo daqui até a barra do horizonte um dia será tudo teu. Olhe com olho aberto e com a cabeça pensante. Esse mun- dão de terra é da nossa família e se tu não morrer antes de nós tudinho, será teu. Mas não olhe com o olhar de cambiteiro não, porque quem vê por esse

Chiquinha de Abricó não sextou

Marcus Ottoni

(35)

olho é o boi na cangalha. Olhe com olho vivo, olho de “tijuaçu”, dizia ele que o avô lhe dizia enquanto fazia o caminho da roça.

Com a lembrança permeando a cachola, Manequinho seguiu seu desti- no para cumprir a tarefa daquela sexta-feira. Ia feliz, traquinando ações pós trabalho, meio a lá “happyhour” urbano. Já havia preparado o ambiente, os petiscos, a bebida, o sanfoneiro e, a morena das pernas produtoras de bandejas de palha de coqueiro trançadas. “Sextou”, pensou ele, não com essa expressão popularizada pelo povo das cidades. Na roça, o termo era e ainda é “calungagem”.

O dia passou e quando a tarde deu as caras como a querer despedir- se mais cedo, Manequinho e os compadres da roça já arribaram do campo e pegaram o beco para suas casas. A noite desceu vagarosamente sobre o sertão do Seridó e as rochas aquecidas pelo sol do dia, cintilaram esbran- quiçadas na negritude da noite de verão. O vento que fora convidado para a “calungagem” nem deu as caras.

As lamparinas, vistas de longe e organizadas em círculo pareciam es- trelas encravadas na terra, algumas vezes escondidas pela poeira levantada do solo seco pelas “alpercatas” de couro cru calçadas pelos “cabras ma- chos” no voleio dançarino com as moçoilas do lugar. O forró comia solto e a carne de sol assada no braseiro entocado na vala aberta na terra seca acompanhada da boa pinga de primeira cabeçada fechava a sextação da noitada.

Porém um detalhe deixava Manequinho encucado. Onde estaria Chi- quinha de Abricó? Já era para ela estar no forró pé de serra. Acontecera algo de inesperado? Teria ela caído de cama? Que diabos aconteceu com Chiquinha? Essas perguntas enchiam a cabeça de Manequinho e, a cada gole da boa pinga de cabeçada, as perguntas saltitavam em ritmo de fulera- gem na cabeça do rapaz. Quem o via de longe, meio no contra luz, podia jurar que saía fumaça do quengo dele.

A noite avançou noite a dentro e chegou na porta da madrugada sem

que ninguém ali percebesse que as horas voaram como nunca no sertão do

Seridó. E Chiquinha de Abricó, a moça das coxas morenas que moldavam

as bandejas de palha de coqueiro trançada não apareceu. Já não era mais

sexta-feira e sim sábado. Então, Chiquinha não sextou e Manequinho dan-

çou. Foi aí que se armou o furdunço com a chegada de Raimundinho de

Boitatá. Veio cabreiro, esgueirando pelas beiradas, se aproximando do povo

(36)

com um pé atrás, sem muita conversa, cheio de monossílabos, com olhar de ave de mau agouro, e tudo mais que aquele forró pé de serra não precisava naquele momento. Raimundinho foi se chegando para perto de Manequi- nho, se chegando, se chegando até quase parar em cima do rapaz que não tinha cara de bons amigos depois e engolir sozinho duas garrafas de pinga de primeira cabeçada.

- Acabou o forró? – perguntou Raimundinho.

- Acabou besta... tá vendo ali o sanfoneiro, o zabumbeiro e o cara do triângulo? Eles estão só afinando os instrumentos. Tá vendo os casais agar- rados? Eles estão morrendo de frio e ficam assim de um lado para o outro para espantar a friagem. Tá vendo não, seu besta? - respondeu Manequinho com cara de nenhum amigo.

