MERCADO DA MEMÓRIA E PROFISSIONAIS DE HISTÓRIA
3. Narrativas do passado e desafios do mercado da memória
Diante desse mercado demandante de produtos de memória para o seu consumo, surge a questão sobre a factibilidade de narrativas do passado voltadas seja para grandes públicos, seja para coletividades interessadas nessas narrativas para o fortalecimento de suas identidades, fenômeno que se verifica, por exemplo, no mundo empresarial. É possível elaborar narrativas do passado para se atender ao mercado da memória, sem ferir os pressupostos necessários para a reconstrução da história?
A disciplina da história, para Rousso, não está acima dos demais ângulos de abordagens do passado, praticado pelos diversos setores da sociedade, mas, uma vez que se buscam as “verdades históricas” 16, o historiador deveria falar com a certeza de suas constatações, independente do incômodo que poderá vir a provocar. Rousso cita, como exemplo, uma pesquisa realizada por ele sob encomenda de um movimento de ciganos da França. Na pesquisa, desejava-se entender, uma vez já conhecida a morte de um significativo contingente de ciganos durante o holocausto, no período da Segunda Guerra Mundial, qual teria sido o número de sacrifícios de ciganos franceses. A pesquisa, a contragosto do demandante, constatou que a França não havia enviado ciganos a campos de concentração, notícia que trouxe insatisfações, mas não foi questionada pela seriedade do trabalho realizado. Para o autor, o papel do historiador está em fornecer as “verdades históricas”as quais os demais personagens dessa mesa de agentes construtores da memória podem vir a considerar, mas não poderiam negar (ROUSSO, 2009). Diante de acontecimentos traumáticos da história, portanto, os historiadores não estariam a serviço das vítimas, nem estariam em uma posição superior às demais leituras dos acontecimentos passados. Os historiadores, para Rousso, estão ao
16 Na entrevista concedida à revista Tempo e Argumento (ROUSSO, 2009), Rousso fala no singular,
“verdade histórica”, mas eu preferi deixar no plural, como o autor se refere em outros textos, para evidenciar que o autor atenta para as diferentes leituras presentes também na produção histórica.
40 lado de outros pontos de vista, reconstroem uma história ao lado de tantas outras, “reconstruções múltiplas” realizadas por outros sujeitos sociais. Contudo, os historiadores não deveriam abrir mão de suas “verdades históricas”. O papel do historiador não seria dizer o que se deseja ouvir, mas acrescentar ao debate os resultados obtidos pela investigação histórica, que seguem critérios do campo da história. A “história dos historiadores”, a “história erudita”, na visão do autor, é realizada com métodos próprios, na busca pelo distanciamento, com uma “pretensa cientificidade” (ROUSSO, 2006), o que torna a narrativa do historiador diferente de qualquer outra construída sobre o passado. Ao tratar da história da memória, ou seja, a história feita pelos historiadores sobre as representações do passado elaboradas pelas sociedades ao longo do tempo, Rousso defende que essa história “reafirma energicamente que a história pertence sobretudo àqueles que a viveram e que ela é um patrimônio comum que cabe ao historiador exumar e tornar inteligível a seus contemporâneos” (ROUSSO, 2006, p. 98).
Seguindo a leitura de Rousso, poderíamos afirmar que todos os sujeitos sociais podem e devem falar e escrever sobre o passado, segundo seus pontos de vista, e, nessa perspectiva, produzem narrativas legítimas; porém, a história dos historiadores é diferente, por seguir critérios do campo da história, preocupada com a construção “científica” do conhecimento.
