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2.2 OS MODELOS DE JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL

2.2.1 O modelo norte-americano

A jurisdição constitucional e o controle de constitucionalidade são

configurados de acordo com a cultura jurídica existente no país. Desta feita, é

essencial fazer um resumido retrospecto do sistema jurídico norte-americano, vez

que características do histórico vivenciado pelo país determinam não só a forma

como é realizado o controle, mas também os órgãos julgadores competentes.

O constitucionalismo norte-americano é anterior à promulgação de sua

Constituição e mesmo a sua Declaração de Independência, pois a forma de

colonização dos Estados Unidos e os imigrantes que vieram foram responsáveis por

erigir na sua cultura política as ideias de limitação do poder dos governantes e a

necessidade de proteger a minoria do arbítrio da maioria. Importante parcela dos

imigrantes estava fugindo das perseguições religiosas sofridas na Europa. (SOUZA

NETO; SARMENTO, 2012, p.58)

A influência do seu processo de colonização e imigração é perceptível ainda

hoje no seu sistema constitucional, este tem como característica, além da busca por

garantir o poder de autogoverno do povo (matriz liberal), a defesa dos direito das

minorias, apesar de serem aparentemente conflitantes. Ou seja, funda-se no

consentimento dos governados, mas cria formas de evitar que esse poder seja

opressor e fira liberdades individuais. O constitucionalismo dos Estados Unidos

entende que cabe à Constituição o papel de organizar o Estado e impor limites aos

atos dos governantes, mas exclui a ideia de que lhe caiba também definir o futuro do

país. (SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p.58)

O Sistema norte-americano é herdeiro da tradição do direito inglês,

incorporando deste o julgamento por júri e a common law. Todavia, como a

jurisdição constitucional foi criada pela Constituição não havia precedentes ou

costumes anteriores, assim a common law era julgada inexistente na esfera federal.

Já na esfera estadual, reconhecia-se a common law, empregando tradições trazidas

da Inglaterra- costumes e precedentes.(LOPES, 2006, p. 369)

A Constituição norte-americana, ainda em vigor, criou um novo modelo de

organização política- o Estado Federal; instituiu o presidencialismo e o sistema de

freios e contrapesos interligado à ideia de separação de poderes. Ela é bastante

sintética, contava com sete artigos apenas. Foi aprovada em 1787, na Convenção

da Filadélfia, e após, ratificada pelo povo dos Estados.

(SOUZA NETO;

SARMENTO, 2012, p.58)

O júri formado por leigos decidia a partir de questões formuladas de maneira

que as respostas fossem sim ou não. O julgamento deveria ocorrer no menor tempo

possível para evitar a reunião do júri em várias ocasiões e não se deveriam obrigar

os jurados a ler os autos, os debates e provas seriam no mesmo evento e de forma

oral. O processo norte-americano baseava-se na oralidade, na concentração e na

imediatidade. Desta maneira, as partes e o juiz deveriam instruir o processo

delimitando o objeto da decisão. As reformas no sistema e no processo norte-

americano buscavam simplificar o acesso à justiça, criaram-se processos coletivos-

class actions. Outra preocupação era garantir a igualdade substancial e material,

sendo que no séc. XX foram ampliando-se as garantias processuais. Na realidade,

após a guerra civil, preocupava-se em garantir que os Estados do Sul não

impedissem as liberdades garantidas pela Emenda XIII de 1865 (LOPES, 2006, p.

371-372)

Ao longo do século XX [...], foram sendo impostas condições para a organização dos júris, pois o direito a um júri imparcial exigiu que se evitassem júris a refletir os preconceitos predominantes. O processo serviu, assim, ao mesmo tempo para nacionalizar (impor a todos os Estados) a Bill of Rights e para dar-lhe conteúdos substanciais (substantive due process), mais do que formais. (LOPES, 2006, p.372)

O Controle de constitucionalidade não está previsto de forma expressa na

Constituição norte-americana, ele foi inferido pela Suprema Corte dos Estados

Unidos da supremacia da Constituição, na tão citada decisão do caso Marbury v.

Madison

2

, definida por Barroso como marco inicial do modelo americano (2012, p.

