2 ORGANIZAÇÕES, A TOMADA DE DECISÃO E O PROCESSO
2.3 Tomada de Decisão
2.3.2 Racionalidade Limitada
Os estudos acerca do cérebro humano e sua atividade cognitiva normalmente preocupam-se em identificar como ele processa e aplica as informações recebidas durante o processo decisório. Pereira, Lobler e Simonetto (2010) afirmam que os psicólogos cognitivistas do processamento da informação geralmente analisam a maneira como os indivíduos solucionam tarefas mentais difíceis e como estes constroem modelos para essas explicações. Dedicando-se ao tema, Herbert Simon (1979) configura-se como
uma figura de destaque, sobretudo, quanto ao processo decisório e à solução de problemas relacionados à estrutura e funcionamento das organizações. Para o autor (1979) a decisão é muito mais importante do que as ações executivas subsequentes.
O referido autor sugere que o julgamento individual fica restrito à racionalidade do ser humano e que para um melhor entendimento do processo de decisão deve-se explicar os processos de decisões reais e não normativos (“o que deve ser feito”). Bazerman (2004) reforça este ponto de vista afirmando que há teorias de processo decisório que não refletem a realidade executada nas organizações, justamente por estarem fundamentadas no modelo racional de tomada de decisão, que segundo ele (2004, p. 06), “é baseado em um conjunto de premissas que determinam como uma decisão deve ser tomada (normativa) e não como a decisão é tomada”.
Assim, na busca pelo conhecimento da ação racional desenvolvida pelo tomador da decisão no processo decisório, admite-se que Simon (1979), ao defender a teoria da racionalidade limitada, acreditava nas limitações inerentes ao indivíduo, devido à sua reduzida capacidade cognitiva de adquirir e processar as informações necessárias à decisão sobre qual a opção ideal na solução de um problema. Desta forma, como já destacado anteriormente, o autor contrapôs um dos fundamentos da economia clássica: a racionalidade “ilimitada” ou absoluta, própria do agente econômico, segundo os preceitos do modelo clássico da economia.
As percepções de Simon (1979) dirigem-se à forma e ao quanto às limitações do pensamento humano afetam o funcionamento das organizações, contradizendo a visão dos economistas neoclássicos que consideravam os seres humanos como tomadores de decisões totalmente racionais. O avanço de suas pesquisas conduziram Simon e outros estudiosos à investigação do funcionamento do cérebro humano e de sua capacidade cognitiva. Os resultados alcançados e o entendimento da influência dos elementos sociais sobre o tomador da decisão (indivíduo) culminaram com a teoria da racionalidade limitada defendida por ele e seus seguidores nas décadas de 1940 e 1950.
A partir desta teoria e considerando os estudos de Simon, Balestrin (2002) afirmou que:
Atualmente um dos importantes objetivos da pesquisa científica básica é entender como a mente humana, com ou sem a utilização do computador, soluciona problemas e toma decisões. A psicologia, economia, estatística, matemática, pesquisa operacional, ciência política, ciência administrativa, inteligência artificial e ciência cognitiva, tiveram importantes ganhos em pesquisa, principalmente nesse último século, por buscar compreender como o ser humano resolve problema e toma decisões. (BALESTRIN, 2002, p.8).
Simon (1979) fundamenta e defende a sua teoria na capacidade limitada do processo cognitivo do ser humano que, segundo ele, decide de forma limitada simplesmente devido à impossibilidade física de processar todas as informações necessárias para uma decisão “ótima”. Inúmeros estudos e pesquisas acadêmicas procuram entender como e sob quais circunstâncias os indivíduos e mais especificamente os gestores agem no processo de tomada de decisão, bem como qual a atuação do fator humano nesse processo. Notadamente, Herbert Simon motivado em desvendar como e sob quais influências trabalha a mente humana no processo da tomada de decisão, avançou seus estudos por diversas áreas do conhecimento. Em análise destas contribuições, Balestrin (2002) destacou:
Em 1947 com a publicação da obra Admininistrative Behavior Simon promove a teoria do comportamento administrativo. Suas ideias marcam um novo período na ciência social, cujo foco de atenção recai sobre a preocupação com o comportamento humano no processo de tomada de decisão e resolução de problemas organizacionais. Sua teoria faz uma forte crítica a alguns dos princípios basilares da economia neoclássica e da administração clássica (BALESTRIN, 2002, p.3).
Em seu livro Imagens da Organização, Gareth Morgan (2007), defendeu que o funcionamento de uma organização depende do processamento de informações e que o cérebro é um sistema de processamento de informações. Ainda sobre a tomada de decisão, Morgan reabre a discussão afirmando que as organizações nunca podem ser perfeitamente admitidas como racionais, porque os seus membros têm habilidades limitadas de processamento de informações. O autor também considera as organizações como sistemas de informações, comparando-o ao sistema de comunicação, sendo também estas organizações “sistemas de tomada de decisões” (MORGAN, 2007, p. 85) e que, para tanto, necessitam processar bem essas informações.
