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2. A VIDA ESPIRITUAL (1928-1932)

2.3. Morte e metamorfose

No período compreendido entre 1928 e 1932, embora tenha havido um propósito comum de fomentar o tomismo, não são os ensaios filosóficos, políticos pedagógicos, pastorais os textos que mais chamam a atenção na revista A Ordem. Tampouco foram os poemas. O gênero mais abundante no periódico nesses primeiros anos que sucederam sua

refundação foram os necrológios.240 Essa abundância de homenagens

239

Jacques Derrida, em Force de Loi, demonstra em um ensaio de filosofia política como a indecidibilidade é um pressuposto a qualquer decisão (jurídica, ética, política), haja vista que se não houvesse essa pressuposição de uma pura indeterminação, não haveria decisão propriamente dita, senão apenas subsunção ou automatismo. “O indecidível permanece preso, alojado, ao menos como um fantasma, mas um fantasma essencial em qualquer decisão, em qualquer acontecimento de decisão.” DERRIDA, Jacques. Força de Lei: o fundamento

místico da autoridade. Tradução de Leyla Perrone-Moysés. São Paulo: Martins

Fontes, 2007, p. 48. 240

Chama a atenção o número de necrológios nos primeiros anos após a refundação da revista. São ao total 26 em 1929, 3 em 1930, 5 em 1931, 1 em 1932 e 1 em 1933.

fúnebres se deve em grande parte à morte de seu fundador, o que motivou o número de março de 1929 ser dedicado inteiramente a Jackson de Figueiredo, além de ter havido o lançamento de um livro de homenagens fúnebres pelo editorial do Centro Dom Vital no mesmo ano.241 No caso específico do número de março a maio de 1929 de A Ordem, o jovem Sergio Buarque de Hollanda demonstra certa característica pascaliana ao afirmar que a tensão espiritual de Jackson o

impediu de cair na anarquia242, ao passo que Graça Aranha, à época um

escritor já muito respeitado, também publicou sua homenagem ao líder católico: “Todos se livram do scepticismo para proclamar uma libertação dogmática. Jackson de Figueiredo foi destes affirmativos

modernos.”243

O próprio Graça Aranha figuraria entre os homenageados

quando de sua morte futuramente, em 1931.244

Até certo ponto, essa proliferação de necrológios pode ser compreendida por uma contextualização temporal, na medida em que foram escritos em uma época de grande sucesso das biografias no mercado editorial brasileiro. Em Monumentos em Tinta e Papel: cultura e política na produção Biográfica da Coleção Brasiliana (1935- 1940)245, Thiago Tolentino demonstra como a coleção de biografias de cunho pedagógico pela Editora Nacional na década trinta, teve um claro propósito de soerguer monumentos com a vida de homens notáveis, entre eles, Farias Brito, que foi biografado por Jonathas Serrano, um dos maiores contribuidores de A Ordem. Para Tolentino, nessa iniciativa, “o horizonte é o da biografia como monumento, símbolo de patriotismo e exemplo de conduta cívica. Daí as obras procurarem um valor coletivo

241

Trata-se da coletânea: In memoriam de Jackson de Figueiredo. Rio de Janeiro: Centro Dom Vital, 1929.

242

“Elle nos insinua, pelo menos, que sua attitude não deve ter sido a de um anesthesiado contra as vacillações espirituaes, contra o mal e contra a desordem. Ahi está, com certeza, o que lhe assegurou a possibilidade de pôr em constante

tensão os seus esforços para vencer a attracção da anarchia e superar o

conhecimento dissolvente.” HOLLANDA, Sergio Buarque de. Indicação. A

Ordem, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 264, mar.-mai. 1929.

243

ARANHA, Graça. Jackson de Figueiredo: sua modernidade. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 188-189, mar.-mai. 1929.

244

SCHMIDT, Augusto Frederico. Elogio a Graça Aranha. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 5, n. 12, p. 84-86, fev. 1931.

