6.9 Quantificação e movimento
6.9.1 Movimento e escopo
A regra de alçamento de quantificadores move um DP quantificador para o topo da sentença, deixando em seu lugar de origem um vestígio. Vamos aplicá-la agora ao exemplo com dois DPs quantificadores que vimos anteriormente e que repeti- mos em (58):
6.9 Quantificação e movimento (58) Um parecerista (anônimo) revisará todo artigo (que for submetido a esta
revista).
O alvo de AQ será o DP todo artigo, o que resultará na estrutura abaixo (já assumindo a transferência de índice):
(59) S′′t DP′⟨et,t⟩ todo artigo S′⟨e,t⟩ 1 St DP⟨et,t⟩ um parecerista VP⟨e,t⟩ V⟨e,et⟩ revisará t1e
Nessa estrutura, foram anotados os tipos semânticos de todos os nós, de acordo com o previsto pelas entradas lexicais e as regras de aplicação funcional e abs- tração funcional. Note que não há incompatibilidades e que o nó raiz (S) é de tipo t, como deve ser. Vejamos, então, a interpretação que nosso sistema deriva para essa estrutura, procedendo de cima para baixo. Omitiremos alguns passos, deixando-os a cargo do leitor.
JS′′Kg=JDP′Kg(JS′Kg) (AF)
JDP′Kg= λF.∀x[artigo(x) → F′(x)]
JS′′Kg= 1 sse∀x[artigo(x) → JS′Kg(x) = 1]
Para o nó S′, usamos abstração funcional: JS′Kg = λz.JSKg[1→z]
Para evitar confusões nos processos de conversão-λ durante a derivação, usa- mos aqui a variável z, já que x e y aparecerão em outros momentos da derivação.
Trata-se, entretanto, da mesmíssima regra com a qual já estamos familiarizados. Para o nó S, voltamos a utilizar aplicação funcional:
JSKg[1→z] =JDPKg[1→z](JVPKg[1→z])
JDPKg[1→z]= λF.∃ y[parecerista(y) & F′(y)]
Por fim, para o nó VP, teremos, via aplicação funcional: JVPKg[1→z]=JVKg[1→z](Jt
1Kg[1→z])
JVKg[1→z]= λv.λw. revisará(w,v)
Jt1Kg[1→z]= g[1→ z](1) = z
Note o uso na representação da extensão de V das variáveis v e w, diferentes das já utilizadas mais acima. Aqui também o intuito é manter a clareza na exposição da derivação.
Tendo chegado à parte de baixo da estrutura, basta percorrermos o sentido in- verso, efetuando as devidas conversões:
JVPKg[1→z]= λw. revisará(w,z)
JSKg[1→z] = 1 sse∃y[parecerista(y) & revisará(y,z)]
JS′Kg = λz.∃y[parecerista(y) & revisará(y,z)]
JS′′Kg= 1 sse∀x[artigo(x) → ∃y[parecerista(y) & revisará(y,x)]]
O que as condições acima requerem é que todo artigo seja revisado por um pa- recerista, não necessariamente o mesmo. Isso corresponde exatamente à leitura que discutimos na seção anterior em que o DP todo artigo tem escopo sobre o DP um parecerista. De fato, se compararmos as condições de verdade acima com a representação que atribuímos a essa leitura anteriormente em (53), notaremos que elas são idênticas, exceto pelas escolhas das variáveis, o que é irrelevante.
Derivamos, assim, uma das interpretações de (58). Mas, e a outra, que afirma a existência de um certo parecerista que revisará todos os artigos em questão? Note que, na estrutura que gerou as condições de verdade que acabamos de de-
6.9 Quantificação e movimento rivar, o DP todo artigo aparece em uma posição hierarquicamente superior ao DP um parecerista, resultando na leitura em que o primeiro tem escopo sobre o segundo. Para obtermos a leitura em que um parecerista tem escopo sobre todo artigo, vamos aplicar AQ novamente, desta vez movendo o DP um parecerista por sobre o DP todo artigo. Isto resultará na seguinte estrutura:
S′′′′ DP um parecerista S′′′ 2 S′′ DP′ todo artigo S′ 1 S t2 VP V revisará t1
Vejamos, então, que condições de verdade nosso sistema deriva para essa estru- tura. Procure acompanhar atentamente cada passo da derivação:
JS′′′′Kg=JDPKg(JS′′′Kg) (AF)
JS′′′Kg = λx.JS′′Kg[2→x] (Abs.F)
JS′′Kg[2→x]=JDP′Kg[2→x](JS′Kg[2→x]) (AF)
JS′Kg[2→x]= λy.JSKg[2→x][1→y] (Abs.F)
JSKg[2→x][1→y]= 1 sse revisará(x,y)
JS′Kg[2→x]= λy. revisará(x,y)
JS′′Kg[2→x]=JDP′Kg[2→x](λy. revisará(x,y))
JDP′Kg[2→x]= λF.∀y[artigo(y) → F′(y)]
JS′′Kg[2→x]= 1 sse∀y[artigo(y) → revisará(x,y)]
JS′′′Kg = λx
e.∀y[artigo(y) → revisará(x,y)]
JS′′′′Kg=JDPKg(λx.∀y[artigo(y) → revisará(x,y)])
JDPKg= λF.∃ x[parecerista(x) & F′(x)]
JS′′′′Kg= 1 sse∃ x[parecerista(x) & ∀y[artigo(y) → revisará(x,y)]]
Se compararmos essas condições de verdade com a representação em (52) apre- sentada originalmente, veremos que elas são idênticas. Conseguimos, assim, cap- tar a leitura de (58) em que um parecerista tem escopo sobre todo artigo.
