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As teorias do desenvolvimento que fizeram parte da história do pensamento econômico e político no país podem ser associadas a duas linhas teóricas básicas que de modo contrastante tentaram compreender as mudanças que têm transformado o que chamamos de "modernidade": a teoria da sociedade industrial e da sociedade capitalista. Ambas as teorias focalizam suas preocupações em questões diferenciadas

a respeito das mudanças e dos principais mecanismos que levam a sociedade a estágios mais avançados e poderão nos propiciar uma luz para entender as semelhanças e diferenças entre as distintas correntes do pensamento desenvolvimentista brasileiro.

Para os autores que se enquadram na perspectiva da teoria da sociedade industrial, que têm em Saint-Simon um de seus principais fundadores, grande parte das transformações contemporâneas têm sua origan no industrialismo. Deste ponto de vista, as mudanças tem haver com a transição das "sociedades tradicionais" para as "sociedades industriais", e a passagem de uma à outra significa um movimento de progressão na história.

O surgimento do Estado Liberal democrático, resultado desse movimento progressivo, faria com que os conflitos existentes se resolvessem no âmbito politico institucional. Os conflitos de classe assim não são negados, mas o seu grau de importância é restringido a um período relativamente curto do século XX, aquele especificamente atinente ao período de transição da sociedade agrária à sociedade industrial. A sociedade industrial, cuja organização econômica é predominada pelo industrialismo, teria na sociedade capitalista apenas um subtipo que se caracterizaria principalmente pelo controle privado da produção (GIDDENS, 1984, p.28).

A teoria da modernização está intimamente ligada aos pressupostos da teoria da industrialização. Ela compartilha de ver no industrialismo uma força liberalizadora e progressista para os chamados países atrasados, cujos indicadores do desenvolvimento se restringirão quase que basicamente aos traços de uma ordem industrial afluente. O principal mecanismo de mudança para o desenvolvimento é o industrialismo. Isso fez com que muitas medidas "modemizadoras" fossem acompanhadas de um grande sentimento de otimismo, uma vez que o desenvolvimento mais amplo estaria garantido pela simples adaptação da população a estas reformas.

No caso do Brasil, o paradigma da modernização tem o seu ápice nas décadas de 50 e 60 com as idéias que surgiram na CEP AL (Comissão Econômica para a América Latina), criada pela ONU em 1948, e que deram forma mais tarde ao nacional-desenvolvimentismo (MANTEIGA, 1995, p. 20), conseguindo a simpatia de diferentes agentes políticos e econômicos, desde o partido comunista brasileiro até a Escola Superior de Guerra. O principal objetivo da CEPAL era o de descobrir as razões para o atraso dos grandes centros na América Latina e encontrar formas que possibilitassem a superação destes problemas. O centro de suas análises rompiam com as verdades estabelecidas pelos liberais ortodoxos que tinham na "lei das vantagens comparativas" a explicação para o sucesso e desgraça dos países latinos. Para esta corrente de pensamento o morcado era o principal instrumento para reduzir as desigualdades econômicas entre as nações. Esta lei da teoria do comércio internacional estabelecia que as diferenças quanto aos custos de produção (mão de obra, capital, terra) implicariam em ganhos para os países envolvidos no comércio internacional, gerando "vantagens comparativas". Embora pudessem existir divergências quanto ao grau de equal ização que o mercado podaria gerar, fazia-se crer que o subdesenvolvimento poderia ser superado mediante uma especialização da produção em escala mundial (CARDOSO, 1993). Logo, países como o Brasil deveriam manter o seu perfil agrário, e países industriais, deveriam se especializar ainda mais na produção de produtos manufaturados.

Em oposição à tese da teoria do comércio internacional, a visão da CEPAL era a de que as economias periféricas não se tomariam nações desenvolvidas, caso fossem deixadas ao sabor das livres forças do mercado. Para Raul Prebisch, um de seus principais economistas, a política organizativa dos operários e empresários e a defesa da taxa de lucro pelos oligopólios dos países industrializados eram a causa da deterioração do intercâmbio entre produtos manufaturados e primários, cujo prejuízo se dava em relação aos últimos. Prebisch havia percebido uma desproporcionalidade

entre as vantagens, o que significava que se precisava uma quantidade cada vez maior de produtos primários e agrícolas para se conseguir o mesmo volume de produtos industrializados no mercado internacional15.

