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PRÁTICAS E PADRONIZAÇÃO DE PROCESSOS

8.3. MODOS DE MUDAR

As teorias sociais, desde as tradições que emanam de Marx, Weber, Adam Smith e David Ricardo privilegiam tipicamente as formulações do tempo. No geral, elas supõem a existência de uma ordem espacial preexistente, na qual operam processos temporais, ou ainda, a redução destas barreiras até tornar o espaço num aspecto contingente, em vez de fundamental, da ação humana. A teoria estética, por sua vez preocupa-se muito com a espacialização do tempo.

O conceito de modernidade a partir da idéia de tempo e eternidade é retomado, em 1920, na teoria estética de Walter Benjamin (2000), ao construir o conceito de “tempo-presente”, depósito de um tempo acabado, com a ajuda do tema da mímesis, facilmente

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A experiência do tempo e do espaço envolve um novo movimento “(...) de “compressão do espaço-tempo” no mundo capitalista – os horizontes temporais da tomada de decisões privada e pública se

estreitaram, enquanto a comunicação via satélite e a queda dos custos de transporte possibilitaram cada vez mais a difusão imediata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variegado.”. (HARVEY, 2000:141).

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COPPE–UFRJ - Rio de Janeiro - RJ – Brasil - www.sage.coppe.ufrj.br pressentido nos fenômenos da moda. Benjamin retoma a teoria estética a partir de três importantes pensadores do século XVIII: Charles Baudelaire, Immanuel Hermann Fitche e Friedrich Schelegel.

A partir de 1985, Jürgen Habermas (2000), Zygmunt Bauman (1999) e David Harvey (2003) retomam o tema do modernismo como ponto de partida para a compreensão da modernidade. Tendo Walter Benjamin como fonte comum, estes autores percebem a história do modernismo como movimento estético, e alinhados, têm ainda como referência para suas investigações o artigo seminal Sobre a Modernidade89, eles ressaltam a passagem:

“a Modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente; é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável”. (BAUDELAIRE 2007:26).

O foco da teoria social sempre foi os processos de mudança social, de modernização técnica, social e política. O progresso é seu objetivo teórico e o tempo histórico, sua dimensão primária. A teoria estética, por outro lado, procura as regras que permitam a veiculação de verdades eternas e imutáveis, em meio ao turbilhão do fluxo e da mudança. Há muito que aprender com a teoria estética, sobre o modo como diferentes formas de espacialização inibem ou facilitam processos de mudança organizacional. Inversamente, há muito a aprender com a teoria social, acerca do fluxo e da mudança com as quais a teoria estética tem de se haver. Contrastando essas duas correntes de pensamento, talvez se possa melhor compreender os modos pelos quais a organização muda. No entanto não se pode cair nas armadilhas do esteticismo.

Um decisor ou um analista de processos comunica certos valores por meio da construção de uma forma espacial. De fato, todo modelo ou sistema de representação é uma espécie de espacialização, que congela automática e momentaneamente o fluxo da experiência e, ao fazê-lo, destrói o que se esforça para representar. Processos de negócio não são apenas tentativas de dominação do espaço, lutando e moldando uma organização e seu local de trabalho a partir do espaço. É também a grande defesa contra a perda da temporalidade.

Esse dano é uma perda paralela de profundidade. Enfatiza a superficialidade de boa parte da produção de bens e de seus processos, quer sejam produtivos ou de suporte, quanto a sua fixação nas aparências e nos impactos imediatos que, com o tempo, não têm poder de sustentação. As seqüências médias, medianas e principalmente de moda desses processos têm exatamente essa

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COPPE–UFRJ - Rio de Janeiro - RJ – Brasil - www.sage.coppe.ufrj.br característica: roupas, celulares, restaurantes, entretenimento etc.São produzidos baseados em falsas imagens de diversificação, ou de produção em massa customizada, consumidos e descartados num ritmo alucinante.

O fato é que o sentido de redução do controle, da perda da autonomia individual e de uma impotência generalizada nunca foi tão instantaneamente reconhecível no interior da organização.

