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Parte I À Guisá de um Referencial Teórico

Capítulo 1 Arrendamento e Parceria: uma revisão das principais teorias

1.6 Modelos Screening, Arrendamento e Parceria

Grosso modo, os modelos screening visam mostrar que, frente aos problemas de incentivo e informação incompleta, os agentes podem fazer uma “sondagem” a fim de procurar elementos que, em certa medida, revelem características não facilmente observáveis. Hallagan (1978)

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constatou que além da incerteza exógena de Newbery e Stiglitz (1979), o modelo screening pode explicar a ocorrência do contrato de parceria.

O autor parte da idéia que uma extensão útil para o modelo competitivo de informação completa é reconhecer, explicitamente, que os empregadores geralmente não têm informação perfeita relativa às habilidades produtivas de um candidato individual na hora de contratar. Ou melhor, o empregador terá que esperar até se completar o processo de produção para tirar qualquer conclusão sobre a habilidade de um trabalhador individual. Até mesmo esta conclusão pode requerer custos de monitoramento altos, especialmente nos casos em que a produção é o resultado de um tempo de esforço. Portanto, as variações na produção não podem ser atribuídas somente a variações nas habilidades produtivas de um trabalhador particular.

Para elaborar o seu modelo, Hallagan (1978) citou o exemplo do mercado de carros usados de Akerlof (1970). Este mostrou como os compradores observam variáveis proxy do tipo qualidade dos pneus, quilometragem e capuz, para segregar os carros em bons e ruins. Analogamente, o autor sugeriu que os empregadores confiem no nível educacional dos trabalhadores para segregar o mercado de trabalho de acordo com as capacidades produtivas. Spence (1973) examinou em maior detalhe as condições sob as quais a educação pode servir como uma variável útil para os empregadores predizerem as capacidades produtivas dos candidatos a um emprego.

A fim de analisar essa situação no setor agrícola, Hallagan (1978) considerou que um proprietário de terras procura um ofertante de “unidades” de decisão empresarial (chamado E). Todos os ofertantes são desconhecidos, e o proprietário não pode distinguir entre um ofertante com muitas unidades de E e um com nenhuma. A aplicação de E não pode ser continuamente monitorada, uma vez que não se conhece o efeito de E no rendimento da colheita até uma data posterior, quando a colheita é completa. Até mesmo depois que a colheita terminar, será difícil para o proprietário determinar se uma colheita ruim foi resultado de uma quebra de contrato pelo ofertante de E ou foi por causa de variações nos componentes fortuitos da função de produção.

Se unidades de E fossem trocadas em um mercado de preço transparente, e se os custos de monitorar a aplicação de E (custo de execução do contrato) não existissem, então nenhum ofertante de E teria um incentivo para honrar o contrato. Ofertantes com dons positivos de unidades de E desviariam a outras atividades (talvez para a sua própria terra).

Quando existe uma estrutura imperfeita, informação assimétrica, a escolha de contratos agrícolas pode servir como um mecanismo barato para transferir informação da habilidade de um trabalhador individual de E para o proprietário de terras desinformado. Por exemplo, observam- se, freqüentemente, a coexistência de contratos renda e salário na organização do trabalho agrícola. A diferença nos dois contratos é que debaixo de um contrato salário, o proprietário paga o trabalhador por serviços de trabalho; ao passo que em um contrato renda, o trabalhador paga o proprietário pelo acesso à terra.

Para efeitos analíticos, Hallagan (1978) supõe que uma “unidade” de fazenda é uma unidade de terra em combinação com uma unidade de trabalho. Produção por unidade de fazenda é:    = = = 1 150 0 100 E se E se Q

onde E é uma variável dicotômica que indica a presença (E = 1) ou ausência (E = 0) da habilidade para tomar decisões relativas a tarefas específicas como plantação, irrigação, cultivo e colheita. Em seguida, o autor considerou um hipotético proprietário de terras inicialmente dotado com duas unidades de terra, nenhuma unidade de trabalho, e uma unidade de E. Dois tipos de trabalhadores estão disponíveis. Os trabalhadores tipo 1 possuem só uma unidade de trabalho. Os trabalhadores tipo 2 possuem inicialmente uma unidade de trabalho e uma unidade de E. As unidades de tempo de trabalho podem ser facilmente monitoradas, mas as unidades de E não podem. O proprietário sabe que existem dois tipos de trabalhadores, mas quando em confronto com um trabalhador particular, não sabe determinar se o trabalhador possui ou não uma unidade de E.

