2.3.1 Breve contexto e definição a respeito da Morte
Segundo Lima (2005), o conceito de morte eticamente mais aceito pelo público é a morte encefálica: parada irreversível do funcionamento do organismo como um todo, sendo o todo maior que a soma das partes. Ou seja, o paciente é diagnosticado morto quando, depois de uma série de testes, não é identificado nenhuma forma de atividade neurológica do cérebro ou tronco cerebral.
2.3.2 Breve histórico da morte: Como a morte é vista em algumas culturas.
Assim como o nascer, a morte faz parte do ciclo vital do ser humano.
Portanto, é algo extremamente natural do ponto de vista biológico. Entretanto, o ser humano caracteriza-se também, pelos aspectos simbólicos, ou seja, pelo significado ou pelos valores que imprime às coisas. Por isso, o significado da morte varia necessariamente no decorrer da história e entre as diferentes culturas humanas.
(COMBINATO e QUEIROZ, 2006).
Segundo Combinato e Queiroz (2006), a morte, em cada tempo e cultura exibe um significado atribuído a ela. No início, esse significado é externo ao indivíduo, pertencendo à cultura. Conforme esse significado é internalizado, transforma-se num instrumento subjetivo da relação do indivíduo consigo mesmo. E assim, o significado externo adquire um sentido pessoal para o indivíduo. Em outras palavras: os conteúdos externos presentes na realidade objetiva, têm significados construídos socialmente por outras gerações, outros homens.
Segundo Caputo (2008), no início da Idade Média a morte era "domesticada"
e "familiar", ou seja, existia uma intimidade com a morte, participando do cotidiano da sociedade, ela era encarada como algo natural. Logo depois, "o corpo do morto passa a se tornar insuportável", desse modo, os corpos começam a ser ocultados em caixões, para não serem mais visíveis aos olhos humanos.
Combinato e Queiroz (2006) afirmam que para o homem ocidental moderno, a morte passou a ser sinônimo de fracasso, impotência e vergonha. Tenta-se vencê-la a qualquer custo e, quando tal êxito não é atingido, evencê-la é escondida e negada.
Mas nem sempre foi assim. Durante muitos séculos, por toda a Idade Média, a morte era entendida com naturalidade, fazendo parte do ambiente doméstico.
No mundo medieval, a relação com o corpo era aberta, expansiva, indisciplinada, transbordante e preguiçosa, muito diferente da relação fechada, contida e individualizada do mundo burguês, que transformou o corpo humano em instrumento de produção e de trabalho. Nesta transformação, o que causa, hoje, repugnância e temor, causava, no mundo medieval, riso, intimidade e familiaridade.
(RODRIGUES, 1995).
Com o desenvolvimento das sociedades industriais e o desenvolvimento técnico e científico da medicina, a partir do século XIX, a visão da morte e a interação com o paciente moribundo modificaram-se ainda mais radicalmente. A revolução higienista radicalizou a separação entre vivos e mortos, de tal modo que o convívio entre estas duas condições passou a ser visto como uma fonte extremamente importante de perigo, contaminação e doença. (COMBINATO e QUEIROZ, 2006).
Com o desenvolvimento do capitalismo e advento da modernidade, a morte, que estava presente na sala de visita, desloca-se para o hospital e, em alguns casos, para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em um ambiente isolado, com janelas fechadas, luz artificial, temperatura constante mantida pelo ar condicionado e equipamentos técnicos, os profissionais da saúde realizam procedimentos altamente sofisticados com pacientes que se encontram em situações limite entre a vida e a morte (OLIVEIRA, 2002).
Em tal condição, o paciente é impedido de sentir e expressar suas emoções, destinado a um sofrimento solitário e discreto. Isso porque os profissionais que lidam cotidianamente com a morte não estão preparados para lidar com o indivíduo em sua plenitude enquanto ser humano dotado de emoções e valores. Baseada no paradigma positivista, a formação e atuação de profissionais na área da saúde tendem a lidar com a doença e a morte do ponto de vista estritamente técnico. Em outras palavras, o profissional da saúde é formado para curar a doença e não para lidar com a pessoa. (COMBINATO e QUEIROZ, 2006)
Através da atividade e das relações sociais que se estabelece com o meio, o indivíduo internaliza esses conteúdos e significados a partir de sua própria experiência e história de vida. Dessa maneira, o conteúdo que tinha um significado externo adquire um sentido pessoal, singular, único para cada pessoa.
(COMBINATO e QUEIROZ, 2006).
