2 ORGANIZAÇÕES, A TOMADA DE DECISÃO E O PROCESSO
2.3 Tomada de Decisão
2.3.1 Modelos de tomada de decisão
O ser humano, ao desempenhar qualquer papel na sociedade ou nas organizações, instintivamente age de acordo com modelos construídos ao longo de sua vida, baseado em suas experiências e vivências. Estes modelos normalmente são utilizados para determinar suas escolhas pessoais, atitudes e a seleção das ações conscientes ou inconscientes, na realização de uma determinada tarefa (PEREIRA; LOBLER; SIMONETTO, 2010).
Os modelos organizacionais que envolvem a tomada de decisões são importantes para o entendimento de suas características principais e de quais destas características poderão se adaptar a uma possível resolução de problema. Encontram-se na literatura diversos modelos de tomada de decisão, destacando-se como os mais utilizados o Modelo Racional de Decisão (Clássico ou Burocrático) e o de Racionalidade Limitada ou Carnegie.
• Modelo Racional de Decisão
Este modelo é também referenciado como Modelo Decisório Racional da Economia Clássica. Ele é considerado o primeiro modelo, caracterizando-se pela elevação dos objetivos da organização como um todo, sendo consideradas as alternativas para atingi-los. Ele baseia-se num raciocínio técnico, no qual o tomador de decisão está alicerçado na lógica e na objetividade para a resolução de problemas (PRÈVE; MORITZ; PEREIRA, 2010). Desta forma, o decisor examina primeiro os fins e somente depois estuda os meios para alcançá-los, subordinando a eficácia deste processo à escolha da decisão mais adequada aos fins.
É muito criticado por firmar-se na suposição econômica e acreditar que o tomador de decisões possui toda a informação necessária para resolver o problema. As etapas desse modelo seriam: Identificar e definir o problema;
5 Entende-se modelo de tomada de decisão como uma representação institucionalizada do conceito e da prática de tomada de decisão, um referencial teórico, enquanto estilo de tomada de decisão refere-se à prática individual, do decisor.
Identificar as possíveis soluções; Selecionar e aplicar a solução escolhida. Esse modelo,
[...] cria uma imagem do tomador de decisões como uma supermáquina calculadora, mas sabemos que os seres humanos reais não tomam as suas decisões dessa forma. Em vez disso, eles tendem a usar o que Herbert Simon chama de ‘racionalidade limitada’ e regras empíricas chamadas de heurísticas, e deixam que as tendências influenciem suas decisões (STONER; FREEMAN, 1999, p. 190).
• Modelo da Racionalidade Limitada ou de Carnegie
Neste modelo adota-se o critério de que não é possível conhecer todas as possibilidades para a tomada de decisão, seja por falta de recursos, informações e análise das mesmas. Ele refere-se à tese de Herbert Simon, na qual a racionalidade é baseada no tomador de decisões e não existe uma racionalidade superior. O autor ainda reforça que as organizações são um sistema de decisões, onde o indivíduo compõe o processo de tomada de decisões.
O modelo da “racionalidade limitada”, também conhecido “modelo Carnegie”, pressupõe que é impossível fisicamente ao indivíduo acessar e processar todas as informações possíveis, além de destacar o elevado custo que envolveria esse processo. Neles, a impossibilidade está na capacidade limitada do processo cognitivo do ser humano, bem como na impossibilidade do cérebro em processar estas informações. Motta e Vasconcelos (2006) ainda destacam que o ser humano é concebido de modo mais modesto e realista: não é considerado o ser onisciente e racional do modelo econômico clássico.
Percebe-se que esse modelo contradiz o modelo Decisório Racional da Economia Clássica já que este se baseia em uma racionalidade absoluta. Ainda segundo Simon (1979), o modelo é considerado descritivo, o que significa que os gestores realmente tomam decisões em situações complexas, em vez de ditar como eles deveriam tomar decisões de acordo com uma determinada teoria ideal. Assim, esse modelo reconhece as limitações humanas e ambientais (Racionalidade Limitada) que afetam o grau em que os gestores podem adotar um processo racional de tomada de decisão (Decisão Satisfatória).
• Modelo Incrementalista
Esse modelo foi criado por Lindblom e Quinn, em 1959, e considera que não há somente uma decisão correta, mas, sim, várias outras possíveis que por meio de testes e análises podem se tornar a melhor decisão até alcançar o resultado esperado. Caracteriza-se ainda pela praticidade, demonstrando que o racionalismo é limitado e que é necessário focar nas informações essenciais para a resolução de problemas.
