Rascunho 63 - Sobre escrever
3 TRAVESSIAS DE UM PESQUISAR MIGRANTE
3.2 Transbordamentos no sensível
Admitir o atrevimento. Este foi o caminho para que as travessias se originassem em busca de um exercício sensível. Posto em movimento conforme sugere Latour (2008), a efetuação de uma aprendizagem através de um corpo afetado por uma infinidade de outros sob naturezas diversas se deu de modo a me trazer para o presente laboratório de escrita. Uma vez expostas as passagens pelos eventos, as questões a mim apresentadas originaram misturas que aqui revelo, represento e descubro para um conhecimento científico não isento de sensibilidade.
Embora não seja um graduado ou pós-graduado das letras, não sou também um prisioneiro das titulações ou das formas embrutecidas. Leitor sensível desde a infância, vi nesta pesquisa a possibilidade de conversão dos moldes científicos rígidos em poesia, considerando que “arte e ciência são perfeitamente amalgamáveis quando se tem espírito criativo, inovador e arrojado” (WAGNER, et al., 2007, p. 3). Tal espírito, convém registrar, parte também e fundamentalmente das encarnações práticas que as disciplinas em que me
matriculei no PPGPS mostraram como caminho não apenas para a criatividade, mas também para a sensibilidade que rompe com modelos frios e restritos.
Na aproximação de acontecimentos e diálogos próprios de um estudo empírico, o caminho de pluralização, desvio e torção da prática de pesquisador suscitou aspectos emotivos que, uma vez reconhecidos, traçam aqui um outro viés comunicativo a respeito da migração.
Este traçado, por sua vez, tem muito de uma escrita pensada como um laboratório, conforme sugere Arendt (2016). Como conversões poéticas sim, mas não menos científicas, estão aqui partes de dados e passos do percurso empírico, considerando cada movimento como interessante e passível de cuidado na percepção e interpretação que originam uma escrita, bem como as muitas afetações que me fizeram estar nessa aposta.
Longe de reprodução, uma escrita que considere a importância de cada pessoa, fato, palavra ou evento que embasem o argumento de uma aproximação social no que constitui a pesquisa e o pesquisador. Em mútua e constante afetação, “o vínculo entre ciência e política, entre ciência e técnica, a importância das controvérsias e a ‘sinuosidade das ações coletivas’”
(Latour, 2014a, apud Arendt, 2016) estiveram presentes na reflexão que se dilui de maneira praticamente artesanal, o que em Latour (2014a) figura como um processo em que se vai metamorfoseando atividades “concretas” em atividades “abstratas”, transformando aos poucos cérebros ordinários em sábios.
Aprendendo a “manipular materiais frágeis cobertos de inscrições” (Arendt, 2016), uma outra composição pertinentemente sensível é parte do que vim pensando acerca da atividade científica. Sob leitura aquecida das muitas histórias em que estiveram meus olhos, um erro grave estaria sendo cometido ao compartimentar numa ciência fria todos os detalhes que fizeram aprender, pesquisar e escrever com os acontecimentos e as afetações. Sem qualquer tentativa de apropriação das histórias que em muito contribuíram para o estudo, um campo de muitas dimensões se alargava e mostrava caminhos próprios do que era lidar com diferentes línguas, culturas, sentimentos e posturas que variavam do rígido ao flexível em cada uma de suas instâncias.
Envernizar com uma determinada (e determinante) teoria as potentes aproximações dentro de um campo tão vasto, embora fosse um caminho possível, não estaria condizente com os muitos sentidos de uma pesquisa articulada em prol do social como a que eu estive envolvido. Daí a escolha de uma abordagem em que os protagonismos se evidenciassem e desarrumassem as obviedades de dados e recortes, em que os participantes trouxessem à tona suas escritas de vida que, de certa maneira, estão aqui reescritas ou reinterpretadas através do que venho nomeando de “rascunhos”.
A teoria não tem maior sentido se ela não desaparece inteiramente em outra forma de trabalhar a matéria dos dados, qualitativos ou quantitativos. Latour pondera que sempre preferiu os trabalhos que não falam de forma alguma de teoria, "mas que, por utilizar coisas que eu e meus colegas puderam escrever permitem ver o que, com certeza, não teria jamais aparecido sem a leitura de tais escritos" (Latour, 2014b, p.
307, apud Arendt 2016).
Uma vez que “o que é verdade no trabalho de aquisição de dados, o é ainda mais no trabalho da escritura” (Latour, 2014b, p.308, apud Arendt, 2016), textos em conformação com o que é passado no e com o campo trazem a equivalência de uma aprendizagem e formação neste lugar em que o fenômeno da migração fora tratado. Para além do PVPM, as vidas estão em circulação com uma infinidade de motivos e busca de sentidos que o escopo este trabalho não dá conta de alcançar. Entretanto, é nos limites deste recorte que se tenta compartilhar um estado de presença num campo que sempre teve muito a dizer entre humanos e não-humanos, no empenho por ser o mais justo possível com os dados coletados e as afetações em mim produzidas.
