• Nenhum resultado encontrado

Microconstrução de tal maneira X que Y

4. ANÁLISE DE DADOS

4.1.10 Microconstrução de tal maneira X que Y

Esta seção aborda a microconstrução ‘de tal maneira X que Y’, suas características morfossintáticas e papel funcional na construção em foco. Seu primeiro membro é formado por preposição ‘de’, primeiro correlator intensificador e nome ‘maneira’. Nesse caso, o elemento X não é preenchido14. O segundo membro, por sua vez, é formado por segundo correlator ‘que’ + Y. Para melhor compreensão, destacamos o dado a seguir, que teve como contexto as diferenças entre o comportamento do congresso americano e o brasileiro:

(44) Planos militares para uma guerra atômica total contra um potencial inimigo, são, obviamente, sigilosos, mas se salvam da clandestinidade por ser compartilhados com comissões do Congresso Americano.

No Brasil, o palco onde tais questões são discutidas está cercado de espelhos e coberto de fumaça e gelo seco, de tal maneira que o sigiloso e o clandestino se confundem. Um exemplo é a defesa oficial de que, para impedir a cartelização por parte das construtoras, sejam mantidas em segredo os preços de obras públicas em conexão com a Copa e a Olimpíada.

(Revista Veja Online, Carta ao Leitor, p. 12, Ed. 2223, 2011)

A organização da microconstrução anterior corresponde ao que postulamos na parte inicial desta seção: seu primeiro membro é estruturado por preposição ‘de’, primeiro correlator intensificador ‘tal’ e nome ‘maneira’. Esse conjunto ‘de tal maneira’ constitui o correlator responsável pela prótase da construção. O segundo membro da microconstrução é introduzido pelo segundo correlator ‘que’, que somado a Y (‘o

sigiloso e o clandestino se confundem’) forma a apódose da construção.

Vale recordar que o contexto em que o dado ocorreu era a comparação entre o congresso americano e o brasileiro em relação a conteúdos sigilosos. Ao caracterizar o congresso brasileiro, o autor recorre ao processo de metaforização, utilizando conteúdos de outros campos do conhecimento para estabelecer tal caracterização. O conteúdo 14 Em nosso corpus, pelo menos, não consta o preenchimento de X.

veiculado por ‘o palco’, ‘cercado de espelho’, ‘coberto de fumaça’ e ‘gelo seco’ caracteriza uma cena de teatro ou show de mágica, imprimindo, à construção, um caráter de mistério ou dúvida.

Destacamos, também, que a microconstrução em estudo apresenta sobreposição de valores semânticos, quais sejam os da conclusão e de modo. Acreditamos que ela dialoga com o campo semântico da conclusão por se localizar após o Sprep ‘No Brasil,

o palco onde tais....e gelo seco’, ou seja, sua localização posterior a essa sequência

expositiva indica um caráter de conclusão. Por outro lado, também dialoga com o campo semântico do modo quando há, na composição da prótase, o nome ‘maneira’, que sabemos ser muito próximo de ‘modo’, ‘jeito’ ou ‘forma’.

4. 1. 11 - Microconstrução de tal modo X que Y

Esta seção tem como tema central o estudo da microconstrução ‘de tal modo X

que Y’, suas propriedades morfossintáticas e seu papel funcional na construção

correlativa consecutiva em foco. Tal como a microconstrução anteriormente estudada,

‘de tal modo X que Y’ também apresenta especificidades em sua configuração,

organizando-se da seguinte maneira: o primeiro membro da microconstrução é formado por preposição, partícula tal e nome modo, ao passo que o seu segundo membro é iniciado pelo segundo correlator ‘que’ + Y. Observamos, também, que essa microconstrução admite material interveniente entre seus correlatores. Para melhor compreensão, destacamos o dado a seguir, que teve como contexto a absolvição do Renan Calheiros, pelo Senado Brasileiro:

(45) Renan e seus 40... – somado aos seis outros que hipocritamente se abstiveram na votação que absolveu o ‘capo’ do Senado – não representam os brasileiros que o elegeram. Representam seus interesses pessoais e patrimoniais de tal modo entranhados que, se permitissem a degola do chefe, acabaria eles próprios expostos às leis que punem cidadãos comuns quando as transgridem. Mas para Renan e seus 40...não existem leis.

(Revista Veja Online, Carta ao Leitor, p. 9, Ed. 2026, 2007).

A prótase do dado anterior é formada pelo conjunto de tal modo + entranhados e quer significar, de certa forma, a maneira como os interesses pessoais e patrimoniais estão: bem entranhados. A expectativa gerada por ‘de tal modo entranhados’ exige uma complementação, a apódose, introduzida pelo segundo correlator ‘que’ + Y.

4.1.12 – Microconstrução tão X a ponto de Y

Diferentemente de outras microconstruções estudadas nessa pesquisa, a microconstrução ‘tão X a ponto de Y’ organiza-se de uma maneira um pouco mais complexa. O primeiro correlator intensificador ‘tão’ não se relaciona exatamente com o segundo correlator ‘que’, como é mais comum na construção correlativa consecutiva.