O colapso dos horizontes temporais e a preocupação com a instantaneidade decorrem, em parte, da ênfase contemporânea no consumo associado ao uso de novas tecnologias e da sua divulgação pela mídia. Assim, o efeito é reenfatizar e até celebrar as qualidades transitórias da vida moderna. Os pontos de contato entre produtores e o público em geral são a arquitetura, a propaganda, a moda, os filmes, a promoção de eventos multimídia e de espetáculos, as campanhas institucionais e a onipresente televisão. Porém, nem sempre é claro quem está influenciando quem: produtores ou público.

Há um processo de concessão da cultura à estética televisiva, posta antes como uma questão de necessidade do que de escolha, que institucionaliza o que se pode chamar de massa cultural: originariamente opostos aos mercados de elite, a mobilização da moda e da cultura em mercados de massa, com o auxilio da televisão, passou por um processo mimético, de um consumismo inicialmente de cópia, isto é de produtos copiados dos originalmente consumidos pela elite, de qualidade e preços inferiores.

A televisão é, ela mesma, um produto do capitalismo avançado e, como tal, tem de ser vista na promoção de uma cultura do consumismo. Isto é, ocorreu um movimento de atendimento de necessidades não satisfeitas e de desejos reprimidos, em forma de mercadorias e de produção de desejos, criando-se assim uma nova estética enraizada na vida cotidiana.

Desse modo, não é fácil elaborar uma avaliação crítica da situação presente da gestão organizacional e de seus processos produtivos e de suporte. Os termos do debate, da descrição e da representação são com freqüência tão circunscritos, que parece não haver como escapar de interpretações que não sejam auto-referenciais. Na cultura atual, estranha-se o ponto até o qual a mera procura de lucros é, em primeira instância, determinante, ou seja, o consumismo serializado e repetitivo dissimula e ofusca a maximização do lucro.

O modelo econômico atual, construído de forma hightech, exibe imagens políticas, econômicas e sociais e quer reduzir o poder da classe trabalhadora e mascarar os efeitos sociais de uma política econômica de privilégios. Assim, para o modelo torna-se necessário

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COPPE–UFRJ - Rio de Janeiro - RJ – Brasil - www.sage.coppe.ufrj.br e evidente o uso de uma retórica que justifique a falta de moradias, o desemprego e o empobrecimento crescente, apelando a valores supostamente tradicionais de autoconfiança e capacidade de empreender e saudando a passagem da ética para a estética como sistema de valores dominante.

Num uso equivocado da teoria estética, ou seja, do esteticismo, surge o que se pode chamar de um modelo estético de gestão. Dominar ou intervir ativamente na manipulação do gosto e da opinião das pessoas no ambiente de trabalho, seja criando líderes da moda ou saturando a organização com imagens que adaptem a mudança a fins empresariais, é o objetivo declarado deste modelo de gestão.

A gestão estética induz ao aceite de reificações e partições; celebra a atividade de mascaramento, de simulação e os fetichismos de localidade, de lugar ou de grupo social, enquanto nega o tipo de arcabouço teórico capaz de apreender os processos político-econômicos (fluxos de dinheiro, divisões internacionais do trabalho, mercados financeiros, etc.), que estão se tornando cada vez mais universalizantes em sua profundidade, intensidade, alcance e poder sobre a vida cotidiana.

Este modelo veda o reconhecimento da voz e o acesso do quadro de pessoal a fontes de informação, circunscrevendo-as num gueto de alteridade opaca, da especificidade de um ou outro jogo de propaganda. A retórica do modelo estético de gestão é perigosa, já que evita o enfrentamento da realidade, das resistências e circunstâncias da mudança. Com efeito, ela se volta para a manipulação dos desejos e gostos, mediante imagens que podem ter ou não relação com a mudança. Isto é, ao substituir a ética pela estética, a tendência é suprimir a crítica e abolir quaisquer oposições internas e sufocar a resistência das pessoas às mudanças.