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FIGURA 2 CALENDARIZAÇÃO PREVISTA DO PLANO TECNOLÓGICO

3. A INTEGRAÇÃO DAS TIC NA E DUCAÇÃO

3.2. I MPACTE DAS TIC NA MUDANÇA DE PRÁTICAS EDUCATIVAS DOS PROFESSORES

A revisão da literatura revela que utilização das TIC é valorizada pelos professores como ferramenta educativa, mas indica, no entanto, que as estratégias para a sua utilização eficaz estão ainda em fase de desenvolvimento. Estas preocupações correspondem à nossa linha de pensamento e contribuíram fortemente para a realização da presente investigação.

A análise dos impactes de integração das TIC na escola que realizámos a partir da literatura permitiu-nos, para além dos aspectos centrais já abordados, sistematizar ideias acerca dos impactes das TIC nos professores e nas práticas lectivas, mais concretamente, na forma como os professores utilizam as TIC no processo de ensino e de aprendizagem.

Os estudos referenciados no âmbito do relatório de Balanskat et al. (2006) tentam identificar o impacte das TIC, observando e analisando o uso de tecnologia específica e aplicações pelos professores, a relação professor-alunos, a utilização geral das TIC e as competências e confiança dos professores na sua utilização. A reflexão que se faz seguidamente é baseada neste relatório – ICT Impact Report: Review of studies of ICT in Europe - embora se tenham consultado alguns dos estudos referidos pelos autores, sempre que pertinentes para a sua compreensão.

Potencialidades da disciplina TIC para a mudança de práticas educativas

Um estudo de caso no 3º ciclo do Ensino Básico

As evidências do impacte da utilização das TIC nos professores são analisadas ao nível das práticas profissionais e educativas e examinados os efeitos mais directos ao nível da motivação, competência e confiança dos professores na utilização das TIC, que podem ter impacte nos processos de ensino. Os autores consideram que o impacte que esta realidade tem nas aprendizagens está directamente relacionado com a qualidade e quantidade no que respeita ao uso das TIC no processo de aprendizagem.

No que diz respeito ao uso de tecnologia específica e aplicações pelos professores, as evidências apresentadas no estudo PILOT26: ICT and School development (ITU27, 2004; cit. Balanskat et al., 2006) apontam para um “aumento de produtividade”, ou seja, menor perda de tempo em tarefas de planificação e gestão que podem permitir aos professores usufruírem de mais tempo para um ensino mais individualizado. Esta parece-nos ser uma mais-valia importante no uso das TIC pelos professores para a realização das suas tarefas profissionais. As evidências apontam para limitações existentes ao nível da utilização de LMS28 ou VLE’s29

No que diz respeito à relação professor-alunos, o ERNIST

, mais concretamente no seu potencial de utilização pedagógica ou como ferramenta de partilha de conhecimento. No que concerne à prática pedagógica o relatório refere globalmente um crescente entusiasmo dos professores e uma percepção cada vez maior da rentabilização do tempo resultante da utilização das TIC, bem como a possibilidade de uma maior partilha de conhecimento entre professores. Ao nível da utilização de aplicações específicas (exemplos citados, Internet, email, chat) e da utilização de tecnologia em sala de aula (exemplo analisado, utilização do quadro interactivo), as conclusões apontam para a importância de um acesso facilitado a novas fontes de informação, ao desenvolvimento de competências de pesquisa e de selecção de informação, bem como, de síntese de informação. O acesso a novos meios de comunicação parece potenciar o desenvolvimento de competências associadas ao trabalho colaborativo.

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26 PILOT - Project: Innovation in Learning, Organization and Technology.

ICT School Portraits (European Schoolnet, 2004; cit. Balanskat et al., 2006) constata que as TIC desempenharam um papel central

na mudança para a utilização de abordagens construtivistas do processo de ensino, facilitada

27 ITU - Norway's leading research and development unit for learning with digital media. 28 LMS - Learning Management Systems

29 VLE - Virtual Learning Environments

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pelas novas formas de comunicação que o recurso à tecnologia potencia. Também as conclusões dos estudos realizados no âmbito do Norwegian PILOT Study (ITU, 2004; cit. Balanskat et al., 2006) apontam para que a utilização das TIC facilite a mudança do papel do professor ajustando- se às teorias construtivistas do processo de ensino e de aprendizagem. Ou seja, o professor é mais facilmente um conselheiro, parceiro de diálogo e um líder em matérias ou conteúdos específicos. Torna-se mais fácil centrar o processo no aluno, dotando-o de maior autonomia e responsabilidade sobre as suas aprendizagens, em detrimento de um processo centrado no professor, como o transmissor exclusivo dos saberes. Por último, as conclusões do Impact 2 (Harrison, 2002, cit. Balanskat et al., 2006) corroboram estas percepções ao nível da alteração da relação professor-alunos, e dos papéis que desempenham, resultando numa maior autonomia dos alunos.