- Ôxi! Cabra bruto. Só perguntei – retrucou Raimundinho

- E você, besta, tava fazendo o que que chegou agora? - questionou Manequinho engolindo um copo cheio de pinga e cuspindo um pouco para o santo no canto da mesa.

- Devia dizer não, cabra de peia. Tava brincando com Chiquinha de Abricó na casa de farinha – contou orgulhoso Raimundinho.

Foi a última coisa que ele se lembra antes de acordar no hospital da cidade com a boca faltando cinco dentes e os dois olhos cobertos por he- matomas roxos que pareciam grandes óculos de sol.

“O cão só deita onde lhe enchem o bucho”.

(37)

H ora do almoço, como de costume, eles, os três mosqueteiros, como eram conhecidos lá no banco onde trabalhamos por mais de dezoito anos, resolveram ir ao shopping almoçar. O shopping ficava próximo e lá a frequência era mais bonita, se é que vocês me entendem.

A denominação três mosqueteiros tinham justo motivo: Chegavam e saiam sempre juntos. Inseparáveis amigos! Se um não pudesse sair, os ou- tros dois, em solidariedade, não saíam. Certa feita um adoeceu, os outros dois faltaram para cuidar do enfermo. Amizade rara hoje em dia.

Voltando ao almoço!

Quando dirigiam-se ao restaurante, avistaram duas belas mulheres, braços dados a admirar vitrines. Um, achando estranho aquele singelo gesto de amizade, comentou:

- Será que são namoradas?

Seu comentário foi imediatamente contestado pelos outros dois.

- Não, não pode ser, são muito bonitas.

Ao cruzarem com aqueles dois diamantes maravilhosamente lapida- dos, Ricardo, dirigindo-se àquela que enquadrava-se mais para seu perfil, soltou a mais imbecil das cantadas:

- Nossa! Você é maravilhosa! É o tipo de mulher que todo homem sonha ter.

O mais triste da cantada está no verbo, nesse caso soa como sinônimo de obter, possuir, o que, consequentemente, a transforma em um verdadei- ro e enorme desastre. Ela, certamente chateada com aquela frase, porém, com toda elegância possível, mais do que necessário para o caso, ignorando a parte imbecil da cantada agradeceu retribuindo o elogio:

- Obrigada, você também é uma pessoa interessante, mas não é bem o tipo que me atrai, com quem eu me envolveria.

Avaliação precipitada (A cantada II)

Paulo Estanislau

(38)

E continuaram a olhar as vitrines. Ele, machista, temendo ficar em má situação diante dos colegas por ter sido rejeitado, antes que elas desapare- cessem no shopping, soltou o seguinte tijolo:

- É uma pena eu não ser mulher para ter uma chance com você.

Ela, mais uma vez elegantemente, virou-se, olhou para aquele galan- teador e respondeu:

- Não seria necessário, bastaria não ser casado com minha amiga e colega de trabalho Carlinha.

Ela o conhecia e ele não recordava. Não sei por que, mas tenho a im- pressão que para o nosso amigo o terremoto do Haiti, o tsunami do Japão e a avalanche do Rio de Janeiro não foram catástrofes tão grandes assim.

Quanto ao tijolo que o nosso amigo soltou, não soltou, jogou para cima, e não era tijolo, era um paralelepípedo daqueles que compõem o meio fio das ruas. O mosqueteiro galanteador ficou ali parado esperando que ele fosse real e caísse sobre sua cabeça assim todos os seus problemas estariam resolvidos.

Quanto aos dois outros mosqueteiros, afastaram-se dando gargalha- das, e tão altas que chamavam a atenção de todos que passeavam no sho- pping, piorando mais ainda a situação daquele desafortunado.

Pela elegância que a jovem tratou a situação, certamente não iria co-

mentar a sua colega Carlina. Talvez essa tenha sido a primeira vez que o pre-

conceito do Ricardo o tenha colocado em uma posição desastrosa. Torço

para que tenha sido a última.