2 John Marshall declarou “principle, supposed to be essential to all written constitutions, that a law

repugnant to the Constitution is void; and that courts, as well as other departments, are bound by that instrument”. (CAPPELLETTI, 1999, p. 63). O que pode ser traduzido como: supõe-se ser essencial

79). Tal decisão fez dos Estados Unidos o percussor na correlação entre a

supremacia constitucional e o controle de constitucionalidade. (SOUZA NETO;

SARMENTO, 2012, p.18; BARROSO, 2012, p. 49;

BULOS, 2014, p. 194;

FERREIRA, 2016, p. 183)Todavia, é importante salientar que apesar de não estar

expresso o controle nas competências da Suprema Corte, o artigo VI da seção 2 é

enfático acerca da supremacia da Constituição. (CHEHAB, 2012, p. 15)

Todavia, a Justiça do Estado de New Jersey, em meado de 1780, já havia

decidido que leis conflituosas à Constituição eram nulas, assim como juízes da

Virgínia. A Suprema Corte da Carolina do Norte também, em 1787, invalidou leis

antagônicas. Ou seja, a decisão do caso Madison traduz-se em um amadurecimento

da proteção aos direitos e garantias.(BULOS, 2014, p. 193)

Na realidade, o desenvolvimento da revisão judicial tem estreita vinculação

com o direito britânico, a opressão vivenciada pelas colônias e praticada pelo

parlamento inglês, fez os colonos americanos adotarem a tese do Coke

3

“sobre la

existencia de un higher law —un derecho superior a las leyes que permitía supeditar

la validez de éstas a su adecuación con el primero— para legitimar la revolución”.

(HIGHTON, 2016, p. 112) Na Inglaterra, as ideias de Coke não tiveram êxito, vez

que desde a Revolução Gloriosa de 1688 foram impostas as ideias de Blackstone de

supremacia do parlamento. (Ibid., p. 112/113) Já os colonos americanos utilizaram a

ideia da carta magna como um direito superior que não poderia ser contraposto pelo

parlamento. (Ibid., 113)

As colônias inglesas eram regidas por Cartas ou Estatutos da Coroa. Estas

Cartas podem ser consideradas as suas primeiras constituições, pois vinculavam o

legislativo colonial e regulavam as estruturas jurídicas da Colônia. Então, as colônias

podiam aprovar suas próprias leis desde que não fossem contrárias às Cartas ou as

para todas as constituições escritas, que uma lei incompatível com a Constituição é nula; e os Tribunais, assim como outros departamentos, estão vinculados a este instrumento. (tradução nossa)

3 A atuação de Coke no caso Bonham que firmou a ideia de que um ato do parlamento contrário ao

direito ou impossível de ser aplicado deve ser declarado nulo, cabendo ao common law controlá-lo. Alguns autores defendem que não tinha a intenção, Coke, de construir uma teoria sobre uma lei fundamental superior as leis do parlamento, nem na afirmação de que os juízes deveriam fazer a revisão judicial. Apenas defendeu que um ato do parlamento contrário ao direito e a razão é nulo, desconstruindo a ideia de supremacia do parlamento. (HIGHTON, 2016, p. 112). Há defensores de que Edward Coke fez uma teoria sobre o juiz como árbitro entre o Rei e a nação, em razão de divergência com James I Stuart, rei que pretendia exercer pessoalmente o Poder Judiciário. (CAPPELLETTI, 1999, p. 58) Apoiou sua teoria na instrução dos juízes na ciência do Direito e na supremacia da common law sobre a autoridade do Parlamento. Cabendo aos juízes proteger essa supremacia contra os atos dos soberanos e também do parlamento. O célebre caso Bonham foi em 1610. (Ibid., p. 60)

leis da Inglaterra, ou melhor, a vontade do parlamento inglês. Talvez, essa também

seja uma justificativa da supremacia da Constituição sobre as leis ordinárias, pois

todo o seu sistema jurídico enquanto colônia baseava-se na aplicação das normas

ordinárias, excetuando-se quando fossem contrárias à Carta. (CAPPELLETTI, 1999,

p. 60/62)

Cervantes afirma que houve no direito colonial norte-americano,

antecedentes da revisão judicial. (CERVANTES, 1999, p. 369). Na Convenção

Constituinte da Filadélfia foram várias as iniciativas de implantação de mecanismo

de controle de constitucionalidade das leis, mas a Constituição resultante desta

convenção não dispôs de modo direto competência para julgar as leis em razão da

sua inconstitucionalidade. Trazia apenas o artigo sexto que obrigava os juízes a

aplicar preferencialmente a Constituição e as leis estaduais, e a Constituição e as

leis federais. (Ibid., p. 369)

Nos Estados Unidos havia desconfiança com relação ao Parlamento, pois

ele era o opressor que ditava a lei que submetia o país antes da sua independência.

