2.1 CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
2.1.4 O Controle Difuso e o Controle Concentrado
O elemento diferencial desses controles está no aspecto subjetivo, em quem
controla. (FERNANDES, 2011, p. 925) A própria denominação desses controles já
demonstra qual é o elemento de diferenciação: a centralização ou não em um órgão
ou alguns órgãos. (BARROSO, 2012, P. 46) Mezzetti fala em uma dupla modalidade
de controle, sendo a variável “la atribución de la competência a uma pluralidade de
órganos o a um órgano único, teniendo que diferenciar bajo tal perfil entre control
difuso y control concentrado”. (2009, p. 286)
Assim, quando a competência para reconhecer a inconstitucionalidade de
disposição legal é de qualquer juiz ou tribunal, tem-se o Controle Difuso. A
consequência deste é a não aplicação da norma ao caso concreto sub judice.
Barroso defende que origem do controle difuso é idêntica ao do controle judicial em
geral- o caso Marbury v. Madison, pois na sua decisão estabeleceu-se que cabe a
todos os juízes a interpretação da Constituição, assim como negar a aplicação de
norma que conflite com ela. (2012, p. 46)
Assim, na modalidade de controle difuso, também chamado sistema americano, todos os órgãos judiciários, inferiores ou superiores, estaduais ou federais, têm o poder e o dever de não aplicar as leis inconstitucionais
nos casos levados a seu julgamento. [...] Do juiz estadual recém- concursado até o Presidente do Supremo Tribunal Federal, todos os órgãos judiciários têm o dever de recusar aplicação às leis incompatíveis com a Constituição. (BARROSO, 2012, p. 46)
No controle difuso, qualquer órgão judicial pode exercer o controle de
constitucionalidade, independente de ser de primeiro ou segundo grau, ou mesmo
de um tribunal superior. Entende-se que o controle está inerente ao desempenho da
função jurisdicional, assim cabendo deixar de aplicar ato contrário à Constituição nos
casos concretos litigiosos que lhe foram submetidos. (BARROSO, 2012, p. 96) O juiz
realiza a interpretação quanto à constitucionalidade de uma norma, sendo sua
decisão tão legítima quanto à tomada pelo Tribunal Supremo, ambos têm
legitimidade constitucional para avaliar a constitucionalidade das normas.
(HIGHTON, 2016, p. 111)
Um questionamento acerca do controle difuso é a subjetividade da decisão
do juiz sobre quando deve proteger a Constituição ou fazer justiça no caso concreto;
enquanto no controle concentrado por Tribunal Constitucional não há dúvidas, vez
que sua única atividade é verificar a constitucionalidade da lei. (HIGHTON, 2016, p.
111) No controle concentrado puro, discute-se com base nas regras em abstrato,
independente de haver justiça no caso concreto. (Ibid., p. 110).
Todavia, Highton afirma que tanto o juiz ordinário quanto o juiz constitucional
têm a missão de equilibrar as tensões entre os fins constitucionais e a justiça (2016,
p. 111) Lenio Streck defende a relevância do controle difuso na transformação do
Direito, vez que para estas deve se dar um amplo acesso à justiça e existir um
processo de capilarização da jurisdição constitucional. (2003, p. 289)
O controle concentrado possui origem diversa, ele foi adotado pela primeira
vez na Constituição da Áustria de 1920. Esse controle é exercido por um órgão ou
por um número específico de órgãos criados com fim de realizá-lo ou que tenha
como função principal o mesmo. Este modelo de controle de constitucionalidade é
típico dos tribunais constitucionais europeus- sistema austríaco. (BARROSO, 2012,
p. 47) Ele, em regra, é acionado por autoridades políticas, pois é um processo
objetivo que se discute apenas a validade da lei frente à Constituição- o interesse é
da ordem constitucional. Tal regra é a mesma, não importando se o controle é
preventivo ou repressivo. (FAVOREU, 2004, p. 34)
Alguns países europeus chegaram a adotar o controle difuso, como, por
exemplo, a Itália e a Alemanha, mas esses países têm tradição civil law, então não
há o princípio do stare decisis típico de common law. Então, a adoção da forma
norte-americana levou a consequência de uma mesma lei não ser aplicada por ser
julgada inconstitucional, enquanto outros juízes aplicavam-na por entenderem ser
constitucional. Ou mesmo o próprio órgão judiciário não a aplicava e,
posteriormente, entendia por sua aplicação. A tomada de posições muito diversas,
em razão inclusive da composição dos órgãos, uns formados por juízes mais novos
e que tendem declarar mais a inconstitucionalidade, enquanto os mais antigos por
seu conservadorismo e formação legalista tendem a julgar válidas as normas, gera o
risco de conflito entre os órgãos e incertezas jurídicas, o que é prejudicial tanto para
os indivíduos, a coletividade quanto para o próprio Estado. (CAPPELLETTI, 1999, p.
