“Brincar com criança não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê- los sentados enfileirados, em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem”.
Carlos Drummond de Andrade
Aprender dá grande prazer às crianças, pois em nenhum momento o aprendizado lhes sugere ser entediante. Aprender é parte de sua vida, ou melhor dizendo, é a parte principal da sua vida. Brincar, para elas, é aprender, e aprender é brincar.
Mas o que acontece muitas vezes quando a criança entra na instituição de educação? Inicialmente, o aprender desvincula-se do brincar e se torna uma obrigação; desfaz-se o vínculo anteriormente existente entre razão e emoção, ou seja, entre aprendizagem e vida, entre aprendizagem e experiência.
Conseqüentemente, institui-se um tempo e um lugar específico para a criança aprender determinadas coisas, que lhe dá a idéia, extremamente distorcida, de que aprender não é um processo agradável e sucessivo, que tem o seu início marcado pelo seu nascimento e o seu término apenas com a morte. Pelo contrário, a imagem que chega a muitas crianças é que aprender é algo artificial e difícil, que tendo começado quando ela entra na instituição de educação, termina quando ela deixa o espaço educacional, sendo muitas vezes o seu aprendizado entendido como resultado e não como processo.
Neste sentido, Sônia Kramer ressalta que “a prática pedagógica e o projeto político- pedagógico envolvem, necessariamente, conhecimentos e afetos, saberes e valores, cuidados e atenção, seriedade e riso” (KRAMER & BAZÍLIO, 2003, p.64).
A ludicidade faz parte desse processo, pois segundo MOYLES (2002), o brincar é um meio pelo qual os seres humanos e animais exploram várias experiências em diferentes situações e para diversas finalidades.
Não temos dúvida de que estas situações são reais, contudo LEONTIEV (2001) esclarece que é a cultura que nos diferencia dos animais.
Os animais agem e brincam, mas por instinto. E os humanos brincam por ser esta uma atividade humana, ou seja, por ser uma atividade [...] precisamente humana, atividade objetiva, que, por constituir a base da percepção que a criança tem do mundo dos objetos humanos, determina o conteúdo das brincadeiras. (LEONTIEV (Ibidem, 2001, p.120).
É válido ressaltar a importância do jogo e da brincadeira no processo de aprendizagem das crianças. De acordo com Oliveira (2002), o jogo humano requer a capacidade de se relacionar com diferentes parceiros e com eles comunicar-se por meio de diferentes linguagens, para criar o novo e tomar decisões. É algo culturalmente determinado.
O jogo simbólico ou faz-de-conta, particularmente, é ferramenta para a criação da fantasia, necessária a leituras não convencionais do mundo. Abre caminho para a autonomia, a criatividade, a exploração de significados e sentidos. Esta atividade atua, também, sobre a capacidade da criança de imaginar e representar, articulada com outras formas de expressão. São os jogos, ainda, instrumentos para aprendizagem de regras sociais.
Afeto, motricidade, linguagem, percepção, representação, memória e outras funções cognitivas estão profundamente interligadas, quando a criança brinca. A brincadeira favorece o equilíbrio afetivo da criança e contribui para o processo de apropriação de signos sociais, criando condições para uma transformação significativa da consciência infantil, por exigir das crianças formas mais complexas de relacionamento com o mundo.
Gisela Wajskop explica que a criança não nasce sabendo brincar, ela precisa aprender. Em seu livro “O brincar na pré-escola”, Wajskop escreve que “[...] a brincadeira não é espontânea nem natural na infância, mas é resultado de aprendizagem, dependendo de uma ação educacional voltada para o sujeito social criança” (WAJSKOP, 1999, p.111).
Muitos dos profissionais da educação reconhecem a importância dessa atividade e a valorizam, como podemos observar neste depoimento de uma educadora:
“A criança gosta de brincar. Se o processo educacional for conduzido de forma lúdica, haverá maior aprendizado. [...] a criança gosta de aprender e de brincar. E por que não aprender brincando?”. (Professora).
Pode até parecer estranho que a idéia do brincar, que aparece como tema central e fonte de aprendizado, necessite ser defendida. Entretanto, há muita pressão sobre os(as) educadores(as) que atuam com crianças na faixa etária de zero a doze anos. Conforme a idade da criança aumenta, a cobrança da sociedade pelo não brincar é ainda maior o que induz os(as) educadores(as) a uma prática pedagógica equivocada, em especial a introdução, pela via do treinamento mecânico e descontextualizado, da linguagem escrita e matemática, em detrimento das demais linguagens.
Para as crianças, o brincar é uma exploração, descoberta, investigação, fazer e fazer, e com muita freqüência é realmente um trabalho árduo. No ocidente, estamos tão acostumados a pensar nos opostos (alto e baixo, gordo e magro, feio e bonito), que a idéia de que uma atividade possa ser trabalhosa e prazerosa ao mesmo tempo é muito difícil de entender.