(39)

U ma negra noite se aproxima do país. Será longa, muito longa e fará com que o tempo do hoje se reflita no tempo do ontem em busca do tempo do amanhã. Haverá, sim, um grande rio vermelho correndo pelos asfaltos país a fora e tingindo nossa história de um rubro envergonhado fruto de ira entre irmãos de nacionalidade.

Será uma noite sem fim por tempos corridos entre dor e medo, angus- tia e incerteza, morte e ressureição. Será, não sei bem como será seu início e se esse início será o prenuncio de um tempo onde não mais se verá a liber- dade e somente prevalecerá a força bruta com domínio sobre aqueles que se debaterão e, por ela e pela insanidade inconsequente de poucos, muitos perecerão sem saber por que e como.

Essa noite negra que se aproxima em passos comedidos e silenciosos, romperá a aurora ocultando o sol das manhãs e fará do dia o eterno inferno dos homens sobre a terra prometida com leite e mel. Não tenho certeza das certezas que produzirão a noite negra que se abaterá sobre todos nós. Não sei se terá rotulo ou ismos caracterizados. Apenas sei que na escuridão dessa noite terrível o cheiro de cadáveres insepultos penetrará em todos os lares e roubará, das famílias, inocentes que se darão ao fim como ratos seguindo o flautista de Hamelin.

Será longa, disso tempo certeza. Também tenho certeza que seu fim revelará o derradeiro desespero de milhões de pessoas. Não sei de qual lado o choro infinito se processará como cantilena de réquiem e qual o tamanho da cicatriz que cortará a carne, cuja cura se dará após décadas de sofrer e penar. O dia, nesse dia, quando a noite se dissipar, não terá sol brilhando e também não haverá jardins com flores perfumando a vida. Será, isso sei bem, nublado e empoeirado, triste e sombrio, doentio e moribundo todos os dias que se seguirão ao dia do fim da noite negra.

A longa noite negra que se aproxima

Marcus Ottoni

(40)

Mulheres, homens, jovens, idosos, todos serão martirizados e humi- lhados pela noite negra que se aproxima. Serão todos, sem discriminação ideológica, de classe social, raça, gênero ou grau de instrução. Ninguém ficará fora do alcance da negra noite e cada um e todos estarão de um lado ou do outro confrontando-se como animais enfurecidos pela ira de alguns que longe estarão num claro dia de verão europeu.

Qual será, então, a razão para que essa nuvem negra se encaminhe para o país? Será a revolta oculta dos Abbadon? Dos Kasyade? Das Kesabel?

Ou de todos eles investidos em um poderoso exército da ira incontida em décadas de escuridão profana? Não tenho a resposta. Mas posso imaginar o terror, o caos, a destruição, o martírio de um povo refém de interesses que não dele, mas obrigado a submeter-se aos caprichos hediondos de uma negra e longa noite.

Quisera eu não ter que escrever sobre isso. Quisera dissertar sobre assuntos menos perversos, mais adocicados, hilários talvez. Não me assusta a proximidade da negra noite que se encaminha para nosso país. Não, não me assusta como não me assustou, tempos atrás, uma outra escuridão longa e autoritária.

Meu querido amigo, talvez a longa noite negra nos coloque em polos

opostos. Não sei o futuro que nos aguarda. Nem o meu, muito menos o

teu. Sei do nosso passado e do nosso presente. Seja qual fim tenha essa

negra noite, só te peço que sobreviva.

(41)

O Meu português pode não ser dos melhores, mas também não é tão ruim assim. Por mais estranho que pareça o título, no que diz respeito ao sexto sentido do meu irmão Fernando, tem que ser escrito com “c” de cesto e de cesto de lixo.

O seu sexto sentido é mais furado do que táuba de tiro ao Álvaro, diria o nosso grande e saudoso Adoniran Barbosa. Vocês hão de me dar razão.

Em um desses meses que um profissional liberal não fatura nem pra média (esqueci que não estava escrevendo só pra carioca ler), nem pro café com leite, ele ligou me convidando pra almoçar. Coincidentemente, no dia do meu pagamento. Espero que todos vocês acreditem em coincidência.