François Bédarida, um dos fundadores do Institut d'Histoire du Temps Présent (IHTP), em um de seus artigos, elenca alguns pontos caros à história e igualmente importante à história do tempo presente. Entre os pontos elencados, desejo destacar um, por considerá-lo especialmente relevante para essa pesquisa sobre produtos de memória. Trata-se da relação entre história e verdade. O autor situa-se como parte de uma geração de historiadores influenciados por duas revoluções na construção do conhecimento social, a da escola dos Annales, portanto, de uma ampliação das fontes históricas e do objeto da disciplina, e a do existencialismo, ou seja, de uma mudança do método fenomenológico que acarretou em um questionamento absoluto do conceito de objetividade, uma vez que a realidade passou a ser entendida como impossível de ser apreendida senão, unicamente, pelo sujeito, portanto, sempre resultado de um ponto de vista. Nesse sentido, a verdade da história passou a ser entendida como impossível de ser apreendida, contudo, como o autor entende, a tarefa do historiador é feita sobre objetividades e subjetividades e é preciso distinguir “os níveis de verdade histórica”,
41 visto que a interpretação é gerada com graus diferentes de aproximação e de “estágios de certeza”. Por isso o autor assim declara:
Não obstante, e sem cair, assim espero, no ubris, declaro abertamente que a despeito de tudo a busca da verdade deve ser explicitamente considerada a regra de ouro de todo historiador digno desse nome. Alfa e ômega desse ofício. Mesmo sabendo que não conseguiremos jamais dominar essa verdade, mas apenas nos aproximar dela. Chama vacilante e frágil na noite, mas que apesar de tudo ilumina o nosso caminho e sem a qual mergulharíamos nas trevas. (BÉDARIDA, 2006(1996) p. 222)
Segundo Ricoeur, a escrita da história possui em si uma dificuldade em corresponder à expectativa de que sua redação transmita o “relato verdadeiro” e não uma pura ficção, inventada pela cabeça de um escritor. O historiador é consciente da dificuldade intrínseca a qualquer “representação do passado”, ciente, portanto, do conjunto complexo de subjetividades que envolve o seu trabalho, como também sabe das inúmeras opções que toma ao longo de sua tarefa, nem sempre feitas em plena consciência. Como pode, então, o historiador corresponder a essa expectativa, quando sabe os limites de qualquer representação do passado, por mais que se pretenda “científica”? Ricoeur trata dessa questão e admite ser possível ao historiador realizar tal feito, desde que seja admitido por ambas partes, do historiador e do leitor, o carácter epistemológico da interpretação. Caberia ao historiador, dessa maneira, explicitar detalhadamente suas opções, o caráter interpretativo de sua narrativa, a existência de outras interpretações, direcionadas por outras correntes de pensamento e de metodologias. Como defende Ricoeur, “la interpretación califica el deseo de verdad en historia en todos los estadios de la operación historiográfica” (RICOEUR, 2007, p. 27). Pelo que observaremos melhor ao longo desse trabalho, nem mesmo os produtos de memória mais coerentes com a atividade do historiador – ou seja, que seguem critérios de escolha de documentos, questionam os documentos e os contextualizam e se esforçam por distanciar-se do objeto estudado – chegam a esse nível de transparência das opções realizadas ao longo da pesquisa, como deseja Ricoeur.
Beatriz Sarlo trabalha justamente na oposição entre “história acadêmica” e “história de grande circulação”; para ela existem dois tipos de modalidades da escrita da história, a modalidade acadêmica e a modalidade comercial, cuja circulação está vinculada à “sociedade midiatizada”. A modalidade acadêmica, no seu entendimento,
42 segue métodos precisos que normatizam e validam a tarefa do historiador; ao evidenciar as “modalidades reconstitutivas”, ou seja, as regras escolhidas e a justificativa de tal escolha, o historiador demonstra o que lhe possibilita fazer uma “história melhor”. Já na modalidade comercial, na visão de Sarlo, o que é explicitado não são as “modalidades reconstitutivas”, mas o vínculo com o presente, aquilo que motiva e dá sentido à emergência do passado no presente, ou seja, as estratégias do presente que tornam funcional a investida no passado. Ao explicitar o que a motiva, a “história de grande circulação” não revela sua fraqueza, mas se legitima enquanto prática necessária ao presente. Por isso, é muito comum vermos nas apresentações dos livros de memória de empresas justificativas explícitas das intenções da publicação; por exemplo, caso se deseje estreitar o relacionamento com os clientes ou fortalecer o vínculo com os empregados, as apresentações dos livros não se envergonham em dizer isso. Nas palavras de Sarlo: “A modalidade não acadêmica (ainda que praticada por um historiador de formação acadêmica) escuta os sentidos comuns do presente, atende às crenças de seu público e orienta-se em função delas” (SARLO, 2007, p. 13).
