Em 1954, Godtfred Kirk Christianses, que com seu pai, o car- pinteiro Ole Kirk Christianses, inventou os blocos Lego, chegou à brilhante conclusão de que a Lego não mais deveria focar na cria- ção de um ou mais brinquedos. Em vez disso, ela deveria criar um completo sistema de diversão, que tivesse o seu elemento central no conceito do bloco (ROBERTSON; BREEN, 2013).
Godtfred definiu, então, que tal sistema deveria ser construí- do em volta de alguns princípios:
• limitar o tamanho, sem limitar a imaginação; • acessível;
• simples, durável, e oferecendo ricas variações;
• para garotas, garotos, e divertido para qualquer idade; • um brinquedo clássico, sem a necessidade de se renovar; • fácil de distribuir.
Os blocos Lego, e o jeito de brincar com eles, são para mim a metáfora perfeita para entender o valor das práticas emergentes,
vistas como as mais adequadas para lidar com as situações com- plexas nas quais a melhor resposta para um problema pode ainda não ser conhecida. Recentemente, utilizei tal metáfora em uma brincadeira com meu filho Enzo, de 4 anos. Depois de quase um mês de férias, ele já demonstrava alguns sinais de tédio, então, decidimos inventar uma brincadeira nova.
Colocamos no centro de uma mesa todos os blocos de Lego que existiam em nossa casa (acredite, são muitos!) e, então, de- finimos que navegaríamos aleatoriamente por alguns canais da televisão e assistiríamos a alguns programas até que alguma si- tuação problemática fosse apresentada, por exemplo: “Um ho- mem desceu até o estacionamento para sair com o seu carro, mas quando chegou lá o carro não estava mais no local onde ele havia deixado”; ou “O Mickey Mouse precisava fazer um bolo para o aniversário da Minie, mas não sabia por onde começar”.
Nesse momento, desligávamos a televisão e seguíamos para a segunda parte da nossa brincadeira, que tinha a seguinte regra: “Agora somos apenas nós, os blocos, e a nossa imaginação”. Com os blocos, criávamos algo semelhante ao cenário do programa de televisão e, então, apresentávamos alternativas para responder a algumas perguntas do tipo: “Por que o problema aconteceu?” e “Qual parece ser a melhor forma de lidar com o problema?”.
Ao longo da brincadeira, perguntávamos com frequência: “Esta parte da história ficou boa?”. Se sim, seguíamos adiante; caso con- trário, tentávamos uma nova prática para compor aquela parte da história. Resumindo, trabalhamos ali com práticas emergentes.
pegar o exemplo da brincadeira que acabei de narrar, e transfor- má-lo em uma dinâmica organizacional na qual várias pessoas propusessem formas diferentes e emergentes de lidar com um de- safio que estivessem passando.
Os blocos e toda a estrutura por trás da Lego sempre foram uma grande fonte de inspiração pessoal. E, inevitavelmente, quan- do comecei a forjar a ideia do Learning 3.0, várias influências des- se universo se tornaram latentes. Por exemplo, ele deveria ser um
sistema de aprendizagem, e não apenas uma ou mais ferramentas
de aprendizagem.
Eu tinha a preocupação de não tornar a prática do Learning 3.0 limitada a um conjunto de ferramentas ou técnicas que fossem por mim elaboradas, pois caso o fizesse, estaria limitando a sua prática ao uso das ferramentas já criadas, não dando espaço para outras emergirem a partir dos desafios encontrados no mundo real de cada um. Ou seja, eu estaria indo contra o próprio concei- to que defendi ao longo de todo este livro.
Decidi então estruturar o Learning 3.0 de uma forma pela qual cada praticante pudesse pegar as mesmas peças, e construir coisas diferentes. Sendo assim, o sistema de aprendizagem Learning 3.0 foi organizado em três tipos de blocos:
• a teoria, que é coberta na série de livros que aqui se inicia; • a prática, que é aplicada por meio do fluxo;
• e o comportamento, que são propostos por meio dos princípios.
Tais blocos foram criados por meio de muita experimentação, na qual, continuamente, eu me perguntava qual seria o mínimo a colocar, de forma a garantir uma boa aplicação do Learning 3.0. Você pode utilizar a teoria deste e dos próximos livros para pa- lestrar sobre o assunto, inspirar seus colegas, misturar com outros conceitos, ou mesmo ser um dos nossos próximos autores. Você vai decidir como explorar essa teoria.
Chegando à prática, não dá nem para contar o número de pos- sibilidades que existem para brincar com os blocos do fluxo, que é onde o Learning 3.0 é realmente praticado. Que tal criar uma nova ferramenta que aplique tal fluxo, como fez a Ana Flávia com o Metaphoring, na história contada no capítulo 6? O que acha de organizar aquela próxima reunião da sua empresa em um formato aderente ao fluxo, ou criar dinâmicas baseadas no Learning 3.0 para os seus treinamentos?
E o que falar sobre misturar os blocos? Você poderia, por exemplo, criar uma prática para discutir um problema [fluxo], com o intuito de lhe ajudar a identificar o seu próprio jeito de aprender [teoria e princípio], mas tudo isso considerando apenas situações reais que estivessem claramente à sua frente [princípios]. Enfim, infinitas possibilidades!
De fato, é isso que boa parte dos praticantes e facilitadores do Learning 3.0 já está fazendo, somando os nossos blocos com as suas ideias, e vivendo tal sistema de aprendizagem em sua plenitude.
Eles observam situações do seu mundo real, e aprendem de uma forma adequada a ele. Descobrem cenários, criam e adaptam práticas, e enfrentam situações reais. Ou seja, as práticas emer-
gem, a aprendizagem também e, assim, os profissionais criativos praticam e aprendem de uma forma adequada ao século XXI.