Eu acredito que a principal tendência encontrada em todas as entrevistas que fiz para este livro estão relacionadas às redes de aprendizagem. A maioria dos trabalhadores criativos com os
quais conversei mencionaram serem partes dessas redes e in- vestirem grande parte de suas energias nelas. Eles fazem isso
porque consideram um bom investimento para se ter o maior re- torno quando se trata de aprendizagem.
Leonardo Campos, um trabalhador criativo que trabalha com projetos de tecnologia, fez parte da criação de uma dessas redes, o Lean Coffee em São Paulo: “Na nossa empresa, nós estávamos começando a utilizar os métodos ágeis de desenvolvimento de software, mas percebemos que o conhecimento estava muito dis-
tribuído, que quase não havia troca deste e, ainda mais, pouco conhecimento era criado colaborativamente”.
Em uma visita a um evento em Boston, ele aprendeu o con- ceito de Lean Coffee (http://leancoffee.org/), que já era praticado em muitas partes do mundo, e percebeu que isso poderia ajudá- -los quanto ao conhecimento distribuído: “No início, o foco era melhorar nossa aprendizagem interna. Nós encontraríamos com trabalhadores de áreas diferentes da empresa que nos ensinariam algo que eles já haviam aprendido ou até problemas e, assim, se- guindo o curso que foi preparado para o evento, nós discutiría- mos as prioridades e criaríamos conhecimento juntos”.
Hoje, com mais de dois anos de existência, o grupo continua com encontros mensais, mas com uma conotação interorganiza- cional: “Para enriquecer a aprendizagem, nós começamos a orga- nizar o evento fora da empresa, em cafés, e a permitir a presença de qualquer pessoa que tivesse uma identificação com o assunto”.
Existem práticas similares em educação. Um exemplo é a Rede de Superintendentes de Connecticut (CITY, 2009) nos Estados Uni- dos. Durante oito anos, este grupo manteve vinte e seis secretarias de educação engajadas em melhorar a aprendizagem nas escolas de seus distritos por meio de rodadas de duas semanas. Estas rodadas foram planejadas para se diferenciarem dos formatos de “reuniões” ou “comitês” e focar na colaboração pela prática explícita.
Karl Pfenninger (2001) discorre: “Pessoas criativas tendem a construir e nutrir suas próprias comunidades.” A criação destas redes é um passo extremamente importante para as práticas de Learning 3.0, porque é por meio delas que a confiança entre as
pessoas começa a se desenvolver”. Como colocado por Zoe Elder (2012): “Quando nós confiamos nas pessoas, conversas, discus- sões e o compartilhamento de ideias fluem e fluem rapidamen- te. Se construirmos confiança nas comunidades e grupos onde aprendemos e trabalhamos, então o aprendizado será intenso e mais sustentável”.
Algo que sustentarei ao longo de todo este livro é que a apren- dizagem dos profissionais criativos emergirá da prática, dos pro- blemas e das oportunidades reais, e isso envolve explorar possi- bilidades, confrontar opiniões, e misturar conhecimentos. Isto é, aprender constantemente em meio a uma comunidade diversifi- cada de pessoas.
Mas, antes de explorar esse assunto mais a fundo, preciso levá- -lo a uma reflexão sobre o profissional que você é, e em como tem conduzido, ou permitido que outros conduzam, a sua carreira. Essa será a conversa do nosso próximo capítulo.
Recapitulando
Agir de forma criativa pode ser algo de extremo valor, tan- to para artistas como para gerentes, empresários, analistas, advogados e muitos outros. Mesmo que essas profissões não estejam rotuladas como profissões da economia cria- tiva pela UNESCO, é fácil perceber que a criatividade é parte integral delas, basta se lembrar da história de seu Waldir, o peixeiro.
Criatividade e competência não são palavras diretamente relacionadas. Você pode ser criativo e ser incompetente, mas pode ser extremamente competente não realizando seu trabalho com criatividade. Eu, desenvolvendo soft- ware: competente sem muita criatividade. Eu, liderando uma equipe de negócios: criativo e incompetente.
Quanto maior o seu amor pelo que faz, maior a sua curio- sidade e a sua vontade de explorar, portanto, maior a sua capacidade de ser criativo. Não há fórmula para se tor- nar um profissional criativo. Cada um possui um ritmo próprio e motivadores distintos. Reflita, sem culpa, sobre como você funciona e, com isso, adquira o hábito de cons- truir sua própria fórmula a cada novo trabalho a ser feito. Para os profissionais criativos, a aprendizagem deve emer- gir da prática, dos problemas e das oportunidades reais. Esses profissionais não estarão motivados o suficiente para aprender caso não enxerguem propósito no que está sen- do ensinado ou compartilhado. Para eles, cada nova lição deve ter uma relação direta com o seu trabalho passado, presente ou futuro.
Profissionais criativos criam e nutrem comunidades à sua volta e, por meio delas, emerge grande parte do aprendiza- do necessário para lidar com os desafios profissionais do século XXI.
Referências
CARVALHO, Ricardo. Em entrevista ao programa Globo Ecologia. Rede Globo, 14 Set. 2012. Disponível em: <http://redeglobo.globo.com/glo- boecologia/noticia/2012/07/economia-criativa-tem-como-base-inova- cao-e-o-conhecimento.html >
CITY, Elizabeth A. et al. Instructional Rounds in Education: A Network Approach to Improving Teaching and Learning. Harvard Education Press, 2009.
ELDER, Zoe. Full on Learning: Involve Me and I’ll Understand. London: Crown House Publishing Limited, 2012.
FRITZ, Robert. Creating. New York: Fawcett Columbine, 1991.
LOUDEN, S. Living and Sustaining a Creative Life. Bristol: Intellect, 2013. PINK, Daniel. Drive: The Surprise Truth about What Motivates Us. New York: Riverhead Books, 2011.
PFENNINGER, Karl. The Origins of Creativity. Oxford: Oxford Univer- sity Press, 2001.
UNESCO. Creative Economy Report. 2013. Disponível em: <http://www. unesco.org/culture/pdf/creative-economy-report-2013.pdf >