Podemos concluir que a regra sintática AQ permite gerar duas estruturas sin- táticas para (58) e que a interpretação de cada uma delas resulta em uma das leituras associadas a essa sentença. Explicamos, assim, a ambiguidade de (58), reduzindo-a a um caso de ambiguidade sintática, em que à mesma sentença (en- tendida como uma sequência de palavras) atribuímos duas estruturas distintas. O custo disso, voltamos a repetir, é a postulação de um nível de representação sintática abstrato e que não corresponde à estrutura superficial da sentença no que diz respeito à posição dos DPs quantificadores.
Cumpre notar também que não impusemos nenhuma restrição a AQ relacio- nada à natureza dos DPs quantificadores alvejados por ela. Dessa forma, preve- mos que sempre que houver dois ou mais deles em uma mesma oração, haverá ambiguidade. Essa liberdade acaba sendo problemática na medida em que cer- tas combinações de DPs não admitem múltiplas interpretações. Considere, por exemplo, o caso abaixo:
(60) Todo mundo resolveu menos de três questões.
6.9 Quantificação e movimento todo x, x resolveu menos de três questões. Em outras palavras, não deve haver ninguém que tenha resolvido três ou mais questões. Essa é a interpretação em que o quantificador universal introduzido por todo mundo tem escopo largo, que inclui a contribuição semântica do DP objeto e que pode ser obtida alçando-se esse último para uma posição sintática subordinada à do DP sujeito:
(61) Todo mundo 1 [ menos de três questões 2 [ t1resolveu t2]
]
Considere, agora, a estrutura resultante do movimento do DP objeto para uma posição acima da do DP sujeito:
(62) menos de três questões 2 [ todo mundo 1 [ t1resolveu t2]
]
Nesse caso, teremos uma inversão de escopo e a interpretação resultante será a de que menos de três questões foram resolvidos por todo mundo. Mas essa não é uma interpretação que (60) tem. Pensemos um pouco mais a respeito. Imagine, por exemplo um cenário com 5 pessoas (p1-p5), cinco questões (q1-q5) e os fatos
relevantes representados na tabela abaixo: pessoas questões resolvidas
p1 q1,q2,q3,q4,q5
p2 q1,q2
p3 q1,q2,q4
p4 q1,q2,q5
p5 q1,q2,q3,q4
Nesse cenário, é falso que todo mundo tenha resolvido menos de três questões. p1, por exemplo resolveu todas as cinco. Mas é verdadeiro que menos de três
questões tenham sido resolvidas por todo mundo (apenas duas, q1 e q2, foram).
Se a inversão de escopo fosse possível, (60) deveria ser julgada verdadeira nessas circunstâncias. Como esse não é o caso, concluímos que essa inversão não é possível.
Além disso, parece haver diferenças translinguísticas em alguns casos. O por- tuguês brasileiro, por exemplo, parece bastante rígido em relação à possibili- dade de inversão de escopo. Mesmo em sentenças como as que vimos anteri- ormente, envolvendo quantificadores universal e existencial, tal inversão parece bem pouco saliente. Deixaremos essas observações como um alerta para o leitor. De alguma forma, AQ (ou qualquer operação que seja responsável pelo movi- mento dos DPs quantificadores) precisa ter seu papel regulado, com o movimento
sintático em questão afetando de maneira distinta, diferentes tipos de DPs quan- tificadores. Remetemos o leitor a algumas das sugestões de leitura oferecidas ao final do capítulo.