Depositou-se nos juízes a confiança, inclusive de manter a supremacia da

constituição. Foi atribuído a eles o poder de exercer o controle de

constitucionalidade. A necessidade de revisão judicial nasceu pela inevitabilidade de

controle de escolhas do legislador tendentes a representar apenas as maiorias

circunstanciais em prejuízo das minorias. (HIGHTON, 2016, p. 111/112)

Os americanos estabeleceram o Poder judicial como barreira aos excessos

do Poder Legislativo, deram àquele um grande poder político. Todo esse histórico foi

imprescindível na tomada da paradigmática decisão do caso Marbury vs. Madison

4

,

em que houve a materialização da ideia de controle judicial da constitucionalidade.

(HIGHTON, 2016, p. 114) Como defende Cappelletti, a corajosa decisão de Marshall

4 O la Constitución es la Ley Suprema inmutable por medios ordinarios, o está en el nivel de las leyes

ordinarias, ycomo otras, puede ser alterada cuando la legislatura se proponga hacerlo. Si la primera parte de la alternativa es cierta, entonces, un acto legislativo contrario a la Constitución no es ley; si la última parte es exacta, entonces, las Constituciones escritas son absurdos proyectos por parte del pueblo para limitar un poder ilimitable por su propia naturaleza. Ciertamente todos los que han sancionado Constituciones escritas las consideraban como ley fundamental y suprema de la nación... Así pues, si una ley está en oposición con la Constitución; si tanto la ley como la Constitución se aplican a un caso particular, de modo que la Corte tiene que decidir ese caso, o bien de conformidad con la ley prescindiendo de la Constitución, o bien de conformidad con la Constitución prescindiendo de la ley, la Corte tiene que determinar cuál de estas dos reglas opuestas debe regir el caso […] Esta es la verdadera esencia de la obligación judicial. Si entonces, los Tribunales tienen que observar la Constitución, y ésta es superior a cualquier ley ordinaria de la legislatura, la Constitución y no esa ley ordinaria, debe gobernar el caso al cual se aplican. (ZAMORA, 2007, p. 2)

não foi um ato de improvisação, mas sim de amadurecimento que se deu através de

séculos de história não só americana, mas universal. (CAPPELLETTI, 1999, p. 63)

Então, a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos no julgamento do

caso William Marbury versus James Madison

5

pode ser considerada o marco

principal do controle de constitucionalidade no país por ter estabelecido formalmente

as bases do controle norte-americano, além de bases para o controle difuso para o

mundo (BULOS, 2014, p. 193), quais sejam:

(i) primazia da superioridade das decisões judiciais sobre os atos de natureza política, tanto do Congresso como do Executivo; (ii) reconhecimento da supremacia da Constituição sobre as atividades legislativa e administrativa do Estado; e (iii) indispensabilidade da interpretação e aplicação das normas constitucionais e legais pelo Poder Judiciário. (BULOS, 2014, p. 193)

Barroso também aponta como três os grandes fundamentos do controle de

constitucionalidade enunciados por Marshall. O primeiro é a supremacia

constitucional, a segundo a nulidade das normas inconstitucionais e por fim, o Poder

Judiciário como o intérprete final da Constituição. (2012, p. 25)

Sob um prisma mais amplo, como Fernandes, pode-se afirmar que a decisão

do caso Marbury vs. Madison é a matriz do controle de constitucionalidade,

seguindo-se uma linha histórica, não sendo apenas um referencial para o sistema

norte-americano, mas para toda a ideia de controle que é baseada na supremacia

da constituição. Fernandes ainda acrescenta outras contribuições dessa decisão, as

quais não foram citadas por Bulos e Barroso, como: a realização do controle por

todos os membros do Poder Judiciário do sistema norte-americano (controle difuso);

a vinculação a existência de caso concreto a ser resolvido pelo judiciário no

desempenho da sua função jurisdicional, cujo efeito será inter partes (incidental).

(FERNANDES, 2011, p. 921)

5 O caso era politicamente complicado. O Presidente da República, John Adams, contrariado com a

vitória nas urnas de Thommas Jefferson, começara a colocar aliados seus em postos importantes do poder, especialmente no Judiciário. Seu Secretário de Estado, Marshall, um militar com rápida passagem por um curso de Direito, fora guindado ao cargo de Presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos e, no apagar das luzes de seu mandato presidencial, inúmeros outros concidadãos forma designados para vários cargos judiciais (os midnight judges). Tudo tão às pressas que muitos não haviam sido sequer notificados da nomeação. Jefferson resolveu não reconhecer essas nomeações, ensejando que um nomeado de nome Marbury ingressasse na Suprema Corte com um writ of mandamus, exigindo a sua efetivação. Marshall resolveu não enfrentar uma possível resistência do novo governo a uma decisão contrária da Suprema Corte e indeferiu o mandamus; todavia, lançou as bases de uma doutrina que seria fadada, desde então, a ser repetida dentro e fora dos Estados Unidos. (SAMPAIO, 2002, p. 31)