77-78)
As origens desses controles determinaram muitas diferenças entre eles. O
Difuso, como já dito, originou-se no sistema americano. Nos países que seguem o
sistema do common law há a figura da stare decisis que, em suma, determina que
“os julgados de um tribunal superior vinculam todos os órgãos judiciais inferiores no
âmbito da mesma jurisdição” (BARROSO, 2012, p. 47). Assim, a declaração de
inconstitucionalidade prolatada em um caso concreto produz efeitos, na prática, erga
omnes, ou seja, submetem os demais órgãos judiciais de hierarquia inferior ou igual
à tese declarada. Desta forma, a lei declara inconstitucional não poderá ser aplicada
em outra situação.
Apesar desse efeito prático, a característica do controle difuso é a
verificação da constitucionalidade em um problema casual e no âmbito subjetivo das
partes, tendo efeito de coisa julgada no caso em discussão. (HIGHTON, 2016, p.
110). Os efeitos do controle difuso limitam-se, na teoria, as partes do processo.
Contudo, na prática, chega-se a ter um efeito erga omnes, pois o princípio do stare
decisis tende a estender os efeitos da decisão ao vincular os tribunais inferiores a
mesma. (ZAMORA, 2007, p. 5) Contudo, esse efeito deve-se a existência do stare
decisis, pois no caso do Brasil há uma discussão acerca do efeito da decisão
prolatada no controle difuso, predominando “o entendimento que a decisão faz coisa
julgada entre as partes e com relação restrita ao caso concreto apresentado em
juízo, não vinculando outras decisões” (FERREIRA, 2016, p. 101)
Todavia, há autores, como Gilmar Mendes, que defende que houve uma
mutação constitucional, sendo que a Resolução do Senado Federal serve para dar
publicidade à decisão, concedendo-lhe eficácia erga omnes. (FERREIRA, 2016, p.
101) Ultrapassada essa polêmica e retomando as ideias nascedouras, deve-se
ressaltar que é um erro tratar o sistema concentrado e difuso como formas
totalmente opostas, porque apesar de existirem diferenças conceituais, na realidade
existe uma aproximação dos seus efeitos na prática, assim como no tratamento
jurisprudencial constitucional. (HIGHTON, 2016, p. 107)
Na prática é inevitável interpretar correlacionando com a Constituição,
sempre os juízes farão um primeiro exame baseando-se nela. Se a lei mostrar-se
contrária à Constituição o juiz declara a sua inconstitucionalidade no controle difuso,
ou suscita o Tribunal Constitucional no controle concentrado. Além disso, várias são
as interpretações possíveis, podendo o juiz optar por aplicar a que for
constitucionalmente adequada, vez que no controle concentrado é vedado ao juiz
ordinário a anulação ou a não aplicação da lei, em razão de sua
inconstitucionalidade, por ser de competência exclusiva do Tribunal Constitucional.
(HIGHTON, 2016, p. 151)
O controle concentrado teve origem em países europeus em que inexistia a
figura da stare decisis e havia a “magistratura de carreira para a composição dos
tribunais” (BARROSO, 2012, p. 47). Era um sistema alternativo ao americano,
baseado nas ideias de Hans Kelsen. Com isso, criaram-se órgãos específicos com a
competência para realizar o controle de constitucionalidade- os tribunais
constitucionais.
Na perspectiva dos juristas e legisladores europeus, o juízo de constitucionalidade acerca de uma lei não tinha natureza de função judicial, operando o juiz constitucional como legislador negativo, por ter o poder de retirar uma norma do sistema. [...] o tribunal constitucional não deveria ser composto por juízes de carreira, mas por pessoas com perfil mais próximo ao de homens de Estado. (BARROSO, 2012, p. 48)