Grafo 8 – Proximidade de nós da rede inteira
7 AS MODALIDADES COMUNICATIVAS DO JORNALISMO
7.1 TIPOLOGIA
7.1.1 Tipos de modalidades comunicativas
7.1.1.1 Modalidade comunicativa estática
A modalidade comunicativa estática se caracteriza pelo predomínio textual na apresentação dos dados públicos, com priorização da linguagem de acesso universal e a ênfase ao recurso de memória para contextualização e linearidade na narrativa, com pouco ou nenhum hiperlink nem elemento multimídia. As características centrais do jornal identificadas nessas modalidades são a universalidade – linguagem acessível – a publicidade – publicação em jornais de grande circulação – a atualidade – temas vinculados a assuntos cotidianos da época. Das características webjornalísticas se destaca a memória, considerando que boa parte da amostra foi resgatada em acervos de jornais na internet. As reportagens, na sua maioria, são textuais com gráficos estáticos, relatos mais extensos, cadernos temáticos ou listas de notícias para assinantes da versão paga do jornal digital na internet.
Neste conjunto de formatos se encaixam os trabalhos que foram prioritariamente apresentados em veículo jornal impresso ou jornal digital ou em lista de notícias textuais de origem de jornal impresso. Este conjunto de modalidades inclui trabalhos da década de 1990 antes mesmo da aprovação das leis de transparência no Brasil, indicando a prática de jornalismo com o uso de dados públicos em reportagens assistidas por computador (RAC). Os jornalistas indicaram três diferentes trabalhos que se enquadram nesta tipologia, sendo que o especial Eleições SA foi citado duas vezes. Ao todo foram quatro trabalhos nesta modalidade.
Figura 8 – Modalidade Estática 1: “Os homens de bens da Alerj” (O Globo) ganha prêmio Esso
Fonte: Captura de tela do site do jornal O Globo (2019).
A modalidade comunicativa estática “Os homens de bens da Alerj” (Modalidade estática 1) foi publicada em junho de 2004 e ganhou o prêmio Esso de jornalismo no mesmo ano. A reportagem fez um levantamento dos bens declarados ao Tribunal Regional Eleitoral pelos deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e constatou casos de enriquecimento de 113 parlamentares, sendo que 27 aumentaram o patrimônio em 100% em cinco anos, com um caso de crescimento de 1.500%. A equipe de jornalismo investigou a base de dados por deputado e apresentou em uma página padrão standard vertical em texto e ilustração com foto do prédio da Assembleia no impresso e versão digital. A edição não utilizou o recurso de infografia para ilustrar os dados, conforme apresenta a Figura 9, abaixo.
Figura 9 - Modalidade estática 1: “Os homens de bens da Alerj” no jornal impresso (O Globo)
Outro trabalho da modalidade comunicativa estática foi publicado em 1995 pelo jornal Folha de S. Paulo (Figura 10) em um caderno especial intitulado “Eleições S.A”. A reportagem fez um levantamento nos computadores do Tribunal Superior Eleitoral e acessou dados do financiamento das campanhas de 1994 aos executivos e legislativos de 13 dos 27 Estados brasileiros. Diz o texto de abertura “É a primeira vez na história política do Brasil em que se expõe o mapa das doações eleitorais” (NETO et al., 8 out. 1995, p. 1).
As doações de empresários às campanhas políticas passaram a ser declaradas e acessíveis publicamente depois do Collorgate, em 1992, que resultou na prisão do tesoureiro da campanha, PC Farias, e na instalação do processo de impeachment e renúncia do então presidente Fernando Collor de Melo. Ainda assim, a reportagem aponta que as campanhas à Presidência não tiveram a contabilidade declarada e especialistas entrevistados afirmam que os
dados conhecidos pela reportagem eram apenas
Figura 10 – Modalidade Estática 2: Eleição S/A (Folha de S. Paulo)
Também estão nesta categoria de modalidades comunicativas estáticas as publicações acessíveis em listas de reprodução de notícias do impresso no digital. Esse é um modelo de transposição de conteúdo de um meio analógico para o meio digital sem adaptar às características do novo meio. É o caso da reportagem “Deputados empregam 315 parentes” publicada em 17 de outubro de 1999 no site do jornal Folha de S. Paulo e de autoria do jornalista Lucio Vaz. No texto, a Folha de S. Paulo explica que a reportagem teve acesso, por meio de dados oficiais extraídos dos computadores do legislativo, à lista dos funcionários dos gabinetes dos deputados no Departamento de Pessoal da Câmara dos Deputados. A relação indicava a data de contratação e o salário de parentes de todos os deputados constatando que 186, ou seja, 36% do total, contratavam familiares (mulheres, filhos, irmãos, pais, cunhados e primos).
A proibição do nepotismo no serviço público vinculada ao princípio da moralidade da administração pública foi explicitada primeiro pela Súmula Vinculante 13 aprovada em 21 de agosto de 2008 em sessão do Supremo Tribunal Federal. Mais tarde, o nepotismo seria regulamentado e vedado pelo decreto nº 7.203 de 4 de junho de 2010. No ano de 1999, o nepotismo não era regulamentado, apenas regido pela moralidade e impessoalidade como princípios dos atos da administração pública pela lei estatutária nº 8.112 de 1990. Portanto, o nepotismo na época da reportagem da Folha de S. Paulo era tema de debate público que posteriormente viria a provocar a redação da Súmula Vinculante 13 e do decreto nº 7.203.
Figura 11 – Modalidade Estática 3: “Deputados empregam 315 parentes” (Folha de S. Paulo)
Fonte: Captura de tela do site do jornal Folha de S. Paulo (VAZ, 17 out. 1999).
Os exemplos utilizados para ilustrar a modalidade estática datam dos anos 1995, 1999 e 2004, mas não significa que hoje não haja a prática desta modalidade. Evidenciamos que, na
amostra dessa pesquisa, os exemplos mais atuais se encaixam em outras modalidades. É interessante destacar, a partir da leitura destas reportagens, que a pesquisa dos dados foi feita pelos repórteres nos computadores dos próprios órgãos públicos, autorizada e com suporte dos órgãos de assessoramento. Na primeira década de internet no Brasil, a transmissão e o acesso aos dados públicos pelos jornalistas se mostravam mais restritos e mediados pelo próprio poder público. Como vimos no capítulo quatro, as políticas de transparência para regulamentar o direito de acesso à informação no Brasil foram implementadas com mais ênfase na segunda década da internet no país.