Motta e Vasconcelos (2006) consideram os mecanismos cognitivos e sociais da tomada de decisão como objeto de reflexão empírica, entendendo
que eles permitiram o desenvolvimento do modelo da racionalidade limitada proposto por Herbert Simon. Para aqueles autores, Simon conceitua a racionalidade como sempre relativa ao sujeito que decide, contrapondo a racionalidade absoluta subjacente à economia clássica, à medida que esse modelo econômico confere aos tomadores de decisão a possibilidade de aperfeiçoar suas decisões a partir do conhecimento de todas as opções disponíveis.
O modelo da racionalidade absoluta é criticado por Motta e Vasconcelos (2006) para eles, esse modelo ignora a ambiguidade e a incerteza típica dos processos decisórios nas organizações e por que,
[...] a economia clássica baseia-se em uma concepção absoluta de racionalidade, no sentido de que pressupõe, por parte do tomador de decisões, um conhecimento absoluto de todas as opções disponíveis de ação (MOTTA; VASCONCELOS, 2006, p.96, 97).
Sobral e Peci (2008) destacam que a utilização do modelo racional de decisão permite que a decisão ideal seja tomada, independente de quem é o sujeito que está à frente do processo, ou seja, há um delineamento de como as decisões deveriam ser tomadas, caracterizando-o como um modelo normativo. Na busca por respostas sobre o processo da tomada de decisão, diversos teóricos organizacionais concentraram suas pesquisas no indivíduo tomador da decisão. Desta forma, os elementos emocionais, cognitivos, aliados aos valores nos quais esse indivíduo acredita foram (e ainda são!) objeto de constante investigação no meio científico.
Embora a estrutura restringida pela racionalidade considere que os indivíduos tentam tomar decisões racionais, ela reconhece que muitas vezes falta aos tomadores de decisões informações importantes referentes à resolução do problema, aos critérios relevantes e assim por diante. (BAZERMAN, 2004 p. 6).
Balestrin (2002) registra o argumento de Simon, no qual este afirma que as pessoas devem considerar os tomadores de decisão com habilidades limitadas para a avaliação de todas as alternativas possíveis de uma decisão, assim como lidar com as consequências incertas de qualquer decisão tomada. Em seu texto, Pereira, Lobler e Simonetto (2010) destacaram a partir do trabalho de Simon três aspectos do comportamento real do indivíduo limitantes da racionalidade objetiva, indicando que apenas uma fração de todas as
alternativas possíveis é levada em consideração. São eles (PEREIRA; LOBLER; SIMONETTO, 2010, p. 264):
1. A racionalidade requer um conhecimento completo e antecipado das consequências resultantes de cada opção. Na prática, porém, o conhecimento das consequências é sempre fragmentário;
2. Considerando que essas consequências pertencem ao futuro, a imaginação deve suprir a falta de experiência em atribuir-lhes valores, embora estes só possam ser antecipados de maneira imperfeita;
3. A racionalidade pressupõe uma opção entre todos os possíveis comportamentos alternativos.
Considerando a existência de outras influências que atuam sobre o tomador da decisão estes autores destacaram: a) os interesses políticos e sociais, b) fatores psicológicos e emocionais, e c) pressões afetivas e motivações diversas. Quanto às limitações do processo cognitivo, os elementos emocionais podem influenciar a decisão de um indivíduo ou grupo de indivíduos, ainda que as alternativas sejam contrárias às informações das quais dispõem no momento. Motta e Vasconcelos (2006, p.98) ressaltam que estas limitações “são os aspectos subjetivos, relacionados às experiências anteriores dos tomadores de decisão e às suas crenças”.
Para Caravantes, Panno e Kloeckner (2005), os gestores não possuem a informação completa da situação, bem como todas as alternativas possíveis, limitando-se a tomar a melhor decisão possível. Uma vez que os indivíduos baseiam suas escolhas em pressupostos que permeiam sua visão de mundo, percebe-se a dificuldade em prever as consequências desta. Outro ingrediente que maximiza esta dificuldade é que
[...] a complexidade da situação, as restrições de tempo e de recursos e uma capacidade de processamento de informação limitada restringem a racionalidade do tomador de decisão (SOBRAL; PECI, 2013, p.109).
Segundo Robbins (2005), estas restrições motivam o decisor a buscar as soluções que satisfaçam apenas a necessidade principal, tornando o processo de tomada de decisão mais simplificado. Destaca-se ainda a
existência de enormes limitações na capacidade decisorial de um indivíduo, uma vez que essa ação está sujeita a diversas condições para a tomada de decisão, como por exemplo, o ambiente, o contexto e as relações que implicam no objeto da decisão.