245

TOLENTINO, Thiago Lenine Tito. Monumentos em Tinta e Papel: cultura e

política na produção Biográfica da Coleção Brasiliana (1935-1940).

aos seus biografados, no sentido de configurarem na memória coletiva

como monumentos nacionais.”246

O espaço destinado às biografias pode ser mais bem delineado quando visto a partir de um periódico mais setorializado como A Ordem, de propósito católico declarado. Nesse sentido, não há tanto porque se falar na criação de monumentos nacionais, já que o editorial do periódico dedicou-se à memória de seus próprios membros. Uma marca maior da noção católica de biografia nesse periódico nos anos trinta é a tonalidade fúnebre que lhe é dada. Normalmente tratam-se de homenagens ao amigo falecido enaltecendo-o por suas melhores qualidades. Mas o discurso sobre os mortos não serve simplesmente como uma manifestação unilateral de luto, senão que muitas vezes evidencia uma relação muito intrínseca com a atividade dos vivos. Conforme Jean-Claude Bonnet, aliás, “o discurso sobre os mortos funda os vivos.”247

Neste caso, os necrológios, assim como os elogios acadêmicos, podem ser compreendidos como a fabricação de um lugar

de memória, no qual uma geração248 fabrica seu próprio passado.

É, portanto, viável compreender que a grande quantidade de necrológios faz parte de um processo de monumentalização da memória de parte da intelectualidade católica brasileira. O historiador Jacques Le Goff destaca que, na modernidade, especialmente entre as letras que mais se identificavam com a secularização e o racionalismo, culminando com o caso do positivismo no final do século XIX, estabeleceu-se uma separação exacerbada entre o monumento, entendido como uma construção dirigida da memória, e o documento, que teria valor por si

mesmo.249 No decorrer da história, o documento teria sido comumente

visto com certa desconfiança, podendo ser considerado autêntico ou inautêntico, relevante ou irrelevante, canônico ou vulgar. A partir da modernidade, diz o autor, a documentalidade passa a ganhar um valor inédito chegando, no início do século XX, a ser entendida como uma

246

TOLENTINO, Thiago Lenine Tito. Monumentos em Tinta e Papel: cultura e

política na produção Biográfica da Coleção Brasiliana (1935-1940).

Dissertação. Belo Horizonte, UFMG, 2009, p. 49. 247

BONNET, Jean-Claude. Les morts illustres: oraison funèbre, éloge academique, necrologe. In: NORA, Pierre. Les Lieux de Mémoire, t. 2. Paris: Gallimard, 1984, p. 217-241. Original: “Or tous discours sur les morts fonde les

vivants.”

248

Cf. ORTEGA Y GASSET, José. La idea de las generationes. In: Obras

Completas. Madri: Ed. Revista de Occidente, 1966.

249

Cf. LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: História e

manifestação imparcial da própria história. Para Le Goff, já não caberia ao historiador contemporâneo a ingênua compreensão de que os documentos falariam por si só alguma verdade histórica. Tampouco poderia o estudioso aceitar as representações históricas canônicas, como as histórias ufanistas dos grandes heróis, exemplos de monumentos. Ao contrário, todo documento é também um monumento e vice-versa. Isso implica dizer que os vestígios documentais que foram conservados (ou mesmo os que não foram) estão implicados em textualidades que também merecem ser estudadas a fim de serem possivelmente realocadas ou relativizadas convenientemente.

Ao se trazer essa problemática do documento-monumento analisada por Le Goff ao estudo dos necrológios presentes na revista A Ordem, percebe-se que existe um propósito explícito dos intelectuais católicos ao afirmarem sua relevância entre a intelectualidade brasileira mediante a construção de monumentos. O próprio Alceu era muito afeito a esses textos de memórias, cujos homenageados não se restringem ao próprio Jackson, valendo destacar o texto Adeus ao meu primeiro mestre, ainda de 1926, no qual afirma: “Era meu professor João Köpke. Aquêle que representava, para mim, o primeiro contato

com as coisas da inteligência.”250

Esse tipo de manifestação se repetirá posteriormente a quase todos os amigos falecidos do autor, que estarão reunidos em um volume inteiro dedicado a isso, intitulado Companheiros de Viagem251.