Analisemos o próximo dado, que ocorreu em contexto político de eleições presidenciais em segundo turno. O autor opinava sobre o desempenho dos presidenciáveis durante as últimas semanas antes do dia de votação e o trabalho dos marqueteiros dos candidatos:

(46) Será uma luta voto a voto. Eles têm sete semanas, com três programas semanais, exibidos duas vezes por dia, para atingir suas metas. Essa circunstância, sozinha, garante que haverá ênfase, empenho e malabarismo digitais e retórica de sobra.

Para o eleitor, há o risco grande de que os marqueteiros apliquem doses industriais tão fortes de seus truques a ponto de programas e as inserções durante a programação normal das emissoras se tornarem meras disputas artificiais em que o rótulo vale mais que o conteúdo.

(Revista Veja Online, Carta ao Leitor, p. 14, Ed. 2178, 2010)

Observamos, no dado anterior, que a construção correlativa consecutiva é formada por duas partes: a primeira parte é composta pelo primeiro correlator ‘tão’, intensificando o conteúdo de base nominal ‘fortes de seus truques’, formando o que

chamamos de prótase - ‘tão fortes de seus truques -, e a segunda parte é formada pela preposição ‘a’, o nome ‘ponto’ e a preposição ‘de’ (conteúdos gramaticais), que formam o correlator ‘a ponto de’. ‘A ponto de’ + Y constitui a apódose. Destaca-se, aqui, a não prototipicidade do segundo correlator a ponto de, comparado ao característico correlator

que.

No que tange ao caráter procedural da construção anterior, notamos que está não só relacionado à correspondência prótase-apódose, mas à construção completiva ‘de

que os marqueteiros apliquem doses industriais’ anterior, de caráter metafórico. É

importante destacar que a ação de aplicar doses de qualquer coisa tem como objetivo obter um resultado ou mudança de estado, e isso pode ser comprovado através do uso de

‘se tornarem meras disputas artificiais em que o rótulo vale mais que o conteúdo’,

destacando o uso do verbo ‘tornar’.

É importante refletir, também, sobre o uso do adjetivo ‘industriais’ para caracterizar ‘doses’. Quando se utiliza ‘aplicar doses industriais’, não se quer significar que é algo pouco ou simples, mas algo sofisticado, feito em fábrica e, para além do sofisticado, é algo grande. Certamente, as escolhas lexicais e gramaticais do autor revelam sua avaliação sobre o tema abordado: ao recorrer à metáfora e à correlação, por mais que se insista na imparcialidade e na missão informativa da revista, o autor é subjetivo e parcial e opina sobre o tema.

Com a explanação sobre a última microconstrução encontrada para a construção alvo de estudo, encerramos a seção 4.1. A próxima seção, 4.2, apresenta a elaboração dos padrões construcionais que foram postulados a partir da análise das microconstruções.

4.2 – Padrões microconstrucionais

A análise de dados anteriormente empreendida, permitiu-nos um detalhamento maior do nosso objeto de estudo. O modo como as construções correlativas consecutivas se organizam e se comportam em determinados ambientes (o que chamamos de cotexto e contexto de uso) é parâmetro para a postulação de padrões construcionais.

Sabe-se que padrões emergem do uso e que a construção é uma unidade básica e fundante da língua, com forma e sentido que não são capazes de serem alcançados/entendidos apenas pelos elementos individuais que a instanciam (TRAUGOTT, 2008a). A evolução da língua e o uso contribuem para a formação de padrões construcionais, ou seja, determinadas construções, em algum momento da história da língua, irão se comportar de determinada forma em alguns ambientes, e o uso propicia isso. A fundamentação teórica que guiou esse estudo é de fundamental importância para a compreensão da atual seção.

O caráter holístico de nossa pesquisa permitiu-nos observar a existência de quatro padrões construcionais para a instanciação da correlação consecutiva. Isso quer dizer que, a depender do cotexto e contexto de uso, a construção correlativa consecutiva se configura de quatro (4) formas distintas:

O Padrão 1 da construção correlativa consecutiva tem a prototipicidade, a

iconicidade e maior frequência como características centrais e representa 65,07% do

total de dados. Esse padrão compreende as microconstruções ‘tão X que Y’, ‘tanto X

que Y’, ‘tal X que Y’ e ‘tamanha X que Y’. A partir disso, postulamos a seguinte

organização: na prótase [P], o primeiro correlator intensificador realça (/intensifica) X (um elemento de base nominal, verbal ou adverbial), criando, portanto, a expectativa para a enunciação seguinte, a apódose [Q], introduzida pelo segundo correlator ‘que’ + Y (parte do conteúdo da apódose):

Quadro 7 – Configuração do Padrão 1 Padrão 1

Prótase [P] Apódose [Q]

O Padrão 2 da construção correlativa consecutiva em muito se assemelha ao Padrão 1, no que diz respeito à interdependência de correlatores e à intensificação de elementos intervenientes (X) na prótase, que criam a expectativa para a enunciação seguinte. No entanto, ressaltamos que é um padrão que recruta complexos itens para sua configuração, como é o caso da preposição e de nomes que também atendem a outros campos semânticos. Intersubjetivação, elaboração e argumentação são algumas características apontadas para esse padrão, que representa 15, 87% do total de dados.