Outra questão associada ao impacte da integração das TIC é a utilização geral das TIC, e relaciona-se directamente com a utilização destas tecnologias pelos professores e a forma como a integram em contexto educativo. O estudo Impact 2 (Harrison, 2002; cit. Balanskat et al., 2006) menciona que os professores se referem à utilização das TIC como uma ferramenta. Os autores consideram que a utilização das TIC pode ser integrada ou complementar ao processo de ensino e de aprendizagem. Gostamos particularmente da distinção feita por Balanskat et al. (2006): “built

in” vs “bolt on” , estando no segundo caso associado à expressão “add on”.

There have been many examples where the use of the technology was innovative, interesting and transformative, but completely ‘bolt on’. In other cases the use of simple technology was really ‘built in’ but in a traditional pedagogy. (European Schoolnet, 2004)

Estamos plenamente de acordo com esta referência que parece encontrar igualmente fortes relevâncias nos estudos realizados por Underwood (2006) – The ICT test bed evaluation, citado no relatório analisado:

New technologies that provide a good fit with existing practices, such as interactive whiteboards are first to be embedded, but others like video conferencing, digital video and virtual learning environments are now being incorporated, providing evidence of ongoing learning by the workforce. Training needs to continue to support innovative pedagogy. […] Changes that take full advantage of ICT will only happen slowly over time, and only if teachers continue to experiment with new approaches. Underwood (2006)

No que diz respeito à utilização geral das TIC e a título conclusivo, estas parecem contribuir para a melhoria das práticas existentes ou assumir um carácter mais inovador que possa vir a longo prazo a promover uma mudança que tenha um impacte mais visível nas práticas educativas. Dito de outra forma, os professores ainda não sistematizaram a utilização das TIC de modo a tirarem partido da possibilidade de envolver os alunos mais activamente na construção

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do seu conhecimento, assente no desenvolvimento de competências de autonomia e responsabilidade, indissociáveis do desenvolvimento de competências de trabalho colaborativo. Esta atitude poderá sim contribuir para a alteração profunda das metodologias de ensino, apostando no envolvimento dos alunos em trabalho de projecto e resolução de problemas, numa aprendizagem mais individualizada, e numa utilização das TIC integrada no currículo, ou seja na criação de ambientes de aprendizagem mais ricos que permitam um papel activo dos alunos na construção do seu conhecimento, um conceito de ensino mais centrado no processo e não no produto final.

No que concerne às competências e confiança dos professores na utilização pedagógica das TIC, os estudos analisados apontam para a existência de grandes dificuldades. Existe alguma unanimidade nestes estudos acerca da questão central do acesso às TIC que é considerado factor essencial na utilização pedagógica das tecnologias, no entanto constata-se alguma divergência de opiniões quando são considerados os factores competências dos professores na utilização das TIC, perspectiva pedagógica dos professores face ao processo de ensino e de aprendizagem, e motivação dos professores para a utilização das TIC em contexto educativo.

Apesar das competências dos professores na utilização das TIC terem melhorado nos últimos anos, esta melhoria não se traduz ainda em níveis de confiança que permitam à maioria dos professores equacionar a utilização das TIC com os alunos em contexto educativo. A maioria dos professores explora as TIC como ferramenta, numa primeira fase para melhorar práticas tradicionais de ensino, e só numa fase posterior estas são integradas progressivamente no currículo (Sandholtz, Ringstaff & Dwyer, 1997). Os professores mais experientes na utilização das tecnologias actualmente são aqueles que já conseguiram desenvolver experiências inovadoras e promover alguma mudança nas suas práticas de ensino (Raby, 2004).

A investigação indica, por um lado, que os professores cujas práticas de ensino se situam numa linha mais construtivista têm maior facilidade em tirar partido do potencial das TIC, desde que existam os recursos necessários, ao nível do apetrechamento e do acesso à Internet (ligações com largura de banda suficiente). As perspectivas pedagógicas dos professores em relação ao processo de ensino e de aprendizagem condicionam o aproveitamento acrescido que as TIC. Os estudos de Becker et al. (Ravitz, Becker e Wong, 2000; Riel e Becker, 2000) demonstraram que os professores que têm uma concepção da aprendizagem construtivista, têm maior confiança perante a utilização dos computadores, utilizando-os frequentemente com os seus alunos, de maneira mais diversificada e eficaz.

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Os estudos ITMF - Project in Denmark31

O estudo Empirica (2006) analisou os dados dos professores de acordo com o modelo Acesso, Competência e Motivação (ACM), desenvolvido por Vihera e Nurmela (2001) e constatou que 80% dos professores se consideram com competências para utilizar as tecnologias com os seus alunos, mas apenas 2/3 declararam estar motivados para o fazer, apontando falta de condições materiais e limitações no acesso à Internet como justificação para este facto. No caso de Portugal, cerca de 70% dos professores consideraram não possuir as competências necessárias para o fazer.

and the E-learning Nordic study (Ramboll

Management, 2005, 2006; cit. Balanskat et al. 2006) defendem, por outro lado que a opção do recurso a uma ou outra tecnologia com os alunos, ou mesmo a não escolha, estão relacionadas com o nível de competências do professor e não com razões pedagógicas ou didácticas. A competência dos professores relaciona-se directamente com o nível de confiança na sua utilização, destacando-se que quanto menor é a competência, maior é o stress e ansiedade associados à sua utilização com os alunos, e tal condiciona a experimentação de novas abordagens pedagógicas.