As críticas da CEP AL aos pressupostos da teoria do comércio internacional foi marcante para a história do pensamento econômico do país a ponto de deslocar o eixo das análises, de intelectuais e organizações civis e governamentais, que se debruçavam sobre as razões do nosso "subdesenvolvimento". Descartada a possibilidade pela CEP AL de um desenvolvimento a partir das relações que o país mantinha com o comércio internacional, os limites ou obstáculos do desenvolvimento se encontravam em fatores basicamente internos. Fatores extemos que pudessem impedir esse desenvolvimento, como a constante deterioração dos termos de troca nas relações internacionais ou a falta de capital, poderiam ser superados somente com uma transformação radical da estrutura econômica interna do país. Ela influenciou até as análises marxistas que se mantinham crentes até aquele momento na possibilidade da expansão do capitalismo nas economias periféricas e que tinham nas análises de Marx, Rosa Luxemburgo, Hilferding e em alguns textos de Lenin, alguns pontos de apoio. Por conseguinte, embora nem todos concordassem com a natureza do subdesenvolvimento brasileiro diagnosticado pela CEPAL, a maioria acabou concordando que uma política deliberada de industrialização seria o seu melhor remédio e o Estado e o empresariado industrial seu agente curador.

A afirmação de que Estados e mercados há muito dominam o pensamento sobre o desenvolvimento nos ajuda a esclarecer um pouco a unanimidade que as teses cepalinas alcançaram, principalmente em relação à industrialização e à intervenção estatal. O que estava subjacente nos diferentes modelos de análise do desenvolvimento era as possibilidades e limites tanto do Estado como do mercado,

1 -Tara uma análise mais apurada das teses da CEPAL e das críticas que surgiram tanto da direita como da esquerda no Brasil ver Cardoso (1993) e Manteiga (1985).

externo e interno, para promover um capitalismo nacional, o que fez com que os estudos se concentrassem tanto no Estado como no empresariado industrial como atores potenciais para levar a cabo o novo projeto modemizador. Com excessão do liberalismo econômico tradicional que defendia a "lei das vantagens comparativas", grande parte das análises, cujos referenciais teóricos eram na maioria das vezes contraditórios, visualizaram a industrialização e o Estado como solução para os problemas que apresentavam. Os intelectuais estrangeiros divergiam an relação às razões do nosso atraso. Os liberais heterodoxos embora compartilhassem com os problemas atinentes ao que chamavam do "círculo vicioso da pobreza", viram na limitada magnitude do mercado interno o maior obstáculo ao desenvolvimento, pautados na chamada teoria do crescimento equilibrado. Neste caso, o aumento da produtividade via a industrialização se tomou a principal saída para países como o Brasil (ex: Nurkse). Os marxistas que também viam na estreiteza do mercado interno dos países da América Latina um problema a ser resolvido, no entanto associavam esta questão com a estrutura de classes. O rompimento das alianças com os senhores "feudais" e de outros setores conservadores do país era um pré-requisito para que se pudesse ampliar o desenvolvimento capitalista16.

No pensamento brasileiro também havia algumas discordancias. Para o que Manteiga denominou de modelo de subtituição de importações as origens estavam na economia cafeeira (Furtado) e no seu caráter oligopolist», tanto na esfera comercial como industrial (Rangel). Para o modelo democrático burguês (PCB) a economia estava dominada pelo imperialismo que se articulava com os latifundiários do país (Nelson Wemeck Sodré e Alberto Passos Guimarães). Dessa última corrente também resultou uma vertente que via o "subdesenvolvimento como produto da expansão capitalista mundial (André Gunter Frank) e que resultou nas primeiras formulações do enfoque da dependência que analisaremos mais adiante. O nacional-

desenvolvimentismo acabou ganhando simpatia tanto de liberais heterodoxos como da esquerda marxista, e embora houvessem muitas divergências quanto ao modo pelo qual um novo desenvolvimento deveria se processar, "no cómputo geral convergia-se em prol da industrialização ou do desenvolvimento capitalista" (MANTEIGA, 1985, P. 75).

Estas divergências estratégicas se ligam mais de certa forma às divergências entre os pressupostos da teoria da sociedade industrial pelo qual o pensamento modemizador se associava, e nesse caso o pensamento cepalino não foge à regra, e da teoria da sociedade capitalista que se liga à tradição do pensamento marxista a qual a esquerda no Brasil se associava Tanto as propostas da CEP AL se preocuparam com as questões ligadas às possibilidades de implementação e financiamento da infra-estrutura industrial pelo Estado, abordando de forma marginal a estrutura política do pais,

"Deve-se ressaltar que o projeto de desenvolvimento restringiu-se a propor modificações na esfera das atividades econômicas , deixando praticamente intocadas as instituições políticas do país. Essa ausência de um novo projeto de dominação política indicava que as frações emergentes da burguesia industrial brasileira não pretendiam ou não reuniam condições para usurpar o poder político das mãos das outras classes ou frações das classes dominantes, mas almejavam apenas compartilhá-lo, mantidas as mesmas bases autoritárias vigentes na jovem república brasileira" (MANTEIGA,

1985, pg. 27).