Se o proprietário de terras só oferecesse contrato salário, os trabalhadores receberiam a taxa salarial w apesar de sua habilidade inicial. Sob um contrato salário o trabalhador não tem nenhum incentivo para aplicar E, e se a aplicação de E envolve um custo de oportunidade positivo ao trabalhador, então nenhuma unidade de E futura será de trabalhadores quando o proprietário de terras confia exclusivamente em contratos salário. Apenas debaixo de um regime de contratos salário será distribuído o rendimento de tal forma que cada trabalhador, se é um trabalhador tipo 1 ou tipo 2, recebe a taxa salarial contratual w. O rendimento do proprietário de terras será 150 na fazenda onde aplica a sua própria unidade de E e 100 na outra fazenda. Custos em cada fazenda serão w, assim o seu rendimento será Y = 250 - 2w.

O sistema anterior de um único contrato salário não constituiria um equilíbrio contratual se o proprietário de terras soubesse que dois tipos de trabalhadores existiam. Se contratos são fáceis para escrever (por exemplo, o proprietário de terras tem uma grande oferta de contratos padronizados), então o proprietário tem incentivo para oferecer dois contratos para separar o tipo 2 de trabalhadores habilitados do tipo 1 de trabalhadores não habilitados. Por exemplo, supõe que o proprietário ofereça um contrato de trabalho assalariado e um de renda. Renda (R) esta que garantiria ao trabalhador tipo 2 um prêmio z sobre o salário se ele aplicasse a sua unidade de E na produção da terra arrendada.

w + z = 150 – R R = 150 – (w + z)

O trabalhador tipo 2 assinará o contrato renda desde que o prêmio seja positivo (z > 0). O proprietário de terras oferecerá um contrato renda em sua unidade da terra se o prêmio é menor que a aplicação do valor de uma unidade de E na terra arrendada (z < 50). Quando da escolha de qual contrato assinar, o trabalhador tipo 1 maximizará renda se assinar o contrato salário e o proprietário não oferecer um contrato renda com um prêmio (salário) maior que 50.

Conforme consta na figura 1.1, o rendimento do salário WW não varia com E. A renda do trabalhador sob um contrato renda (YR) depende de quanto se aplica de E à unidade de fazenda: YR = 100 + F(E) – Renda. RR representa a função YR. No momento da escolha desses dois contratos, trabalhadores com menos que E* unidades de habilidade empresarial maximizará rendimento assinando contratos salário, enquanto os trabalhadores com habilidade maior que E* assinará contratos renda. Assim, trabalhadores não habilitados tipo 1 vão sinalizar contratos salário (desde W > R a E = 0), e trabalhadores completamente habilitados tipo 2 assinarão contratos renda (desde Y1 > W a E = 1,0).

Figura 1.1 – Seleção de contratos de trabalho assalariado e renda fixa Fonte: Hallagan (1978).

Hallagan (1978) advertiu que na realidade a coexistência de contratos de trabalho assalariado e renda não é redundante devido à informação imperfeita; o sistema de contratos de trabalho assalariado e renda apresenta a função econômica de transmitir informação pelo mercado de vendedores informados (os trabalhadores) para compradores ignorantes (os proprietários de terras). Além disso, os resultados do modelo screening coincidem com os resultados empíricos, ou seja, os arrendatários renda fixa têm rendimento mais alto que os trabalhadores assalariados. Explica-se o diferencial de rendimento por diferenças nas habilidades empresariais iniciais (conforme a teoria da "escada de ascensão social agrícola” de Knight-Rao) ao invés de pagar prêmios aos locatários (arrendatários) de forma a induzí-los a agüentar uma porção maior dos riscos da produção.

No caso dos contratos de parceria, o modelo screening requer a introdução de um terceiro tipo de trabalhador, um que está inicialmente dotado com mais unidades de E que o trabalhador assalariado, mas com menos unidades de E que o arrendatário renda fixa. Suponha que existem três tipos de trabalhadores. Todos são inicialmente dotados de uma unidade de tempo de trabalho e nenhuma unidade de terra. Trabalhadores tipo 1 são dotados de unidades de E, trabalhadores tipo 2 têm meia unidade de E, e trabalhadores tipo 3 têm uma unidade completa de E. Assume-se

que o proprietário de terras sabe que os três tipos de trabalhadores existem, mas não pode determinar a dotação inicial de E para qualquer trabalhador particular. Novamente, é possível o proprietário monitorar facilmente a aplicação de tempo de trabalho, mas é bastante caro monitorar a aplicação de E.

A figura 1.2 mostra que, se um terceiro contrato fosse oferecido com uma estrutura de incentivos diferente da existente dos contratos salário e renda, então a livre seleção segregaria um tipo de trabalho para cada contrato. SS representa trabalhadores renda sob um contrato

sharecropping (YS), no qual o trabalhador recebe um percentual r da produção total:

YS = r[100 + F(E)]

Existe uma série que contém uma taxa salarial, uma taxa correspondente ao percentual da produção total (sharing), e um valor da renda tal que a maximização de rendimento segregará os trabalhadores por livre seleção com só um tipo de trabalhador para assinar cada contrato. A figura 1.3 ilustra uma série de contratos onde WW é um rendimento do trabalhador sob um contrato salário, SS representa o rendimento do trabalhador sob um contrato de parceria, e RR representa o rendimento do trabalhador sob um contrato renda fixa.