Apesar de já existirem decisões declarando a inconstitucionalidade de leis

contrárias à Constituição, coube a John Marshall, em sua decisão, estabelecer as

bases do controle judicial de constitucionalidade, bem como destacar a supremacia

da Constituição e a competência do judiciário para declarar a invalidade das normas

conflitantes, estabelecendo-o como o intérprete último da Constituição. (BULOS,

2014, p. 194) A decisão foi tomada dentro de um impasse entre a escolha de uma

constituição rígida ou flexível, pois ou a constituição preponderava sobre os atos

legislativos ou poderia ser modificada pelos mesmos. Ou ela representaria uma lei

fundamental, com superioridade e procedimento especial para revisão, ou teria a

mesma hierarquia de uma lei ordinária. Assim, ao se decidir pela supremacia da

Constituição, é necessário não aplicar a lei que a contrarie, não há um meio termo.

(CAPPELLETTI, 1999, p. 47/48)

A decisão também foi responsável pelo destaque dado ao judicial review ou

judicial control no mundo. (BULOS, 2014, p. 194) A doutrina do judicial review ou de

revisão judicial pode resumir-se na sujeição dos atos do Legislativo e do Executivo à

análise judicial, cabendo a este último afastar a aplicação de atos incompatíveis com

a Constituição. (HIGHTON, 2016, p. 112) Cervantes define a doutrina do judicial

review “como la facultad de los Tribunales de declarar la inconstitucionalidad de una

norma de derecho creada por ellos mismos, por um Congreso o por la

administración de Gobierno” (1999, p. 368) Ele ainda afirma que está inserida neste

conceito a faculdade dos juízes interpretarem a Constituição e as leis, assim uma lei

pode não refletir o que o legislador intencionou, e sim o resultado da interpretação

judicial. (Ibid., p. 368)

Importante, salientar, que antes de pôr em prática o judicial review nos

Estados Unidos, nada de semelhante havia sido criado, especificamente nos países

europeus. Isso se explica pelo fato da Constituição norte-americana ter iniciado o

constitucionalismo com sua ideia de supremacia da constituição. Essa constituição

foi o modelo de constituição rígida, a qual só pode ser modificada por procedimento

especial e mais rigoroso. (CAPPELLETTI, 1999, p. 46)

E se é verdadeiro que hoje quase todas as Constituições modernas do mundo “ocidental” tendem, já, a afirmar o seu caráter de Constituições rígidas e não mais flexíveis, é também verdadeiro, no entanto, que este movimento, de importância fundamental e de alcance universal, foi efetivamente, iniciado pela Constituição norte-americana de 1787 e pela corajosa jurisprudência que a aplicou. (CAPPELLETTI, 1999, p. 48)

O argumento utilizado por Marshall foi baseado em um silogismo simples,

composto pelas seguintes premissas: a lei fundamental dos Estados Unidos é a

Constituição e cabe aos juízes aplicar a lei. Assim, concluiu que caberia ao judiciário

fazer a revisão judicial das leis. (DWORKIN, 2001, p. 41)

No Sistema jurídico estadunidense exige-se um contraditório rígido, ele é

considerado um instrumento de garantia legislativa. “A mútua vigilância ou o controle

recíproco entre os litigantes” é “pressuposto indispensável do contraditório”

(MENDES, 2006, p.32).

Tem-se, neste sistema, a ideia da Constituição como norma jurídica e que

deve ser aplicada pelo judiciário na resolução dos casos contenciosos, mesmo que

signifique restringir o poder das maiorias representadas pelo Legislativo ou

Executivo. Não se encontra expressa no texto constitucional tal ideia. Afirma-se que

após a referida decisão de Marshall que se cristalizou no direito norte-americano a

ideia de que compete aos juízes reconhecer a invalidade das normas contrárias à

Constituição, transformado esta ideia no princípio fundamental do Direito

Constitucional dos Estados Unidos: a supremacia da Constituição como “princípio

jurídico judicialmente tutelado”.

(SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p.59) O

princípio da supremacia da constituição tem um efeito duplo nos Estados Unidos. A

norma federal tem como paradigma a Constituição Federal; enquanto a norma

estadual é controlada tanto pela Constituição estadual quanto a Federal.