Esse apelo a uma figura misteriosa que postula uma filosofia ou uma estética sem teorização propriamente escrita a um número restrito de legatários e que anuncia um futuro ao adepto, em muito se assemelha ao que postula Sergio Miceli a respeito da maioria das vanguardas ou círculos de intelectuais da primeira metade do século XX no Brasil:

Se os intelectuais insistem tanto em descrever as circunstâncias em meio às quais se sentiram atraídos pelo trabalho simbólico, quase sempre evocando personagens (um parente, um professor de primeiras letras, um padre, um letrado amigo da família) que pela primeira vez lhes teriam profetizado um futuro como artistas ou escritores, dedicando páginas sem conta ao relato de suas

250

LIMA, Alceu Amoroso. Adeus à disponibilidade e outros adeuses. Rio de Janeiro: Agir, 1969, p. 48.

251

LIMA, Alceu Amoroso. Companheiros de Viagem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971.

experiências de iniciação cultural (na escola, na igreja, nas brincadeiras, etc.) como se tais “façanhas” fossem indícios daquilo que viriam a ser, é porque não conseguem ocultar de todo os rastros que possibilitam reconstruir as determinações propriamente sociais de sua existência.252

Os necrológios, portanto, foram o principal gênero por meio do qual a intelectualidade espiritualista brasileira católica construiu seus

monumentos, havendo neles um propósito evidente de autoafirmação.253

No entanto, em grande parte, por mais que o recurso a personalidades fundantes seja uma característica inafastável do que ocorreu entre o espiritualismo católico, não se pode dizer que essa característica seja um elemento diferencial dessa geração em relação a alguma outra que lhe fosse simultânea ou que essa peculiaridade a destacaria de todas as outras vanguardas das décadas de 1920 e 1930. Em Festa, por exemplo, a figura de Cruz e Souza e algumas outras cumprem muito bem uma função de fundadoras a exemplo do que se lê no ensaio O Symbolismo Brasileiro, de Tasso da Silveira.

O movimento symbolista, no Brasil, não foi um simples e passageiro reflexo do movimento symbolista europeu. Foi um novo estado de alma, estimulado, sem duvida, pelo exemplo da Europa, mas profundamente brasileiro. [...] E dentro desse ambiente é que se explica, não apenas a obra poetica de um Cruz e Souza, de um Emiliano, de um Silveira Netto, ou a prosa surpreendente de um Graça Aranha, mas tambem o pensamento

252

MICELI, Sergio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil. Rio de Janeiro: Difel, 1979, p. xxiii.

253

Os necrológios e homenagens de Alain Badiou a seus colegas falecidos não deixa de ser diferente, na medida em que justifica a reflexão a partir das mortes de Foucault, Deleuze, Lacan, Derrida, entre outros como um exercício de distinção do que se constitui a verdadeira filosofia. “En suma, convoco a mis

amigos, los filósofos ya desaparecidos, como testigos de cargo en el juicio que el Infinito entabla contra los falsificadores.” BADIOU, Alain. Pequeño Panteón Portátil: Althusser, Borreil, Canguilhem, Cavaillès, G. Châtelet, Deleuze, Derrida, Foucault, Hyppolite, Lacan, Lacoue-Labarthe, Lyotard, F. Proust, Sartre. Tradução de Mariana Saúl. Buenos Aires: Fondo de cultura

messianicamente combativo e constructor de Farias Brito, Alberto Torres, Euclydes da Cunha, Nestor Victor.254

Um dado um pouco menos evidente a ser pensado sobre a abundância de necrológios consiste em uma espiritualização da noção de vida. Em sua homenagem mortuária a Jackson de Figueiredo, em março de 1930, Alceu Amoroso Lima dá ênfase em um voo espiritual para a ocupação de um lugar etéreo naquilo que chama de Intelligencia brasileira, algo que seu amigo nunca conseguiu em vida, por esta não lhe ter sido suficiente.

Mas só a Synthese Catholica o salvou de tudo o que havia de errado e de incompleto nas attitudes anteriores [materialismo, ceticismo, espiritualismo]. Só Ella illuminou a sua vida de um reflexo novo, só ella permittio ao seu espirito o vôo largo que tomou, a acção que exerceu entre os seus contemporâneos, e a posição elevada que

occupa lá agora na corrente principal da Intelligencia brasileira.

Jackson de Figueiredo não teve vida bastante para passar da fase combativa do seu apostolado. E por isso muitos o consideram apenas um luctador, como elle aliás se considerava, seja dito por quem o conheceu bem de perto. Mas foi de facto bem mais do que isso.255

O necrológico escrito por Alceu afirma e reafirma um lugar ocupado por Jackson após sua morte que seria muito mais adequado do que aquele que o morto possuiu em vida. Portanto, subentende-se junto à construção da memória do líder uma concepção de pós-vida na inteligência ou, melhor dizendo, vida espiritual.

