Capítulo II. Percurso do RVCC-PRO Sete Anos de Existência
10. Metodologia O que Faltava
Mas nem só com a prática se aprende. Ao fim de alguns anos de RVCC-PRO, surge o guia de apoio ao processo. Do nosso ponto de vista, muito bem conseguido, é de fácil consulta e quase todas as perguntas que possamos ter a respeito do processo foram contempladas.
O que acontece é que, por norma, as pessoas não lêem. Ainda existe muito o preconceito de que estes guias são feitos por quem está nos gabinetes e, como tal, não conhece a realidade, por isso nem nos damos ao trabalho de ler. Por outro lado, por vezes, consideramos que já é muita a experiência e não são necessários guias. Consideramos esta atitude pouco correcta e lutámos muito para que todos lêssemos este documento. Ao ter um entendimento profundo do guia, conseguimos conjugar experiência de terreno e pressupostos metodológicos. Mesmo quando não concordamos com alguns dos pressupostos do guia, porque nem sempre é possível aplicar tudo a cem por cento no terreno, temos como argumentar porque conhecemos o que está regulamentado. Enchermos os nossos peitos de vaidade e desdém por quem concebe, esquecendo que quem concebe tem algo que nós não temos, tempo e por vezes conhecimento, o que é diferente da experiência de quem “anda a mil” no terreno. Conjugar estas duas vertentes só pode trazer frutos.
Com base no Guia de Apoio ao processo de RVCC-PRO, se desejássemos resumir o processo, nos moldes em que se encontra actualmente regulamentado, apresentaríamos as seguintes etapas fundamentais:
Construção do Portefólio Reflexivo de Aprendizagens (instrumento do Kit de Avaliação de aplicação obrigatória):
Objectivo: dar a conhecer de forma estruturada e sustentada o percurso de vida profissional do candidato. Através deste instrumento, o adulto demonstra, evidencia e reflecte a sua experiência profissional e é com base nele que se desencadeiam as etapas seguintes - podemos dizer que o portefólio está no centro do processo RVCC-PRO.Realização de uma Entrevista Técnica (instrumento do Kit de Avaliação de aplicação obrigatória) / Observação de Desempenho em Posto de Trabalho (instrumento do Kit de Avaliação de aplicação facultativa):
Após a construção do PRA a equipa técnica já detém um vasto entendimento sobre a experiência profissional do candidato, sendo o momento ideal para a realização de uma entrevista. Além desta entrevista, poderá ainda ser operacionalizada uma outra etapa, a observação de desempenho em posto de trabalho. Na observação em contexto real, o Tutor de RVC dirige-se à instituição num dia marcado (com a devida autorização do seu responsável) para observar as rotinas do candidato.
Objectivo: compreender a fundo o percurso profissional do candidato, de forma a consolidar e desenvolver a informação apresentada no portefólio. Através destes instrumentos, é também fundamental verificar a veracidade e autoria da informação colocada no PRA (não no sentido de desconfiança do adulto, mas antes numa perspectiva de contribuir para a credibilidade do processo). Estes são momentos onde se consolida a relação de confiança entre o adulto e o Tutor de RVC, procurando este último (através das evidências apresentadas), valorizar todo um percurso de vida profissional do adulto.
Intervenientes: Tutor de RVC.
Organização: etapa individual.Em alguns casos poderá ainda ser necessário recorrer-se ao último instrumento do Kit de Avaliação - trata- se da simulação de exercícios. Este instrumento é de aplicação facultativa e pouco comum no sentido em que é considerado o último recurso de avaliação, caso tenham restado dúvidas com a operacionalização dos restantes instrumentos. Todavia, e mais uma vez não podemos considerar uma regra estanque quando falamos em Kit de Avaliação, dependendo das áreas profissionais e mesmo do contexto / organização do CNO, esta etapa pode ser considerada mais frutífera do que a observação em contexto de trabalho.
Sessão de Validação (etapa obrigatória):
Com a aplicação dos instrumentos anteriores, a equipa técnica chega a uma conclusão sobre os conhecimentos / competências a serem validados ao candidato, tendo sempre por base o “Referencial de RVCC Profissional” (disponível no Catálogo Nacional de Qualificações).