(CERVANTES, 1999, p. 384)

Barroso ao explicar a lógica do judial review, afirma que o princípio mor do

Sistema norte-americano é o da supremacia da Constituição, sendo o judiciário o

seu intérprete qualificado e final. Assim, caso haja conflito entre a Constituição e

uma lei, cabe ao judiciário aplicar a primeira, pois a segunda, por ser conflitante, é

nula (BARROSO, 2012, p. 44) A inconstitucionalidade no sistema norte-americano é

sinônimo de transgressão, não importando se a lei é mais benéfica para os

cidadãos, pois o simples fato de tornar a constituição vulnerável é suficiente para

tratá-la como inconstitucional. (BULOS, 2014, p. 139)

Saliente-se que a Constituição dos Estados Unidos, apesar de ser sintética,

possui dispositivos constitucionais plásticos, permitindo sua atualização por meio da

interpretação, adaptando-a as novas realidades vivenciadas ao longo do tempo em

que está em vigor. Desta forma, a rigidez formal do seu texto não impediu a

modernização do mesmo. (SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p.58)

A Constituição

norte-americana tem várias funções, entre elas a de delimitar as esferas de poder da

Federação e dos Estados; estabelece a divisão dos poderes entre os três setores do

Governo Federal; reconhece as garantias individuais que bu8scam proteger o

indivíduo contra atos arbitrários da autoridade ou de certas leis. (CERVANTES,

1999, p. 368)

O controle de constitucionalidade norte-americano pode ser exercido por

qualquer juiz ou tribunal perante um caso concreto contencioso, sendo classificado,

por isso, como controle difuso, vez que a competência para julgar a

constitucionalidade não está concentrada em apenas um órgão ou alguns, mas em

todo o poder judiciário “no desempenho ordinário de sua função jurisdicional”

(BARROSO, 2012, p. 79). A realização do controle de constitucionalidade nos

Estados Unidos é uma faculdade do poder judiciário, não há um Tribunal específico.

(CERVANTES, 1999, p. 384)

Também, classificam-no em controle concreto, tendo em vista a necessidade

de um litígio intersubjetivo (SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p.19). Barroso

classifica o controle norte-americano em difuso e incidental, ao invés de utilizar a

nomenclatura concreto. (2012, p. 49)

Desde o seu nascedouro, o sistema constitucional estadunidense

preocupava-se com o acesso à justiça e tinha como pilares a oralidade, a

imediatidade e a concentração. Assim, o controle de difuso é o mais adequado à

realidade histórico-jurídica norte-americana, pois quando se concentra o controle

constitucional em um órgão apenas como um Tribunal Constitucional, ou apenas em

alguns, perde-se a imediatidade e a concentração, pois o órgão julgador do caso

concreto não poderá se pronunciar acerca da constitucionalidade ou não da lei

contestada. O julgamento da causa e da constitucionalidade da lei não se

concentraram no mesmo ato, o que impossibilita também de ser imediato.

O Sistema jurídico norte-americano, como visto, tem origem na tradição do

Common Law, por consequência, os precedentes judiciais são vinculantes, apesar

das decisões proferidas pela Suprema Corte referirem-se a um caso concreto. Com

isso, todos os órgãos do Poder Judiciário ficam vinculados à decisão da Suprema

Corte acerca da constitucionalidade de uma lei, além de vincular também a

Administração Pública. (SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p.19)

É regido o sistema norte-americano pelo princípio do stare decisis, assim as

decisões dos Tribunais Superiores devem ser seguidas pelos juízes de instâncias

inferiores. A mesma lógica repete-se na Suprema Corte, suas decisões possuem

efeito vinculante. Os precedentes vinculam os entendimentos judiciais. Desta

maneira, uma lei declarada inconstitucional pela Suprema Corte não deve ser

aplicada por qualquer juiz.

(BULOS, 2014, p. 194) O stare decisis aproxima-se da

figura da súmula vinculante no Direito Brasileiro.

O stare decisis representa uma limitação ao controle absoluto dos juízes,

pois significa que os tribunais devem respeitar os próprios precedentes e as

decisões adotadas pelos tribunais superiores em casos similares. (DALLA VIA,

2016, p. 446) O efeito vinculante está nas razões da decisão e não pode ser

estendido aos argumentos periféricos existentes no corpo da decisão e que não se

relacionam diretamente ao objeto em discussão. O precedente também só é cogente

quando os casos forem semelhantes. (FERREIRA, 2016, p. 184)

Como o controle nos Estados Unidos é concreto e não há uma decisão

uniforme acerca da constitucionalidade ou não de uma lei, tem-se o risco de um juiz

não aplicar uma lei em um caso alegando sua inconstitucionalidade, e outro aplicá-la

por entender ser constitucional. Esse alerta foi levantado por Kelsen, que na mesma

oportunidade alega que esse risco não é tão grande no sistema estadunidense em