Os livros sobre memória e história das companhias, produzidos em ambiente empresarial, no meu entendimento, seguem o mesmo pressuposto narrativo descrito por Sarlo em relação aos livros de grande circulação. Isso não se dá, obviamente, por uma questão de alinhamento aos interesses de venda, porque, no caso da Petrobras, por exemplo, não se objetiva a comercialização, mas porque é esse tipo de narrativa que satisfaz as expectativas das comunidades corporativas, além do que, em grande parte, as empresas contratadas para a realização dos livros estão habituadas com produtos de apelo ao grande público e realizam os trabalhos de memória na mesma linguagem visual e de redação.
As considerações que Benito Bisso Schmidt faz sobre as biografias, em uma comparação entre aquelas escritas pelos historiadores e aquelas escritas por jornalistas, parecem-me interessantes para avançarmos nessa questão da possibilidade de se escrever história para o grande público. Schmidt é um historiador; portanto, sua abordagem é fruto de uma formação historiográfica e de uma posição acadêmica. Ele busca negar a ideia de que o historiador seria incapaz de produzir biografias agradáveis ao grande público, assim como critica diretamente uma leitura, partida de alguns historiadores, de que uma biografia seria uma narrativa de pouca relevância, ou nenhuma, à produção historiográfica. Com críticas tanto aos jornalistas quanto a certo
43 posicionamento acadêmico, o autor busca ressaltar as diferenças – especialmente essas – e semelhanças entre os jornalistas e historiadores dedicados à tarefa biográfica.
Schmidt evidencia algumas razões pelas quais historiadores e jornalistas têm se dedicado à produção de biografias, em uma narrativa, segundo ele, estranha a ambas as carreiras, por estar mais próxima da literatura; aliás, a escrita biográfica produzida por ambos é regida por uma aproximação de seus respectivos campos com uma linguagem até então considerada típica da literatura, por reproduzir, por exemplo, pensamentos, fantasias, sentimentos e aspirações do biografado. Os historiadores têm feito biografias, segundo o autor, porque existe uma tendência historiográfica de resgate de trajetórias singulares, um fenômeno perceptível na nova história francesa, na micro história italiana, na nova história cultural norte-americana, como também na recente (ele escreve nos anos 1990) historiografia alemã e brasileira. No que diz respeito ao jornalismo, segundo ele, trata-se de um fenômeno provocado por uma retomada do new
journalism, nascido nos Estados Unidos, na década de 1960, no qual são aplicadas
“técnicas ficcionais a textos de não-ficção” (BUENO, 1994, p. 6, apud: SCHMIDT, 1997, p. 6). Para o autor, a explicação dessa dedicação de jornalistas e historiadores ao gênero biográfico explica-se por esses “aportes teóricos e metodológicos” de seus respectivos campos, mas também por um “contexto social” marcado pela massificação e pela “perda de referenciais ideológicos e morais”, contexto que tem levado a “sociedade contemporânea” a buscar nas trajetórias individuais e no passado referências para seus atos e condutas (SCHMIDT, 1997, p. 4).
Importante para nós é perceber como o autor contrapõe a atividade do historiador àquela do jornalista, ambos dedicados à redação de biografias. Como evidenciei anteriormente, Schmidt parte da ideia de que ambos, historiador e jornalista, constroem suas narrativas em uma aproximação de suas áreas com a literatura. Ambos apelam, muitas vezes, para os mesmos recursos narrativos. É o que se percebe com o comum uso do flashback, uma espécie de ruptura da estrutura cronológica rígida.
Enfim, quero ressaltar que o gênero biográfico emerge na história e no jornalismo no bojo de um processo de aproximação destas áreas com a literatura, o que implica uma incorporação do elemento ficcional e a adoção de determinados estilos e técnicas narrativas. Porém, apesar de tal semelhança, é possível destacar igualmente algumas diferenças importantes
44 entre as biografias produzidas por historiadores e aquelas construídas por jornalistas. (SCHMIDT, 1997, p. 8)
Schmidt percebe no jornalista menor solenidade nessa aproximação, enquanto o historiador preocupa-se sempre em evidenciar, em seu texto, quando está no campo da imaginação e quando está no campo da evidência. Uma diferença marcante está no uso das fontes. O jornalista não evidencia as fontes de suas afirmações, enquanto o historiador, mesmo que coloque tudo em nota no fim do texto, não se exime de comprovar a origem de seus dados. O historiador, quando copia textualmente algum documento, evidencia seu feito como citação e dá a devida referência, enquanto o jornalista incorpora trechos documentais a seu texto e os altera livremente. Mais do que isso, a abordagem à fonte é distinta, sendo que o jornalista incorpora os documentos como dados, enquanto o historiador questiona as fontes, busca entender as motivações de sua produção, seus locais e mecanismos de produção, o que altera por completo a narrativa em curso. O grande volume de detalhes presente nos textos dos jornalistas é retirado das fontes e explorado com a mera finalidade, segundo Schmidt, de dar “‘sabor de verdade’ à trama apresentada”. Segundo o autor o “conteúdo ficcional” é maior nos textos dos jornalistas, quando comparado ao dos historiadores. O jornalista faz uso do “fluxo de consciência”, quando um pensamento é atribuído à pessoa biografada, recurso ausente dos textos dos historiadores.