Esse padrão compreende as microconstruções: ‘de tal forma X que Y’, ‘de tal

maneira (X)15 que Y’, ‘com um grau tal X que Y’ e ‘de tal modo X que Y’. E está organizado da seguinte forma: sua prótase possui preposição, primeiro correlator intensificador, nome/Ø e X (elemento interveniente), seguida da apódose, introduzida pelo segundo correlator ‘que’ + Y:

Quadro 8 – Configuração do Padrão 2 Padrão 2

Prótase Apódose

Preposição + primeiro correlator intensificador + [Nome/Ø] + X

Segundo correlator ‘que’ + Y

O Padrão 3 da construção correlativa consecutiva tem menor prototipicidade, no entanto, representa 17.46% do total de dados, um percentual maior que o do Padrão 2 e compreende as microconstruções ‘X tal que Y’, ‘X tamanha que Y’ e ‘X tanto que Y’. Seu caráter menos prototípico está relacionado à sua configuração: a prótase é formada por elemento X + primeiro correlator intensificador e, seguido a ela, de forma instantânea, há a apódose, introduzida pelo segundo correlator ‘que’ + Y. Destacamos, nesse caso, a complexidade de identificação da natureza do primeiro correlator.

Quadro 9 – Configuração do Padrão 3

15 Como já observado anteriormente, em nosso corpus, a posição X dessa microconstrução não foi preenchida.

Padrão 3

Prótase [P] Apódose [Q]

X + Primeiro correlator intensificador Segundo correlator + Y

O Padrão 4 da construção correlativa consecutiva é menos prototípico e menos frequente em relação aos demais e representa 1.58% do total de dados. Essas características estão relacionadas à forma como se configura: a construção é formada por duas partes, em que, na primeira o primeiro correlator intensificador realça X e cria um clima de suspense para a enunciação seguinte, introduzida pelo segundo correlator não prototípico a ponto de Em outras palavras, há uma mescla de elementos de naturezas variadas na prótase. Esse padrão compreende a microconstrução ‘tão X a

ponto de Y’.

Quadro 10 – Configuração do Padrão 4 Padrão 4

Prótase [P] Apódose [Q]

Primeiro correlator intensificador + X Segundo correlator não prototípico a

ponto de + Y

Feitas essas considerações, elaboramos um quadro que reúne a organização de cada padrão para a construção em estudo a partir da relação prótase-apódose. Nesse quadro, apontamos, também, a quantidade de ocorrência de cada padrão.

Quadro 11 – Reunião de padrões e configuração de prótase e apódose

Padrões construcionais

Prótase [P] Apódose [Q] Total por

padrão

Padrão 1 Primeiro correlator

intensificador + X Segundo correlator ‘que’ + Y 41 – 65,07% Padrão 2 Preposição + Primeiro correlator intensificador + [Nome/Ø] + X Segundo correlator ‘que’ + Y 10 – 15,87%

correlator intensificador

correlator ‘que’ + Y

Padrão 4 Primeiro correlator

intensificador + X Segundo correlator não prototípico ‘a ponto de’ + Y 1 – 1,58% Total 63 – 100%

A primeira coluna corresponde ao Padrão da construção em foco. A segunda demonstra a organização da prótase do padrão dessa construção, ao passo que a terceira demonstra a organização da apódose. A quarta coluna reúne, por fim, o número de dados encontrados para cada padrão e seu percentual.

A título de ilustração, com o objetivo de demonstrar melhor a proporção de dados, desenvolvemos o gráfico a seguir, que demonstra essa correspondência.

Gráfico 2 - Percentual de cada Padrão16

Levando em consideração a proposta de hierarquia construcional e a assunção de que a língua está organizada em rede de construções altamente hierarquizadas e interconectadas entre si (TRAUGOTT & TROUSDALE, 2013), elaboramos uma rede 16 Destacamos que o gráfico 2, por ser elaborado em programa de computador, não considera as demais casas decimais do percentual de cada Padrão. O número acima de 50 nas duas casas decimais é

arredondado para o primeiro número superior. O número abaixo de 50 nas duas casas decimais é arredondado para o primeiro número anterior inferior.

construcional para o esquema (Intensificador + [X] + que + Y) da construção correlativa consecutiva no português brasileiro, contemplada a seguir:

Figura 2 – Hierarquia construcional da construção correlativa consecutiva

Ao longo desse capítulo, analisamos e descrevemos detidamente o comportamento morfossintático e funcional das microconstruções encontradas no âmbito da construção correlata consecutiva. Posteriormente, explicamos como se configurava cada padrão emergente nessa investigação. O próximo capítulo, naturalmente, contempla as apreciações finais.

Documentos relacionados