Era dia de folga, não custava nada ir almoçar com meu irmão, tomar uma cervejinha gelada e jogar conversa fora. Aceitei o “convite”.

Sexta-feira, 12:30h, fim de expediente para a maioria dos advogados e servidores públicos no Distrito Federal, encontramo-nos. Por sugestão sua fomos comer uma carne de sol no Xique-Xique. Entre um copo e outro íamos conversando, ele falando e, como é de praxe aos profissionais da lide jurídica, floreando a conversa. Até que pedi para que fosse mais direto, pois não estava entendendo o que ele queria. Foi aí que surgiu o motivo do

“convite”.

Estava precisando de uma grana para ajudar uma amiga.

Muito louvável o senso de solidariedade do meu irmão. Mas com o meu dinheiro! Questionei se ele sabia em que ela utilizaria aqueles recursos e ele explicou que era pra comprar remédios para o seu filho recém nascido.

Indaguei se ela não tinha outro amigo para pedir. Nesse momento ele, flo- reador de conversa, acuado, foi direto:

- É que o filho é meu.

Com quase cinqüenta anos de convivência, tomei a liberdade de lhe

Cesto Sentido

Paulo Estanislau

(42)

perguntar se tinha certeza. No que ele respondeu sem arrudeio;

- Claro, eu confio nela.

A partir daí, obviamente eu jamais me negaria a ajudar um sobrinho, resolvi emprestar-lhe o dinheiro. Paguei a conta do almoço para o qual eu havia sido convidado e fomos ao banco. No caminho me dispus a ir com ele até a casa do seu filho. Ele, relutante, disse não ser necessário. Eu, insistente, queria conhecer o menino, afinal era meu sobrinho. Passamos no banco, retiramos o dinheiro e fomos. Eu empolgado e feliz por conhecer mais um sobrinho, o terceiro ou quarto por parte desse meu irmão.

Chegamos! Uma morena muito bonita veio nos receber. Beijinhos, abraços, devidas apresentações, fomos convidados a entrar. Eu ansioso quis logo ver meu sobrinho. A mãe sorridente pediu que eu aguardasse que ela iria busca-lo. Os dois, enamorados, sumiram casa adentro deixando-me na sala. Alguns muitos minutos depois, para bastante demorados, certamen- te estavam arrumando o menino (prestem bem atenção que escrevi o e não um) retornaram com aquele rebento, forte, saudável, bonito e moreno como a mãe. Meu irmão o conduzia nos braços, feliz como pinto no lixo, entregou-me e, feliz, segurei meu sobrinho e o beijei, era realmente lindo, parecia com a mãe.

Nesse momento, acreditem, sem qualquer maldade, algo me pareceu estranho. Ele não trazia qualquer característica da nossa família. Não que fosse necessário, mas me pareceu estranho. Não era o meu sexto sentido, sou cético em relação a sua existência. Para eliminar qualquer dúvida, olhei novamente para o menino, olhei para o pai (naquele momento meu irmão), para a mãe e concluí que não havia o que questionar, ele era filho daquela morena, eles se pareciam, eram igualmente lindos. Quanto ao meu irmão, nada que um exame de DNA não resolvesse.

Terminada a visita, tarefa cumprida, fomos embora. No caminho, mesmo um pouco constrangido, falei do meu sentimento, aquela dúvida que me acometeu em relação à sua paternidade. Ele, naturalmente, irritou- se com o meu questionamento. Não discutimos, mas conversamos em um tom mais elevado. Ele, contrariado com o meu posicionamento, dizia que se não fosse eu cético em relação a tudo, acreditaria no sentimento de pai. O seu sexto sentido não o trairia, ele era o pai daquele menino. Além do que, ele tinha total confiança na namorada.

