2.1 CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
2.1.3 O Controle Político e o Controle Judicial
O elemento de distinção entre o controle político e o controle judicial é a
natureza do órgão que controla a constitucionalidade (FERNANDES, 2011, p. 924).
Bulos leciona que o controle político é aquele realizado por órgão não pertencente
ao Poder Judiciário, sendo que, em regra, realizado pelo próprio Legislativo e
Executivo. (2014, p. 191) Nessa mesma linha, Barroso define que o controle político
refere-se ao controle de constitucionalidade exercido por órgão com natureza
política, comumente, vinculado ao parlamento. Associa-se tal controle ao modelo
constitucional francês, vez que se rejeitou o modelo de controle judicial pela
desconfiança em relação ao judiciário. (BARROSO, 2012, p. 43)
Bulos é ainda mais enfático ao defender que na França adotou-se um
controle político puro, o qual não é uma boa opção, sendo melhor adotá-lo de forma
mitigada em que é exercido por um tribunal político-jurídico. (2014, p. 191) Contudo,
o próprio Barroso afirma que seria mais adequado designar como controle não
judicial, pois “o fato de não integrar o Poder Judiciário e de não exercer função
jurisdicional o que mais notadamente singulariza o Conseil Constitutionnel- junto
com o caráter prévio de sua atuação” (2012, p. 44). Fernandes leciona que o
controle político é de matriz francesa e está presente na Constituição em vigor na
França, em que o Conselho Constitucional, órgão político, é que realiza o controle.
Alega que no Brasil, o controle político é realizado pelo Legislativo e Executivo.
(2011, p. 924)
José Afonso da Silva ensina que o controle realizado por órgão com
natureza política era predominante na Europa, sendo o último resquício o Conselho
Constitucional francês, o qual está se transformando em um órgão jurisdicional.
(2014, p. 51) Já Zamora não considera o Conselho Constitucional francês como um
órgão cuja proteção tem caráter político. Cita como exemplos o artigo 61 da
Constituição Espanhola, em que o Rei presta juramento de guardar e fazer guardar
a Constituição; o artigo 5 da Constituição Francesa, em que o Presidente da
República é obrigado a velar pelo cumprimento da Constituição; a Lei Fundamental
Alemã em que é confiada ao Governo a legítima defesa da ordem constitucional; e,
por fim, o artigo 91 da Constituição Italiana que prevê o juramento do Presidente da
República de observância da Constituição. (2007, p. 3)
Os defensores do controle político alegam que o Poder judiciário não possui
a sensibilidade politica para realizar o controle de constitucionalidade, sendo que os
órgãos políticos que dominam a dinâmica inerente à ordem jurídica; que os juízes ao
declarar a inconstitucionalidade ferem o princípio de separação de Poderes, pois
anulam atos do Legislativo e Executivo. (BULOS, 2014, p. 191)
O controle político também sofre muitas críticas como a ausência de
respaldo técnico, já que esse tipo de controle baseia-se, na prática, em juízo de
conveniência; e a irracionalidade de delegar o controle ao próprio órgão emissor do
ato, o que também configuraria uma violação ao princípio de separação de poderes,
pois caberia ao legislativo controlar a constitucionalidade dos atos que ele mesmo
criou. (BULOS, 2014, p. 191) Esta última crítica é apontada por Barroso como a
lógica do judicial review. “Se o poder de controlar a constitucionalidade fosse
deferido ao Legislativo, e não ao Judiciário, um mesmo órgão produziria e fiscalizaria
a lei, o que o tornaria onipotente”. (BARROSO, 2012, p. 44)
Cappelletti assevera que nos sistema em que o controle é político,
usualmente, é realizado preventivamente, ou seja, antes da promulgação da lei,
sendo que , em alguns casos, sua função é apenas consultiva, vez que a decisão ou
parecer não possui força vinculatória. Ele exemplifica esse controle com o Supremo
Poder Conservador criado no México através da Lei Constitucional de 29 de
dezembro de 1836, sob influência da figura do Sénat Conservateur da Constituição
Francesa de 1799. (1999, p. 26) Ele cita ainda a Constituição Italiana, que apesar de
prever um controle propriamente judicial realizado pela sua Corte Constitucional,
dispõe sobre o controle político delegado ao Presidente da República e ao Governo
Central das leis regionais. (Ibid., p. 30)
Já no controle judicial cabe “ao judiciário o papel de intérprete qualificado e
final” da Constituição. (BARROSO, 2012, p. 44). O controle é confiado a órgãos
judiciários que o exercem na sua função jurisdicional, representando o encontro
entre a norma e o julgamento, em outras palavras, entre o legislador e o juiz.
(CAPPELLETTI, 1999, p. 26) Bulos é mais sucinto ao delimitar como o controle
desempenhado por juízes ou tribunais, sendo o exercido com exclusividade pelo
Poder Judiciário. (2014, p. 191)
José Afonso da Silva leciona que esse controle está generalizado hoje em
dia e é denominado de judicial review no sistema norte-americano, consistindo em
uma faculdade outorgada ao Poder Judiciário “de declarar a inconstitucionalidade de
lei e de outros atos do Poder Público que contrariem, formal ou materialmente,
preceitos ou princípios constitucionais”. (2014, p. 51)
Barroso afirma que a origem deste controle deu-se no direito norte-
americano e ingressou na Europa com a Constituição da Áustria de 1920, contudo
neste continente adotou-se a criação de órgãos específicos de controle- os tribunais
constitucionais.
Adotou-se ali uma fórmula distinta, com a criação de órgãos específicos para o desempenho da função: os tribunais constitucionais, cuja atuação tem natureza jurisdicional, embora não integrem necessariamente a estrutura do Judiciário. O modelo se expandiu notavelmente após a 2ª Guerra Mundial, com a criação e instalação de tribunais constitucionais em inúmeros países da Europa continental, dentre os quais Alemanha (1949), Itália (1956), Chipre (1960) e Turquia (1961). No fluxo da democratização ocorrida na década de 70, foram instituídos tribunais constitucionais na Grécia (1975), Espanha (1978) e Portugal (1982). E também na Bélgica (1984). (BARROSO, 2012, p. 44-45)