CAPÍTULO II – REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Interdisciplinaridade: concepção e implicações nos processos de ensino e
2.1.2 Metodologias de abordagem interdisciplinar
A abordagem interdisciplinar adota uma tipologia de ensino que implica na integração de professores que se encontram engajados num trabalho comum. As disciplinas curriculares se integram com a finalidade de vencer a fragmentação do ensino (LUCK, 1990).
Borrero (1991, p. 16) compreende que a interdisciplinaridade se origina de um processo dialético no qual propícia outros conhecimentos:
El proceso dialéctico que promueve la interdisciplinariedad propicia la generación de conocimiento pero no a partir de saberes fragmentados, sino a través de la unidad y unificación de saberes. En la interdisciplinariedad se conserva la especialización de cada ciencia y es esta la que fortalece los procesos de interacción y trabajo colectivo. Nessa concepção, o estudo que se relaciona à abordagem interdisciplinar visa não somente o estudo disciplinar, mas as possíveis inter-relações que essas disciplinas possam vir
a demonstrar nos desdobramentos de uma problemática realizado por um grupo de pessoas, cujo fim proposto é propor alternativas viáveis ou a solução concreta ao revés identificado (BORRERO,1991).
Basta que ocorra a troca de um ou mais membros do grupo, outros enfoques podem ser oferecidos e, não se pode afirmar, que o resultado seja exatamente o mesmo. Essa é uma didática, na qual o processo de aprendizagem é contínuo, ou seja, evolutivo. Ao longo de um tempo ocorreriam uma série de descobertas que farão parte da construção de saberes de um indivíduo.
Tardif (2002) caracteriza o saber docente como múltiplo e pluriorientado por diversos saberes, originados dos saberes curriculares, das disciplinas, do exercício profissional e da experiência pessoal. Não se constitui em uma única fonte, mas na diversidade de contextos, de culturas (pessoal, escolar, institucional, da categoria profissional à qual pertence). São conhecimentos das disciplinas, pedagógicos, curriculares, experienciais, apropriados nas relações, nas práticas concretas; porém, são subjetivos, visto que são incorporados, construídos pelos sujeitos que neles estampam sua marca.
Morin e Le Moigne (2000) compreendem que o saber parcelado e compartimentalizado, ou seja, disciplinar, não oferece a possibilidade de o aluno criar relações de conhecimento diversos. “O caráter disciplinar do ensino formal dificulta a aprendizagem do aluno, não estimula o desenvolvimento da inteligência, de resolver problemas e estabelecer conexões entre os fatos, isto é, de pensar sobre o que está sendo estudado [...]” (SILVA e TORRES, 2014, p.2). Cada disciplina proporciona um conhecimento diferente sobre um determinado assunto, cujo saber do conteúdo criam uma base conceitual. Tardif (2002, p. 112) elucida que, “os saberes, saberes-fazer, competências e habilidades que servem de base ao trabalho dos professores no ambiente escolar”. Não se deve refutar do conhecimento disciplinar, pois é importante para uma formação inicial. O conhecimento individualizado cria condições para a realização da prática, trata-se do saber-fazer.
O indivíduo que conhece e possui habilidades para fazer “assume a prática a partir de significado que ele mesmo lhe dá, um sujeito que possui conhecimentos e um saber-fazer provenientes de sua própria atividade” (TARDIF, 2002, p. 239).
O saber-fazer não se finda em apenas um conhecimento. Certas ações somente podem ser realizadas em função de aprendizado cognitivo, ou seja, que foi adquirido ao longo de um determinado tempo com a junção de saberes diversos. Delors (1999) compreende que a educação deve transmitir conhecimentos que se associam a outros saberes, em função de um
saber-fazer. Para o autor, esse é um processo evolutivo que se adapta à civilização do conhecimento cognitivo, posto que são as bases para as competências necessárias ao futuro.
Determinados problemas somente são resolvidos se forem associadas disciplinas diferenciadas e com aproximações que forem necessárias à solução de um objetivo único. Essa é uma ação única com a aplicabilidade de uma metodologia interdisciplinar. “En la interdisciplinariedad se conserva la especialización de cada ciencia y es esta la que fortalece los procesos de interacción y trabajo colectivo” (BORRERO, 1991, p. 16; POSADA, 2015).
A interdisciplinaridade caracteriza-se pela busca de explicações que culminarão no entendimento de um todo. Refere-se à uma pesquisa ousada de querer compreender não somente as partes, mas as associações que se promovem para constituir o produto final ou acabado. Essa atitude disciplinar define-se em uma transformação da insegurança num exercício de pensar, em um construir (FAZENDA, 1996; SILVA e TORRES, 2014).
Japiassu (1976) compreende que a interdisciplinaridade se caracteriza pelo volume de trocas entre os especialistas e “pelo grau de interação real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa” (p. 74).
Esse projeto de pesquisa é uma proposta de trabalho, entendida como uma temática com abordagens de diferentes disciplinas. Trata-se de uma busca do saber do indivíduo, que não se formula na especulação disciplinar, mas no exercício do pensamento de conteúdos diversos.