Figura 1.2 – Seleção de contratos de trabalho assalariado, parceria e renda fixa Fonte: Hallagan (1978).

Frente à escolha do rendimento associado com contratos de trabalho assalariado, parceria e renda fixa, os trabalhadores com dotações iniciais menores que E (tipo 1) maximizarão rendimento se assinarem o contrato salário. Trabalhadores com dotações iniciais entre E1 e E2

(tipo 2) assinarão o contrato de parceria, enquanto os trabalhadores com dotações iniciais maiores que E2 (tipo 3) assinarão o contrato renda fixa.

Um sistema de contratos de trabalho assalariado, parceria e renda fixa não só pode operar como um mecanismo screening, mas também, pode unir tipos diferentes de proprietários de terras com tipos diferentes de trabalhadores. Proprietários com dotações iniciais altas de E vão maximizar seu rendimento se oferecerem contrato de trabalho assalariado para atrair trabalhadores tipo 1 não dotados. Semelhantemente, proprietários sem dons iniciais de E maximizarão o seu rendimento se oferecerem contratos renda fixa para atrair os trabalhadores tipo 3 completamente dotados. Os proprietários de terras com dotação parcial e trabalhadores que dividem E e, também o lucro residual, que surge da aplicação em comum de E, assinarão contratos de parceria.

De acordo com o modelo screening de Hallagan (1978), livre seleção via escolha contratual operará de modo que locatários (arrendatários) serão os trabalhadores que têm dotações iniciais mais altas de habilidade empresarial que os trabalhadores (sharecroppers). A diferença nos rendimentos se deve pela diferença dos seus dons iniciais. Os proprietários de terras sob contratos renda fixa têm rendimentos mais baixos do que proprietários sob parceria, o que se pode explicar também pelo processo de livre seleção. Proprietários de terras com baixas dotações iniciais de E oferecerão contratos renda fixa sob o qual o trabalhador provê toda capacidade empresarial e recebe todos os lucros residuais. Proprietários de terras que usam a parceria terão rendimentos mais altos do que proprietários de terras sob contratos renda fixa porque compartilham a oferta de E. Seus rendimentos incluem o valor da renda da terra e a sua parte dos lucros residuais. No modelo screening, as diferenças na distribuição da produção debaixo dos três contratos refletem as diferenças na oferta de habilidade empresarial em lugar de diferenças nas preferências para suportar o risco.

Um sistema de contratos de trabalho assalariado, parceria e renda fixa pode servir para separar os trabalhadores por tipo de contrato e atender às necessidades dos proprietários de terras para discriminar os dons dos trabalhadores. A transmissão de informação entre os trabalhadores e proprietários pode acontecer até mesmo por escolha contratual na ausência de sinais particulares

cujos custos estão associados à produtividade futura do produto. Na realidade, os contratos de parceria e renda fixa, pelas suas estruturas de incentivo, oferecem uma solução para o problema de seleção adversa. Sob esses contratos, a compensação paga pelos serviços empresariais dos trabalhadores é determinada em uma data posterior quando se colhe o produto. De certo modo, os contratos de parceria e renda fixa aproximam os contratos contingentes onde a compensação é específica como uma função da quantidade de serviços empresariais que a oferta é ex post. Em um mundo onde os custos de monitorar e determinar a oferta de habilidade empresarial nos contratos são altos, um sistema de contratos de trabalho assalariado, parceria e renda fixa podem servir as duas funções relativas à screening, quais sejam, escolha contratual e redução dos custos de execução e monitoramento (Hallagan, 1978).

Allen (1985) focalizou o motivo de o proprietário usar o dispositivo de livre seleção. No seu modelo o proprietário usa a livre seleção dos trabalhadores como um mecanismo efetivo para “sondar” os trabalhadores por habilidade e, simultaneamente, prevenir a falta de arrendatário, uma possibilidade que não foi vista em outros modelos. Enquanto os autores anteriores consideraram a coexistência de posses diferentes como um dispositivo para revelar os trabalhadores de acordo com as suas habilidades, Murrell (1983) indicou a possibilidade de os proprietários, também, usá-lo para sinalizar a qualidade da sua terra a arrendatários previdentes.

O modelo screening como uma explicação da existência de sistemas de posse diferentes parece ser pelo menos economicamente uma possibilidade bastante remota em muitos países menos desenvolvidos. Os contratos de arrendamento e parceria acontecem especialmente entre indivíduos que têm substancial conhecimento sobre as habilidades um do outro. Além disso, as características, até mesmo se inicialmente desconhecidas, revelam-se ao proprietário e produtor depois do primeiro contrato. Desta maneira, a suposição da não observância das características como uma razão para a coexistência de arranjos de posse diferentes parece questionável (Taslim, 1992).