No que concerne à motivação e interesse dos professores na utilização das TIC em sala de aula, parece haver alguma controvérsia, ou, dito de outra forma, o interesse e a motivação na utilização das TIC parece ser uma questão importante a destacar em todos os países a que se refere este estudo. O cepticismo e falta de motivação parecem estar fortemente relacionados com a idade dos professores, considerada igualmente em função do tempo de serviço, ou experiência profissional. Os professores mais velhos na profissão, regra geral, não vêem benefícios para os alunos decorrentes da utilização das TIC. Estes dados são evidentes na Alemanha, mas contrariados pelos dados da Áustria e Itália, onde os professores que usam as TIC têm em média mais experiência, mas são menos cépticos. Em contraste, os professores com menos experiência, revelam-se grandes adeptos da utilização das TIC em sala de aula, apontando considerarem haver benefícios para os alunos.

O trabalho de Leggett e Persichitte (1998), citado por Raby (2004), acrescenta alguns elementos que podem ajudar na compreensão dos factores que podem travar ou estimular o desenvolvimento de uma utilização das TIC pelos professores. Segundo estes autores, os obstáculos que os professores enfrentam quando tentam integrar as TIC em contexto educativo

31 ITMF - The Danish project ”IT, Medier og folkeskolen”, in English ”ICT, Media and Primary and Lower Secondary School”

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podem resumir-se pelo acrónimo “TEARS” 32

Em suma, os estudos sugerem que os professores aprendem a usar a tecnologia para realizar as suas rotinas profissionais, mas a sua integração em contexto educativo, em sala de aula, está a revelar-se um processo lento e moroso. No entanto, a integração efectiva das TIC exige dos professores experimentação e vivências contextualizadas que lhes permitam praticar, reflectir e modificar as suas práticas (Glazer et al., 2005).

, usado para representar os cinco factores que influenciam o sucesso da integração das TIC: “T” para tempo, “E” para competência (expertise), “A” para acessibilidade, “R” para recursos e “S” para apoio (support). Assim, de acordo com Leggett e Persichitte (1998), os professores teriam necessidade de: tempo para planificar, colaborar, preparar e utilizar a tecnologia, para experimentar, para fruir, para se aperfeiçoar, etc. ; uma formação adequada; acessibilidade às TIC, antes, durante e após as horas de aula; investimento em recursos financeiros para a formação, apoio técnico, compra e manutenção do equipamento, etc.; apoio técnico e administrativo.

Becker (2000) refere que são poucos os professores que utilizam os computadores nas escolas numa perspectiva mais construtivista e criativa. As TIC, quando acessíveis, são subaproveitadas ou mesmo utilizadas para reproduzir práticas antigas. Ainda, Becker (2001) indica que quando se fala de computadores em sala de aula não se está a falar de uma situação perfeitamente definida, uniforme e clarificada. Estamos de acordo com a sua abordagem quando menciona que a utilização dos computadores em sala de aula é condicionada por factores diversos, nomeadamente as matérias de ensino, a idade e background dos alunos e as perspectivas pedagógicas adoptadas. O autor analisou um estudo levado a cabo em 1998 nos Estados Unidos (TLC – Teaching, Learning and Computing – National Survey) acerca dos professores e das suas práticas de ensino, no sentido de clarificar algumas das maiores diferenças nos padrões de utilização dos computadores, tendo identificado os seguintes indicadores relacionados directamente com os professores: envolvimento profissional, competências na utilização dos computadores, objectivos da utilização dos computadores em sala de aula, e perspectiva pedagógica de ensino.

Parece-nos importante, no contexto da presente investigação, aferir o entendimento acerca do envolvimento profissional, uma vez que este indicador foi introduzido nos questionários

32 O acrónimo TEARS, que em inglês se traduz pela palavra lágrimas, faz referência à triste situação das TIC na escola (Raby, 2004).

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que utilizámos. Assim, de acordo com Becker (2001), o envolvimento profissional do professor surge a partir da forma como conceptualiza o seu papel, os seus deveres e responsabilidades, e parece estar relacionado com a predisposição para utilizar as tecnologias em contexto educativo. Alguns professores entendem o seu trabalho como aquele que ocorre unicamente dentro da sala de aula, como uma prática individual e privada, outros vêem as suas responsabilidades para além da sala de aula e participam na comunidade como educadores e administradores. Becker (2000, 2001) destaca três aspectos centrais na orientação do papel do professor que foram por nós contemplados na investigação: extensão de contactos informais com professores da escola, contactos com professores de outras escolas, e actividades de gestão, orientação, formação contínua, participações em workshops e conferências. Assim, o autor identifica as categorias de envolvimento profissional, listadas na Tabela 1.

TABELA 1 - PROFESSIONAL ENGAGEMENT (BECKER, 2000)