Após discorrer um pouco sobre o desenvolvimento e as diferentes visões sobre a morte, em algumas culturas, é possível verificar que as representações do homem diante da morte sofrem modificações importantes no tempo e no espaço.
O velório também deixa de ser realizado na casa da família, na qual antes o corpo ficava exposto e era visitado pelos entes queridos, pois cada vez menos é tolerado a presença do morto em casa, tanto em função de questões de higiene quanto por falta de condições psicológicas de vivenciar esta situação (CAPUTO, 2008, p. 6).
Fica claro que a morte, vista anteriormente como algo natural,
"familiarizada", passa a ser vista, atualmente, como algo medonho, distante da subjetividade humana, um "tabu".
Assunto que, para o homem, causa desconforto, ansiedade, temores.
Consequentemente o homem tenta fugir do seu futuro inevitável. Sem sucesso, pois a morte faz parte do ciclo de vida, é a unica certeza que temos. Desse modo o homem terá que encará-la, mais cedo ou mais tarde, enfrentando a morte dos entes queridos e por fim facear a própria morte.
2.3.3 Porque sentimos medo da morte.
Essa luta incansável do homem contra a morte, não evita que esta o atinja, porém impede que o homem crie meios de enfrentar e elaborar aquilo que é inevitável (CAPUTO, 2008).
Analisando o contexto histórico sobre a morte, e as várias interpretações dada a ela, percebe-se que de certa forma o temor da mesma está ligado com o contexto histórico e social. Mas uma explicação psicológica faz-nos compreender melhor.
Segundo ROSS (2011), em nosso inconsciente, não podemos conceber nossa própria morte, por isso acreditamos em nossa imortalidade. Entende-se desse modo, que não aceitamos nossa própria, pois para o inconsciente ela é inexistente, logo tememos o desconhecido.
Para Freud não há marca psíquica da morte de si mesmo no inconsciente, pois se morre apenas uma vez.
Enfim, apesar das várias explicações sobre a morte, das culturas diferentes, ainda assim, realmente não sabemos o que acontece após a morte. Isso a torna temida pelo ser humano, a morte é vista como nossa inimiga, algo desconhecido, oculto, associado a coisas ruins e a punição.
2.3.4 Pacientes oncológicos e profissionais da saúde
O foco do presente trabalho voltou-se para os profissionais de saúde ou pessoas envolvidas com pacientes oncológicos, mas para podermos compreender o porquê dos desafios e complicações do cuidador, temos que entender um pouco sobre o processo que passa o paciente moribundo.
A morte é fria, às vezes rápida e outras vezes lenta e angustiante. Mas é inevitável. A morte faz parte de todo o processo de vida. Para morrer, basta estar vivo. E pessoas que estão de alguma forma ligada a ela, também são contagiadas pelo processo e são mais vulneráveis a adoecer (ROSS, 2011).
Segundo Kovács (2010), nos séculos XXI a morte era vista como inimiga, oculta, vergonhosa, que fere a onipotência do homem moderno. A morte é algo temido, e é feito de tudo para que ela não aconteça. Interpretação esta que leva a um enfrentamento da morte como um processo árduo, exaustivo e doloroso.
Para Menezes (2004), se uma pessoa que está a morrer, sentir que deixou de ter significado para os outros, a solidão está configurada. Conseqüentemente, dependendo de como o moribundo enfrenta a morte começa uma batalha pessoal, sendo notável a quem está a sua volta, como por exemplo a auto-exclusão social.
Kovács (2010) descreve, ainda, que além dos sintomas físicos, estão os sintomas psicossociais: medo da solidão, do abandono, da interrupção dos planos de vida, da perda das pessoas próximas, da dependência e da morte.
O paciente passa por alguns estágios ao tomar conhecimento da fase terminal de sua doença. Definidos por Ross (2011), como: negação, isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação.
Primeiro estágio, negação e isolamento: a negação funciona como um para-choque depois de notícias inesperadas e chocantes, deixando que o paciente se recupere com o tempo, mobilizando outras medidas menos radicais. [...] a negação é uma defesa temporária, sendo logo substituída por uma aceitação parcial. Segundo estágio, a raiva: quando não é mais possível manter firme o primeiro estágio de negação, ele é substituído por sentimentos de raiva, de revolta, de inveja e de ressentimento [...]. Terceiro estágio, barganha: as maiorias das barganhas são feitas com Deus, são mantidas geralmente em segredo, ditas nas entrelinhas ou no confessionário capelão [...], Psicologicamente, as pessoas podem estar associadas a uma culpa recôndita. Quarto estágio, depressão: quando o paciente em fase terminal não pode mais negar sua doença, quando é forçado a submeter-se a mais uma cirurgia ou hospitalização, quando começa a apresentar novos sintomas e tornar-se mais debilitado e mais magro, não pode mais esconder a doença. [...] Quando a depressão é um
instrumento na preparação da perda iminente de todos os objetos amados, para facilitar o estado de aceitação, o encorajamento e a confiança não tem mais razão de ser. Quinto estágio, aceitação: um paciente que tiver tido tempo necessário e tiver recebido alguma ajuda para superar tudo conforme descrito anteriormente atingirá um estágio em que não mais sentirá depressão nem raiva quanto ao seu destino (ROSS, 2011, p.43-117).