Para não deixá-lo mais nervoso resolvi encerrar o assunto. No restante

do caminho conversamos sobre outras coisas até que o deixei no escritório

(43)

para pegar seu carro.

Dias mais tarde, aproximava-se a hora do almoço, recebo um tele- fonema desse mesmo irmão, novo convite para almoçar. Como não era dia de pagamento sugeri que ele custeasse, no que concordou. La fui eu, curioso, ao encontro. Desta feita, no Ki-Muqueka, um excelente restaurante de comida baiana na 203 sul. Algo me pareceu estranho, mais que uma re- tribuição ao almoço no Xique-Xique me parecia uma forma de penitência.

Peixe ao molho de camarão, cerveja gelada e cachaça para iniciação. E tome conversa floreada. Até que, após a enrolação de praxe, ele disparou:

- O pai do menino apareceu.

Eu como quem não estava entendendo perguntei, que menino?

- Aquele que você conheceu.

Ele, sem constrangimento, que é bem do seu feitio, contou que um certo jovem, impecavelmente vestido, como se fosse a um casamento, en- trou em seu escritório procurando o doutor Fernando. Ambos, devidamen- te identificados e apresentados começaram a conversar. O jovem, policial, esse sim constrangido, pediu desculpas por sua namorada ter dito que o filho era do meu irmão e por, a alguns meses, estar recebendo ajuda finan- ceira para a criação. Comprometeu-se em devolver tudo que fora repassado para a mãe, bastaria dizer o valor. O que, obviamente, meu irmão não acei- tou a oferta.

Deram-se as mãos, despediram-se e, o pai foi ao encontro do seu re- bento. O ex-pai, foi beber e degustar um excelente almoço.

Não sei quem comemorou o que. Uma coisa eu sei, continuo cada vez

mais cético em relação a sexto sentido de pai.

(44)

Q uando o sol desceu do céu e se escondeu por trás da grande serra de rocha calcária, Mariazinha decidiu botar o pé na estrada e correr mundo em busca da sua cara metade, estivesse ela onde estivesse e fosse ela quem fosse. Assim, determinada, arrumou suas coisas num saco de açúcar amarelado, deu um nó, jogou sua “mala” por sobre o ombro e pegou o beco.

Na verdade, Mariazinha não tinha muita coisa. Duas mudas de roupa que se traduziam em vestidos bem usados de chita barata, uma alpercata de couro cru, três peças íntimas sem o complemento da parte de cima, uma escova de dente, uma escova de cabelo meio deteriorada, um pente de osso, dois lenços de cabelo e uma bíblia pequena rodeada por um terço de boli- nhas de madeira bento pelo “Padin Ciço”.

A noite começava a descer do céu tingindo toda a terra com a negri- tude característica das noites sem lua no sertão das caatingas. A escuridão pouco importava e nem assustava Mariazinha que, ao longo dos seus 18 anos, tornara-se parceira daquele ambiente e conhecia como ninguém os segredos da caatinga nordestina e seus mistérios noturnos. Ela se guiava pelo instinto feminino que a levaria, no escuro ou não, até sua cara metade.

Caminhou por entre algarobas, xique-xiques, mandacarus, juremas e catingueiras. Quando o cansaço bateu no costado de Mariazinha, ela não contou conversa. Arriou o saco-mala fazendo-o de travesseiro e, ali mesmo, embaixo de um pé de ipê-roxo, deixou o corpo relaxar e a mente entregar- se ao sono cujo sonho esperava ser uma pista para sua cara metade, algo que lhe desse a certeza de que estava indo na direção certa. Afinal, não era apenas o coração que a empurrara para fora da velha choupana de sapê com teto de palha de coco onde deixou “paiinho” e “mãiinha” com olhos mare- ados de lágrimas. Havia, ainda e muito forte, o desejo açodado da menina

Mariazinha I

Marcus Ottoni

(45)

mulher que se escondia dento de Mariazinha.

Quando o sol torturava a caatinga como um braseiro de churrascaria gaúcha, ela despertou. Piscou três vezes o olho esquerdo e duas o direito.