De certa maneira, todo documento é, pois, uma espiritualização da memória, uma disposição ou atuação sobre o passado com a

finalidade de perpetuação.256 Enquanto a verdade pensada sobre o

254

SILVEIRA, Tasso da. O symbolismo brasileiro. Festa: mensario de

pensamento e de arte, Rio de Janeiro, n. 1, p. 8, ago. 1927.

255

LIMA, Alceu Amoroso. Jackson de Figueiredo. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 348-349, mar.-mai. 1929.

256

Etimologicamente, conforme salienta Le Goff, “a palavra latina

documento (geralmente escrito) prioriza a objetividade de um lapso histórico, a verdade pensada como monumento desacredita a efemeridade da palavra escrita para procurar a verdade no valor espiritual, ou seja, transcendente à escrita, na promessa de dar-lhe efetividade ou sustentação. O documento tem sua objetividade relacionada com a sua própria materialidade. O monumento é um documento que tem a força da espiritualidade contra as forças enganosas

e anárquicas da escrita pura.257 Novamente, o espírito, mesmo sendo

inescrutável, é vivo ao passo que a letra, ainda que material, é a morte. Nos necrológios de A Ordem, a monumentalização da memória aliou-se à concepção de espírito tipicamente metafísica da teologia católica para formar um conceito de vida espiritual. Não por acaso até a inscrição em latim da lápide da tumba de Jackson de Figueiredo foi publicada na revista na tradução do Pe. Leonel Franca, na qual se lê:

“Entre a luz e a sombra / Dado às letras, passou à vida.”258

(Vitam inter lucem et umbram, / Literis deditus, transegit). Esse conceito de vida espiritual, ou seja, de uma vida que se opõe à materialidade e à arbitrariedade de sentido, oposto portanto à letra, foi recorrência nos necrológios, mas também é recorrente em outros gêneros textuais do mesmo periódico, como na poesia (fúnebre ou não), nos ensaios científicos sobre hierarquia espiritual e até na concepção de pedagogia espiritual, como será elencado adiante.

Mesmo ao se desconsiderar aqueles poemas que foram escritos como homenagens mortuárias a Jackson, é possível depreender da poesia que foi publicada em A Ordem uma recorrência contínua de oposição entre figurações de morte material e figurações de vida espiritual. Já em 1923, essa dicotomia fica evidente no poema O Castello Interior, de Durval de Moraes, entre a morte do gusano, ou seja, da larva, e da transfiguração do inseto em uma alma com asas.

Dos frios restos do gusano morto,

funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O verbo monere significa ‘fazer recordar’, de onde ‘avisar’, ‘iluminar’, ‘instruir’. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos.” LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: História e Memória. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2003, p. 526.

257

LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: História e Memória. Campinas, SP: Editora Unicamp, 1994.

258

PENA JUNIOR, Affonso. Hic requiescit... A Ordem, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 355-356, mar.-mai. 1929.

de nevoa e de luar uma forma surgira. Quanta belleza, meu Jesus!

tudo se cala pelo azul absorto. Emanação de flor, espirito de Lyra! Fez-se a glória do céu, a agonia de um horto Uma alma de asas esplandece à luz!259

O poema, a princípio pouco pretensioso pelo seu tema religioso e uma curiosa métrica híbrida, pouco comum em Durval de Moraes, figura a alegria na presença dos restos de um gusano, um verme ou uma lagarta, bem como a destruição que esse inseto causou a uma horta. A exaltação surge por indicar uma transformação, isto é, uma transubstanciação de uma mera larva em um ser resplandecente com asas, seja borboleta ou mariposa. Como em uma flor que se abre, essa emanação de névoa e de luar fez uma nova vida aérea, portanto, mais pura que a anterior mediante um abandono dos restos de um mundo da matéria. Essa simbologia da lagarta, que acusa a inseparabilidade entre vida e morte mediante uma caminhada para espaços mais sutis do que os caminhos anteriores, no entanto, deixa a dúvida acerca do destino do animal. Teria ele se interiorizado no casulo e, a partir daí, se transformado na borboleta? Ou então haveria morrido e se transformado em uma alma apartada, isto é, ocorrendo no caso uma metamorfose estritamente espiritual?