Já no campo da história, apesar de a aproximação com a literatura também ser marcante, a margem de invenção é menos dilatada. Afinal, os historiadores, por dever de ofício têm um compromisso muito mais cabal com sujeitos históricos concretos, que existiram na realidade e que chegam até o presente através dos documentos. Ou seja, os trabalhos produzidos nesta área, para além de suas qualidades estilísticas, devem prestar contas ao “‘tribunal de apelação’ da história” (expressão de Thompson, 1981: 74): o passado e seus vestígios. (SCHMIDT, 1997, p. 12)
O jornalista inventa motivos para certos atos do sujeito biografado, enquanto o historiador, embora também tenha suas cogitações, faz sempre uso, segundo Schmidt, de um “provavelmente”, ou de um “talvez”, ou ainda de um “pode-se presumir que”. Ou seja, nas biografias analisadas por Schmidt, o historiador, assim como o jornalista, faz uso da imaginação, mas o historiador deixa claro se tratar de uma
45 conjectura, sem comprovação documental, enquanto o jornalista a incorpora ao texto sem sinalizá-la.
De acordo com Schmidt, tanto o historiador quanto o jornalista fazem uso de recursos narrativos típicos da literatura e almejam ser mais interessantes ao leitor, contudo, a diferença entre entres se revela não só em evidências formais, como também epistemológicas. Ambos visam desvendar os múltiplos ligames entre o indivíduo e seu contexto histórico, mas o historiador está ligado a questões analíticas típicas de seu campo de conhecimento e, portanto, apresenta um resultado que dialoga com a produção científica. A questão do sujeito histórico, por exemplo, é amplamente debatida no campo da história, e as biografias produzidas pelos historiadores evidenciam consciência desse debate.
Contudo, para além desta saborosa recriação dos incidentes do dia-a-dia, não percebo, nas biografias escritas por jornalistas, uma preocupação em discutir, implícita ou explicitamente, as articulações entre vida pública e vida privada, entre cotidiano e não-cotidiano, entre atos racionais e motivações irracionais etc. Essa é uma tarefa que vem sendo levada a cabo pelos historiadores nos últimos anos [anos 1990]. (SCHMIDT, p. 17)
Os produtos de memória, a meu ver, ficam entre a narrativa jornalística e a histórica, sendo que ora estão mais próximos do jornalístico, ora do histórico. Os livros de memória nem sempre têm suas fontes devidamente referenciadas, mas fazem uso de citações. Raramente levam em conta o diálogo com o conhecimento acadêmico, mas, às vezes, problematizam a história e levantam alguns temas caros ao campo da história, como, por exemplo, a participação dos “anônimos” no desenvolvimento industrial, ou a resistência de trabalhadores ao processo de massificação no cotidiano do trabalho.
Não estou, nesta pesquisa, contrapondo a atividade do jornalista à do historiador, até porque, na produção dos livros de memória, não raramente, essas especialidades se diluem. Contudo, é possível perceber, em certa medida, a tendência em direção ora a uma narrativa jornalística, ora a uma narrativa histórica e, a meu ver, essas tendências são evidências do perfil das pessoas dedicadas a esses projetos e de suas experiências com narrativas históricas, embora isso possa não estar relacionado a uma formação acadêmica constituída num campo específico. Como já podemos perceber, a produção de narrativas sobre o passado é uma tarefa complexa por si só, desafiadora também pelo conturbado contexto contemporâneo de agitações e mutações
46 na maneira de se apreender o tempo. Portanto, seja o historiador ou o jornalista, ao dedicar-se à elaboração de produtos de memória e/ou de publicidade da história, deve, ao menos minimamente, atentar para essas questões.