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CAPÍTULO 3 PERFORMATIVIDADE E IDENTIDADE

3.4 Modernidade instável: o efeito desencaixe

Realizar uma pesquisa sobre a identidade de determinado grupo não é tarefa fácil. O conceito de desencaixe analisado por Maurício Domingues (2005, p.39) pode nos ajudar a compreender a questão. O conceito se fundamenta na rearticulação do

7Coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), órgão do

tempo e do espaço na modernidade, em que a produção de um tipo de tempo abstrato e sua ―desconexão do espaço proporcionaram novas formas de relacionamento social‖. Segundo o autor, nas sociedades pré-modernas espaço e lugar coincidem de tal maneira que a vida social estava marcada por interações face a face. Os conceitos de ―fichas simbólicas‖ e ―sistemas de peritos‖, como formulados por Antony Giddens (2002), evidenciam esse rompimento da época moderna com as anteriores; no primeiro, o representante máximo é o dinheiro, que coloca o tempo- espaço entre parênteses, ao ―juntar instantaneidade e adiamento, presença e ausência‖. No segundo, o sistema de peritos, que se caracteriza pela divisão do conhecimento, a confiança passa a ser parte constitutiva da eficácia do sistema. Portando, os dois – ―fichas simbólicas‖ e ―sistema de peritos‖ – constituem mecanismos de desencaixe, porque ―removem as relações sociais da imediaticidade de seus contextos‖ (GIDDENS, 2002). A noção de confiança é central, segundo Giddens, para se entender a modernidade que é uma cultura de risco, em que a erosão dos hábitos e costumes ganha dinamismo.

Em circunstâncias de incerteza e variedade de escolha, as noções de confiança e de risco têm uma aplicação especial. A confiança, na minha argumentação, é um fenômeno genérico crucial para o desenvolvimento da personalidade, assumindo uma relevância distinta e específica num mundo de mecanismos de descontextualização e de sistemas abstractos. Nas suas manifestações genéricas, a confiança está directamente ligada à obtenção, nos primeiros tempos, de um sentimento de segurança ontológica. A confiança estabelecida entre uma criança e os seus encarregados de educação fornece uma "inoculação" que afasta as potenciais ameaças e perigos que até as actividades mais mundanas da vida quotidiana contêm. A confiança, neste sentido, é fundamental para a criação de um "casulo protector" que vigia e guarda o self nas suas interacções com a realidade quotidiana, pondo "entre parênteses" ocorrências potenciais que, a serem seriamente contempladas pelo indivíduo, paralisariam a vontade ou produziriam sentimentos de sufoco. Na sua forma mais específica, a confiança é um meio de interacção com os sistemas abstractos que tanto esvaziam a vida quotidiana do seu conteúdo tradicional como estabelecem influências globalizadoras. Neste caso, a confiança gera aquele "salto para a fé" que os compromissos práticos exigem. (GIDDENS, 1997, p. 3)

A modernidade, portanto, funda-se num sistema de confiança sem o qual os sistemas abstratos ruiriam. Domingues (2000) aponta que os fundamentos desses

processos de desencaixe encontram-se em Marx, o primeiro a analisar de forma crítica a questão, com suas noções de trabalho em geral, de valor de troca, de dinheiro, enfim, o ―fetichismo da mercadoria‖, em que a relação entre as pessoas se passa por relações entre coisas. Portanto, uma ilusão, pois a essa aparência subjaz uma rígida legalidade do processo econômico que domina; pela primeira vez na história, toda a sociedade consagra a seus membros um destino comum (DOMINGUES, 2000).

Segundo Domingues (2000), falar de desencaixe na modernidade é possível, porque é na modernidade que ele se radicaliza, visto que nas épocas anteriores já existiam guerras e migrações, mas os indivíduos voltavam ao que eram antes e tinham suas identidades preservadas. Com a modernidade, a mudança na ideia de tempo e espaço reestrutura os reencaixes de tal forma que, por exemplo, os camponeses expulsos do campo não vão encontrar nas cidades um ―porto seguro‖ – seus reencaixes dar-se-ão de outra forma. ―Esses novos sujeitos são detentores de direitos civis e políticos, estes últimos foram universalizados somente ao longo do tempo‖ (DOMINGUES, 2000, p. 50).

As diversas faces do indivíduo abstrato leva ao que Domingues chama de abstrações reais, ―embora se trate de abstrações, não deixam de ser reais, posto que presidem a tessitura da consciência dos sujeitos e organizam as instituições sociais‖. Provavelmente essas abstrações reais são constantemente reforçadas pela ideologia do individualismo, visto que o Estado e as instituições tratam o cidadão formalmente como indivíduo. Mas as coisas não são tão simples, não se dão de forma linear nos reordenamentos sociais, existem resistências e lutas, entre elas, a luta pelo e no reencaixe. Devido a isso e ao ritmo acelerado do capitalismo, que derruba sem parar barreiras após barreiras, os desencaixes se dão também na mesma velocidade, por isso essa busca constante por novas identidades, e o constante tema da ―crise de identidade‖. É dessa maneira, segundo Domingues (2000), que a modernidade põe ―a reflexividade individual e coletiva a trabalhar de forma muito mais acentuada‖ (p. 51). Dessa forma, a questão da identidade está colocada na ―ordem do dia‖ das sociedades modernas. No nosso caso, em que pretendemos analisar a identidade dos diretores escolares, podemos nos balizar nas constantes mudanças no sistema educacional, que ocorrem, provavelmente, por causa das mudanças mais globais ou estruturais.

Para Giddens (1997), a reflexibilidade é a circunstância em que as práticas sociais são constantemente verificadas e atualizadas, de acordo com as informações reconstruídas sobre essas práticas. Essa reflexibilidade associa-se à ―Sociedade de Risco‖: é pela capacidade reflexiva de indivíduos e instituições que se tem consciência de que os processos tecnológicos desenvolvidos na modernidade transportam riscos cada vez mais globais. Se na sociedade disciplinar a tônica é a normalização, na sociedade de risco a tônica é a escolha.

A complexidade de tal análise encontra-se no perigo de colocar o mundo do trabalho em segundo plano ou, talvez, em campo equivalente à construção de identidades, a partir de outras referências tais como sexualidade, gênero, ecologia e ―raça‖. Os efeitos de desencaixe e reencaixe giram principalmente em torno do mundo do trabalho; a busca por empregabilidade, trabalho informal, desemprego, insegurança e grande pressão no local de trabalho são as expressões mais concretas da instabilidade que os trabalhadores estão vivendo.

Dessa forma, é possível especular se os diretores escolares, como aqueles que ocupam o vértice superior no espaço da escola, contribuem para as mudanças na política pública para a educação e começam a se perceber dentro de uma nova identidade, colocando-se num quadro de consentimento ou de insegurança. Antunes (1999), ao analisar a colaboração dos trabalhadores para a implantação do toyotismo no chão das fábricas, vai dizer que eles colaboram porque sentem-se recuados diante do desemprego e por isso criam uma subjetividade cada vez mais inautêntica. Nossa hipótese é que as identidades dos diretores escolares tornam-se inautênticas, na medida em que aumentam as exigências de performatividade, ou, para usar um conceito de Erving Goffman (1998), à proporção que essas identidades estão sendo deterioradas.