No imaginário social, uma das enfermidades mais associadas à morte na contemporaneidade é o câncer. Em todas as regiões do mundo, mesmo nas que apresentam mais ostensivamente outros sérios problemas de saúde, o câncer revela seus efeitos devastadores (BORGES, 2006).
A pessoa portadora de uma doença crônica grave, como o câncer, coloca em xeque sua própria existência e atribui um significado para sua doença e seu tratamento. Muitas vezes, o câncer traz, inevitavelmente, a ideia do fim da vida e de todas as suas possibilidades. O medo se faz presente, seja pela sua própria morte ou a de um companheiro de tratamento. Esse fato é digno de reflexão, pois gera um intenso sofrimento. Pensar na morte nos faz pensar na própria vida e em como estamos vivendo. O paciente precisa ser ouvido e se sentir acolhido em seu sofrimento, para enfrentar o medo da própria morte, vitimizado pela terminalidade (BORGES, 2006).
O crescente desenvolvimento da medicina e dos hospitais provocou a transferência do lugar da morte para estas instituições. A invenção de procedimentos de alta tecnologia trouxe novas questões sobre vida e morte. Uma questão muito difícil para os médicos é decidir quais pacientes serão encaminhados para Unidades de Terapia Intensiva (UTI) com possibilidade de serem salvos, e quais não irão, com risco de morte (KOVÁCS, 2008).
O profissional da saúde ou cuidador que tem contato direto com o moribundo, tem que fazer escolhas nem sempre fáceis e possíveis de serem realizadas, que podem gerar na equipe de saúde um estresse adicional (KOVÁCS, 2010).
Apesar desses enormes avanços, existem aqueles pacientes cujas doenças se tornam refratárias ao tratamento. Nesse momento, ao lidar com esses pacientes, os objetivos mudam de medidas curativas para medidas apenas paliativas (SANTOS, 2000).
Quando se discute a dificuldade dos profissionais da saúde em lidar com o paciente terminal em sua integralidade, deve-se analisar essa dificuldade no seu
processo de construção, na sua historicidade e na sua essência, processo esse que vai além de uma experiência imediata e da história individual desse profissional.
O cuidador principal do moribundo ao enfrentar tantos aspectos do sofrimento alheio, pode estar sob o risco de um colapso, esquecendo assim, de sua própria vida, negligenciando seu próprio cuidado (KOVÁCS, 2010).
Ao se priorizar no hospital o salvar o paciente a qualquer custo, a ocorrência da morte ou de uma doença incurável, pode fazer com que o trabalho da equipe de saúde seja percebido como frustrante, sem motivação e significado. Esta percepção pode ser agravada quando procedimentos a serem realizados com pacientes fora de possibilidade de cura não são compartilhados com toda a equipe, fato apontado como uma das razões para o aumento do estresse (KOVÁCS, 2010, p. 5).
A morte em si não é um problema para o paciente, mas sim, o medo de morrer, que nasce do sentimento de desesperança, de desamparo e isolamento que o acompanha. Por isso, o profissional que está em contato com o paciente considerado terminal precisa estar em paz com a vida e com a morte, sabendo que a morte é parte da vida e que por isso precisa ser cuidada (BORGES, 2006).
Tendo em vista que o local da hospitalização, ou melhor dizendo, o ambiente onde se encontra o moribundo, familiares e profissionais, se torna um local carregado, no qual o estresse se faz presente. O fato de não conseguir evitar a morte ou aliviar o sofrimento, traz ao profissional a vivência de sua própria morte e finitude, tornando extremamente doloroso o processo do cuidado da morte do outro (KOVÁCS, 2010).
Portanto, profissionais, cuidadores e pacientes passam por experiências fortes e únicas. Todos com a certeza de que um dia enfrentarão a morte de alguma forma, primeiro a de um ente querido e, por fim, sua própria morte.