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Grafo 8 – Proximidade de nós da rede inteira

2 O JORNALISMO NA INTERNET

4.1 A DEMOCRACIA DIGITAL

4.1.1 Transparência e publicidade

Na teoria democrática, segundo Bentham (2011), as políticas de transparência potencialmente transferem o poder para quem tem acesso aos dados e potencialmente tornam vulneráveis aqueles que tomam as decisões de governo. O agente público com obrigação de dar publicidade aos seus atos pode ser repreendido pelas ações quando for identificado um comportamento fora do padrão. Para Bentham (2011), a publicidade é útil ao gerar constrangimento ao agente público, ou seja, uma forma de evitar o abuso do poder, ou tomadas de decisão em benefício próprio em vez de em interesse geral da sociedade.

Os inimigos da publicidade podem ser coligidos em três classes: os malfeitores, que buscam escapar da advertência do juiz; o tirano, que tenta suprimir a opinião pública, enquanto teme escutar sua voz; o homem tímido ou indolente, que reclama da incapacidade geral de modo a esconder a sua própria. (BENTHAM, 2011, p. 278).

Para Bentham, a publicidade tem a capacidade de estabelecer o “tribunal do público em condições de formar um julgamento esclarecido” (BENTHAM, 2011, p. 287). Essa prestação de contas como controle do governo pode gerar uma legitimação quando revelar um governo impecável ou com pequenas falhas ou gerar uma crise de confiança em caso de revelações a partir de investigações ou denúncias. Portanto, mesmo sendo transparente, uma instituição

pode sofrer uma crise de confiança. A transparência não transfere diretamente a credibilidade.

Como ressalta Bentham (2011), as normas de publicidade funcionam em um estado de calma e segurança, não em uma situação de instabilidade e ameaça. Portanto, ele assume que a publicidade deve ser suspensa em casos nos quais ela possa favorecer um inimigo – situação de

guerra, por exemplo – ou prejudicar pessoas inocentes – sigilo jurídico – ou ainda impor punição severa a um culpado. Ao relatar o funcionamento de assembleias públicas abertas para admissão do cidadão, Bentham atribui indiretamente credibilidade ou “confiança nas informações dos jornais” (BENTHAM, 2011, p. 290). O autor explica que se o público não fosse admitido – sessões secretas, por exemplo – ele seria levado a supor que haveria omissão ou inverdades. Neste funcionamento de abertura de sessões políticas reside um contrato de publicidade entre o público, os políticos e os jornalistas. O público não está presente, mas subentende que está apto a testemunhar ou a verificar a veracidade porque além do repórter do jornal, há outros relatos possíveis. As sessões e assembleias públicas são uma conquista da democracia moderna.

A forma como os fatos e as informações são tornados visíveis ao público vem sendo alterada na medida em que os avanços tecnológicos transformaram a natureza do que Bentham (2011) chama de publicidade, ou seja, a transparência digital pode ser vista como uma evolução do princípio da administração pública de dar visibilidade aos atos para permitir o controle social. As ferramentas para disponibilizar as informações públicas nos portais online pressupõem, por meio da arquitetura de softwares, um desenho de democracia. Gomes (2007) defende que as escolhas de alternativas de recursos tecnológicos e ferramentas por parte dos governantes é um dos reflexos sobre a compreensão de democracia digital. Sabemos o que a lei prevê, mas não podemos prever aquilo que as instituições irão efetivamente desenhar como ferramenta de acesso à informação, seja pelas condições precárias de adaptação dos governos, seja pela resistência da cultura do sigilo (DA MATTA, 2011).

A participação do cidadão nos âmbitos de debate, deliberação e decisão política é um dos pressupostos para o fortalecimento da democracia. A constituição brasileira, chamada de constituição cidadã, incorporou uma série de mecanismos para a participação democrática do cidadão e se pautou em temas dos direitos humanos. Entre esses recursos estão a previsão de realização de plebiscitos, referendos, leis de iniciativa popular, os conselhos gestores de políticas públicas e o orçamento participativo. São meios institucionais para conectar a sociedade civil e o Estado de forma a direcionar a vontade da população para a esfera de decisão política, com diferentes graus de influência (GOMES, 2005; BARROS; SAMPAIO, 2017).

O sujeito dessa participação política é, evidentemente, o público, a cidadania, a esfera civil. Mas quando se pergunta sobre o locus de tal participação as respostas podem variar, indicando, também numa lista aleatória, a vida pública, as eleições, a política institucional, os negócios públicos, a decisão política. (GOMES, 2005, p. 59).

Quando se trata de problematizar o lugar da participação há ainda outros recursos de conexão política não previstos na constituição como tal, mas que atuam como mobilizadores de participação no debate político como protestos, manifestações, discussões e embates ocorridos na esfera pública e o próprio jornalismo. Dahlberg (2011) cita a possibilidade da deliberação pública em ambientes como jornais online, fóruns de discussão online, e um vasto número de debates online informais em listas de e-mail, plataformas de discussão na web, chats, blogs, sites de rede social e wikis. O autor ainda identifica uma deliberação política acontecendo por meio de textos e comentários do jornalismo cidadão e do que ele chama de mídia "séria", citando como exemplo os fóruns online da BBC e do The Guardian. Nesses casos, tal deliberação é entendida como uma esfera pública racional na qual os cidadãos são transformados em sujeitos democráticos de orientação pública interessados no "bem comum". Para Dahlberg (2011), essa participação resulta em uma opinião pública criticamente informada que pode examinar e influenciar os processos decisórios oficiais.