Não se trata, de tentar dar um sentido definitivo ao impasse e, vale frisar, tal ambiguidade tem sua maior potência mantendo-se em aberto à indecisão. No entanto, não se pode negar que, diante do destino lógico de metamorfose de uma vida morta em outra forma de vida, é possível que não tenha havido metamorfose propriamente dita. Ao final do ciclo, poderia não haver um par de asas animado, mas uma alma com asas, sugerindo que a morte da lagarta culminaria na impossibilidade de se metamorfosear em borboleta. Por isso a lagarta tenderia ao mergulho em seu próprio interior, numa metamorfose de cunho estritamente espiritual.

Curiosamente, a mesma simbologia retorna alguns anos mais tarde no primeiro número da revista Festa, em agosto de 1927, pelo poema Casulo de Cecília Meirelles, o qual, no entanto, sugere de maneira um pouco mais explícita a alternativa de uma metamorfose que não acontece.

259

MORAES, Durval de. O Castello Interior. A Ordem, Rio de Janeiro, ano 2, 2ª série, n. 6, p. 131, jan.-mar. 1923.

CASULO

À hora do teu destino Crearam-se os fios tenues Que te envolveram, Dentro dos quaes dormirias O teu sonho preparatorio, A Iniciação das azas

Para a sabedoria dos espaços... Hoje, romperam-se todos os casulos: E foi uma festividade, em torno... Mas tu, guardado no teu, Não te pudeste mover mais:

Não tinhas mais aquelle pequenino sopro, Invisivel,

Occulto,

Que anima todas as formas... Dize-me, insecto obscuro: Com que azas voaste De dentro de ti mesmo? Qual foi a tua Iniciação? Qual é tua sabedoria? 1926.260

Esse poema que praticamente abre a revista Festa novamente radicaliza na literatura brasileira dos anos vinte a indefinição sobre onde termina a vida e onde principia a morte, pois recorre ao mesmo impasse da lagarta morta de Durval de Morais de três anos antes. Como se pode notar, este inseto obscuro e já sem um sopro de vida voa para dentro de si mesmo, em uma forma de iniciação hermética para um mundo que já não seria o da matéria, mas de natureza espiritual e adversa ao tempo, esperançosa de eternidade. A metamorfose interrompida lega uma ruína: um exosqueleto na forma de casulo; mas Cecília Meirelles coloca um casulo diferente de todos os outros a seu lado, pois ele não eclode. Há, assim, uma transformação que já não é mais exterior, senão interior. Diante da metamorfose da vida pelo caminho material, haveria uma sobrevivência natural; já pela metamorfose que acontece apenas no

260

MEIRELLES, Cecilia. Festa: mensario de pensamento e de arte. Rio de Janeiro, n. 1, p. 3, set. 1927.

mergulho sobre si mesmo, ocorreria uma sobrevivência sobrenatural. Nesse último caso, depois da morte, a metamorfose não é da ordem da natureza, mas do rumo espiritual, que pode ter tanto um sentido diretamente religioso, como também o de criação de realidades abstratas, o que será investigado mais adiante.

É certamente muito evidente que essas recorrências à lagarta que se transforma estão relacionadas ao bicho da seda do Castillo Interior, de Santa Teresa D’Avila, a qual faz uso da descrição da metamorfose da lagarta para a mariposa com o fim de ilustrar o rumo da elevação espiritual do ser humano, chegando até ao encontro místico com Deus.

Morra, morra esse nosso verme — como o da seda, ao acabar de realizar a obra para a qual foi criado. Vereis então que como contemplaremos a Deus e nos acharemos tão envolvidos por sua grandeza como aquele bichinho por seu casulo. [...] Dele sai uma borboletinha branca. Semelhante coisa acontece, nesta oração, à alma inteiramente morta para o mundo.261

Ou seja, ainda que se insistisse nessa passagem como uma fabulação, da qual não se saberia se a metamorfose da borboleta seria uma figuração da morte ou da vida, é inegável que o sentido dado à borboleta ou mariposa equiparar-se-ia ao da alma, a qual, por ter morrido para o mundo, passaria por uma evolução eminentemente