Ajeitou o cabelo ainda sentada na terra seca e mirou o horizonte que era seu destino. Uma linha reta ao longe dividia o céu de um azul provinciano da terra de um marrom descolorido. Era pra lá que Mariazinha ia. Sem dó nem piedade de seu corpo e com a fé em “Padim Ciço” que movia, não monta- nhas (porque naquele lugar elas não existiam), mas um corpo jovem cheio de vontades e desejos cobertos por uma estamparia colorida de chita barata.

Tomou um gole de água que trazia na cabaça pendurada no corpo, limpou a boca e danou-se a dar passadas rápidas levantando poeira no chão quebradiço pela seca dos últimos cinco anos. Olhava o horizonte com fi- xação dos marujos que descobrem terra depois de meses navegando num mar bravio. Em seu rosto os lábios desenharam um estranho sorriso. O sol que a castigava não incomodava Mariazinha. Pensava ela na professora do colégio que ensinava os meninos e meninas da região numa espécie de escola itinerante.

Lembrou da história dos navegadores que se lançavam ao mar rumo ao desconhecido e que ousavam enfrentar os perigos de uma terra plana, onde o horizonte era o fim do mundo e depois dele, quem lá chegasse, sofreria uma queda fenomenal caindo num abismo desconhecido onde, ain- da segundo as histórias, habitavam monstros sinistros com uma fome tão grande que eram capazes de comer de uma só vez mais de duzentos ho- mens. Sorriu para si mesma lembrando a professora e mirando o horizonte.

Mariazinha só parou naquele dia para comer um pedaço de carne de peba, salgada no início da semana por seu pai, e descansar um pouco de- baixo de um pé de juazeiro. Depois voltou a bater pernas naquele sertão ensolarado. Quando a tarde açoitou seu corpo exigindo que ela parasse, ela olhou o horizonte que ia perdendo sua nitidez e misturando-se com o céu que já não era mais tão azul provinciano. Queria continuar. Queria alcançar o horizonte ainda naquele final de tarde. Mas o corpo entrara em greve e paralisava seus movimentos, não como grevista ideológico, mas como advertência de problema maiores caso furasse a greve dos músculos.

Entregou os pontos.

Dalí de onde estava, via o horizonte sumir de sua visão. Não demorou

muito e a escuridão sertaneja voltou a dominar toda a paisagem. Não havia

mais o que fazer naquela noite, pensou Mariazinha. Ela sentia muito calor e

Referências

Documentos relacionados

17 CORTE IDH. Caso Castañeda Gutman vs.. restrição ao lançamento de uma candidatura a cargo político pode demandar o enfrentamento de temas de ordem histórica, social e política

O enfermeiro, como integrante da equipe multidisciplinar em saúde, possui respaldo ético legal e técnico cientifico para atuar junto ao paciente portador de feridas, da avaliação

*-XXXX-(sobrenome) *-XXXX-MARTINEZ Sobrenome feito por qualquer sucursal a que se tenha acesso.. Uma reserva cancelada ainda possuirá os dados do cliente, porém, não terá

O Museu Digital dos Ex-votos, projeto acadêmico que objetiva apresentar os ex- votos do Brasil, não terá, evidentemente, a mesma dinâmica da sala de milagres, mas em

nhece a pretensão de Aristóteles de que haja uma ligação direta entre o dictum de omni et nullo e a validade dos silogismos perfeitos, mas a julga improcedente. Um dos

Equipamentos de emergência imediatamente acessíveis, com instruções de utilização. Assegurar-se que os lava- olhos e os chuveiros de segurança estejam próximos ao local de

Tal será possível através do fornecimento de evidências de que a relação entre educação inclusiva e inclusão social é pertinente para a qualidade dos recursos de

Tratando-se de uma revisão de literatura, o presente trabalho utilizou-se das principais publicações sobre as modificações de parâmetros técnicos observados em corredores,