Objectivo: apresentar ao candidato os conhecimentos / competências que validou, bem como aqueles que não validou (caso existam), sendo os conteúdos não validados alvo de um plano de formação que possa colmatar as fragilidades existentes - a este plano designa-se de PPQ. Este momento é de negociação entre o adulto e a equipa técnica, sendo que, na esmagadora maioria, os adultos reconhecem a suas fragilidades e anseia por formação.
Intervenientes: Profissional de RVC, Tutor de RVC e Avaliador de RVC (outro técnico especializado na área profissional que apoia o Tutor de RVC no processo de avaliação).
Organização: esta etapa decorre em grupo numa primeira fase e depois de forma individual na apresentação dos resultados do processo.Júri de Certificação (etapa obrigatória):
Objectivo: formalizar todo o processo de RVCC-PRO numa sessão de júri, onde se procede à certificação dos conhecimentos / competências do candidato. Caso o adulto tenha validado todos os conteúdos descritos no “Referencial de RVCC Profissional”, obtém uma certificação total. Caso tenha necessidade de ingressar num percurso formativo para consolidar conhecimentos / competências identificados como pontos a melhorar, obtém uma certificação parcial (nestes casos, e após a formação, o adulto volta ao centro para requerer a certificação total).
Intervenientes: Profissional de RVC, Tutor de RVC, Avaliador de RVC e Avaliador Externo. Este último, como o nome indica, não trabalha no CNO. Trata-se de um elemento acreditado pelo Ministério da Educação que visa formalmente encerrar o processo e verificar o rigor com que o mesmo foi levado aO processo RVCC-PRO encontra-se formalmente encerrado com o culminar desta etapa (de grande júbilo para todos), na medida em que confere aos adultos o que tanto ansiavam - uma qualificação formalmente reconhecida (parcial ou total).
Para que as etapas acima enumeradas decorram com normalidade é fundamental que o adulto integre o processo de certificação profissional plenamente consciente da sua existência. Para o efeito, o trabalho desenvolvido pelo Front Office (pelos Técnicos Administrativos e pelos TDE’s) é indispensável, nomeadamente através do acolhimento e das sessões de esclarecimento. De igual modo, as entrevistas de diagnóstico (levadas a cabo após a sessão de esclarecimento, pelos TDE’s e posteriormente pelos Tutores de RVC) são cruciais. Este momento serve para compreender as expectativas dos adultos e interagir com eles de forma individualizada, começando a traçar o seu percurso de qualificação numa relação de confiança.
Segundo as orientações metodológicas da ANQ, o RVCC-PRO não prevê a entrada em cena do Tutor de RVC no momento do diagnóstico. Esta orientação não nos pareceu a melhor, na medida em que quer os TDE’s, quer os Profissionais de RVC, não têm competências técnicas suficientes para levar a cabo diagnósticos no âmbito da certificação profissional. Definimos por isso, no nosso CNO, que os adultos passariam por um segundo diagnóstico (além do que é realizado pelos TDE’s), concretizado pelos Tutores de RVC. Todos temos a ganhar com esta medida, técnicos e adultos (é o que chamamos “perder tempo para ganhar tempo”). Por vezes temos de ter a ousadia de questionar e de repensar o que foi previsto, numa atitude
cooperativa e participativa. É o que se chama de cidadania activa, no pleno exercício da liberdade para a aquisição de novos saberes, acreditamos que as entidades reguladoras apreciam este exercício de retorno.
Em termos de filosofia, se quisermos comparar o processo de RVCC-PRO com o processo de RVCC Académico, é de facto a observação em contexto de trabalho (bem como a simulação de exercícios) que distingue metodologicamente os dois processos. Na verdade, e em bom rigor, consideramos que só no processo de certificação profissional é que verdadeiramente se validam competências, no sentido em que as tarefas são observáveis em contexto real de trabalho ou em contexto simulado. Por exemplo, para a área da acção educativa, privilegiamos a observação dos candidatos no seu dia-a-dia na instituição, a operacionalização da observação de desempenho em posto de trabalho faz toda a diferença na avaliação realizada a estes adultos. No entanto, para outras áreas profissionais como a electricidade esta prática nem
sempre é possível, devido às deslocações constantes dos profissionais. Também as actividades sazonais apresentam constrangimentos relativamente à operacionalização destes instrumentos de avaliação. Nestes casos, a aplicação de exercícios poderá ser uma alternativa, caso se considere necessário mobilizar outro instrumento de avaliação após a realização da entrevista técnica.