Ora, não se é jamais justo ao campo no primeiro lance. Não se faz mais do que aplicar o campo os pressupostos de saída, os clichês, ou pior, os princípios do método que se acredita dever tirar das "posturas teóricas" aprendidas no curso de
"metodologia". Graças ao argumento emprestado da epistemologia de que o pesquisador deve "construir seu objeto", todos as desorientações são de avanço justificadas. Daqui que os informantes, as descrições de campo, os documentos diversos, a experiência mesma da pesquisa, consigam se extrair destes magmas de pressupostos, o projeto de pesquisa alocado ter-se-á rapidamente esgotado. Daí, ainda, a importância de trabalhar em comum a massa comum da escritura" (Latour, 2014b, p. 310, apud Arendt, 2016).
A escrita, ao ser revista e reescrita, faz com que eu perceba diferentes moldes do que pretendia compartilhar dessa experiência. O ter de escrever tem sua pertinência sobretudo na comunicação do que se estuda e, recorrer aos dados, é transitar nas muitas possibilidades de comunicação e refinamento da pesquisa. Ater-se aos muitos vínculos que pressupõem a rede, faz do texto um dispositivo a mais do que se pretende aproximar, pleno de reavaliações que vão do vivido ao (d) escrito, já que “a escrita do pós-graduando será também a expressão das possibilidades abertas pela teoria” (Arendt, 2016). Aberto então, campo, teoria, rastros, relatos e travessias tomam aqui o seu devido lugar.
Assim, o que se apresenta é a interpretação dos afetos percebidos e trazidos a arena performativa gerada na interlocução de narrativas e realidades gentilmente compartilhadas por sujeitos migrantes de todos os cantos e refugiados na cidade do Rio de Janeiro. Traduz-se aqui o que se efetuou em campo e propõe-se acesso aos deslocamentos não só das vidas em questão, mas das atuações que a própria pesquisa desafia entre conexões e produções motivadas por actantes dos mais diversos. Reunido a eles, me considerei inscrito de tantas
observações enquanto me movia, sem querer achar um mapa, mas mapeando a pertinência dos
No vínculo com o mundo e com o campo no qual me inseri como pesquisador, o dito e o não dito apreendidos no sensível encontro com o outro foram insumos de vital importância.
Vital sim, por fazer, afinal de contas, referência às vidas e existências indispensáveis ao estudo, além de considerar o meu próprio cormo na efetuação de uma nova aprendizagem. No entanto, o que definia o encontro e a sensibilidade sempre fora o aprender com, e não sobre, já que no outro se possibilitou reconhecer um social fora das rédeas e domínios, fugindo das obviedades que em muito soterram fatos e histórias.
E a partir dessa possibilidade, a vida e a pesquisa foram lidas como laboratórios nas experiências e aproximações que muito revelaram um novo modo de estar, perceber e comunicar, em suas mais variadas formas. O que tomava corpo ou compunha voz, surpreendentemente refinava a escuta dos acontecimentos e admitidamente desconcertava em algumas partilhas. Desde a força por reagir ao desacato à vida até a coragem de chegar onde desconhecia, cada migrante em sua gentil participação fez pensar que o viver é uma escrita em trânsito, ora em alarde, ora sutil, mas com muito a dizer.
Há uma indicação generalizada, embora ainda só definida de forma vaga, de uma camuflada a interiorização e o filtro do não compartilhado, a perspectiva de uma aproximação sem a predominância de narrativas foi parte não apenas de um compromisso ético, mas também do entendimento do tempo de cada um. Ainda que não fosse simples, a leitura de sutilezas me fizera pensar em como escrever, bem como no modo de se fazer esta pesquisa.
Clarice Lispector, citada pela Professora Laura Cristina de Toledo Quadros na disciplina “Clínica Contemporânea e Teoria Ator-Rede”, despertou um outro olhar para os vínculos e fatos que se teceram. Um não domínio possível do que atravessa as práticas de pesquisa e despertam para uma psicologia como prática de vida, se reflete no jogo de palavras que se incorpora na escrita. Encarnada tanto a prática quando o que dela se origina.
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente. (LISPECTOR, 1980, p. 21; 1984, p.
120).
Justo entre distrações, riscos e percepções, o esforço por dar uma outra legitimidade na condição mais criativa do que normativa inspirou a elementos dentro da própria ação, fazendo de mim não apenas um pesquisador, como também um autor-artesão no contorno das histórias que se deram a partir dos encontros que se fizeram e levaram a fazer algo que fosse além da mensuração de dados e estatísticas, do que seria “mais” científico ou diretivo. Todos os acompanhamentos descritos auxiliaram à construção de formas e recursos de expressão, tirando consequências do que me foi ensinado na aproximação de migrantes que ajustaram o meu olhar e conduziram a esta opção de comunicação de pesquisa.
Por meio das práticas instauradas e um outro olhar e escuta, uma posterior ou concomitante escrita tem o poético legitimado como algo da intervenção, entendendo as afetações decorrentes e os refinamentos que se dão além das regras e limitações que certos moldes impõem e possibilitam que os mesmos sejam postos em xeque quando o laboratório da própria escrita nem sempre se circunscreve num espaço tradicional. Traz-se aqui, portanto, uma sensibilidade dada na artesania escritural, distante dos dispositivos de produção cientificista, mas próxima e guiada nos migrantes, corpos e actantes que estiveram diante de um pesquisador que, migrando entre rastros e protagonismos, pôde assim ter noção do acontecimento dentro do próprio acontecimento que foi a pesquisa em si.