Demo (1994, p. 15 - 16) afirma que: “[...] o processo de evolução da humanidade está diretamente vinculado à qualidade do conhecimento adquirido”. A formação da base é elementar ao desenvolvimento humano, posto que visa estimular o indivíduo a buscar por novos saberes e, assim, condiciona-lo ao aprendizado contínuo.
O conhecimento é um processo dinâmico que permite ser alterado pelo ponto de vista do observador, não somente com o objetivo de criticar o que está finalizado, mas com o propósito de questionar e querer mudar. Esta é uma dinâmica que não se finda com um processo de observação, esmera-se em novas perspectivas dos observadores.
Ferracioli (1999, p. 6) cita:
[...] o conhecimento não está no sujeito – organismo, tampouco no objeto – meio, mas é decorrente das contínuas interações entre os dois [...] a inteligência é relacionada com a aquisição de conhecimento à medida que sua função é estruturar as interações sujeito-objeto.
As interações entre sujeito e objeto são essenciais para a construção do conhecimento, que se formula pela dúvida, pelo questionamento e pela investigação, com o objetivo de desnudar aquilo que não se tem como concreto e conhecido. A explanação remete ao
entendimento de que a abordagem interdisciplinar instiga o aluno a conhecer não somente o saber disciplinar, entretanto o leva a compreender as junções entre os conhecimentos diversos. Estende-se à um processo de adaptação, de evolução cognitiva da inteligência humana.
Piaget (1982, p. 162) destaca que: “[...] toda inteligência é uma adaptação”. As estruturas mentais são momentaneamente adaptadas para a construção do saber em uma determinada situação-problema, na qual o conhecimento se constrói e, assim, forma a inteligência humana.
O ambiente interfere e influencia o desenvolvimento humano. O processo de aprendizagem se relaciona com o conhecimento daqueles que interagem e trocam experiências sobre as situações que já foram vivenciadas. O desenvolvimento é um processo que não se padroniza. Cada indivíduo possui e desenvolve suas próprias habilidades que podem ser comum ou única. “O desenvolvimento explica a aprendizagem, e essa opinião é contrária à opinião amplamente difundida de que o desenvolvimento é uma soma de experiências discretas de aprendizagem” (PIAGET, 1964, p. 176).
No entanto, o processo de aprendizagem é emblemático. A construção do conhecimento pode se diferenciar de uma região para outra em função das suas diversidades. Não há um modelo padrão de ensino, pois é preciso entender as necessidades de uma região e direcionar o conhecimento necessário àquela população. Ainda, em uma mesma região, dados os valores éticos, comportamentais e morais pode-se diferenciar, pois a visão do problema está condicionada ao banco de memórias criado ao longo dos anos de vida em sociedade (PIAGET, 1964).
A aprendizagem é um processo, sujeito às influencias da ação do tempo e dos indivíduos envolvidos. Fazenda (1994) faz-nos entender que a interdisciplinaridade aduz uma transformação; considerar-se-ia uma metamorfose, que modifica completamente o sentido da Educação. O percurso da construção do aprendizado interdisciplinar é a prática de atividades cognitivas, atitudinais e comportamentais.
Esse é um movimento contínuo, posto que busca o aprender a aprender, aprender a fazer e aprender a ser; associado à determinação dos envolvidos de avaliar e atuar corretivamente, é o que é considerado como processo de construção do conhecimento com a prática do uso da metodologia com um viés da abordagem interdisciplinar.
O processo metodológico interdisciplinar implica na utilização de abordagens que possibilita ao discente criar relações de conhecimentos diversos no estudo de um objeto; o fim proposto é desenvolver a inteligência dos participantes necessária para resolver problemas e,
assim, estabelecer conexões entre os fatos.
O saber-fazer associado ao aprendizado empírico e cognitivo na abordagem interdisciplinar é um processo evolutivo e qualitativo. Trata-se de associar disciplinas diferenciadas e com aproximações essenciais ao estudo do objeto. Nessa ação há a preservação da especialidade de cada disciplina, que unidas a outras especializações fortalece os procedimentos que forem necessários ao trabalho coletivo. Esse é um exercício do pensamento de conteúdos diversos.
A metodologia interdisciplinar requer interações entre o sujeito e o objeto, pois auxiliam na construção do conhecimento através do processo de observação e inferências às considerações apresentadas. Essas práticas são exercidas em atividade que condiciona a inteligência a uma adaptação.
O desenvolvimento não se padroniza com a solução de um problema; fica à espera de um novo desafio, visto que novas habilidades serão observadas e exercidas na solução de um caso. A dinâmica desse processo metodológico envolve a cognição, o desenvolvimento atitudinal e comportamental; considera-se uma dinâmica em aprender a aprender, aprender a fazer e aprender a ser. A metodologia interdisciplinar incorrerá na prática associativa de conteúdos distintos e correlacionadas em algum ponto, cujo tema envolve e participação de saberes disciplinares.