O modelo de desenvolvimento do software livre inicia-se através da publicação do autor do código-fonte de um programa em uma página na Internet. Em seguida, um grupo pequeno, ou amplo, de desenvolvedores voluntários, aderem ao projeto, dependendo da sua complexidade e interesse. Os projetos em geral têm um líder que coordena as atividades de desenvolvimento com diferentes graus de hierarquia. Há projetos que necessitam de um colegiado de líderes em função da sua complexidade. Em geral o líder não é encarado como chefe, mas a liderança é baseada no mérito e na competência. Não há remuneração para o trabalho voluntário e há um forte sentimento de respeito pelo trabalho já desenvolvido. Não há em geral, prazos condicionando o final do projeto de desenvolvimento e sua liberação para o mercado. Isso oferece a possibilidade de uma maior depuração e teste por parte do conjunto dos desenvolvedores, ampliando significativamente a qualidade e a confiabilidade do
software. Sem as pressões comerciais, qualquer alteração ou modificação só é liberada
para uso quando considerada estável. Em geral, os projetos de software livre que adquirem importância e significado agregam ao seu desenvolvimento serviços importantes tais como: documentação, serviços de consultoria, distribuição, suporte, formação. Quanto mais desafiante for o projeto maior será a possibilidade de reunir um número importante de desenvolvedores na busca de uma solução. Outro aspecto extremamente importante no desenvolvimento de software livre é a motivação para o compartilhamento de habilidades para a solução e desenvolvimento dos projetos, ao contrário da cultura empresarial e de mercado baseada na competição (GUTIERREZ e ALEXANDRE, 2004).
Um trabalho seminal e de grande importância teórica e aplicada para uma aproximação e melhor compreensão do fenômeno do software livre e seu desenvolvimento é o trabalho do programador e hacker Eric Raymond, Catedral e Bazar, publicado originalmente em 1998. Neste trabalho Raymond apresenta tanto através de uma reflexão teórica, como também através de exemplos empíricos e até mesmo de suas próprias experiências com o software livre, como não é trivial, ou ainda, como é complexa as relações que se estabelecem entre seres humanos em suas relações
sociais mediada pela técnica digital. Raymond afirma que o método de desenvolvimento fundado no paradigma do mundo industrial mesmo na área de
software se assemelha muito à construção de uma catedral, com sua ordem hierárquica
fortemente estabelecida, planos e projetos pré-concebidos, cada atribuição relacionada com pessoas previamente escolhidas. No modelo denominado Bazar pode-se imaginar vários grupos de trabalho um ao lado do outro, pessoas podem verificar projetos que mais apreciam, podem entrar no grupo trabalhar um tempo e em seguida sair e migrar para outro grupo; as comunicações são intensas e densas e onde os integrantes do projeto se conhecem, apesar da localização dos integrantes serem as mais variadas ao redor do planeta. Outra característica fundamental do processo evolutivo do software livre apresentado no trabalho de Raymond é a transparência dada aos problemas e soluções no trabalho com o código-fonte, através dos processos de desenvolvimento do
software livre. No trabalho de Raymond essa transparência é explicitada da seguinte
forma:
Dada uma base grande o suficiente de beta-testers e co- desenvolvedores, praticamente todo o problema será caracterizado rapidamente e a solução será obvia para alguém. Ou menos formalmente: Dados olhos suficientes, todos os erros são triviais. Eu chamo isso de: Lei de Linus (RAYMOND, 1998).
Portanto, é exatamente essa transparência, essa abertura e liberdade do código- fonte de um programa freqüentemente publicizado pelos líderes de projeto, visível por muitos olhos e analisados e testados por muitas mentes que potencializam e viabilizam as soluções criativas para determinados problemas complexos que não seriam resolvidos por uma ou duas pessoas apenas. Essa transparência e liberação de programas para uso e avaliação pelos pares, denominada “Lei de Linus” por Raymond é parte integrante e essencial do modelo de desenvolvimento do software livre. Quase como uma conclusão, no desenvolvimento do software livre a informação não deve ser apropriada por poucos e não pode ser transformada em segredo, ao contrário quanto maior a transparência da informação maiores as possibilidades de evolução da informação e melhores soluções criativas, inovadoras e inesperadas (RAYMOND,
1998).
Outro aspecto relevante no processo de desenvolvimento do software livre é sua pouca intimidade com processos fortemente ordenados, hierarquizados, semelhantes ao processos de produção em série muito freqüentemente utilizados no paradigma industrial. Nos processos de desenvolvimento do software livre observa-se um forte grau de identidade com as características da Internet, ou seja, forte tendência a processos horizontalizados; fraca e mutável hierarquia fundada exclusivamente na autoridade, mas ao invés, na competência; intensa comunicação e revisão entre os pares envolvidos no projeto; divisão do projeto em módulos interoporáveis; motivação diretamente proporcional à complexidade dos desafios apresentados pelo projeto; conexões entre os pares locais e globais. Estes comportamentos são características encontradas nos sistemas complexos adaptativos, como a auto-organização, a emergência, a realimentação, o caos verificado em sistemas não-lineares aonde se encontra o equilíbrio e a ordem provisória; a organização em rede. O modelo de desenvolvimento do software livre pode ser caracterizado como um sistema complexo adaptativo, conseqüentemente com poucas características baseadas nos paradigmas exclusivamente industriais (SIMON, 2002, KUWABARA, 2000).
Em relação ao modelo de negócios pode-se acrescentar que o software livre não está lastreado na cobrança de licenças ou no número ou quantidade de cópias vendidas. Ao contrário, qualquer pessoa e/ou instituição pode adquirir software livre por preços muito baixos ou até mesmo gratuitamente na Internet. O modelo de negócios do
software livre não está assentado no produto, mas fundamentalmente nos serviços
proporcionados para a utilização e implementação do software livre. O foco do modelo de negócios do software livre baseia-se nos serviços agregados que o modelo comporta que são: configuração, adaptação à realidade específica das instituições, formação, manutenção, atualização e integração com softwares livres e proprietários. (SOFTEX ITI, 2005).