De acordo como Moritz e Pereira (2006, p. 71) “ele é apenas um incremento para a correção da decisão anterior, segundo os objetivos pré- definidos”. Os mesmos autores afirmam ainda que existem situações que inviabilizam as soluções incrementais, destacando: a insatisfação com as políticas adotadas, a descontinuidade da natureza dos problemas e a descontinuidade dos meios existentes para lidar com eles.
• Modelo da Lata de Lixo
Este modelo é também conhecido como Modelo da Decisão por Omissão, caracterizando-se pela tomada de decisões em que as soluções pensadas não são criteriosamente analisadas. Foi criado por Cohen, March e Olsen (1972) e, segundo os autores, é utilizado em ambientes ambíguos, reconhecidos como “anarquias organizadas” e são caracterizadas por três propriedades gerais (COHEN; MARCH; OLSEN, 1972, p.1):
Preferências problemáticas – Na organização, é difícil imputar um conjunto de preferências para a situação decisão que satisfaça os requisitos de consistência padrão para a escolha de uma teoria. A organização opera na base de uma variedade de preferências inconsistentes e mal definidas.
Engenharia obscura – Embora a organização consiga sobreviver e até mesmo produzir, seus próprios processos não são compreendidos por seus membros. Ela opera com base em procedimentos simples de tentativa e erro, aprendendo com os acidentes de experiências do passado, e invenções pragmáticas de necessidade.
Participação fluida – Os participantes variam na quantidade de tempo e esforço que dedicam a diferentes domínios; o envolvimento varia de um tempo para outro. Como resultado, os limites da organização são incertos e mutáveis; o público e os tomadores de decisão para qualquer tipo particular de escolha mudam caprichosamente.
Ainda segundo Cohen, March e Olsen (1972) estas propriedades de anarquia organizada foram frequentemente identificadas em estudos de organizações, sendo particularmente visíveis em organizações públicas e educacionais. Ribeiro (2013) entende que a decisão ocorre a partir das seguintes relações:
Escolhas procurando problemas; Problemas procurando escolhas;
Soluções procurando por problemas para responder; Decisores procurando por alguma coisa para decidir. Ela ainda ressalta que,
Na lata de lixo estão os problemas disponíveis, sendo que as pessoas vão à lata de lixo procurar problemas para serem resolvidos. Percebe-se, neste modelo, uma fragmentação da ótica e estratégia global da organização numa série de escolhas parciais, separadas no plano temporal, com subsistemas obedecendo a diferentes calendários (RIBEIRO, 2013, p. 36).
• Modelo Comportamentalista
Este modelo é caracterizado pela tomada de decisão mais adequada e baseada no comportamento dos indivíduos dentro das organizações, cabendo aos gestores à prevenção do impacto de suas decisões sobre estes indivíduos, evitando conflitos com os mesmos. Nele, as informações não são totalmente corretas e sim limitadas; algumas alternativas são desconhecidas e o tomador de decisões deve escolher a alternativa mais aceitável, aproximando-o do modelo Racionalidade Limitada.
Nesse modelo o indivíduo é tratado como uma entidade administrativa, capaz de decidir em todas as áreas da organização, proporcionando ações ou comportamentos diferenciados. Ressalta-se, ainda, que o comportamento dos indivíduos na organização é muito acentuado e abrangente, por isso, como já citado, os gestores procuram prevê-lo em suas decisões, evitando situações desagradáveis em seu contexto organizacional, afinal de contas este modelo baseia-se na Teoria Comportamental e esta concebe a organização como um sistema constante de decisões.
Ressaltando que decidir significa escolher, verifica-se que se não há alternativas não há escolha e que, caso exista apenas uma alternativa, o indivíduo pode decidir por não adotá-la. Como já relatado nesta tese, para Simon (1979), o ato de decidir é essencialmente uma ação humana, que envolve a seleção, consciente ou inconsciente, de determinadas ações entre aquelas que são fisicamente possíveis para o agente e para aquelas pessoas sobre as quais ele exerce influência e autoridade.
É possível perceber a existência de uma relação entre os vários modelos apresentados e o contexto em que a decisão é tomada. Pereira e Fonseca (2009) reforçam que este contexto, tratado pelos autores como “pano de fundo” das decisões, são compostos pelos fatores existentes fora do eixo de atenção do decisor e são importantes por darem sentido aos acontecimentos que envolvem esta tomada de decisão. Desta forma, segundo Prève, Moritz e Pereira (2010, p. 88) “independentemente dos atores e dos modelos, os processos de tomada de decisão são em grande parte determinados pelas características e pelo contexto da organização em que ocorrem”.