Vejamos o que dizem as crianças sobre a questão do brincar e, principalmente, sobre a sua condição de ser humano de pouca idade:
“É bom ser criança, porque tem coisas boas, mãe para cuidar da gente, tem pai, tem cachorro prá brincar, tem bonecas, tem um monte de coisas”. (M., f., 8 anos).
“É bom ser criança, porque, quando criança, se pode brincar e, quando adulto, não tem mais isso”. (R., f., 11 anos ).
Eu penso assim que é uma coisa boa da vida, porque quando a gente cresce tem muitas obrigações, trabalhar... e quando a gente é criança, pode brincar, estudar”. (l., m.,12 anos).
“É poder brincar” (N., f., 7 anos ).
“Brincar, aprender a ler, estudar” (J., f., 6 anos ).
“É legal, é divertido porque pode brincar, estudar, andar de roller, andar de bicicleta” (E., f., 8 anos ).
“Poder brincar” é a melhor definição da especificidade do ser criança. Mas a criança brinca?
Vygotsky declara que o brincar preenche as necessidades da criança, e entende o termo necessidade não como necessidade física, mas uma motivação intrínseca do ser humano, como ”[...] tudo aquilo que é motivo para a ação” (VYGOTSKY, 1996:121). Brincar é uma atividade caracterizada por ações que satisfazem necessidades.
A criança brinca porque, primeiramente, esta é uma atividade constitutiva do ser humano, e porque ela tem necessidade de agir em relação não apenas aos objetos que estão ao seu alcance, mas em relação ao mundo mais amplo dos adultos (LEONTIEV, 2001, p.124).
E, assim, a criança ao brincar vai criando suas experiências, contribuindo e construindo conhecimentos acerca do mundo e do outro com quem se relaciona.
Dessa forma, o brincar auxilia na constituição do indivíduo como sujeito, possibilitando que ele seja capaz de regular voluntariamente sua conduta, pois é pelo brincar que a criança se apropria das significações produzidas nas relações sociais, constituindo-se sujeito.
A partir das colocações feitas, fica evidente que em toda ação educativa deve-se considerar o respeito a este ser de pouca idade e seus direitos básicos como o brincar.
Toda criança do mundo Deve ser bem protegida contra os rigores do tempo contra os rigores da vida
Criança tem que ter nome Criança tem que ter lar Ter saúde e não ter fome Ter segurança e estudar Não é questão de querer Nem questão de concordar Os direitos das crianças Todos têm de respeitar.
(ROCHA, Ruth. 2002)
Ruth Rocha escreveu um livro de poesia sobre aquilo que não pode faltar durante a infância: que todas as crianças possam ouvir histórias, andar na chuva e brincar de adivinhação. Porque simplesmente a infância é o tempo em que começamos a perceber o tamanho do mundo e descobrir quem somos. Como escreve nos últimos versos do seu livro – “Os direitos das crianças segundo Ruth Rocha”, “embora eu não seja rei, / decreto, neste país, / que toda, toda criança / tem direito a ser feliz”!
Atualmente, constatamos que ainda em alguns espaços das instituições de educação, tem sido negado às crianças o direito à infância: à imaginação, à fantasia, ao brincar.
Esse novo olhar sobre a infância pressupõe uma educação multidisciplinar referente ao(à) educador(a) e às práticas interdisciplinares na educação das crianças, concebendo-as como seres de múltiplas linguagens. Assim, a proposta pedagógica das instituições educacionais deve levar em conta as diferentes manifestações infantis e os diversos contextos nos quais elas estão inseridas. Isso implica uma política de educação diferente do modelo escolar vigente, pois este escora-se em uma divisão disciplinar que compartimenta a criança e fragmenta o saber. Além disso, neste modelo ainda predomina a seriedade, pois aprender implica, na maioria das vezes, ficar sentado na cadeira durante quatro horas, com lápis, papel e borracha, realizando exercícios mecânicos.
Mário Quintana (1976) traduz o que significa muitas vezes a sala de aula:
De cada lado da sala de aula, Pelas janelas altas, O azul convida os meninos, As nuvens desenrolam-se,
Lentas como quem vai preguiçosamente inventar uma história sem fim Sem fim é a aula e nada acontece, nada ...
Bocejos e moscas. Se ao menos, pensa Margarida
Se ao menos um avião entrasse por uma janela E saísse por outra!
Nós, educadores(as), precisamos nos lembrar das palavras sábias de Joan Can (educadora infantil) escritas há vinte anos: “Crianças tem sua infância apenas uma vez. Tire a infância delas e elas a terão perdido para sempre”.