Nesse caso, cabia às elites "esclarecidas e deliberantes" por em prática a ideologia do desenvolvimento, criando condições para que surgisse um Estado funcional com condições de programar e realizar políticas e projetos de desenvolvimento. Nesta ótica a forte intervenção do Estado na economia e a industrialização per se Irariam o desenvolvimento social. Isso pode ser visto nas palavras de Kubitscheck que via na industrialização uma imperiosa necessidade como também uma condição de vida para os brasileiros,

"A industrialização é a diretriz correta para o desenvolvimento econômico de um pais de população crescente, cora um grande mercado potencial e dotado de adequados recursos naturais. Além de representar um estágio econômico evohiido, ela permite a substituição de importações e a diversificação dos artigos de exportação (...) só a industrialização poderá absorver esse excedente [populacional], proporcionando-lhe trabalho e novas oportunidades para a melhoria de seu padrão de vida" (KUBITSCHEK apud IANNI, 1977, pg. 182).

A partir dos anos 60 o capital estrangeiro começou a ser visto como um aliado para concretizar o projeto modemizador no país, fazendo com que paulatinamente se desconsiderasse a discussão sobre os "obstáculos externos"17. O que contava era a possibilidade de acelerar o processo de acumulação do capital interno, nacional ou estrangeiro. A esquerda, por outro lado, enfatizou as questões políticas pertinentes às possibilidades de rompimento e de criação de novas alianças entre as classes para promover a industrialização. Esta última por si só não seria possível sem uma classe industrial progressista que lutasse com o proletariado contra o imperialismo norte americano e os latifundiários brasileiros:

"A burguesia nacional, política e economicamente débil, não é capaz de levantar a bandeira da democracia e da independência nacional. Sob a pressão crescente dos monopólios imperialistas em luta pelo lucro mAximo e que exigem sempre a capitulação total da burguesia nacional, esta vadia, procura soluções de compromisso eran o opressor estrangeiro. Nesse processo e visando reforçar sua posição em relação aos imperialistas, procura a burguesia nacional obter o apoio da pequena burguesia e, em parte, igualmente, da classe operária" (PRESTES apud IANNI, 1984, pg. 49).

O endogenismo que caracteriza essa fase se demonstra pela crença de que uma vez superados alguns limites, que eram em sua grande parte internos, o

17Isso se deveu em grande parte porque já no fim dos anos 50 e começo dos anos 60 o capital estrangeiro já se mostrava interessado na industrialização do pais, o que acabou propiciando vários projetos de cooperação internacional para questões de salubridade, reforma agrária e de estrutura viária. As reuniões da OEA em 1961 em Punta del Leste é um bom exemplo da aproximação dos interesses entre os EUA e a CEP AL. Ver Cardoso (1993, p. 60).

desenvolvimento se daria de forma espontânea no país. Apenas um capitalismo industrial e nacional difundiria o progresso social. Com as estratégias industrializantes tomadas o país caminharia em direção dos países desenvolvidos e quase nada poderia se fazer para impedir esse processo evolutivo:

"De sua parte, o Governo tem a consciência de que está realizando um gratule esforço para estruturar as tendências mais legitimas do Brasil, que são aquelas que propiciam o autodominio da nacionalidade. Trata-se de um verdadeiro processo, cuja marcha pode ser retardada temporariamente por obstáculos institucionais, mas nunca definitivamente contida" (VARGAS apud IANNI, 1977, pg. 136).

O "subdesenvolvimento" não era resultado do sistema industrial capitalista, mas resultado da sua ausência. Isso ocorria tanto na perspectiva marxista, que via no capitalismo industrial a possibilidade de acelerar as mudanças em direção à revolução socialista, e que necessitava romper com os "grilhões tradicionais" do país para alcançar uma nova etapa da evolução histórica. O repensar do "subdesenvolvimento" como consequência da própria expansão capitalista no marxismo só se fará mediante o enfoque da teoria da dependência como se pode ver a seguir.

4 - O ENFOQUE DA DEPENDÊNCIA