Neste contexto, a internet é vista como ampliadora dos canais de participação por meio do debate público por possibilitar o desenvolvimento e a apropriação, por parte dos indivíduos, de ferramentas digitais democráticas, no que Weber (2017) chama de redes de comunicação pública, formada por grupos interessados, governos, Estados, instituições, imprensa. Há um entendimento de que o contexto tecnológico e sociotécnico atual molda características normativas para a participação democrática. Há uma série de características apontadas nesta direção, entre elas "superação dos limites de tempo e espaço; extensão e qualidade das informações online; conveniência e custo; facilidade e extensão de acesso; ausência de filtros ou controles; interatividade e interação; e abertura para vozes minoritárias" (BARROS; SAMPAIO, 2017, p. 19).

Diversos teóricos apontam que a disseminação ampla da internet permitiria que os órgãos da administração pública pudessem aumentar a participação da sociedade em suas decisões (SAMPAIO, 2010; FENSTER, 2015). Para Fenster (2015), a relação se estabelece quando o Estado se abre para a transmissão da informação digital para o público com o objetivo de aperfeiçoar o sistema democrático, “o público armado com as informações que recebeu (por meio de dispositivos digitais) manterá o Estado responsável” (FENSTER, 2015, p. 154). O destaque para a promoção da participação cidadã por meio do uso da internet como meio de interação social sobre temas públicos está recentemente vinculado a estudos empíricos que abordam sites de redes sociais e aplicativos como ferramentas de democracia que potencializam as oportunidades de debate público. Para Margetts (2011), a internet "automatizou" o processo

de acesso à informação para cidadãos realizarem pedidos diretamente e pressionarem os poderes.

As mídias sociais, como o site de microblog Twitter, têm aspectos "democratizados" da posição anteriormente privilegiada da mídia para abrir questões, dando a cada cidadão algum tipo de acesso a uma máquina de publicidade, enfraquecendo a capacidade dos tribunais e outras instituições do Estado para bloquear a transferência de informações. Grupos cívicos usaram as mídias sociais com grande efeito em colocar o estado sob pressão para fazer mudanças na política. (MARGETTS, 2011, p. 518).

A transparência pública em um ambiente de comunicação em rede está apta a trazer importantes mudanças para a relação cidadão-governo, possibilitando maior debate público por meio de ferramentas digitais. Para Weber (2017) o debate pode ser planejado, quando nasce estrategicamente e depende de deliberação dos três poderes, ou pode ser espontâneo, quando decorre de acontecimentos políticos, catástrofes e tragédias. O campo da comunicação, como uma esfera de visibilidade pública (WEBER, 2017, p. 42), é o lugar de acionamento do debate no qual os públicos se organizam para se manifestar por meio de dispositivos e de competências de relações públicas, marketing, jornalismo e propaganda. Portanto, o conceito de comunicação pública “está circunscrito à existência de um espaço onde possam circular temas de interesse público gerados por sistemas e redes, assim entendidos por debaterem valores vitais ao Estado, sociedade e indivíduos” (WEBER, 2017, p. 43). A autora classifica os assuntos em debate público como temas sensíveis – questões religiosas, comportamentais, preconceitos, de costumes como casamento e aborto – temas vitais – como liberdades políticas, acesso à educação, alimentação, emprego, segurança, educação – e temas políticos – impostos, políticas públicas, mudanças de governo, eleições, desvios como corrupção, clientelismo e outros.

O jornalismo, como integrante da rede de comunicação mediática (WEBER, 2017), ou seja, com caráter de empresa e não o caráter pessoal de perfis em sites de redes sociais, atravessa as relações entre as redes, sendo um espaço “privilegiado” de visibilidade e repercussão. À medida que os avanços tecnológicos transformaram a natureza da publicidade – no sentido de dar visibilidade à informação pública – a forma como os fatos e as informações são tornados visíveis ao público vem sendo alterada, criando-se novas e qualificando existentes modalidades comunicativas.

Para Margetts (2011), é esperado do cidadão confiar a outras partes a análise dos dados disponíveis em grande quantidade o que um cidadão sozinho não poderia dar conta por tempo e por recursos ou competências específicas. A transparência digital envolve grandes quantidades de dados ou a tradução de processos governamentais em códigos de programação,

implicando em delegação de confiança. A autora atribui ao jornalismo, mais especificamente às organizações jornalísticas, uma destas forças capazes de traduzir a grande quantidade de dados. A autora exemplifica com um caso britânico de 2009, quando o Parlamento Inglês foi obrigado a divulgar as despesas dos representantes e o jornal The Telegraph criou uma ferramenta interativa para que o cidadão pudesse acessar as informações. Esse recurso foi possível porque o jornal tinha uma equipe de jornalistas de dados que trabalharam na leitura e análise de milhares de documentos para moldar um site interativo e disponibilizar para a população. “A confiança se transfere de instituições tecnologicamente e estatisticamente capacitadas – e com recursos adequados – para organizações e indivíduos com capacidade de extrair as vantagens que a internet pode fornecer” (MARGETTS, 2011, p. 520). Para Margetts (2011), o lugar do jornalismo está em desenvolver as ferramentas de acesso para o público, mas há situações em que o jornalismo estará no lugar de usuário de ferramentas produzidas por terceiros – como é o caso de instituições de ensino, organizações não-governamentais, sociedade civil organizada, partidos políticos, os próprios governos e outros atores e redes de comunicação. Nesses casos, o papel do jornalismo estará em reportar as informações tecnologicamente analisadas e programadas por terceiros. No Brasil, as leis de transparência são um mecanismo recente de controle público, seguindo uma tendência de políticas internacionais.